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Entrevista a Edson Athayde, autor de «Jonas Vai Morrer»

O brasileiro Edson Athayde, que se tornou conhecido através do mundo da publicidade, está agora voltado para a literatura e lançou recentemente o seu novo romance, Jonas Vai Morrer, obra escrita no âmbito de Guimarães 2012 – Capital Europeia da Cultura, durante uma residência literária na cidade-berço. O enredo decorre precisamente em Guimarães 2012, nos finais dos anos 80. Trata-se de um romance que o próprio autor cataloga de como quase-policial e que, por sua sugestão, deve ser ouvido ao som de uma balada dos Smiths, ou dos Radiohead. Mas para conhecer melhor o livro (e Edson Athayde) leia esta entrevista que o escritor deu via email ao Porta-Livros.

Jonas vai morrer é um livro bastante intimista. Pôs muito de si nas personagens?
Acho que o exercício foi o contrário: criar personagens muito distintos da minha personalidade e trajectória. Os cenários não. Posso dizer que estive em todos aqueles lugares, mas vivi situações num mundo paralelo aos dos personagens da história.

Os protagonistas deste romance são pessoas algo perturbadas. Sente-se fascinado por este tipo de mentes que «fogem» à norma?
Gosto de uma frase do Caetano Veloso: “Ao perto, ninguém é normal”. Do ponto de vista da ficção, os errados, os tortos, os rotos são sempre mais interessantes dos que os banais.

Além, naturalmente, da própria paisagem, de que forma Guimarães influenciou a escrita deste romance?
A única coisa que eu tinha antes de começar a escrever o livro era o seu título. E esse projecto estava reservado para ser escrito em Buenos Aires. A partir do momento em que ficou decidido que eu iria tocar a obra no âmbito de Guimarães 2012, isso tornou-se o principal vértice do meu trabalho. Aqueles personagens e aquelas tramas só nasceriam em Guimarães, só apareceram porque eu estava lá e queria contar uma história naquele cenário. O grande exemplo é o personagem Pedro. A sua principal característica é ser uma pessoa sem um passado. Isso só ocorreu-me pelo contraponto a Guimarães, a cidade com mais história do país.

Houve algum motivo especial para escolher os anos 80 como época deste enredo?
Gosto de histórias de época. Mas, no caso, os anos 80 aparecem como um factor credibilizador de uma história de um tempo onde as pessoas não vivem a falar ao telemóvel e a fazer pesquisas no Google. Você até pode escrever um livro de mistério nos dias de hoje, mas acho mais charmoso fazer isso numa época em que as pessoas têm de fazer as suas investigações de maneira mais pessoal.

Revelou-se um livro difícil de escrever, nomeadamente a parte final, quando esteve doente. Foi um alívio libertar-se da história ou fica de tal modo ligado às personagens que lhe custa deixá-las?
Não tenho grande pudores em relação aos personagens. Se eles têm vida própria, quem sou eu para impedir que morram ou que matem-se uns aos outros. No caso, a única coisa que dificultou foi que não queria um final totalmente soturno, sem uma linha qualquer de esperança. Foi complicado encontrar as portas que me permitissem ser coerente com o resto do livro mas, ao mesmo tempo, deixar um sinal mais optimista.

Jonas Vai Morrer poderia ser catalogado de diversas formas quanto ao género. Se fosse dono de uma livraria em que estante o colocaria?
Bem, ele está na prateleira dos autores portugueses (o que muito me orgulha).
Quanto ao género digo sempre que ele é um quase-policial.

Sei que gosta de ouvir música enquanto escreve. E para quem lê este o seu novo romance recomenda alguma banda sonora?
Qualquer balada dos The Smiths, sem dúvida. Radiohead também serve.

Aproveita ideias que teve para anúncios para elaborar cenas no romance, ou, por outro lado, há cenas que acha que poderiam dar um bom anúncio?
Não há qualquer canal comunicante entre as duas actividades no que toca a conteúdos.

Que argumentos utilizaria para «vender» Jonas Vai Morrer a um potencial leitor?
Trata-se de um livro que procura o equilíbrio entre uma trama ágil e o respeito pela língua portuguesa. Uma prosa que quer-se prima de alguma poesia.

Há algum motivo especial para os seus romances terem sempre um Pedro como protagonista?
Gosto de nomes simples e bíblicos. Essa é uma regra. A outra é que os personagens é que escolhem os seus nomes. E há sempre um que diz-me chamar-se Pedro.

Que diferenças pode apontar ao escritor Edson Athayde desde o seu romance de estreia O Rapaz das Fotografias Eternas até ao presente Jonas Vai Morrer?
Acho que o «Jonas» é um livro mais «adulto». Ao obrigar-me fugir do realismo fantástico (universo que me é muito caro) e, assim, dosear também mais a ligação com a poesia e com a metaliguagem, acabou por resultar num romance mais «seco». Não sei se o próximo vai seguir esse caminho ou voltar para a minha maneira anterior de escrita, mas gostei do exercício.

Depois de já se ter envolvido em tantas actividades criativas, pensa continuar de futuro pela literatura ou vai dedicar-se a algo novo?
A minha praia é contar histórias, independente dos formatos e suportes. Teatro, cinema, televisão, nada está fora do meu campo de vista. Mas gosto muito dos livros. Pretendo daqui a uns dois anos ter outro romance para apresentar.

George R.R. Martin em BD com «O Cavaleiro de Westeros»

A Saída de Emergência editou recentemente O Cavaleiro de Westeros, uma obra em banda desenhada da autoria de George Martin, sobre honra, violência e amizade feita em parceria com Ben Avery e Mike S. Miller.

Sobre o livro: «O continente de Westeros é o cenário onde se desenrola a saga de George R. R. Martin, as Crónicas de Gelo e Fogo.
O Cavaleiro de Westeros decorre cerca de cem anos antes do início do primeiro livro das Crónicas, no tempo do rei Daeron, com o reino em paz e a dinastia Targaryen no auge do seu poder.
Quando a vida de um cavaleiro termina, a sua morte pode ser o começo de uma nova vida para o seu escudeiro. Intitulando-se de “Sor Duncan, o Alto”, o jovem Dunk parte em busca de fama e glória no torneio de Vaufreixo, mas também sonha em prestar juramento como cavaleiro dos Sete Reinos. No caminho, encontra um rapaz misterioso que está determinado em ajudá-lo na sua demanda.
Infelizmente para Dunk, o mundo pode não estar preparado para um cavaleiro que mantém a sua honra. E os seus métodos cavalheirescos podem vir a ser a sua ruína…»

Entrevista a Maria Inês Almeida e Joaquim Vieira, autores da colecção Duarte e Marta

«Estas são as histórias de mistério, intriga e acção que todos os jovens gostam de ler, mas actualizadas para o século XXI» – palavras de Joaquim Vieira (JV), que, em parceria (e sintonia) com Maria Inês Almeida (MIA), se envolveu numa grande aventura, a criação de uma colecção de livros de ficção para jovens (Duarte e Marta, uma edição Porto Editora), desde Junho nas livrarias.
Os dois primeiros passos já foram dados – Mistério no Pavilhão de Portugal e Ameaça no Vale do Douroe nesta entrevista ao Porta-Livros (feita via @mail) os autores, ambos jornalistas, explicam como aqui chegaram na companhia de Duarte e Marta e revelam-nos até onde os pretendem levar à caça de aventuras. Como diz Maria Inês Almeida, «As aventuras surgem se estivermos atentos ao que está à nossa volta e aos problemas dos outros.»

Como surgiu esta ideia de se lançarem numa colecção para jovens?
JV: Conhecemo-nos no âmbito de outro projecto profissional que não chegou a concretizar-se, e, dado que ambos tínhamos experiência no campo editorial, interrogámo-nos sobre se não seria interessante lançar em co-autoria uma colecção para jovens. A primeira dica foi da Maria Inês, e eu aproveitei-a e não a larguei mais.
MIA: Quem escreve para crianças também está contaminado pela sede de aventuras. Achámos que o facto de sermos de gerações diferentes também nos faria ter sensibilidades complementares e estar atentos a coisas diferentes. São formas diferentes de ver o mundo, e isso é desafiador e estimulante no próprio desenho da colecção, porque abre mais os jovens, não em resignação perante o mundo que há, mas na vontade de ajudar em fazer o mundo. O mundo está a fazer-se, não está feito. Assim como os jovens. Assim como nós. À medida que os anos passam nós olhamos para o mundo que já foi. Os jovens estão a olhar para o mundo que ainda não é. E isso desafia-nos.

Querem apresentar-nos estes dois heróis? E já agora, como chegaram aos nomes Marta e Duarte?
JV: São dois jovens, um rapaz e uma rapariga, colegas de turma, que vivem em Lisboa (embora ele venha do Porto) e que, devido à sua generosidade e predisposição para ajudar os outros e resolver problemas com que deparem, acabam envolvidos em aventuras que os vão aproximar como amigos. Chegámos a estes nomes porque nos soaram bem, depois de termos experimentado outros.
MIA:  O Duarte e Marta gostam de música, têm curiosidades, os seus próprios interesses (a Marta por exemplo colecciona selos personalizados), gostam de estar com amigos, têm Facebook e têm um sentido de justiça e ideias muito concretas: acham que é preciso lutar pelas coisas em que acreditam, com noções de ajuda aos outros e de solidariedade. Estão também muito virados para os aspectos práticos da vida e, nessa medida, são bons a resolver problemas concretos. Ambos sabem que uma boa amizade pode ser tão forte como um primeiro amor.

Que cuidados tiveram na construção das personagens tendo em conta que se dirigem a um público especial?
JV: Dado que se trata de um público ainda em formação, há toda uma série de valores consensualmente aceites como positivos que devem ser preservados neste tipo de livros e que caracterizam as personagens principais.
MIA: Que fossem personagens bem dispostas, cativantes e interessadas pelos outros e pelo que os rodeia. Devia passar também a ideia de que não estalamos os dedos e dizemos: «Agora quero viver uma aventura.» As aventuras surgem se estivermos atentos ao que está à nossa volta e aos problemas dos outros.

Sendo vocês, os autores, de gerações diferentes, notaram diferenças no entendimento que faziam das peculiaridades dos adolescentes?
JV: Sim, mas isso até pode ser uma vantagem, porque temos conseguido harmonizar essas diferenças e chegar a um entendimento, elevando, quanto a mim, a exigência com que os livros são produzidos.
MIA: Sim, mas como já referi são sensibilidades complementares, e isso é um desafio. Encontramo-nos a meio caminho.

Contactaram jovens da idade da Marta e do Duarte para que vos ajudassem a construir as suas personalidades?
JV: Não particularmente para este efeito, mas aproveitámos a observação daqueles que conhecemos. No meu caso, o facto de ter um filho com a idade aproximada do Duarte foi uma vantagem.
MIA: No meu caso, o meu filho tem 4 anos mas tem umas amigas vizinhas, mais velhas, entre os 7 e 12 anos. Tornei-me ainda mais atenta, mas não para construir personalidades. Atenta ao que usam, como falam, como pensam em relação a determinadas coisas. É importante estar dentro desta realidade. E é muito engraçado pois elas já dão dicas e pedem para que escreva sobre coisas… No outro dia, as de 7 anos pediram-me se podia escrever um livro sobre animais de estimação.

Que tipo de investigação fizeram para compor os dois primeiros livros?
JV: Foi bastante variada. Posso dizer que para o primeiro volume contactámos com um ex-responsável da PSP e um professor de engenharia civil, para certas especificidades técnicas, e no segundo visitámos as caves do vinho do Porto em Vila Nova de Gaia. E em ambos os casos fizemos observações em locais onde se passa a acção. Além de muita pesquisa na internet. Até procurámos saber como se fabricam bombas detonadas à distância por telemóvel.
MIA: Vou dar um exemplo: para o primeiro volume, andámos a investigar se, do ponto de vista técnico, uma explosão que rebentasse dois ou três cabos da pala do Pavilhão de Portugal poderia acarretar a quebra dos restantes. Neste aspecto, a história devia ter consistência e não tratar-se de uma mera fantasia. A conclusão a que chegámos foi muito curiosa, mas prefiro não a mencionar. Quem ler o livro percebe.

Pretendem pôr os protagonistas a percorrer o país (e o estrangeiro) nas suas aventuras? É uma forma de ensinar algo aos leitores? Têm essa preocupação de transmitir algo mais além da história?
JV: Embora o objectivo principal seja o entretenimento, temos o entendimento de que uma colecção deste tipo, dirigida a um público jovem, deve possuir uma componente didáctica, e por isso os protagonistas irão viajar por Portugal (em primeira prioridade) e, quiçá, pelo estrangeiro.
MIA: De qualquer forma, o nosso objectivo não é dar lições. Mas não há dúvida de que a viagem, a descrição de outros lugares e comunidades, é uma forma de transmitir conhecimentos. Basta ver como muitos jovens conheceram as sete partidas do mundo a partir das aventuras de Tintin.

Têm em «Uma Aventura» um concorrente de peso. Encaram essa colecção como um «rival» ou antes como uma inspiração, dado o reconhecido sucesso da mesma?
JV: Eu não diria nem uma coisa nem outra, porque nunca li nenhum volume dessa colecção (sou do tempo das aventuras dos 5, da Enid Blyton). Mas é claro que temos a noção da sua existência e do êxito que teve. Ter produzido já à volta de uns 50 títulos, segundo creio, é obra, e isso não pode deixar de ser reconhecido. É natural que se veja o nosso trabalho como concorrencial, mas não tivemos essa intenção. O tipo de protagonistas (apenas um rapaz e uma rapariga) é diferente, e procurámos actualizá-los e eles e às histórias para o século XXI, com tudo o que caracteriza o novo quotidiano da juventude.
MIA: Eu sou da geração da Aventura, e não posso dizer que não tenho presentes esses livros, que consumi na minha adolescência com tanto entusiasmo. Mas se alguma relação existe é sem dúvida de inspiração, não de rivalidade, porque julgo existirem consideráveis diferenças entre um projecto e outro. De qualquer maneira, quanto mais não seja pela dimensão, o nosso não pode comparar-se com ele.

Como é o processo de escrever a quatro mãos? Está cada um de vocês mais ligado a um dos personagens ou determinado tipo de situações?
JV: Para cada novo volume, começamos por nos reunirmos para delinear a história que queremos contar. Depois, com esse esqueleto já de pé, cada um de nós escreve as partes correspondentes a certas componentes da acção, trocando-as por email, fazendo observações críticas e tentando encaixá-las. No fim, voltamos a reunir, para harmonizar todo o conjunto. Nenhum de nós está ligado a uma personagem em particular.
MIA: Como nos encontramos em permanente interacção, estamos sempre a reagir ao que o outro diz. Acima de tudo é muito divertido. Nós divertimo-nos com o Duarte e Marta, e acho que às vezes, quando dialogamos, já entramos numa ou outra personagem. Do tipo: «Ah, mas agora a Marta diz-lhe: ‘Duarte, vai jogar Solitário!’» Esta é uma expressão que a Marta usa quando quer «calar» o Duarte.

As ilustrações (de Zé Nova e Ana Freitas) são bastante cativantes. Que tipo de trabalho foi feito para se chegar a este resultado?
JV: Inicialmente foi muito discutido o tipo de ilustração mais adequada, com testes a vários desenhadores. Creio que o Zé Nova e a Ana Freitas interpretaram muito bem a intenção dos autores do texto. Damos sempre indicações muito específicas sobre as ilustrações a produzir. Se estamos insatisfeitos, oferecem-nos a possibilidade de solicitar retoques, aperfeiçoamentos e até alterações.
MIA: E testámos o Duarte e Marta enquanto imagem junto do nosso público alvo. Estes livros não são só escrita, são também uma expressão gráfica. Do ilustrador, da equipa de marketing da Porto Editora, das nossas editoras (Susana e Sandra). É um conjunto. O Zé Nova e a Ana Freitas estão de parabéns. Sentimo-nos muito bem interpretados, e os jovens têm sentido uma empatia pela imagem do Duarte e Marta.

O que é que vocês oferecem aos leitores que as outras colecções do género não oferecem? O que diriam a um jovem leitor para o convencer a ler um dos vossos livros?
JV: O que já atrás foi dito: estas são as histórias de mistério, intriga e acção que todos os jovens gostam de ler, mas actualizadas para o século XXI, não só no perfil das personagens como nas temáticas abordadas. Pelo menos a nossa intenção tem sido essa.
MIA: Se não acreditássemos que esta colecção traz uma mais-valia, não avançaríamos. Isto para nós também é uma aventura: encontrar os impulsos de aventura dos tempos de hoje. E conhecer por dentro uma aventura. Julgamos que a colecção fará a sua diferença no encontro com os desejos e sonhos desta geração. Hoje uma jovem leitora disse-me o seguinte sobre os livros: “Nota-se que não é de autoras inglesas e que não é preciso ser de fora para ser bom. Está complexo ao mesmo tempo que está simples. Ela [a Marta] gosta de ser rapariga mas não é pirosa.” Gostei de ouvir.

Do próximo volume há já alguma coisa que possam revelar?
JV: O próximo volume já está escrito, mas penso que só a Porto Editora poderá autorizar a divulgação de qualquer elemento sobre a história.
MIA: Há tantas solicitações e a sede de acção do Duarte e da Marta é tão grande que eles não vão parar. Os dois têm pela frente um mundo de aventuras.

(Fotos cedidas pela Porto Editora)

Entrevista a Wladimir Kaminer, autor de «Militarmusik»

Wladimir Kaminer, nascido na ex-URSS mas a viver em Berlim, é um escritor, mas é também DJ e apresentador de rádio. Os portugueses vão começar a conhecê-lo pela faceta de escritor, agora que foi lançada entre nós pela Cavalo de Ferro a divertida obra Militarmusik, onde traça um retrato impiedoso da ex-União Soviética. Kaminer esteve em Portugal a promover o romance e deu uma entrevista ao COMÉRCIO DO PORTO onde fala de si, da sua obra e, principalmente, de liberdade.
Foto de Marianne Fleitmann

Dadas as diversas actividades que exerce considera-se um escritor? O que responde quando lhe perguntam a profissão?
Em primeiro lugar, sou um leitor. Porque há cinco anos que todas as semanas leio as minhas novas histórias no meu bar habitual. Estas são publicadas em forma de livro uma vez por ano. Para além disso, trabalho semana sim semana não como DJ na «discoteca russa» (ver www.russendisko.de) – uma distracção agradável.

A obra é assumidamente autobiográfica? É que sendo o protagonista um fantástico inventor de histórias torna-se difícil discernir entre a ficção e a realidade.
Eu estava consciente de que a União Soviética dos anos 80 não seria propriamente um tema que iria interessar os leitores na Europa. Mas as minhas experiências na União Soviética, de quão rapidamente um mundo inteiro se pode afundar, tinham de ser eternizadas. Diverti-me muito a escrever este livro e, quer se acredite ou não, a realidade era ainda mais inacreditável do que nesta obra.

Em Portugal era até agora desconhecido. Isso poderá prejudicar o entendimento do livro ou este é acessível a todos?
As pessoas, em todas as partes do mundo, têm os mesmos medos e as mesmas esperanças. Elas procuram e não encontram nada. Riem e choram por causa disso. Porque é que haveria de ser diferente em Portugal?

Como caracteriza esta obra?
Uma pessoa não se deve limitar ao necessário, mas sim tentar guardar tudo na memória, todos os símbolos são importantes, também os do passado.

A ideia que fica é que apesar de todas as restrições os jovens da União Soviética tinham imaginação suficiente para levar uma vida divertida. Era assim?
Como em todo o lado! Como no Brasil, na China ou em África. Isso admira-o?

Qual é o seu sentimento em relação à actual Rússia e à antiga União Soviética?
A Rússia actual é um país completamente diferente, é muito mais aborrecida do que na altura da União Soviética, porque se sabe praticamente tudo que vai acontecer. Hoje em dia, acho a União Europeia muito mais interessante. Ninguém sabe como esta Europa se vai realizar no futuro.

Retrata a história do seu país com ironia e crítica. É uma forma de mostrar a sua superioridade intelectual em relação ao regime da ex-URSS?
Não a minha, mas a de um indivíduo que é sempre mais esperto do que o Estado, e assim deve ser.

Pretende regressar ao seu país ou está definitivamente estabelecido na Alemanha?
Eu sou uma pessoa livre e posso ir a todo o lado. Mas não se pode falar em voltar, porque não cresci na Rússia de hoje. Seria como se quisesse voltar à própria infância, e isso não é possível. E mesmo se fosse possível, sinceramente, não me apetecia. No fundo, qualquer mudança é melhor do que a estagnação.

Quais as suas ambições como escritor?
Comunicar com pessoas sobre um tema que nos interessa.

O seu «eu» está muito presente na sua obra. Não pensa escrever um romance na terceira pessoa, uma ficção total, sem intenções autobiográficas?
O romance como forma já é uma falsificação, ainda por cima na terceira pessoa… para que é que isso serve?

Quais são as suas referências literárias?
Todos os autores que têm alguma coisa para dizer. Os outros nem por isso.

Tem outras ambições a nível artístico? Quais?
Eu não tenho objectivos artísticos nenhuns, todos os meus objectivos encontram-se no âmbito da realidade.

Como convenceria alguém a ler Militarmusik?
Não ia fazer isso. Vivemos num mundo livre, ou não?

PERFIL
Wladimir Kaminer nasceu em Moscovo, em 1967, portanto na agora extinta União Soviética.
Em 1990, com a abertura vivida a Leste, mudou-se para Berlim, onde hoje vive com a mulher e dois filhos.
Em finais de 2000 publicou o seu primeiro livro Russendisko, preenchido com histórias reais e fictícias relacionadas com a discoteca que possui em Berlim. Actualmente é DJ nessa discoteca (vocacionada para russos e outras pessoas do Leste europeu) e apresenta um programa numa rádio alemã.
Kaminer tornou-se num opinion-maker respeitado no meio cultural e literário alemão, posição sustentada na sua capacidade de comunicar e num humor corrosivo. Militarmusik, a sua estreia em Portugal, foi o segundo livro que escreveu.

(Entrevista realizada em 2003)

«Caligrafia dos Sonhos», de Juan Marsé, chega a 21 de Abril

A Dom Quixote lança a 21 de Abril Caligrafia dos Sonhos, romance de Juan Marsé que tem o prefácio assinado por António Lobo Antunes. Nesse mesmo dia sai O Testamento Final da Bíblia Sagrada, de James Frey. Mas antes, a 14 de Abril, a editora prossegue a edição das obras de John le Carré, desta vez com Um Espião Perfeito.

Caligrafia dos Sonhos – Juan Marsé
«Em meados dos anos quarenta, Ringo é um rapazinho de quinze anos que passa as horas mortas no bar da senhora Paquita, movendo os dedos sobre a mesa, como se praticasse as lições de piano que a família já não lhe pode pagar. Nessa taberna do bairro de Gracia, o miúdo é testemunha da história de amor de Vicky Mir e do senhor Alonso: ela, uma mulher entrada em anos e abundante de carnes, massagista de profissão, ingénua e apaixonadiça; ele, um cinquentão garboso que acabou por se instalar em sua casa. Ali vivem, junto de Violeta, a filha da senhora Mir, até que sucede algo inesperado: um domingo à tarde, Vicky deita-se nas linhas mortas de um elétrico tentando um suicídio impossível e patético, e o senhor Alonso desaparece para não voltar.»

O Testamento Final da Bíblia Sagrada – James Frey
O que faria se descobrisse que o Messias estava vivo? A viver em Nova Iorque. Se o encontrasse acreditaria n’Ele?
James Frey não é como os outros escritores. Já foi chamado de mentiroso, vigarista, burlão. Já foi chamado de salvador, revolucionário, génio. Devido às suas polémicas, já foi processado por leitores, abandonado por editoras, repreendido na televisão e condenado pelos media. Já foi forçado a exilar-se e a esconder-se. Mas ele é também um autêntico fenómeno editorial, publicado em trinta e nove línguas e adorado pelos seus leitores. E o que assusta verdadeiramente as pessoas é o facto de ele brincar com a verdade; essa linha ténue entre facto e ficção.
Esta é a sua obra mais controversa e será adaptada ao cinema.»

Um Espião Perfeito – John le Carré
«“Magnus Pym”, explicou um dia John le Carré, “é o arquétipo do agente duplo que existe em cada um de nós.” E é bem provável que esta seja, de facto, a chave para a compreensão de Um Espião Perfeito, unanimemente reconhecido pela crítica como a mais importante e a mais autobiográfica das obras do autor.
Publicado em 1986, Um Espião Perfeito rapidamente foi aclamado como um livro superior e tornou-se um imenso sucesso em todos os países onde foi editado.»

Já nas livrarias «A Grande Arte» de Rubem Fonseca

A Sextante acabou de lançar A Grande Arte, do escritor brasileiro Rubem Fonseca, numa edição que tem um prefácio do secretário de Estado da Cultura, Francisco José Viegas, e um posfácio do vencedor do prémio Nobel da Literatura, Mario Vargas Llosa. Trata-se, segundo a editora, de um romance sobre “o crime nas altas esferas sociais e no bas-fond do Brasil, assassinos profissionais, um advogado vingador e a “grande arte” de manejar uma arma branca.
Rubem Fonseca, que em 2003 venceu o Prémio Camões, já viu editados pela Sextante Editora os romances O seminarista e Bufo & Spallanzani, este último finalista do Prémio Literário Casino da Póvoa/Correntes d’Escritas.

Sobre o livro: «O assassinato de duas prostitutas, no Rio de Janeiro, que, de início, parece obra de um maníaco sexual, abre uma caixa de Pandora de onde vão brotando, no decorrer de uma ação trepidante, as complexas ramificações de um tenebroso sindicato do crime. A história passa-se em boîtes e bares sórdidos, em sumptuosas mansões do Rio, em vilarejos da fronteira entre a Bolívia e o Brasil, onde reinam a cocaína e o crime, bem como na interminável viagem de um comboio que percorre metade do Brasil com couchettes que rangem sob o peso de casais fazendo sexo.»
Do posfácio de Mario Vargas Llosa

«É necessário que A Grande Arte seja lido e relido, aberto em qualquer página a meio da noite, fechado com irritação ou anotado nas margens, como um código.
[…]
Enfim, A Grande Arte é um livro quase perfeito. O seu único defeito é ter um último capítulo. Um livro assim não pode terminar, bem vistas as coisas.»
Do prefácio de Francisco José Viegas

Entrevista a valter hugo mãe – Autor de «o nosso reino»

valter hugo mãe, poeta, editor e agora romancista (esta entrevista foi inicialmente publicada em O Comércio do Porto a 5 de Dezembro de 2004), lançou recentemente a sua estreia na prosa, o nosso reino (Temas e Debates) e quase em simultâneo deixou as quasi, editora famalicense da qual era sócio.
Cedências editoriais a uma linha mais “popularista” levaram-no a procurar novos rumos e agora não disfarça o entusiasmo pela prosa, depois de anos dedicados em exclusivo à poesia. Para trás fica a sua ligação a uma editora que apostou na qualidade e cresceu longe das grandes cidades.
O nosso reino, que roça o surrealismo, leva-nos a um mundo rural onde a religião e Deus impõem a sua força e poder a um crédulo miúdo de oito anos
(Nota: o nosso reino foi reeditado em 2011 pela Alfaguara, sendo assim a sua terceira edição em três editoras distintas – antes tinha saído na Temas & Debate e na QuidNovi.)

Neste seu primeiro romance a morte e a religião são omnipresentes. Porquê?
Fiz essa opção por natureza. Quase tudo no livro foi encontrado por acaso. Comecei a escrever o livro de surpresa, não estava sequer à espera de escrever um romance. É um bocado o que se passou sempre com os meus livros de poesia. De repente estava a escrever um livro de poesia e não apenas um poema. Desta vez eu tinha uma frase – provavelmente estava anotada para vir a ser um verso –, a primeira do livro, (“o homem mais triste do mundo”) e que me deu a ideia de procurar esse indivíduo, de saber quem seria. E as coisas surgiram um bocado umas a partir das outras e sem dar muito conta disso estava dentro de um ambiente religioso, a fazer considerações sobre as questões da fé e do transcendente, sobretudo do esperar alguma coisa de que não existe prova, de que não existe uma garantia. E o mundo da religião é também feito para a crença no impossível, no inexistente. O livro é todo à volta do que há e do que não há e do que se pensa ou do que se quer que exista.

Tem uma imagem da Igreja tenebrosa e obscura?
Tenho tendência para acreditar que existe alguma coisa. A história do Cristo é uma história tão incrível, tudo o que a Bíblia conta é tão incrível, que tenho tendência para acreditar que seria impossível ser inventada. A realidade ultrapassa sempre a ficção. Tenho tendência para acreditar que aquilo que ali está em boa parte é verdade. Por isso tenho uma relação, sem dúvida, com questões religiosas de alguém que tem a tendência para acreditar. Mas tenho ao mesmo tempo alguma dificuldade em lidar com o sistema operativo da religião. Não tenho reconhecido em muitos padres uma autoridade moral e espiritual que me convença. Dos poucos padres com os quais estive mais perto todos me frustaram, ou porque entram em actividades políticas e impingem às pessoas programas políticos, ou porque como pessoas são seres intratáveis, antipáticos. Há sempre qualquer coisa… Até hoje não conheci um padre que me convencesse. Para ser um líder espiritual precisa de ser alguém profundamente inteligente, porque um indivíduo que está em cima de um púlpito a tentar dirigir a vida dos outros tem de saber muito bem o que é bom para os outros e por isso qualquer opção ou conselho que esteja a dar tem de ser muito bem fundamentado. Infelizmente, acho que a inteligência não tem sido muito procurada quando se abrem concursos para padres.

Noto alguma desilusão não com a Igreja em si, mas com quem a habita.
Sim, um bocado como se passa no romance. O padre do romance diz que a igreja é muito antiga e muito grande e é impossível conhecer todos os padres que a habitam. Também tenho certas dúvidas sobre a pertinência de haver uma hierarquia na Igreja. O papa, depois os bispos, os cardeais, uns mandam nos outros, até ao soldado raso, que acaba por mandar na paróquia. Parece-me que seria mais lógico que a igreja funcionasse como um clube de amigos, sistema integrado em que toda a gente pudesse participar activamente no que é dito e decidido dentro daquela casa. E se o sistema já de si pode ser duvidoso, se for posto em prática por pessoas que, como todos nós, têm problemas e carências a todos os níveis, leva-me a acreditar que a melhor forma de ser religioso ou ter fé em alguma coisa é ficarmos sossegadinhos com as nossas convicções e fazer as leituras que devemos fazer.

O temor que o protagonista tem em relação ao padre da aldeia é fruto de experiência pessoal?
Não. Tentei fazer com que o romance não tenha absolutamente nada de autobiográfico. Claro que fui eu que o escrevi, há-de haver coisas que são minhas, coincidem com ideias minhas. Imaginemos se eu tivesse tido uma tia que é boa em matemática, como acontece com a tia do miúdo no romance, em vez da tia do miúdo do romance ser boa em matemática era boa a geografia. Tentei fazer com que as coisas não coincidissem em absoluto com nada que se passou comigo. Há uma coisa ou outra. Em relação ao padre, nunca me apareceu nenhum a bater. Quando era miúdo – costumava ir à missa com os meus pais – nunca nenhum padre me prestou alguma atenção. Ou seja, os padres também têm a tendência, pelo menos os que eu vi, para ver as crianças e os miúdos como uma espécie de aborrecimento, de barulho de fundo. “Tens de te portar bem na igreja, não faças barulho.” Não é preciso pôr os miúdos a cantar e dançar, mas os padres deviam suscitar os miúdos para a conversa, porque muitas vezes estão a esconder coisas, a passar por coisas e a passar por dúvidas e o padre poderia ser a melhor pessoa para impedir que se agrave. Nunca tive problemas, mas também nunca senti acompanhamento por padre nenhum. Das poucas vezes que me confessei quando era miúdo senti que estava a fazê-lo para uma máquina. Não estabeleci diálogo nenhum. Eu dizia que tinha chamado nomes ao meu irmão e ele dizia “reza três avé-marias”. Era quase como pôr uma moeda numa máquina e da máquina tirava um ovinho com a sina ou coisa do estilo.

Será por isso que as pessoas estão mais afastadas da Igreja, enquanto edifício?
Sem dúvida. As pessoas não conseguem manter fidelidade a uma parede e a igreja neste momento é uma parede, pelo facto de não existir diálogo, pelo facto da eucaristia ser, sobretudo, um evento quase espectacular, onde o público não intervém, fica passivo a ouvir as maiores barbaridades que os padres dizem nos sermões. Lembro-me de ter ido a um casamento em que um padre dizia que não havia problema nenhum em a mulher obedecer piamente ao homem. Se ela gostasse muito dele e ele gostasse muito dela, porque não haveria de obedecer ao homem? Essas coisas fazem-me mal. Um senhor, de cinquenta e tal anos que nem sequer é casado, ou pelo menos não devia, estar ali tão sapiente sobre o que o homem e uma mulher devem fazer numa relação… Estas posturas são cada vez mais obsoletas. Não é que algum dia tenham sido modernas, o que está errado, está errado. É tão evidente que existem essas deficiências de postura que as pessoas acabam por se fartar. As mulheres hoje em dia já pensam, acho que a Igreja não acredita muito nisso.

“Os líricos românticos acham que os artistas têm de ter uma panca”

O romance decorre antes do 25 de Abril, mas também poderia ser deslocado para a actualidade de alguns meios rurais.
No meu livro tudo é muito exagerado porque é uma criança que está a contá-lo.
Nunca devemos acreditar piamente no que o narrador está a dizer. Eu, enquanto leitor deste livro, duvido sempre das intenções do miúdo. Tive sempre alguma ligação com a questão de África (nasci em Angola) e ao longo da minha vida fui conhecendo algumas pessoas que estiveram em África. Como acontece em todas as guerras e conflitos, existe um enorme mito do como foi e como era e muitas vezes as pessoas tornavam as coisas mais agressivas. Contavam-me coisas pirotécnicas, absolutamente absurdas, que só por estupidez é que achariam que os outros iam acreditar.

Recorreu a uma criança para poder escrever exageros mais livremente?
A criança tem várias utilizações. O livro, todo ele, é uma interpelação à figura de Deus, é uma espécie de encosto de Deus à parede, a ver se ele responde. Acho que a questão de as crianças serem puras e ingénuas e merecerem toda a atenção, faz com que esse pedido desenfreado por uma manifestação divina seja mais eloquente e mais passível de ser atendido. Como queria extrapolar, exagerar e criar universos fantásticos, a ingenuidade de um miúdo é passível de me dar até um surrealismo, que é uma das possibilidades de leitura do romance.

Foi-lhe difícil meter-se dentro da mente de uma criança?
Não. Tive uma infância muito interessante e especial. O mais interessante era a minha própria cabeça, era muito curioso e tinha a mania de ouvir as conversas das outras pessoas. A minha curiosidade era de ouvir as coisas e fazer as lógicas e as ligações. Era um miúdo muito convencido com as minhas verdades. O que fiz no fundo foi transformar esse miúdo e fazê-lo sofrer o que eu sofria com 4 ou 5 anos – era de uma credibilidade incrível.

Nunca pensou em aproveitar esses pensamentos de criança para fazer livros infantis?
Toda a gente me diz isso. Este livro tem duas coisas: está tão ligado aos livros para miúdos como a dada altura poderá estar ligado aos livros fantásticos e filmes de terror. Eu vou passar pelas duas coisas. Já tenho estado a escrever outras coisas e tenho intenção de escrever puramente aventura, infanto-juvenil, terror. Algumas das coisas que estou a escrever já estão a aflorar e explorar esses universos. Sempre fui fascinado pela fantasia em todos os seus sentidos, desde os filmes de animação de criação de mundos, seres espectaculares, bichos nas profundezas do mar, ou no interior da Terra. Sempre adorei esses filmes de animação com a fantasia levada ao extremo do gore. O que me decidi finalmente foi começar a contar histórias.

Porque escreve em minúsculas?
Escrevo assim porque num texto todas as palavras têm a mesma dignidade, estão todas em pé de igualdade e depois o leitor é que lhes confere importância.

É dos poucos autores portugueses com página na net.
Tenho um site que é feito por um amigo. As pessoas têm o preconceito que o escritor tem de ser muito discretozinho, não aparecer, as entrevistas têm de ser muito sérias. O escritor tem de ser um bicho raro. É um preconceito dos líricos românticos que acham que a malta das artes e os artistas têm de ter uma panca muito grande.

“São as raparigas cor-de-rosa que estão a vender livros e isso assusta-me”

Não acha que há lançamentos literários a mais em Portugal?
Os livros nunca são demais se forem bons.

Ou há poucos leitores no nosso país?…
Os leitores é uma coisa que se faz. Se houver livros as pessoas acabam por aparecer. A questão é que se edita muito lixo, se calhar por causa da necessidade de popularizar um bocado a coisa. O problema é que as pessoas não estão a comprar os melhores livros. É uma pena que o José Luís Peixoto ainda não tenha entrado nos hipermercados. Como é que ele ainda não consegue estar ao lado dos livros da Margarida Rebelo Pinto? Por mais popular que ele seja (e é), a Margarida Rebelo Pinto, a Susanna Tamaro, e todas estas raparigas cor-de-rosa pertencem a um mundo muito mais popular. E são elas que estão a vender livros, a ganhar dinheiro, a ficar famosas e isso assusta-me um bocado. A Margarida Rebelo Pinto no Sei Lá tem uma personagem que a dada altura parece muito importante e depois desaparece aí na página 40. Esqueceu-se da personagem… Ela que seja feliz, mas preferia que o José Luís Peixoto vendesse 200 mil exemplares e que a Margarida vendesse três mil.

Mas a literatura light não pode servir para habituar as pessoas a ler?
Pode. Algumas daí passam para outro lado, têm um prazer enorme a ler e querem mais e vão buscar o… Paulo Coelho (sorriso). Pode ser que depois consigam abrir um bocado os olhos. Algumas já lêem o Equador (de Miguel Sousa Tavares). Mas depois já podem chegar a uma coisa… melhor.

“A poesia é uma coisa para meia dúzia de freaks”

Agora que experimentou a prosa, a poesia foi posta de parte?
Escrevo sempre poesia e vou ser sempre poeta, o que acontece é que já tenho nove livros de poesia, já errei em alguns. Os meus primeiros livros eram muito maus, preferia não os ter escrito. De momento escrevo um poema e deixo-o de lado, fascina-me a prosa. A poesia é quase um exercício de abandonar as pessoas, muito autista. Na prosa, estou a fazer o contrário, chamo as pessoas para entrarem nos livros, sinto-me mais acompanhado e comunicativo.

Continua a escrever poesia?
Vou continuar a escrever mas decidi que em 2005 não publico poesia. Tenho publicado muita poesia e acho que o mundo tão cedo não precisa de poesia minha.

Não se sente frustrado por só agora muita gente passar a reparar em si?
Sim, mas eu não estava iludido. A poesia é realmente uma coisa para meia dúzia de freaks, para gente muito estranha. Não é violento que as pessoas agora me conheçam pela prosa.

Está satisfeito com este romance?
O facto de ter feito uns livros de poesia ao princípio mauzinhos permitiu-me agora fazer um romance do qual não me vou envergonhar. As pessoas têm dito que é excepcional, têm adorado. Acho também que o que acontece neste livro, e não acontecia na poesia, é que as minhas intenções são mais claras. A poesia é mais abstracta, mais resistente ao leitor e muita gente está fundamentalmente a entender o que quero, o que digo. Os meus amigos que compravam os meus livros por simpatia agora dizem: “Então o valter afinal é isto, então como escritor diz estas coisas, já entendo.” O livro veio fazer uma luz sobre as minhas intenções literárias.

“As quasi complicaram-se, isso é verdade, é um projecto cada vez mais complexo”

Porque resolveu editar “o nosso reino” na Temas & Debates e não na editora da qual era sócio na altura, as edições quasi?
Porque é muito confrangedor editar nas quasi um livro meu e eventualmente ser colocado numa posição em que o tenho de promover. O que acontecia é que os livros que editei na quasi não os promovia. Os livros seguiam para os críticos no meio dos outros todos e depois era capaz de entrar em contacto com um ou outro crítico para falar de um ou outro livro mas nunca falaria do meu. Era muito interessante: podia fazer as capas, podia fazer o livro no dia em que me apetecesse, a tipografia por consideração à minha pessoa imprimia o livro rapidíssimo. Era tudo muito bonito, mas efectivamente era muito mau em termos de promoção e divulgação. Isto também passa pelo facto de ter uma consideração muito grande pela colecção da Temas e Debates, a Lusografias – gosto muito do trabalho da Maria do Rosário Pereira. E a prova de que o efeito tem sido outro é que o livro tem chegado a muitos mais lugares, a muito mais gente, porque ainda existe a Ana Pereirinha que faz os contactos promocionais todos e diz a toda a gente que é “muito bom, muito bom, muito bom” e as pessoas ficam convencidas de que pelo menos vale a pena ir ver o que é.

Falou nas quasi. Há dias soube-se da sua saída como sócio da editora. A que se deveu essa partida?
Se calhar um bocado por gostar de estrear. Estreei como editor, estive cinco anos como editor e agora vou correr riscos. Quer dizer… nas quasi corremos riscos. Montar uma editora em Famalicão, editar montanhas de poetas, ser apreciado por uns e odiado por outros, mexer com a consciência das pessoas foi um risco. Mas bem sucedido, porque as quasi em termos comerciais se viabilizaram. Em última análise é a prova que o projecto é válido. No que respeita aos cinco anos que lá passei valeu mesmo a pena. Neste momento gostava de me dedicar mais à escrita. Pode surgir uma ou outra proposta para alguma ligação para outras editoras. Pode ser. Não descarto a hipótese de continuar ligado ao mundo da edição, que era o meu trabalho na quasi, mas nunca a nível de editor/empresário. Nas quasi tinha de reunir com contabilistas, bancos, e aturar credores e fornecedores e pedir dinheiro aos devedores. Torna-se muito complicado e passou o meu tempo ali e quero começar de novo.

Mas acha que as quasi cresceram de mais e se desvirtuaram? Há algum descontentamento?
Não, não. As quasi complicaram-se, isso é verdade, é um projecto cada vez mais complexo. Não se desvirtuou, foi-se adaptando. De início, editávamos alguns livros e por isso precisávamos de algum dinheiro. Passado algum tempo passámos a editar muitos livros de poesia e passámos a precisar de muito dinheiro e isso fez com que em termos de critérios tenhamos sentido a necessidade de abrir um pouco mais os nossos horizontes, os nossos leques de autores e tudo isso. Tentámos sempre não fazer grandes concessões em relação à qualidade mas por vezes tivemos a necessidade de entrar em domínios mais populares, de mais fácil acesso ao público. E isso, na minha perspectiva, foi sempre motivado pela vontade que eu tinha de investir em gente que eu sabia que não ia vender muito. Fico um bocado curioso por saber o que o Jorge (Reis-Sá) vai fazer agora, mas sei que no imediato vai seguir o que estava a ser feito. Mas depois… será a imagem dele que ficará. A minha tem sobretudo a ver com estes cinco anos.

Acha que vai ser uma editora mais comercial?
…é possível.

Foi por isso que saiu?
Eu aqui cheio de rodeios e rodeios… Não sei, não sei. Pode ficar mais comercial até porque a crise tem obrigado a que todas as editoras tenham uma postura mais aberta e popular. E as quasi se quiserem subsistir com alguma simpatia e com ambiente agradável provavelmente vão ter de continuar com uma política, não digo popularista, mas com momentos espontâneos de popularidade.

Achava que o ideal era encerrar um ciclo e fechar a editora?
Não! Mesmo que na pior das hipóteses o Jorge arrase com a editora e passe a editar as coisas mais horríveis, o meu nome esteve ali apenas nos primeiros cinco anos, o resto não teve nada a ver comigo. Espero que ele não faça isso, sei que ele não vai fazer, tenho confiança, vai correr tudo bem. Inclusive é possível que participe numa ou outra coisa das quasi. Mas sempre muito como outsider. Faz-me um bocado de aflição as pessoas que ficam ligadas às coisas que criaram e que depois não gostam que elas mudem. Não me importo nada. Se as quasi virarem uma editora de livros pornográficos, óptimo. Se calhar até compro alguns ou espero que o Jorge me mande alguns (risos).

“Tivemos facilidade. Achavam todos muito engraçado uma editora em Famalicão”

As quasi são a prova de que numa terra como Famalicão é possível criar um projecto rentável na área cultural?
As quasi são a prova de que se as pessoas tabelarem por cima, lidarem com a qualidade, com aquilo que é reconhecido (seja no norte, sul, este ou oeste), o projecto diz respeito a toda a gente, diz respeito ao país. As quasi tornaram-se numa editora nacional porque os livros que editaram são de carácter nacional. Quando eu entrei (há cinco anos) e profissionalizámos a editora e criámos a empresa foi ponto assente que as quasi estariam em Famalicão, mas seriam de Portugal. Então, com tudo quanto poderia passar pela pieguice do local, do pedido do amigo da porta do lado, nós tentámos ser implacáveis. Se for bom entras se não for… nem que seja a vizinha da porta de cima, nem que apareça de soutien à janela. Acho que as quasi servem de prova para esse tipo de esforço do que numa determinada localidade se pode fazer para desenvolver um projecto que diga respeito a toda a gente. E por isso de início começámos logo a seduzir o António Ramos Rosa, o Eugénio Lisboa, os herdeiros do José Régio e o José Luís Peixoto.

Sentiram mais dificuldades por serem da periferia?
Tivemos facilidade, porque chegávamos a qualquer lado e diziam: “Ahh, aqueles rapazes tão simpáticos de Famalicão. Imaginem uma editora em Famalicão’. Achavam todos muito engraçado. E de engraçado em engraçado arranjávamos tudo. Depois editávamos as pessoas de quem gostávamos e essa energia de aparecermos perante alguém como admiradores passava imediatamente. E desde seduzir do Mário Soares ao Eduardo Prado Coelho foi muito fácil. Por ser de Famalicão acharam que era um projecto descentralizador e quiseram participar. Acho que se calhar o segredo neste momento está em sedear uma coisa qualquer em Freixo-de-Espada-à-Cinta e falar com o Prado Coelho (risos).

Quais foram os momentos mais marcantes do tempo que passou nas quasi?
A 11ª edição de Poemas de Deus e do Diabo, do José Régio, que estava esgotado há vinte anos e que só nós pudemos reeditar. Fiquei deslumbrado. O termos inventado o livro de letras do Caetano Veloso, que só passado um ano saiu no Brasil. Um livro que já tinha sido pedido por editoras de todo o mundo. Nós perguntámos e ele disse que sim e perguntámos outra vez e ele disse que sim. Editámos a Adriana Calcanhotto, um livro que ainda não existe no Brasil. Quando fizemos uma tournée com o Mário Soares e ele disponibilizou-se para apresentar a obra em Famalicão, Porto e Lisboa. Aceitou que em Lisboa fosse o Freitas do Amaral a apresentar o livro. Fomos jantar lá com o Freitas do Amaral, que foi a primeira vez que entrou na casa dele. Foi um momento histórico. Editámos um livro do Mark Kozelek (n.d.r. líder do grupo Red House Painters), que é o único a nível mundial. Os americanos e ingleses nem conseguem acreditar que ele tem um livro editado em Portugal.

(Entrevista realizada em Dezembro de 2004)