Opinião: «Sobre Bowie» – Rob Sheffield (Vogais)

capa-sobre-bowieSobre Bowie, editado pela Vogais, não é uma biografia, e ainda bem. É, isso sim, um livro de um assumido fã, Rob Sheffield, que é jornalista, da Rolling Stone, que apesar de ordenar as suas obras cronologicamente não se limita a elencar factos após factos. O que ele faz é tentar decifrar atitudes, comportamentos, opções, estratégias de Bowie e expô-las, interpretá-las. E digo «tentar» porque no que toca a compreender e decifrar uma personalidade como a de Bowie só dá mesmo para tentar, pois haverá sempre coisas inexplicáveis e incongruentes que se calhar nem o próprio cantor teria capacidade para deslindar.
Pelo meio vai contando estórias que ajudam a deslindar mistérios ou simplesmente conhecer o homem e o artista. Apesar de fã, Sheffield não escreveu uma obra meramente elogiosa plena de louvores. A admiração está lá e não tenta disfarçá-la, mas também sabe criticar e expor o lado mais negro e desumano, e às vezes parvo, de Bowie, que principalmente na fase inicial da sua carreira não era propriamente um santo. A sensatez veio, na opinião do autor do livro, com o casamento com Iman, em 1992, que influenciaria também a sua capacidade criativa.
Na apreciação à música é também crítico quando entende necessário, apontando curiosamente a união de Bowie com Iman como a salvação de uma carreira que via em decadência. Os últimos anos, até ao derradeiro Blackstar, lançado quase a par da sua morte em janeiro de 2016, apagaram aquela que considera a fase menos inspirada do artista britânico.
Sobre Bowie é um livro bem estruturado e fácil e agradável de ler, que, percebe-se, foi escrito por alguém que se movimenta à vontade na matéria, nitidamente complexa, dada a personalidade do artista em questão. Alternando entre episódios pessoais do autor com histórias de Bowie, a obra oferece uma boa perspetiva sobre o cantor, uma entre as muitas que são possíveis, permitindo conhecê-lo melhor, o que não é pouco quando se trata de uma personalidade tão complexa.
Sobre Bowie é, está visto, uma aposta acertada da Vogais, editora que desta forma ajuda a preencher uma lacuna já antiga em Portugal, a edição de obras sobre um dos maiores vultos da pop mundial.

«22/11/63» – Stephen King (Bertrand)

Print22/11/63 é um notável romance de Stephen King, editado pela Bertrand, que vale bem o esforço de se ler as suas novecentas páginas. Parece assustador, este número atirado assim a seco, mas se tiver as mesmas sensações que eu tive a ler esta obra vai perceber que todas as páginas, palavras e letras são necessárias para contar esta história muito bem engendrada e melhor conseguida com que Stephen King nos presenteia. Está ao seu melhor nível, o que por si só é um bom certificado de garantia.
Senti-me bem, dentro deste livro, que, dentro do género “e se” nos leva à época do presidente norte-americano John F. Kennedy. Faz um excelente retrato de época… Quer dizer, nunca lá estive, mas ao ler parecia que lá estava, nessa América fantástica dos finais dos anos 1950 e do início dos anos 1960. É comum dizer-se que é como se viajássemos no tempo, mas quem verdadeiramente viaja no tempo é o protagonista, Jake, um vulgar professor da atualidade, que por artes misteriosas consegue regressar a essa era. Mas vai lá desafiado com uma missão: conhecer Lee Harvey Oswald e impedir que este assassine JFK. Isto por si só já bastaria para montar uma boa história, mas a verdade é que os acontecimentos paralelos que vão ocorrendo, como a “nova” vida quotidiana de Jake num passado que ele só conhecia dos livros e dos filmes, são extremamente cativantes e realistas, levando-nos a não querer que a obra termine e que nos deixe permanecer ali num mundo fictício tão apelativo. Os inevitáveis dilemas de Jake, que tem de avaliar bem no que deve ou não mexer no passado (agora presente), são outro motivo de interesse, assim como a sua adaptação a um mundo sem telemóveis e outras modernices, compensadas por uma pureza que lhe parecia perdida.
Recheado de boas personagens e boas estórias, 22/11/63 é uma aposta segura e recompensadora.

Sinopse: «Dallas, 22/11/63: três tiros são disparados O presidente John F. Kennedy está morto.
Quando o seu amigo lhe propõe que atravesse uma porta do tempo para regressar ao passado com uma missão especial, Jake fica completamente arrebatado. A ideia é impedir que Lee Harvey Oswald mate o presidente Kennedy. Jake regressa a uma América apaixonante e começa uma nova vida no tempo de Elvis, dos grandes automóveis americanos e de gente a fumar. O curso da História está prestes a mudar…
22/11/63 é a 54ª obra de ficção de Stephen King, um dos autores mais lidos em todo o mundo. Uma vez mais, o autor recorre às bases da literatura popular (neste caso, a ideia das viagens no tempo) para construir um romance que vai muito além do simples entretenimento. King aproveita para revisitar a América do final da década de 1950, a América da sua infância, marcada pelo crescimento económico e pelo bem-estar das famílias mas também, de forma negativa, pelo racismo e pelos temores de um conflito nuclear. Ao mesmo tempo, o livro coloca questões profundas sobre a natureza das nossas sociedades democráticas, constituindo, nas palavras do autor, um “alerta contra os perigos do extremismo ideológico”.»

«O Boneco de Neve» e «O Leopardo» – Jo Nesbø

O Boneco de NeveO LeopardoA minha primeira experiência com o famoso escritor norueguês Jo Nesbø foi Caçadores de Cabeças e desde logo fiquei muito bem impressionado. Como felizmente há muita coisa boa para ler, entre contemporâneos e clássicos, ou só livros mais antigos, e infelizmente pouco tempo para o fazer, tendo a variar as minhas leituras para que abranjam um leque mais amplo de autores e estilos. Isso é bom, mas às vezes é mau.
Ora bem, tinha aqui em casa guardados em fila de espera dois policiais de Nesbø, O Boneco de Neve e O Leopardo, protagonizados pelo inspetor Harry Hole, a mais famosa personagem criada por este escritor norueguês e que tem alimentado uma extensa série de romances, vários dos quais editados em Portugal, pela Dom Quixote. A parte má foi não ter pegado logo neles, pois revelaram-se de leitura compulsiva e optei por lê-los em sucessão, pois não há dúvida de que prendem, pelo ritmo, pelo enredo e, principalmente, pelas personagens e as suas relações.
Estes dois livros sucedem-se cronologicamente mas podem ser lidos individualmente, dado que, como é costume, e aconselhável, neste casos o autor faz sempre os devidos enquadramentos para que os leitores sejam capazes de entrar com o comboio em andamento. Foi o que eu fiz, e em boa hora, pois aproveitei logo para seguir viagem, sem paragens em estações e apeadeiros, de O Boneco de Neve para O Leopardo.
Harry Hole, da polícia de Oslo, capital norueguesa, é especialista em assassinos em série (e outras coisas, como relações complexas com mulheres) e, dada a habitual pacatez do seu país a nível criminal, é acusado de ser obcecado por essa matéria. Ou seja, os seus superiores acusam-no de ver serial killers em todo o lado. Dado que ele é o herói (cheio de defeitos, é certo), não será surpresa para ninguém verificar que naturalmente está coberto de razão. Se em O Boneco de Neve lida com um assassino em série que pretende fazer justiça relacionada com algo relativo ao seu passado, em O Leopardo o homicida é antes de mais movido pela necessidade de limpar pistas. Algo em comum entre os dois? São ambos nitidamente desequilibrados, o que é conveniente para este tipo de obras, pois tal é garante de crimes mais terríveis, elaborados e sangrentos. Harry Hole, já se percebeu, também não é flor que se cheire. O alcoolismo, associado à dificuldade em acatar ordens de superiores, não lhe trazem muitas amizades, mas, por outro lado, a inteligência, a perspicácia e o empenho tornam-no praticamente indispensável. Correndo à margem, obtém ainda assim sucesso, e naturalmente cativa mais os leitores, que preferem este tipo de «herói» a um de estilo mais limpo. Ora, para se conhecer todos os defeitos do inspetor, já se percebe que os livros acompanham imenso a sua atribulada vida pessoal, e essa é uma das grandes fontes de atração das obras de Nesbø. As personagens são bastante completas e complexas, realistas, cativantes e sedutoras. Em suma, tanto se pode odiá-las como adorá-las, e até as duas coisas em simultâneo. E dado que são as pessoas que fazem os locais, obtemos ao ler estes livros (e calculo que os restantes da série) um excelente retrato da sociedade norueguesa contemporânea, bem diferente do que costumamos interiorizar ao ler e analisar as tabelas dos índices de melhor nível de vida do mundo. Afinal, eles são humanos, com virtudes e, principalmente, defeitos.
Como é regra em policiais, o enredo tem de dar muitas voltas e o segredo para que ainda assim se mantenha a credibilidade e qualidade é orquestrar reviravoltas minimamente realistas, pois caso contrário mais vale ir ver filmes de super-heróis. Nesbø consegue-o com boa nota e isso, pelo menos no meu caso, serve para me prender ainda mais à leitura, pois tudo flui com naturalidade.

O Boneco de Neve: «Noite escura. Lá fora começa a nevar. A primeira neve do ano. No conforto da sua casa, Jonas acorda a meio da noite, chama pela mãe, mas o único rasto que encontra são as pegadas húmidas no chão das escadas. No jardim, a mesma figura solitária que vira durante o dia: o boneco de neve, agora banhado pelo luar, com os olhos negros fixos na janela do quarto. E no pescoço um agasalho: o cachecol cor-de-rosa que oferecera à mãe.
Encarregado da investigação, o Inspector Harry Hole está convencido de que existe uma ligação entre o estranho desaparecimento da mãe de Jonas e uma carta ameaçadora que recebeu alguns meses antes.»

O Leopardo: «Perturbado com os acontecimentos que levaram à detenção do Boneco de Neve, o inspector Harry Hole refugia-se em Hong Kong onde as únicas regras a que obedece são as que lhe são impostas na sordidez das salas de ópio. Enquanto isso, em Oslo, num inverno excepcionalmente ameno, a Polícia depara-se com o brutal assassino de duas mulheres. Sem pistas, sem perceber que arma do crime seria capaz de provocar os ferimentos que apresentavam, e com a investigação num impasse, só lhe resta encontrar Harry Hole e convencê-lo a colaborar. Com o pai gravemente doente no hospital, Harry Hole acaba por regressar à Noruega. Não tenciona trabalhar na investigação mas o instinto leva a melhor quando a Polícia encontra uma terceira vítima num parque da cidade, violentamente assassinada. Quando consegue desvendar a ligação entre as vítimas, Harry Hole percebe que está a lidar com um psicopata que, tal como O Boneco de Neve, o vai levar ao limite das suas capacidades.»

«Astérix – O Papiro de César» – Jean-Yves Ferri e Didier Conrado (Edições ASA)

AstérixÉ oficial! Com O Papiro de César (editado em Portugal pela ASA) Astérix está de volta à boa forma. Depois de geradas boas expectativas com Astérix Entre os Pictos, a dupla Jean-Yves Ferri (argumentista) e Didier Conrado (desenhador), que ocupa agora, respetivamente, os papéis de René Goscinny e Albert Uderzo, está a recuperar o tempo perdido no período Uderzo. Este último aguentou o barco sozinho por uns anos, desde a morte de Goscinny em 1977, mas era já evidente que se impunha uma mudança, uma renovação.
Essa renovação tem sido feita através de um regresso ao passado, nomeadamente ao tipo de humor presente nos quadradinhos, sempre a estabelecer paralelismos e a piscar o olho à atualidade. Neste «Papiro» isso está bem patente, pois a temática é a liberdade de imprensa e a tentativa dos regimes ditatoriais (a Roma de César, no caso) de escrever à História ao seu sabor, segundo as suas conveniências. Já se percebe que, neste caso a reescrita da história pretende enviar para o vazio a resistência da nossa conhecida aldeia gaulesa. Mas há um defensor da liberdade de expressão, Gerapolémix, que quer evitar isso a todo o custo, um Julian Assange (fundador da Wikileaks) da era romana – esta não é a única personagem real do álbum, há outras, estejam atentos. Assim, ele contesta a veracidade e integridade de um papiro escrito pelo próprio Júlio César sobre as suas conquistas, como se percebe, bastante «embelezadas» no que toca à relação com alguns gauleses irredutíveis.
O Papiro de César retoma, assim, em bom nível a apetência para alusões ao nosso presente que podem passar despercebidas a leitores mais jovens, ou mais «distraídos», mas cuja ignorância face às mesmas não prejudica o entendimento global da obra, nem a torna sequer menos divertida. É uma aposta ganha seguir esta via, pois consegue agradar e atrair tipos de público diferentes, como já sucedia, aliás, na época dourada deste série de banda desenhada. É uma fórmula que, a nível de animação, a Pixar segue com um nível a raiar a perfeição, pois os seus filmes são feitos para agradar a crianças e adultos, com piscares de olhos a ambos, sem que por isso perca a sua qualidade e objetividade.
IMG_1748Com um argumento mais imaginativo e divertido e desenhos que se assemelham aos do próprio Uderzo, é com satisfação que vejo Astérix de novo no bom caminho. Já não é a mesma coisa que era no passado? Não, mas eu também não sou o mesmo, por isso as comparações são sempre falíveis. Conclusão, gostei bastante de ler O Papiro de César e ao ver álbuns assim é-me sempre inevitável pensar: «E se o Tintin ainda cá andasse?»
Duas notas finais: O Papiro de César tem também uma edição em mirandês (L Papiro de César) e eu não consigo definitivamente adaptar-me aos nomes renovados de personagens clássicas. Matasétix, Cacofonix?… Não os associo com naturalidade aos bonecos. Paciência.

«Peregrino» – Terry Hayes (Topseller)

Capa PEREGRINOPeregrino, obra de estreia de Terry Hayes, é um thriller de espionagem ambicioso e arrojado que obtém excelentes resultados. Isso mesmo vai poder ser confirmado pelos leitores portugueses a partir de 26 outubro de 2015, dia em que a Topseller o lança no mercado. Felizmente, já tive a oportunidade de o ler, e com atenção, dado que fui o tradutor da edição portuguesa.
A trama é complexa e há personagens complexas, mas isso não deve, nem pode, assustar os mais preguiçosos na leitura. O ritmo é tal que essas complexidades se desvanecem por completo, sendo este um daqueles livros que nos custa deixar e em que ansiamos, estranhamente, dada a natural curiosidade de leitor, por uma conclusão demorada. Está-se bem lá dentro, estamos entretidos, e não devem ser as mais de 600 páginas a assustar. O livro envolve-nos e aí o mérito é todo do autor, inexperiente até aqui enquanto romancista, mas muito batido na relação com o público, pois é há muitos anos argumentista de cinema e televisão com obra feita. Escreveu, por exemplo, Mad Max 2 e 3, Calma de Morte, A Verdadeira História de Jack, o Estripador, etc. A sua experiência na sétima arte não será alheia ao estilo cinematográfico que imprimiu a Peregrino, cuja adaptação ao grande ecrã está já garantida pela mão do realizador Matthew Vaughn, autor de filmes como Kingsman: Serviços Secretos, X-Men: O Início e Kick Ass – O Novo Super-Herói.
Peregrino apresenta uma história ambiciosa, com dois protagonistas fortes (o bom e o vilão, dependendo da perspetiva), bem secundados por uma galeria de secundários fundamentais para o desenrolar do enredo. Cingindo-me aqui aos dois protagonistas/antagonistas, posso referir que o Peregrino é o típico herói americano solitário, com uma vida pessoal complicada, patriota (mas com as suas cautelas e dúvidas) e extremamente implacável e eficiente, além de ser também uma espécie de «MacGyver». Já o Sarraceno é, também, goste-se ou não, um patriota (saudita), além de empenhado, engenhoso, inteligente e implacável, determinado a abalar e mudar o mundo, para que este se enquadre na sua perceção daquilo que entende por ideal.
O romance é uma espécie de mistura de policial com thriller de espionagem, já que começa em Nova Iorque com a investigação de um crime quase perfeito e «acaba» com uma ameaça terrorista de cariz global, capaz de mudar o mundo tal como o conhecemos. O ponto em comum é o protagonista, nome de código Peregrino, mas que dado o seu passado de espião de topo responde por muitos outros nomes… falsos.
O que está em causa nesta história é uma ameaça terrorista global através de um vírus já erradicado mas que o terrorista, conhecido por Sarraceno (nome atribuído pelo próprio Peregrino, por significar árabe ou muçulmano que perseguia cristãos – assim se percebe de imediato o mote da história), consegue fabricar com recurso aos seus conhecimentos médicos e a produtos roubados ou comprados anonimamente na Internet. Depois, socorrendo-se de informações obtidas facilmente na Internet, orquestra um engenhoso plano para difundir o vírus no país alvo do seu ódio, naturalmente os EUA. Esse ódio começou a germinar ainda enquanto adolescente na Arábia Saudita, de onde é natural, a partir do momento em que o seu pai foi decapitado publicamente por questões políticas.
Todos os seus passos são relatados minuciosamente, ao mesmo tempo que acompanhamos os avanços (e recuos) do seu perseguidor, o Peregrino. É uma espécie de duelo à distancia, com o Peregrino a seguir um inimigo desconhecido. Pelo caminho vamos conhecendo episódios da vida de ambos, que os tornaram aquilo que são, o que nos leva, entre um e outro, desde a primeira guerra do Afeganistão à Turquia atual, passando por Nova Iorque (e o 11 de setembro), Bulgária, Florença, Arábia Saudita, etc., havendo ainda espaço para histórias paralelas. Este é, aliás, um dos pontos fortes deste livro: as histórias complementares, essenciais para o desenrolar da ação, tantas vezes tão ricas que elas próprias, por si, aguentariam uma história independente. Aliás, quase pode dizer-se que quem comprar este livro leva dois romances consigo, pois a principal das histórias paralelas (que envolve crimes «quase» perfeitos, relações amorosas e dinheiro) é de tal forma completa e cativante que daria por si só um bom e rebuscado policial.
E depois temos as «cenas» de ação, com muita violência física e psicológica, vivas, entusiasmantes e frenéticas, onde não falta sangue, nem mortes.
A nível de estilo, os parágrafos curtos e as frases simples e diretas ajudam à compreensão do enredo rebuscado. É uma opção compreensível numa obra com tantos saltos no espaço e, principalmente, no tempo, dado que para apresentar os devidos enquadramentos geopolíticos a história anda para trás e para a frente com frequência. A princípio, ao leitor menos «empenhado» pode parecer difícil de acompanhar, mas concentre-se porque quando der por ela já entrou no «esquema» e vai estar a desfrutar de um excelente livro de espiões. Em suma, deixe-se levar pelo Peregrino.

Bodrum, o «centro» de Peregrino
Bodrum, bela e popular estância de férias na costa turca, tornou-se este verão mundialmente conhecida pelos piores motivos, pois lá perto foi captada a famosa e horrível fotografia da criança síria refugiada que morreu afogada junto à praia. Mas Bodrum é também um dos principais cenários do thriller Peregrino, de Terry Hayes. Como em qualquer bom livro de espiões (e este é-o, sem ponta de dúvida), pode contar com várias localizações exóticas, remotas e cosmopolitas, e imagine-se já a viajar por Suíça, Grécia, Paris, Nova Iorque, Afeganistão, Paquistão, Arábia Saudita, etc. Mas se ler Peregrino, vai efetivamente passar muito tempo em Bodrum, uma terra que mistura história (desde o tempo dos romanos ao dos nazis em fuga) e praias e férias, e que é descrita com vigor e vida, enquanto decorrem cenas de grande tensão e emoção. Terry Hayes, além do talento natural para montar e contar histórias, revela neste livro um outro dom, a descrição de cenários, desde os mais rurais e desérticos, aos urbanos, conseguindo assim levar a que o leitor se «encaixe» bem no enredo.

Sinopse: «Uma corrida vertiginosa contra o tempo e um inimigo implacável.
Uma jovem mulher brutalmente assassinada num hotel barato de Manhattan.
Um pai decapitado em praça pública sob o sol escaldante da Arábia Saudita.
Os olhos de um homem roubados do seu corpo ainda vivo.
Restos humanos ardendo em fogo lento na montanha de uma cordilheira no Afeganistão.
Uma conspiração para levar a cabo um crime terrível contra a Humanidade.
E um único homem para descobrir o ponto preciso onde estas histórias se cruzam: Peregrino.»

«Blacksad – Amarillo» – Díaz Canales (argumento) e Juanjo Guarnido (desenho)

blacksadBlacksad regressou finalmente (e felizmente) a Portugal, com o seu quinto álbum, Amarillo (editado pela Arcádia), a revelar-se mais colorido e fresco do que o habitual nesta série dos espanhóis Juan Díaz Canales (argumento) e Juanjo Guarnido (desenho).
O premiado Blacksad, onde é notório o valor da imagem, tem por norma um argumento à altura, e neste caso não é exceção. Os tons mais brilhantes e vivos adequam-se na perfeição ao tom mais ligeiro desta nova aventura do gato detetive, aqui envolvido numa espécie de «road movie» em papel, com belos carros a percorrer longas estradas americanas, arrastando atrás uma boa dose de problemas.
É por isso que, apesar das mortes, dos crimes, das vigarices e trafulhices, acaba por ser uma BD «leve» – não nos esqueçamos de que estamos perante animais que falam e agem como homens.
Este Amarillo prova assim que, pelo menos num aspeto, este é um gato como os outros, tem sete vidas. E ao quinto episódio fica provado, aos mais descrentes, que Blacksad não se esgotou e tem pernas para andar.
Em Amarillo, Blacksad está desejoso de sair de Nova Orleães, mas a falta de dinheiro impede-o. Depois de se despedir do seu amigo Weekly no aeroporto, um golpe de sorte daqueles que só acontecem na ficção põe-lhe nas mãos um belo descapotável. Um desconhecido a quem ele devolvera a carteira que caíra ao chão vê nesse gesto uma prova de honestidade e confia-lhe o carro para que o leve a Tulsa, enquanto ele próprio viaja de avião.
Foi a saída de Blacksad e, claro, a entrada num mundo de inesperados problemas. Começa então o «on the road» de Blacksad, onde se sucedem, a um ritmo fluido, os imprevistos habituais, tipo dominó. Uma peça nova que surge é um advogado que acaba por acompanhar o gato em grande parte da sua viagem e que vem a revelar-se uma personagem dúbia e sinuosa mas primordial para a ação.
Quando procurava alguma paz e sossego, o desencantado gato detetive vê-se então envolvido numa perigosa aventura, aborrecida para ele, puro entretenimento para o leitor. Cruza-se com Abe Greenberg.um bisonte poeta, e Chad Lowell, um leão aspirante a romancista. Esta dupla envolve-se com um bando de motards pouco simpáticos, sendo salvos por Blacksad. Enquanto este lida com o gangue, a dupla de «artistas» pega-lhe no carro e foge. Mais à frente, após uma discussão por motivos artísticos, Chad, bêbado, mata Abe, guardando o corpo no carro que antes estava à guarda do gato detetive. Este, tornado suspeito, acaba por ser perseguido pelo FBI. Parece confuso, mas não é, e daqui para frente Blacksad alia-se ao tal advogado, enquanto Abe, arrependido, vai trabalhar para um circo ambulante, o que nos permite conhecer mais uma boa dose de curiosas e extravagantes personagens, misturando o típico policial com a pura diversão.
Todas estas vidas se cruzam, especialmente o trio Blacksad, advogado e romancista assassino, formando alianças inesperadas mas típicas de um mundo de desencantos e incompreensão, daí resultando uma aventura completa, mas não complexa.
É uma «estrada sinuosa» a que percorremos ao ler este belo álbum, mas são estes argumentos que dão mais luta aqueles que mais nos cativam e envolvem, «tarefa» facilitada pelo constante traço atraente de Guarnido, que só por si faria deste um álbum bem apetecível.

Autores: Díaz Canales (argumento) e Juanjo Guarnido (desenho)
Título original: Blacksad 5 – Amarillo
Editora: Arcádia
Tradução: Ricardo M. Pereira
Ano de Edição: 2015

Sinopse: «O 5º episódio da série Blacksad começa em Nova Orleães; Weekly tem de sair da cidade e John prefere ficar para procurar trabalho. Por sorte, cruza-se com um texano rico que lhe propõe que leve o seu Cadillac de regresso a casa.
Está dado o mote para que John se veja envolvido num assassinato, e ainda com um grupo de motoqueiros, com um escritor da geração Beat, com um advogado manhoso e algumas pessoas de circo sinistro.»

«A Rapariga no Comboio» – Paula Hawkins

Capa_A RAPARIGA NO COMBOIOO comboio da rapariga está previsto para 8 de junho, com paragem em todas as estações e apeadeiros. Para quem, de entre os amantes de thrillers ou simplesmente mais atentos a estas coisas de livros e bestsellers, não entendeu esta frase de abertura, é porque tem andado distraído. A Rapariga do Comboio (The Girl on The Train), da inglesa e ex-jornalista Paula Hawkins, tem dominado tops por todo o mundo e por via da Topseller tenta a partir de 8 de junho a sua sorte em Portugal.
Aqui no Porta-Livros já li o exemplar de avanço da obra e percebi perfeitamente a razão de tanto sucesso e «falatório». O livro cativa, prende, leva a que o leitor se envolva, até porque é fácil a identificação com os protagonistas, são gente como nós, que anda em transportes públicos e se mete e imagina e inveja a vida dos outros, que parece sempre melhor do que a nossa. Mas o que se vê diante dos olhos não é bem o que está por debaixo da «capa», e essa é a primeira grande lição a retirar do enredo deste romance.
Mas, antes de mais, uma ressalva. A Rapariga no Comboio tem sido muito comparado a Em Parte Incerta de Gillian Flynn, mas apesar de terem algumas coisas em comum (autora do sexo feminino, protagonistas mulheres desequilibradas e desconcertantes, protagonistas masculinos bananas ou se calhar nem por isso), os paralelismos são injustos para ambos os livros. O que Em Parte Incerta tem de crítica social e retrato de época (contemporânea), A Rapariga no Comboio contrapõe com uma história mais «pessoal», em que as personagens são o que são por si mesmas e não tanto pelo meio que as envolve.
Dediquemo-nos então ao livro de Paula Hawkins, passado entre Londres e arredores, cujo ritmo parece mesmo o de um comboio em movimento, sem pausas e a um ritmo implacável. Não há pontos mortos nesta história em que a principal protagonista, Rachel, afundada numa existência de tédio e álcool, se dedica a viver as vidas que imagina para os outros, principalmente os que observa diariamente através da janela do seu comboio. Mas os contos de fadas que ela inventa afinal não são assim tão cor de rosa como imagina, e vai perceber isso mesmo quando um dia, na casa que era o alvo preferido da sua fantasia, observa algo que não encaixa nos seus devaneios de deslumbramento. O pior, é que isso é apenas a ponta do icebergue e vem a constatar que a «fachada» que montou para aquela casa que lhe passa duas vezes ao dia diante dos olhos, não vai além disso mesmo, de uma fachada. Ela própria a viver um período de desgraça após um casamento falhado, envolve-se irrefletidamente em algo maior do que ela, que não pode controlar, com implicações na sua vida, na vida do ex-marido, da nova mulher deste e na do casal que observa e que colocara num pedestal.
Naturalmente, tratando-se A Rapariga no Comboio de um thriller, não faltam as voltas e reviravoltas, especialmente no final, e uma boa dose de surpresas agradáveis – do ponto de vista do leitor, não das personagens. Para estreante, Paula Hawkins revela um excelente, e surpreendente, domínio da arte de prender o leitor, com um romance bem montado e estruturado, com um ritmo inflexível e pouco dado a paragens ou descansos. Não só nos sentimos presos pelo crime que a dada altura ocorre, como queremos saber mais sobre aquelas pessoas que ocupam as páginas à nossa frente, três mulheres e dois homens, que tanto nos cativam como nos repugnam. Afinal, são seres humanos simples, daí a identificação com a obra. Não há aqui, apesar do já citado crime, superdetetives ou superpolícias, com poderes dedutivos acima da média. Há pessoas normais envolvidas numa história que corre mal e que por isso levanta o véu que ocultava uma série de podres. Ninguém escapa, o que dá um realismo que por vezes escasseia neste tipo de obras.
A proximidade que criamos com as personagens é ainda mais forte devido ao facto de o livro ser narrado por três delas: Rachel (a da imaginação fantasiosa), Megan (o alvo da sua imaginação) e Anna (a que lhe ficou com o marido e que é vizinha de Anna).
Por tudo isto, e muito mais, recomendo vivamente A Rapariga no Comboio aos amantes de thrillers, de histórias com pessoas «reais» ou, pura e simplesmente, de um bom livro.

Autora: Paula Hawkins
Título original: The Girl on The Train
Editora: Topseller
Tradução: José João Leiria
Ano de Edição: 2015

Sinopse: «Todos os dias, Rachel apanha o comboio…
No caminho para o trabalho, ela observa sempre as mesmas casas durante a sua viagem.
Numa das casas ela observa sempre o mesmo casal, ao qual ela atribui nomes vidas imaginárias. Aos olhos de Rachel, o casal tem uma vida perfeita, quase igual à que ela perdeu recentemente.
Até que um dia…
Rachel assiste a algo errado com o casal… É uma imagem rápida, mas suficiente para a deixar perturbada.
Não querendo guardar segredo do que viu, Rachel fala com a polícia. A partir daqui, ela torna-se parte integrante de uma sucessão vertiginosa de acontecimentos, afetando as vidas de todos os envolvidos.»IMG_0708

«Ferrugem Americana» – Phillip Meyer

ber-ferrugemEste romance da América desiludida é, acima de tudo, um livro que sente. Ao lê-lo, estamos próximos das personagens, da paisagem, daquela América contemporânea com tanto de rural como de industrial, mas já numa fase de fábricas desativadas e em pré-ruína.
Em Ferrugem Americana (título muito apropriado) não estamos só a observar a vida de terceiros, parece sim que nos encontramos lá com eles, se não a participar, pelo menos muito próximos, a sentir cheiros, sons, pensamentos, aflições. Curiosamente, o estreante Phillip Meyer para obter esse feito nem precisou de recorrer ao artifício da narração na primeira pessoa, onde é mais «simples» exprimir sentimentos. «Serve-nos» antes essas emoções através das descrições de lugares e situações, ou até de meras falas.
A obra, que aborda uma América destroçada pela crise económica, é sobre amor, amizade, família e, principalmente, os sonhos não vividos. É sobre vidas não vividas que com a passagem do tempo se tornam cada vez mais um pesadelo em lugar de um sonho. Daí a constante comparação deste romance com o fim do sonho americano. Houve coisas que nunca chegaram a acontecer, promessas por cumprir. Há uma frase marcante que resume bem esta minha ideia: «… todos lhe recordavam tempos em que gostava de pensar, tempos que se tinham tornado melhores do que deviam.» A não concretização do futuro esperado fez enaltecer mais do que seria suposto o valor do passado que seria para esquecer.
É, como já devem ter percebido, um romance extremamente bem estruturado e desenvolvido, onde a qualidade da escrita está ao nível da grande história que aqui é contada.

Autor: Philipp Meyer
Título original: American Rust
Editora: Bertrand
Tradução: Ester Cortegano
Ano de Edição: 2012

Sinopse: «Passado num cenário de grande beleza mas economicamente destruído, Ferrugem Americana é um livro sobre o fim do sonho americano, mas é também uma história de amizade, lealdade e amor. Isaac fica a tomar conta do pai depois do suicídio da mãe e da fuga da irmã para a universidade de Yale. Quando finalmente decide partir, acompanhado pelo seu melhor amigo, o temperamental Billy Poe, antiga estrela de futebol do liceu, são apanhados num terrível ato de violência que muda para sempre as suas vidas. Com ecos dos romances de Steinbeck, Ferrugem Americana leva-nos ao coração da América contemporânea num momento de profunda inquietação e incerteza quanto ao futuro. Um livro negro, lúcido e comovente, onde se trava uma batalha entre o desespero e o desejo de transcendência, entre a destruição e a capacidade redentora do amor e da amizade.»

«Eu, Alex Cross» – James Patterson

Capa Eu, Alex CrossJames Patterson não é autor para grandes surpresas. Explico-me melhor: quando pegamos num livro dele, já sabemos com o que podemos contar. Não quero com isto dizer que ao longo da leitura das suas obras não haja surpresas. Sendo ele especialista em policiais e thrillers, no enredo não poderiam faltar reviravoltas, caso contrário, ele já cá não andaria há muito.
Portanto, pegando num livro de Patterson, neste caso refiro-me concretamente a mais uma aventura de Alex Cross – cujo título, o sucinto, Eu, Alex Cross é, ainda assim, bastante revelador –, temos muita coisa garantida enquanto leitores. É uma aposta ganha, com risco mínimo. Se há livros que se comparam a filmes, a nível de estrutura, penso que os de James Patterson se equiparam a séries televisivas, das boas…
Este Eu, Alex Cross, editado pela Topseller, que em boa hora resolveu apostar no autor norte-americano, mostra um pouco mais do protagonista além do que envolve a investigação e resolução do habitual crime. Não poderia ser de outra forma, pois a vítima de homicídio que espoleta o envolvimento do detetive no caso é uma sobrinha sua, mesmo sendo alguém de quem Cross já há muito se afastara.
A jovem, acompanhante de luxo, foi vítima de um brutal assassínio e o que posteriormente lhe fizeram ao corpo é inenarrável – bem, não será propriamente inenarrável, pois é descrito no livro, mas também quem conhece este autor já sabe que ele não se poupa propriamente na descrição de tais pormenores. Mas não é só a sordidez do crime (que não é caso único, mas sim um de uma vaga) que alimenta o enredo do livro, pois o ambiente em que se desenrola é também cativante. Tudo se passa nos meandros do poder político de Washington e leva, inclusive, a uma aparição da presidente dos Estados Unidos, entre outras altas patentes das forças politicas e da autoridade.
A sobrinha de Alex Cross fazia parte de um esquema de acompanhantes de luxo que participavam em jogos muito perigosos, onde homens poderosos de Washington davam azo às fantasias sexuais mais inimagináveis. Dá para perceber, sem estragar qualquer surpresa, que se trata de uma investigação cheia de escolhas complexas, de passos hesitantes, que Alex Cross terá de gerir com pinças.
O romance em si também é gerido com pinças, pois, paralelamente ao caso policial, a família de Cross passa por uma situação complicada em função dos graves problemas de saúde vividos pela avó do protagonista. O saltitar entre a investigação e o acompanhamento da situação da avó de Alex Cross permite uma certa «descompressão» da sordidez dos crimes que «presenciamos» e um maior envolvimento e apego às personagens, aqui mais do que nunca humanizadas pelo autor.
Tudo junto, resulto em mais um livro de James Patterson que custa a pousar depois de iniciado. E os capítulos são tão pequenos… por que não ler mais um?

Autor: James Patterson
Título Original: I, Alex Cross
Editora: Topseller
Tradução: Ana Beatriz Manso
Ano de Edição: 2014
Páginas: 384

Sinopse: «Um crime macabro.
Alex Cross acaba de prometer à família que irá estar mais presente nas suas vidas quando recebe a notícia chocante de que a sua sobrinha foi barbaramente assassinada. Determinado a descobrir o criminoso, depressa percebe que ela estava envolvida num esquema de acompanhantes de luxo que concretizavam as fantasias dos homens mais poderosos de Washington, DC. E ela não foi a única vítima.
Um assassino infiltrado no poder. A caça ao assassino leva o detetive e a sua companheira, a detetive Bree Stone, a entrarem num mundo a que só os mais ricos e poderosos têm acesso. À medida que se aproxima da verdade, Alex Cross descobre segredos que poderão fazer tremer o mundo inteiro. Uma coisa é certa: quem está nesse círculo restrito tudo fará para manter os seus segredos bem guardados.
Conseguirá Alex Cross sobreviver ao seu mais arrepiante e pessoal caso de sempre? Com uma ação alucinante e reviravoltas imprevisíveis, o novo caso do detetive mais admirado em todo o mundo traz-nos momentos de suspense que só James Patterson consegue proporcionar.»

Bruno de Carvalho – O Presidente Sem Medo

k_mandoeuNão leio por norma este tipo de livros sobre protagonistas do mundo de desporto, e, se o faço, prefiro que sejam relativos aos próprios atletas ou treinadores, os verdadeiros artistas, ao contrário de dirigentes, que deveriam ficar na sombra – o que é diferente de atuar na sombra.
Mas, confesso, que a personalidade de Bruno de Carvalho me cativa, quanto mais não seja pela mudança de atitude e de plano entre a primeira candidatura à presidência do Sporting (falhada) e a segunda (acertada). E, claro, sendo eu sportinguista gosto sempre de conhecer quem manda no meu clube. Até porque através deste tipo de livros, quando bem feitos, conhece-se sempre melhor as personagens do que através de entrevistas, onde surge um discurso mais formatado, mais contido (no caso do atletas), devido às amarras dos respetivos clubes – basta ver os casos dos treinadores Vítor Pereira e Paulo Fonseca, que, quando ao serviço do FC Porto, se apresentavam sempre tensos ao falar com a comunicação social e desde que saíram se transformaram em pessoas descontraídas e, até, divertidas.
Mas regressando a Bruno de Carvalho – O Presidente Sem Medo, de Bruno Roseiro (editado pela Matéria-Prima), é um livro que permite conhecer o lado pessoal e o profissional do presidente leonino, e como ambos se misturam e se influenciam. O livro tem por base uma série de entrevistas feitas por Bruno Roseiro ao seu homónimo, assim com algum trabalho de investigação. A obra, para ser mais completo, e imparcial, deveria, em meu entender, estar enquadrada com opiniões e histórias de terceiros, «verdes» ou, principalmente, de outras cores.
O livro apresenta episódios curiosos e percebe-se, por aqui, como funcionam algumas coisas no nosso futebol, coisas essas que não agradam a Bruno de Carvalho e que ele tenta mudar, tantas vezes num estilo «quixotesco», mas nem por isso menos legítimo.
Mostra, também, um Bruno de Carvalho mais coerente e determinado e realista que pouco tem que ver com a imagem mais espalhafatosa deixada aquando das primeiras eleições, que perdeu por escassa margem – seria curioso perceber que Bruno de Carvalho (e Sporting) teríamos se tivesse ganhado à primeira.
O livro está bem estruturado, com uma escrita clara, e poderá apelar, mais do que aos adeptos dos leões, a quem se interessar por futebol em geral, pois apresenta uma perspetiva desde o interior do dirigismo e de como funciona um clube desportivo para lá do que se vê nos relvados, recintos, pistas, etc.
É uma verdadeira viagem aos bastidores do Sporting, onde se fica a saber como foram cortadas despesas – em tudo, desde luz e fotocópias a grandes vencimentos, de jogadores e não só. Fica-se igualmente a saber como Bruno de Carvalho conseguiu calar os famosos «papagaios» internos do clube e, mais importante do que isso, como se relaciona com jogadores, técnicos e principalmente empresários, sempre com um objetivo em mente, fazer respeitar o Sporting.
Entretanto, já se justificava um novo capítulo inteiramente dedicado ao insólito caso que opôs Bruno de Carvalho ao seu treinador Marco Silva. Talvez para uma próxima edição… Aliás, esse caso daria até para encher um livro.

Autor: Bruno Roseiro
Título: Bruno de Carvalho – O Presidente Sem Medo
Editora: Matéria-Prima
Ano de Edição: 2014
Páginas: 240

Sinopse: «Quando terminou a época 2012/2013, os sportinguistas estavam entre o desânimo e a resignação. A equipa ficou em sétimo lugar, o pior de sempre. O passado de clube grande tinha um presente pequeno.
Poucos se atreviam a prever que, menos de um anos depois, o Sporting tivesse competido pelo primeiro lugar e chegado à Champions. Com frescura, atitude, garra, golos e o apoio crescente dos adeptos que voltaram a rever-se nos seus.
Tem jogadores jovens, motivados e com espírito de compromisso. Um treinador competente e metódico. Acima de tudo, tem um presidente que contraria o perfil de liderança das últimas décadas em Alvalade. Um homem de excepção para um momento de excepção, que enfrentou situações limite no balneário e no clube.
Bruno de Carvalho, que aos seis anos decidiu ser presidente do Sporting, é mais do que um líder voluntarioso, apaixonado pelo clube: comanda com estratégia, coragem e é capaz de tomar decisões difíceis para alcançar um bem maior. É um presidente sem medo, inspirado pelos valores familiares. É controlador e exigente… Principalmente consigo mesmo porque “vive” com o adepto mais fervoroso e ambicioso – ele próprio.»