J. Pedro Baltasar – Entrevista a propósito de “Jaguar”

J. Pedro Baltasar é um novo autor (lançado pela Porto Editora) que surge nas livrarias com Jaguar, uma aposta duplamente arriscada, pois trata-se de um romance de aventuras (à moda antiga) e logo com mais de quinhentas páginas. Mas o autor acredita piamente na sua obra, que tem o Eldorado como protagonista, numa história que via do século XVI ao XXI. “O espaço onde vivemos hoje em dia, o planeta, é um bocado claustrofóbico, porque tudo está descoberto (…) Onde restam os pequenos espaços virgens é nos oceanos ou, então, um dos poucos paraísos terrestres que ainda hoje existe é a América Central e do Sul. Daí o facto de gostar da aventura”, explicou em entrevista ao Porta-Livros. Agora, anunciou, segue-se um thriller “um bocado gore”.

Como é que lhe surgiu a ideia de escrever um romance e de ser escritor?
Ser escritor vem por arrasto da vontade que sempre tive de me expressar para além do quotidiano. Sempre tive uma veia artística, sempre tive vontade expressar qualquer coisa de mim. Tive gosto pela música, tocava guitarra, entrei em peças de teatro. Depois, nos escuteiros, mais tarde, eu era um daqueles que estava sempre na linha da frente, criava peças, números, inclusive criámos uma réplica dos Heróis do Mar, que estavam na berra, e como éramos de Cacilhas, junto ao rio, criámos os Heróis do Rio, com letras adaptadas aos escuteiros. Tive grupos de garagem, fiz teatro amador, fiz rádio pirata. E no meio disto tudo tive de trabalhar, e fui para a banca. No banco, por brincadeira, fiz uns mails um bocado “subversivos”, que tinham muito sucesso, e diziam-me que estava no sítio errado, que devia era escrever. E isto tudo batia-me na cabeça. Um dia, estava a ler a Cidade dos Deuses Perdidos, da Isabel Allende, que é um livro um bocado juvenil de mais, mas que tem umas ideias giras sobre o El Dorado, sobre a mística da selva sul-americana, o jaguar. E depois lembrei-me de um filme, o Cat People (A Felina), aquele erotismo, a sensualidade, a Nastassja Kinsky, a mulher pantera. E aquilo veio-me à cabeça e pensei: porque não fundir isto tudo e fazer o meu próprio livro, com os ingredientes que eu gosto? E pus mãos a obra e foi saindo, e fui gostando. E, quando dei por mim, tinha quinhentas e tal páginas.

Deve ter sido um trabalho longo e extenuante?
Eu tenho uma vida normal, sou bancário e pai de dois filhos. Sobra pouco tempo. E depois o livro obrigou-me a uma certa pesquisa porque, sendo um livro de fantasia, é também um livro histórico, porque assenta sobre a conquista do México por parte dos espanhóis. Portanto, quem ler o livro lerá sobre a invasão de Cortez e do seu braço-direito Pedro de Alvarado. São personagens reais, que conquistaram o México, mais concretamente arrasaram a cultura e a civilização astecas. Tive de fazer pesquisa sobre os povos maias, incas, astecas, a América Central, e sobre as conquistas dos espanhóis.

Mistura personagens reais com fictícias. Falando das reais, não se sente que está a intrometer-se um pouco na vida deles, ao imaginar aquilo que teriam feito?
Só me meto praticamente com um deles, pois criei-lhe um descendente que nos contextualiza nos dias de hoje, e que é o Miguel de Alvarado, que herda um diário deste seu antepassado, bem como um quadro, e que são a ligação entre o passado e o presente. Mas penso que a família não vai levar a mal… (risos)

E as personagens fictícias, como é que as construiu? Inspirou-se em pessoas suas conhecidas?
Parte das personagens são extrapolações de mim, dos meus estados de espírito. Em dadas alturas sentirei o que sentiu a Daniela, todos nós temos um lado masculino e um feminino, tenho uma parte que eu gostaria de ser, que é o James Cadwell, que é um indivíduo recto, honesto, limpo, um herói perfeito, que é uma parte de mim que gostaria que fosse mais visível mas não é. Tenho lá um fotógrafo trapalhão e voluntarioso, que é o Gordon, que é muito parecido comigo na parte da trafulhice e do desleixo. Tem partes da minha mulher, na Daniela. De resto, as personagens vão nascendo por si, também.

Pondo tanto de si nas personagens não sente, por vezes, que está a expor-se demasiado?
Tanto posso numa demasiada altura sentir aquilo que estou a escrever de uma forma mais pronunciada e real, como posso estar noutro momento a criar uma situação que não tenho nada que ver com ela.

Se o livro não tivesse sido publicado, teria ficado na mesma satisfeito ou o seu objectivo era mesmo a edição de Jaguar?
Inicialmente, dizia muito ingenuamente que ia fazer um livro e teria publicá-lo de alguma forma, nem que tivesse de gastar umas massas. Já plantei árvores, já tenho filhos, falta-me o livro, nem que fosse simbolicamente queria fazê-lo. Mas a uma certa altura estava a gostar tanto do livro que ia ficar com pena se não fosse editado, ia doer um bocado. Por isso, a Porto Editora vir ter comigo foi a coisa mais fantástica que me poderia ter acontecido.     

Como é que se sentiu quando teve a noção de que ia ser publicado?
Foi como um conto de fadas. Ainda hoje estou um bocado a viver um sonho. Por exemplo, a feira do livro, que sempre encarei, desde miúdo, como uma coisa mística… de repente eis-me nela. É uma das coisas mais bonitas que já me aconteceu.

Foi um bocado arriscado, para um autor desconhecido, arrancar com um livro tão grande…
Era, mas senti que ou fazia como pensava que ele devia ficar ou então não valia a pena. Se fosse só para ele sair ou para agarrarem nele, estaria a prostituir-me só para obter um resultado. Ou faço a história como a quero fazer, com os ingredientes todos e os ambientes e tudo o que quero, ou não vale a pena. E fiz.

Que autores o inspirara mais para escrever Jaguar?
Toda a minha infância e parte da imaginação que ela acarreta com a parte das leituras do Júlio Verne, do Sir Arthur Conan Doyle, o Mundo Perdido, a Viagem ao Centro da Terra, as histórias de aventura, ficaram aqui decalcadas. Hoje em dia há poucas histórias desse cariz e tenho pena. O espaço onde vivemos hoje em dia, o planeta, é um bocado claustrofóbico, porque tudo está descoberto. Não há praticamente mistérios hoje em dia. E é uma pena, porque o mistério e o desconhecido é que sempre levou as pessoas a descobrirem mais e dá-me a sensação de que no nosso planeta chegámos ao limite. Onde restam os pequenos espaços virgens é nos oceanos ou, então, um dos poucos paraísos terrestres que ainda hoje existe é a América Central e do Sul. Daí o facto de gostar da aventura.

Mudaria algo no seu livro, agora depois de já o ter visto editado?
Eu acho que está o livro perfeito, com os timings perfeitos, as personagens perfeitas. Tudo no sitio. Não mudava nada. Eu sou suspeito, mas gostei de ler o livro.

O seu próximo romance, vai ser dentro deste género de aventura?
Vou enveredar por um caminho novo. Resolvi fazer uma catarse do meu lado negro e resolvi fazer um thriller um bocado gore. Neste livro vai haver um apelo a músicas e letras dos anos 60. 70, 80. O próprio personagem principal vive um bocado as coisas ou estende-as em função das músicas que elege como suas para determinados momentos.

Henrique Monteiro – Entrevista a propósito de “Toda uma Vida”

Henrique Monteiro, director do jornal Expresso, lançou recentemente, na Dom Quixote, um novo romance, intitulado Toda uma Vida, onde entrega o protagonismo a uma mulher de 88 anos que passou pela Guerra Civil espanhola e pela Segunda guerra Mundial. Nesta entrevista ao Porta-Livros (via mail), Henrique Monteiro explica porque quis falar da velhice, da guerra, da história, das mulheres, da morte e do mar. E sobre o mar é bem claro: «Não concebo ninguém, nem na vida real nem na ficção, que não tenha um fascínio pelo mar. É de onde vem a vida e onde ela se cumpre.»
(
A fotografia de Henrique Monteiro é da autoria de Jorge Simão.)

Como é que nasceu este romance? A ideia era escrever sobre a vida de uma pessoa ou, antes, “aproveitar” a vida dessa pessoa para traçar um retrato de períodos específicos do século XX?
A ideia resultou de um cruzamento das duas ideias que refere. Havendo uma pessoa, que não é uma pessoa concreta, mas a soma de muitas que fui conhecendo, ela foi marcada por períodos e assuntos marcantes do século XX. Nem aquela pessoa existiria sem aqueles acontecimentos, nem esses acontecimentos teriam sido o que foram acaso as pessoas concretas não fossem feitas daquela matéria. O Homem não existe sem a circunstância, mas molda essa circunstância. Como diz a personagem central, cada indivíduo é como uma onda que molda o seu pedaço de mundo. E só todos juntos fazem sentido.

Consideraria Toda uma Vida um romance histórico ou um romance sobre relações humanas? Se por um lado relata factos históricos, por outro também analisa profundamente a influência que estes têm o quotidiano das pessoas comuns.
Eu não consideraria, porque não me cabe a mim considerar. O romance é fruto do meu trabalho e ninguém tem a distância de si próprio para analisar os frutos do seu trabalho. Posto isto, penso que é mais sobre as relações humanas e as relações dos seres com a transcendência.

Por que razão optou por estes momentos da História em particular?
A Guerra Civil de Espanha e a II Guerra Mundial foram os dois episódios mais marcantes da História para a geração que o livro retrata, e que é a geração dos meus pais. Sobre isso, nem haveria dúvidas.

Pelo curto tempo que demorou a escrevê-lo – cerca de vinte dias no total – parece ter sido um processo muito intenso.
Foram 30 dias e não 20. A diferença pode parecer pequena, mas como tenho um espírito matemático direi que é mais 50 por cento. De qualquer modo. Eu escrevo depressa, depois de ter organizado as ideias. Ora, as ideias estavam organizadas e o tempo que refere é, pura e simplesmente, o tempo de escrever as cerca de 200 páginas do romance.

Este é um romance muito opinativo. Aproveitou a sua protagonista para expressar os seus próprios pontos de vista? Ou, até, as suas dúvidas?
Tem razão. É opinativo. O livro retrata os pensamentos de uma senhora de quase 90 anos. Ora, ninguém pensa sem ter opiniões e digo-lhe que algumas, bastantes, são coincidentes com as minhas, mas outras são dela, porque a personagem assim o impõe. É verdade que as personagens ganham vida própria e se impõem aos autores…

O facto de ser jornalista influenciou o modo como abordou os temas presentes no romance, assim como o estilo de escrita?
Não sei, alguém, que não eu, o dirá. Penso que o facto de ser quem sou é também moldado pelo facto de ser jornalista. Mas, tal, como lhe referi atrás, quando falei da relação entre circunstâncias e indivíduos, sou provavelmente jornalista por ser como sou.

Aproveita a ficção para poder escrever sobre assuntos que, por um motivo ou outro, não têm espaço no jornalismo?
Felizmente, no meu jornalismo todos os assuntos têm cabimento. Ainda assim, a minha resposta é positiva. A ficção dá-me um espaço, um tempo e uma temática que nem sempre se coaduna com a pressão momentânea do jornalismo.

As personagens saíram-lhe da sua imaginação ou foram inspiradas em casos ou episódios reais?
As personagens saem sempre da imaginação. Ninguém é uma personagem e nenhuma personagem é alguém. Mas todas são um misto de gente real e fictícia.

A velhice, ou o modo como são tratados os idosos na nossa sociedade, são um tema central em Toda uma Vida. Quis lançar aqui uma espécie de alerta?
Sim, por um lado faz-me confusão como se destruíram as famílias, em troca de nada, Hoje em dias os velhos estão depositados e os poucos que têm qualidade de vida, que é o caso da personagem do romance, estão, ainda assim, muito sós. Ela queixa-se de que ninguém a ouve; queixa-se de que lhe chamam sempre ‘coitadinha’. Os velhos, que contém em si a sabedoria da vida, não passam hoje de um fardo.

A morte está também muito presente em Toda uma Vida. É, também, um tema que o preocupa?
A morte é o mais natural dos factos da vida. O que me preocupa é o sentido e a aprendizagem da morte, Filosofar é aprender a morrer – essa aprendizagem é, para mim, algo de real importância.

As personagens femininas dominam nitidamente este romance. Foi premeditado ou surgiu naturalmente? Foi difícil meter-se no corpo e na mente dessas personagens, principalmente da protagonista, uma vez que é escrito na primeira pessoa? Requereu algum tipo de investigação específica?
Quando se tem 53 anos, e não se é desatento, consegue-se ter uma visão relativamente clara do que é a forma de pensar de uma mulher. Não sei se consegui, mas felizmente muitas leitoras, mesmo aquelas que não conheço e me contactam por mail ou pelo Facebook, dizem que captei, no essencial, essa forma específica de estar.

Há também um grande fascínio pelo mar – esse fascínio é seu ou “apenas” da personagem principal?
Não concebo ninguém, nem na vida real nem na ficção, que não tenha um fascínio pelo mar. É de onde vem a vida e onde ela se cumpre.

Rosa Aneiros – Entrevista a propósito de “Resistência”

Rosa Aneiros, uma jornalista e escritora galega nascida em 1976, ficou apaixonada pela história dos resistentes portugueses ao regime ditatorial que vigorou até ao 25 de Abril de 1974. Tudo aconteceu durante uma visita ao Museu de Peniche. Logo aí decidiu que o seu primeiro romance (Resistência – Publicações Dom Quixote) seria sobre estas pessoas que lutaram contra o regime e conseguiu escrever um livro de fazer inveja (no bom sentido) a autores portugueses que nunca arriscaram a escrever sobre um tema tão próximo de nós. A ajuda de Álvaro Cunhal acabou por ser preciosa.

 Cmo é que uma escritora galega, tão jovem, escolhe um tema como a resistência portuguesa à ditadura como pano de fundo para romance de estreia?
Não fui eu que escolhi a ideia, ela é que me escolheu a mim. Não houve uma intenção prévia. Numa viagem de férias entrei no Museu de Peniche sem saber o que era, mas fiquei impressionada. Descobri que um acontecimento histórico tão recente (25 de Abril de 74) tinha uma exposição com nomes e apelidos das pessoas que nele participaram. Algumas dessas pessoas podem ainda estar vivas. Em Espanha ainda não conseguimos que se formasse a associação pela recuperação da memória histórica para recuperar coisas, por exemplo, da Guerra Civil. Em Portugal recupera-se essa memória, não existe essa negação do passado. Estava de férias e comecei a escrever o romance logo nessa altura. Percebi de repente: “Aqui há uma história que quer ser contada”. Entretanto, tive de regressar a Portugal para construir as personagens e tive de conhecer a História do país para que tivesse um mínimo de credibilidade.
Foi também um trabalho muito jornalístico e aprendi muito de um país que está tão próximo, mas às vezes tão longe da Galiza. A nível de conhecimento ainda há muito que temos de conhecer uns dos outros.

O pormenor com que está escrito Resistência leva a crer que é uma obra feita por um português…
Curiosamente, o Manuel Jorge Marmelo (foi o primeiro autor português a quem enviei o romance) disse-me que este era um tema que nunca seria escrito por um novo autor português. E perguntei porquê? “Porque é demasiado recente, muito chegado a nós”. Isso deu-me mais ânimo, porque era uma história que tinha o atractivo do distante, de algo que nunca vivi. Sobretudo nos espaços sabia que ia ser muito atractiva para o público galego.
Uma dos “problemas”da literatura galega é que é muito egocêntrica, é tudo ambientado muito na Galiza. Os galegos têm muito interesse por Portugal.

Como é que os portugueses poderão aceitar um livro escrito por uma galega sobre um tema que tanto diz respeito a Portugal?
Tenho um bocado de medo. Uma coisa são os dados históricos, onde podes deixar passar algum erro, mas o mais difícil é recolher o ambiente, captar o que se viveu, até porque muita gente está viva. Dependerá muito, também, de cada leitor.

Como decorreu o processo de investigação?
Recorri essencialmente a documentação escrita, à Internet, ao Centro de Documentação do 25 de Abril e Álvaro Cunhal enviou-me os seus livros e aí consegui absorver a sensação do medo, de estar sempre a ser observado.
Os livros de Manuel Tiago (pseudónimo de Álvaro Cunhal) são muito frios, estão muito próximos da realidade e o facto de lê-los serviu-me para me ambientar.

Ao escrever este livro já havia a intenção de publicá-lo em Portugal?
Nem sequer tinha a intenção de publicá-lo. Era uma história que me deixava muito insegura. Era o meu primeiro romance e não tinha a noção do que valia.
Enviei o livro a alguns amigos e eles gostaram muito. Acabou por ser rápida a publicação.

Agora já acha que é um bom livro?
O tempo leva as coisas ao sítio. Ainda o vejo com demasiada proximidade. Há partes que mudaria, mas apenas na maneira de contar a história.

Deve ser um bocado assustador lançar uma primeira obra?
Passou-se com Resistência o que os meus editores chamam o efeito-Resistência. Eu era praticamente uma desconhecida e este romance fez-me ganhar mais público. Esgotou a primeira edição na Galiza. Antes, quando escrevia, era algo muito mais individual, agora as pessoas falam comigo sobre a minha obra. Nota-se mais a presença do público.
É uma fase mais bonita, porque te mostra a verdadeira literatura. Não o tempo que passas a escrever, mas o momento em que partilhas as histórias e as personagens.

Agora vai começar a receber a reacção de portugueses…
Isso assusta-me bastante. É complicado contarem-nos uma história sobre nós, mas contada de fora é mais asséptica e mais livre de pressões. Não gostava que ninguém se sentisse ofendido, porque não era a minha intenção.

Já está trabalhar noutro romance?
Sim… Mas na Galiza digo sempre que não (risos). Sou uma escritora que acredita muito pouco em mim. As histórias atrapalham-me muito e sou pouco objectiva com elas e nunca sei se as vou acabar. Já tenho umas páginas manuscritas, mas digo sempre não. Estou a escrever a história de uma mulher, de 34 anos, que está passar uma fase difícil da sua vida em que todas as coisas em que acreditava de repente se desmoronam. Passa-se durante a época da maré negra do “Prestige” na Galiza. Vivemos essa fase muito como um conjunto, colectivamente. Temos de deixar passar algum tempo para perceber como nos afectou individualmente, como interiorizamos. Esta é uma história nada colectiva, é muito intimista. Afundou-se o barco no momento em que ela se afundou e uniram-se as duas coisas.

Deve ser difícil fazer uma segunda obra, depois de uma primeira tão bem sucedida?
O problema que tenho é que histórias como Resistência surgem uma vez na vida. É difícil que todas as histórias te consigam agarrar da mesma maneira. É uma história fascinante, de um povo que um dia se revolta e derruba uma ditadura. Em Espanha deixou-se o ditador morrer na cama

(Entrevista realizada em 2004)

O LIVRO

Resistência, livro escrito pela galega Rosa Aneiros e editado pela Dom Quixote, mais parece obra de um romancista português, tal o detalhe, a emoção, a paixão e o conhecimento que emprega ao descrever histórias que tanto nos dizem respeito. De São Pedro de Moel a Lisboa leva-nos a seguir os passos daqueles que, principalmente na década de 60, lutaram pela liberdade. Rosa Aneiros mistura estas causas políticas com dramas pessoais, daí resultando um livro bastante atraente, humano e equilibrado. Nem é um panfleto político, nem um simples drama humano, e nota-se ainda uma constante presença da esperança, como que prenunciando a revolução que aí vinha.
Mas Resistência traz tudo ao leitor: a guerra colonial, as dúvidas instaladas em quem lá estava, os abusos de poder, assim como o desejo de mudança e as diversas formas de luta.
Dinis e Filipa, protagonistas de um amor incompreendido, representam o motor que faz/fez funcionar a Resistência.

Michael Pye, entrevista a propósito de “Os Despojos do Dia”

De Nova Iorque a Miranda do Corvo. Esta é apenas mais uma etapa da vida errante do ex-jornalista e escritor inglês Michael Pye – outras foram Escócia, Itália, Bahamas – que depois de ter morado na grande metrópole norte-americana decidiu instalar-se em Miranda do Corvo. Em Os Despojos de Berlim (Edições ASA), o seu primeiro romance editado em Portugal (mas já o décimo livro da sua carreira, entre literatura e ensaio), Pye leva-nos a Berlim da Segunda Guerra Mundial, onde uma mulher ambiciosa, Lucia, aproveitando-se da situação caótica, rouba obras de arte aos amigos judeus, que denunciou aos nazis, e foge para a Suíça, onde protagoniza durante 60 anos uma vida tranquila. Mas, um dia, alguém reconhece umas peças na sua loja de antiguidades, que montou às custas dos despojos de Berlim. Uma história baseada em factos reais que Pye utilizou para demonstrar que, apesar de tudo, há sempre a possibilidade escolher entre o bem e o mal.

Os Despojos de Berlim é baseado numa história verdadeira que lhe contaram. Porque decidiu relatar essa história a mais gente através de um romance?
Fui jantar a Zurique com um amigo que trabalhava na televisão suíça e estava a fazer um documentário sobre o que fizeram os suíços durante a Segunda Guerra Mundial no mercado de arte. Foi uma história de tal forma complexa e impossível de contar através de documentos. Sabemos quais foram os crimes e quem foram os criminosos, mas faltava a história. Por isso, o meu amigo disse-me que eu devia escrever esta história porque ele não o podia fazer com os documentos, as provas e os arquivos que tinha. Foi um desafio muito interessante porque foi uma história dos crimes, do Holocausto, mas muito mais. Foi um desafio moral para mim. Encontrei uma mulher cheia de charme, inteligente, com conhecimentos sobre arte e história de arte, uma mulher sensual, civilizada, mas ao mesmo tempo tão criminosa. Até que ponto se sente simpatia por esta mulher, abandonada na Alemanha nos anos 30 com um filho de seis anos? Uma tragédia, mas depois de cinco anos é uma criminosa que foge da Alemanha com os bens tirados aos seus amigos judeus.

Acha que uma pessoa age assim porque está naquele ambiente de guerra e transforma-se ou já por si é má?
Ela é uma pessoa que está a fugir de uma vida rica com dinheiro, mas muito certinha, nas famílias de bancários de Milão. São famílias muito convencionais e muito bem-educadas, a todo o tempo, 24 horas sobre 24 horas. É impossível viver assim! Ela é uma mulher ambiciosa, com desejos, que quer levar uma vida própria. Nesta altura há um ponto de simpatia por um criminoso perigoso e muito mau.

Conviver com um segredo destes durante 60 anos é castigo suficiente para o que ela fez?
Não, não pode ser. Ela, como muitos suíços em Berlim durante a II Guerra Mundial, não foi só uma ladra, foi também uma delatora dos amigos. Não é castigo suficiente. Na história real esta mulher já morreu, rica, com uma vida tão agradável nos lagos suíços. É muito importante saber mais sobre estas pessoas.

Haverá então muitas mais histórias como esta?
Não é um caso isolado, mas para mim foi o caso mais fascinante de todos. Porque para mim não é só uma galeria de arte que faz algo impróprio – todas as galerias de artes fazem coisas impróprias (risos). Temos uma pessoa como nós, numa situação extrema muito complicada, que pode escolher e esse é o ponto central do livro: todas as pessoas podem escolher, mesmo em situações extremas. Os alemães agora estão a conseguir perceber que tiveram a possibilidade de escolher. É uma questão moral; se uma pessoa pode escolher o bom ou o mau. Foi muito fácil para a Lucia escolher o mal.

Ao mesmo tempo em Os Despojos de Berlim há um drama familiar bastante intenso porque a família de Lucia sofre imenso com o sucedido.
É verdade, o castigo não recai em Lucia, que é antiquária, tem a sua fortuna e vive de forma confortável, com uma boa posição social em Zurique. Para a família é algo que pesa imenso. Na Suíça nos anos 70 e 80 apareceu uma nova geração que questionou: o que sucedeu na II Guerra Mundial? Porque é que ninguém nos conta nada? Queremos a verdade. E tiveram-na, e doeu.

Mas muitas pessoas dessa época estão a morrer e há muitos segredos que vão ficar para sempre escondidos…
Na Suíça, depois de terminada a guerra, houve um medo muito grande. Em 45 era possível encontrar pessoas que queriam perseguir os criminosos da Segunda Guerra Mundial, mas em 46 não! Isto porque a Suíça sabia muito bem que as pessoas pensavam que um país neutro não podia ser um país desse género.

Que tipo de pesquisa fez para escrever este romance?
Analisei todo o tipo de biografias, autobiografias, cartas da época, documentos onde há um ser humano a contar a sua experiência. Nada de geral, nada de filosofia… só os detalhes que quem está a escrever um romance pode utilizar.

Varia muito de género dentro da escrita de romances. Os Despojos de Berlim é uma história completamente diferente de Taking Lives (adaptado ao cinema com o título Tirar Vidas, com Angelina Jolie e Ethan Hawke).
O que me interessam são histórias que não se podem contar enquanto historiador ou jornalista por faltarem os detalhes pessoais. Os sentimentos só se podem contar através da imaginação. Habitualmente, começo com factos verdadeiros e depois faço com que surja a história como eu a vejo.

A sua experiência como jornalista é agora fundamental na sua carreira de escritor?
Sim, sim. Como é que se sabem as coisas se não se pergunta? Ser jornalista é essencialmente questionar.

Depois de já ter vivido em várias partes do Mundo como é que veio parar a Portugal?
Porque gosto muito da vida em comunidade das pequenas aldeias de Portugal. Há mudanças, claro, novas gerações, mas também um sentido de comunidade que é maravilhoso. Depois de Nova Iorque, onde por vezes também se encontra um sentido de comunidade nos prédios de Greenwich Village, encontrei cá uma paisagem tão bonita, embora agora esteja carbonizada…

Qual é sua relação com Portugal? Há a possibilidade de algo do nosso país entrar nos seus romances?
Sim, o Taking Lives, por exemplo, é baseado numa história que aconteceu cá, de um serial killer que surgiu numa aldeia próxima da minha (Miranda do Corvo).

Tem algum contacto com a cultura portuguesa?
O meu português não é muito bom, mas gosto muito do Miguel Torga. Tenho encontros com autores portugueses mas também com estrangeiros que vivem aqui, já são muitos. É um país sossegado, tranquilo… complicado (risos). As complicações são sempre necessárias para os escritores.

(Entrevista realizada em 2005)

Mário Zambujal – Entrevista a propósito de “Uma Noite Não São Dias”

Autor. Esta é a palavra que Mário Zambujal escolhe para se definir. Nem escritor, nem jornalista, nem nada mais. Só autor. E foi enquanto “autor” de Uma Noite Não São Dias, editado pela Planeta, que conversou com o Porta-Livros. Falou do seu novo romance, mas também do inevitável Crónica dos Bons Malandros, sempre presente 30 anos depois de ter sido editado. E falou do futuro (a acção do seu romance decorre em 2044), de jornalismo (“temos um jornalismo em que não se respeita muito alguns deveres, mesmo deontológicos”), do processo de escrita (“As palavras não podem ser compreendidas só por um determinado núcleo de pessoas, há uma necessidade de clareza.”), e de muito mais, porque, além de autor, é um excelente comunicador.

Em Uma Noite Não São Dias viajou até ao futuro para, a essa distância, conseguir analisar/criticar mais à distância a actual sociedade?
É claro que está mais em causa a sociedade actual. O livro é uma paródia, não tem nada de científico. De qualquer forma, tem indícios e tendências, como são o facto de o governo em 2044 só ter mulheres. Bom, há uma tendência cada vez maior da presença feminina, é uma tendência crescente, visível já, e, portanto, a partir da tendência faz-se a caricatura de um tempo futuro. Assim como o edifício onde se passam as coisas, a Avenida Vertical, também é uma tendência das cidades, cada vez mais construídas em altura porque as populações crescem e o planeta não cresce. O chão do planeta é sempre o mesmo. Portanto, a tendência de construir em altura nesta imensidão dos ares ainda não ocupados é para onde a humanidade se dirige. 

Caso cá esteja em 2044 acredita que vai encontrar muitas semelhanças com as previsões feitas neste seu romance?
Por exemplo, o livro começa logo com uma manifestação de pessoas que estão contra a mudança da idade da reforma, estava nos 80 e querem passar para os 83. Ora ainda há dias lia no jornal que querem passar aqui para 67 anos e em Espanha também vai subir a idade da reforma, e assim, em 2044, se não for 80, andará pelos setenta e tal. São os indícios que a sociedade actual nos dá. Tive o cuidado de incluir um historiador que se dedica a estudar a primeira década do milénio, ou seja, são os dias que estamos a viver hoje. 

A sociedade que encontramos em 2044 é muito fria e impessoal. Teme que seja esse o nosso caminho? O seu romance pretende funcionar como um alerta para essa eventualidade? Ou é uma inevitabilidade?
É para isso que temos caminhado, e não é só de agora. O facto de ter a idade que tenho já me permite comparar gerações, comparar épocas, e estamos já numa época de muito mais acabado individualismo e de as pessoas se isolarem cada vez mais com as suas máquinas sofisticadas e de o convívio ser praticamente liquidado. Portanto, essa tendência do isolamento e de uma certa frieza entre as pessoas, eu penso que já começou há uns anos largos. 

É mais fácil escrever histórias com acção no passado ou no futuro? Ou o essencial são as personagens e o resto é “acessório”?
Neste tom de paródia, quando assumo isto como paródia, isento-me de responsabilidades, de dizer: “Isto vai acontecer.” É evidente que o passado é outra responsabilidade, porque requer uma exactidão. Afinal de contas, as coisas já se passaram e não podemos escrever sobre elas: “Foi mais ou menos isto que se passou. É capaz de ter sido assim.” Requer-se alguma afirmação. Em relação ao futuro… costuma dizer-se o futuro a deus pertence, mas nós podemos fazer conjecturas sobre as coisas, sobre a progressiva importância das máquinas nas nossas vidas e no comando das nossas vidas. Eu já não consigo comer uma sandes sem ser numa máquina que me venda sandes, já não consigo tirar um bilhete de autocarro ou de metro sem ser numa máquina, há imensas máquinas que estão a tomar o papel daquelas pessoas simpáticas que diziam: “Olá, está bom? Então o que é hoje?”

Como é que chega às suas personagens? Inspira-se em pessoas reais, em comportamentos que vai observando ou simplesmente saem-lhe da imaginação?
Não me inspiro em ninguém específico, mas, quando criamos uma personagem, estamos a criar figuras à semelhança daquelas que existem, ou seja, tem o cabelo no lugar do cabelo, tem as orelhas no lugar das orelhas, os braços, as pernas, está tudo no lugar das pessoas reais. E, mesmo do ponto de vista mental e psicológico, ninguém inventa sentimentos, e, portanto, as pessoas são como são as pessoas. As pessoas irreais, as personagens, no fundo são como são muitas pessoas: ou são invejosas, ou generosas, ou bem-dispostas, ou carrancudas, e a personagem construída constrói-se com base naquilo que existe, naquilo que reconhecemos como são as pessoas. Sob pena de serem induzíveis. Eu posso dizer que não quero fazer as pessoas como são as pessoas e pôr a orelha atrás da nuca. É uma coisa estúpida. E se quiser inventar um sentimento não consigo. Os sentimentos são os que existem, são os da condição humana.

Como é que se sente ao criar vidas ou ao tirar-lhes a vida?
É um exercício que me dá prazer. Eu, como entusiasta jornalista (foi profissão a que me dediquei de alma e coração, com entusiasmo), hoje não tenho a menor dúvida que prefiro fazer a minha ficção, a minha fuga deste mundo real para outros que vou inventando. Hoje não queria ser jornalista, não sei porquê, não sei se por o jornalismo estar mais… (pausa) Temos grandes jornalistas em Portugal e mesmo entre a rapaziada nova, mas também temos um jornalismo em que não se respeita muito alguns deveres, mesmo deontológicos.

Tem uma escrita simples, directa e objectiva. Sai assim naturalmente ou é uma “regra” que impõe a si próprio?
Um bom livro, para mim, é um acto de comunicação, é como um jornal. Eu tenho alguma coisa para contar e vou contar. E a comunicação reclama que aquele a quem a dirigimos a receba e a compreenda. E, portanto, tenho essa coisa do jornalista… os jornais têm um público heterogéneo e não vale a pena estar a escrever um jornal de informação geral como se fossem todos arquitectos e engenheiros. As palavras não podem ser compreendidas só por um determinado núcleo de pessoas, há uma necessidade de clareza. E a clareza é uma coisa que pode passar a ser a claridade. Se for uma bela prosa, tem claridade, que é já um estado superior da clareza.

Numa época em que há a moda dos romances com várias centenas de páginas teme não ser “levado a sério” por ter optado por escrever um livro com “apenas” 120 páginas?
Acho que como autor reflicto aquilo que sou como leitor. Eh pá, e num calhamaço muito grande já não pego ou, então, perco-me à página 48 ou 74 ou 128, acabando por desistir. E como sou a mesma pessoa enquanto leitor e enquanto autor, tenho uma necessidade, que acho que é fundamental (a ministra da Educação até falou nisso), que é querer saber o fim, prender um espectador a uma narrativa. E isso não se faz em 700 ou 800 páginas. Vivemos uma época diferente, de solicitações, distracções, é muito difícil ter uma vida tão vazia de outras coisas que pegue num livro de 700 páginas. Mas há pessoas diferentes de mim e podem adorar livros muito grandes.

O seu primeiro livro, Crónica dos Bons Malandros, conheceu um sucesso estrondoso e quase trinta anos depois continua a ser uma referência. Acha que esse sucesso de alguma forma ofuscou os seus trabalhos literários posteriores ou nem sequer pensa no assunto?
É espantoso que o livro saiu há trinta anos, em 1980, e ao longo deste tempo vejo nas livrarias o meu último livro, seja ele qual for, e o primeiro, que é o Crónica dos Bons Malandros. Isso tem que ver com a adesão nas escolas porque é um livro que incita à leitura. Segundo o que alguns professores me têm dito, quando eles (alunos) não querem ler mais nada, espeta-se com a Crónica dos Bons Malandros e talvez assim eles vão lá. Foi um livro escrito sem nenhuma presunção de ser útil para coisa nenhuma, era só uma brincadeira com os meus amigos, e pasmo como é que trinta anos depois está aí nas livrarias em 32.ª edição, fora as do Círculo de Leitores.

Esse sucesso não lhe pesa demasiado em cima dos ombros?
Pesa só neste sentido: agora estou a escrever um livro, acredito que seja o meu melhor livro, admito, admito, mas, seja o que for, hei-de estar sempre marcado pela Crónica dos Bons Malandros. Desse não me liberto, porque foi um livro que pela sua simplicidade de escrita ganhou uma horizontalidade. Tanto é lido por professores da universidade como pelo gajo que me lavava o carro – leu aquilo vezes sem conta.

Já tem algum romance novo em preparação? Pode revelar algo sobre o mesmo?
É um livro de amores, de encontros e desencontros, e de como a vida às vezes parece que torna impossível um encontro e depois, bruscamente, esse encontro é perfeitamente natural e de como pode a vida dar outra volta e já não ser assim.

Entende que o livro no seu actual formato chegará a 2044 ou acabará por ser substituído pelos “livros” de formato electrónico?
Sim, não tenho a menor dúvida que chega. A modernidade, as inovações, além da sua importância, têm uma coisa, o fascínio da novidade. É algo que vai desaparecendo à medida que a novidade deixa de o ser. A importância das comunicações electrónicas é um processo adquirido pela humanidade. Em relação aos livros, estou convencido que o livro de papel há-de ter sempre o privilégio de ser o livro de papel, porque, mesmo com todo o fascínio que tem a informática, o que pode acontecer? Pego num livro de papel, vou para a beira-rio, abro quando abro, vejo quando vejo. Podem dizer que o computador também o faz, mas como diz o anúncio… “não era a mesma coisa”.   

Já trabalhou em rádio, televisão e na imprensa. É capaz de escolher o seu meio de comunicação de eleição?
Eu gosto da escrita, sou decididamente da escrita. Mesmo quando parti para essas coisas das televisões, era um homem da escrita. Foi muito difícil convencer-me, e ainda hoje não sei como me deixei dobrar para ir para a televisão, porque tinha aversão autêntica. As maquinarias assustavam-me e tinha noção que a televisão era uma coisa de aparências de onde ninguém sai igual ao que realmente é. Pode aparentar ser melhor ou pior, porque exige telegenia e ter capacidade de enfrentar uma câmara.

Tem tido várias actividades ao longo da sua vida. Se tivesse de se apresentar a alguém que não o conhecesse, como o faria? «Olá, chamo-me Mário Zambujal e sou…»
Há uma palavra que para mim é “a” palavra: autor. Porque autor é uma coisa irrefutável, é autor de alguma coisa que se fez, quer seja um livro quer seja um crime. Depois, há as discussões se este é poeta ou não é poeta, se é escritor ou não é escritor, que é o conceito de rótulo e o que cabe lá. E isso a mim não me interessa absolutamente nada, o que me interessa é esta palavra autor. A palavra autor significa uma coisa concreta que se fez, o resto são rótulos que dependem de conceitos.

Anthony de Sá – Entrevista a propósito de “Terra Nova”

Anthony de Sá, que viu recentemente editado em Portugal pela Dom Quixote o seu romance Terra Nova, é um descendente de imigrantes açorianos no Canadá. As suas raízes inspiraram-no a escrever uma estimulante obra de estreia e nesta entrevista ao Porta-Livros fala-nos, em simultâneo, de Terra Nova e da comunidade portuguesa no Canadá, dois temas naturalmente indissociáveis. Veja aqui a crítica ao livro.

Como lhe surgiu a ideia de escrever Terra Nova?
Terra Nova é o resultado de uma redescoberta. Depois de vários anos a renegar as minhas raízes culturais teve lugar uma série de eventos que me forçaram a reconsiderar os meus laços a uma cultura que amo profundamente. Foi assim que nasceu Terra Nova.

Terra Nova parece ser uma obra muito pessoal. Viveu muitas das situações lá contadas ou inspirou-se em conversas, relatos, entrevistas?
Terra Nova é ficção, mas um escritor deve escrever sobre o que conhece. Eu conhecia a comunidade onde cresci. Compreendo os apertados laços familiares que nos unem, tanto do lado da minha mãe como do meu pai. Muito do que eu escrevo é tomado emprestado de histórias que ouvi da minha família, especialmente da minha avó. Muitas das situações que aplico às personagens principais são inspiradas em outras pessoas que influenciaram a minha vida. Manuel, Georgina, Terezinha e António são a combinação de muitas pessoas que integraram partes da minha vida mas que se juntaram para formar novas personagens.

A religião e as tradições portuguesas estão muito presentes nesta obra, nomeadamente no que toca às “cenas” açorianas. Que tipo de pesquisas fez para retratar de forma tão fiel e certeira estas vertentes tão importantes da sociedade portuguesa?
A pesquisa é fundamental para “fazer as coisas direito”. Muitas das tradições que os açorianos trouxeram das ilhas para o Canadá sobreviveram e, até, desenvolveram-se. Festivais e tradições eram bastante ricos. A igreja em Toronto celebrava como se estivesse em casa; era um laço importante com o mundo que tinham deixado para trás. Através do diálogo como elementos da família e informações de arquivo relativas a eventos históricos, como a Frota Branca ou a oferenda dos pescadores à Terra Nova nos anos 50, tudo isso foi encontrado em museus em St. John’s, na Terra Nova. Mas uma grande parte da pesquisa resultou de caminhadas pelas ruas de Lomba da Maia num Verão, com indicações das personagens e dos tons culturais deste lugar de onde vieram os meus antepassados.

Escrever sobre emigração surgiu naturalmente ou tratou-se de algo premeditado?
Terra Nova arrancou com a escrita de The Shoeshine Boy. O interesse gerado por essa história conquistou um grande nível de atenção. Foi em conversas com o meu editor que descobrimos que a história da imigração portuguesa, relativamente nova no Canadá, ainda tinha de ser contada. É por aí que começo – com a ideia premeditada de que quero representar a travessia do Atlântico com uma personagem como Manuel. Ele torna-se representativo dos homens que desejam algo mais. O sonho de Manuel é construir um futuro para si num mundo que ele encara como insular e sufocante. Mas o processo é orgânico e a história evolui naturalmente, sem forçar as cenas.

Pretende que este livro seja uma espécie de homenagem aos imigrantes portugueses no Canadá?
É demasiado ambiciosa a ideia de sugerir que esta história representa todas os imigrantes portugueses no Canadá. Terra Nova é inegavelmente “português”, mas como um crítico no Canadá tão eloquentemente referiu “incapaz, tanto de se integrar como de se manter à parte, ele [Manuel] é qualquer imigrante, todo o imigrante, sempre à procura de um sonho que não pode ter, e nunca em casa.”
Tanta gente partiu de Portugal para o Canadá por diferentes razões. No entanto, há algumas semelhanças notórias: muitos deixaram a família parta trás, vieram para um local sobre o qual pouco sabiam e sabiam também que, assim que partissem, não havia regresso possível. A vida nunca mais seria a mesma. Acho que esta é a realização mais impressionante para muitos que chegaram ao Canadá com um sonho. Nunca se tornaram inteiramente canadianos e nunca poderiam regressar ao mesmo lugar, porque tudo tinha mudado. Infelizmente, era uma espécie de limbo, viver num mundo onde o lar poderá ter parecido uma ilusão.

Há interesse no Canadá por uma obra sobre a comunidade portuguesa aí radicada?
Terra Nova recolheu uma grande dose de atenções no Canadá, mas devo dizer que essa atenção pode ter sido estimulada pela tremenda resposta que o livro obteve na comunicação social generalista. Tanto quanto sei, a comunidade portuguesa respondeu maioritariamente de forma positiva. Nomeadamente, fui convidado para ser o orador principal em algumas conferências internacionais dedicadas a questões da identidade e da diáspora.

Qual é o papel da comunidade portuguesa no Canadá hoje em dia, e como são aceites e integrados os imigrantes portugueses e seus descendentes na sociedade canadiana?
O Canadá tem uma saudável e vibrante comunidade portuguesa. A parte sul de Ontário tem uma vasta população de 300 000 luso-canadianos. Dessa forma, há vários jornais, rádios e estações de televisão que abordam os assuntos da comunidade e a informam sobre o seu lugar no mundo.
Contudo, o grande teste social de assimilação, tanto quanto me é dado ver, foi relativamente mal sucedido. As gerações posteriores já funcionaram muito melhor, mas muitos dos primeiros imigrantes não se adaptaram por completo. Ainda tenho tias que não sabem inglês, mesmo vivendo neste país há 40 anos. É incrível como se desenrascaram, mas é também um testemunho do espírito humano e dos vários níveis de comunicação que nos permitem avançar.

Que tipo de reacções teve de portugueses, ou seus descendentes, residentes no Canadá?
Em geral, a reacção tem sido esmagadoramente positiva. As pessoas têm muito orgulho no facto de “um dos seus” ter sucesso em qualquer área que seja. Há sempre uma facção de pessoas na comunidade que tentará contrariar as palavras escritas em Terra Nova, considerando-as um estereotipo, algo de que gostariam de se distanciar. Eu compreendo isso, mas está na hora de abrirmos as portas e as janelas e de deixar as nossas casas respirarem.

E dos Açores, já recebeu alguma indicação de como terá sido recebido o livro?
Na véspera de Natal do último ano estive em casa do meu tio, onde toda a gente se junta. Estavam tremendamente orgulhosos porque o padre de Lomba da Maia se referiu à publicação do meu livro e ao quanto necessitávamos da “nossa” história. Foi algo muito belo de ouvir.
Também fui convidado para participar numa conferência, em Outubro passado, que teve lugar na Universidade dos Açores, em Ponta Delgada. Mais uma vez, fui muito bem acolhido e houve um genuíno interesse na minha obra. Acabou por originar novos convites para falar no Brazil, em Santa Catarina, e na Casa dos Açores, em Toronto, assim como no consulado. Foi complicado tentar lidar com toda esta atenção porque tenho mulher e três filhos pequenos e sou um pedagogo a tempo inteiro que estava a escrever um novo livro. O meu prato está cheio. Visto assim, nem parece trabalho e ver a reacção das pessoas a Terra Nova é tocante e avassalador.

O que tem para oferecer a seguir aos seus leitores? Em que projectos literários está envolvido, além do já conhecido Carnival of Desire?
Estou actualmente a escrever o meu novo romance Carnival of Desire. O livro revisita a família Rebelo e segue-os de perto através do tempestuoso período na história da nossa cidade e da comunidade portuguesa em que ocorreu a brutal violação e assassínio de Emanuel Jaques, em 1977. O livro já foi vendido para o Canadá e Estados Unidos, mesmo estando ainda incompleto. Há uma grande dose de entusiasmo à volta do novo livro. Espero vê-lo também em Portugal.
Estou a fazer pesquisa para outros dois livros, mas são ainda ideias muito cruas. Devem resultar em algo mais.

Não teme ser rotulado de escritor da comunidade portuguesa, dado que tem optado por escrever apenas sobre os portugueses no Canadá?
Não sou um escritor português. Sou simplesmente um escritor, sem ligações a nenhum grupo em particular. As complexidades em múltiplas escalas das personagens e das histórias interessam-me enquanto escritor e os romances que desenvolvo podem levar-me para além do limitado âmbito de ser definido pela minha etnicidade.

O que conhece da literatura portuguesa e quais são as suas preferências e referências?
Infelizmente, não sou grande especialista no trabalho dos escritores portugueses, para lá dos grandes nomes – Lobo Antunes e José Saramago. Acrescento a esta lista o mais recente fascínio, pelo menos na América do Norte, com Fernando Pessoa. Recentemente, travei conhecimento com José Luis Peixoto e tive a oportunidade de ler Blank Gaze – é lindamente poético. Tanto quanto me é dado ver, o futuro da literatura portuguesa é bastante promissor.

Guillermo Martínez – Entrevista a propósito de “Crimes Imperceptíveis”

O escritor argentino Guillermo Martínez esteve em Portugal em 2004 para apresentar o seu título Crimes Imperceptíveis, edição da Ambar. Com Oxford por cenário, trata-se de um policial clássico, com a particularidade de ser vivido no mundo da matemática. Martínez descreveu assim a sua obra: “Crimes Imperceptíveis é um policial com enredo quase clássico, onde um dos detectives é um lógico matemático que tem de estabelecer a ligação entre uma série de crimes e uma série de símbolos lógicos que aparecem em cada crime”.

Crimes Imperceptíveis, apesar de ter um autor argentino, exibe as características de uma obra britânica. Concorda?
Apesar do enredo do romance corresponder à tradição do romance inglês, o facto de uma das personagens ser argentina e o modo como vê o mundo inglês, somado a que outra das personagens é um mestre argentino, creio que lhe dá um aspecto diferente do romance policial clássico. Para além disso, o mundo inglês é observado pela perspectiva de um estudante argentino e ilumina de um modo argentino o cenário e os acontecimentos. O facto de ser argentino está também relacionado com a decisão final de retirar-se de cena sem intervir.

É uma característica dos argentinos?
Não. Mas aproveitei o facto de ser estrangeiro para que se pudesse retirar do local dos acontecimentos sem interferir.

De qualquer forma é um policial do tipo clássico, dentro do estilo dos anos 30 e 40.
Isso é, de certa forma, o que leitor pensa ao princípio. Depara-se com um romance que lhe parece clássico. Neste momento há um doutoramento em literatura, na Argentina, que fala da desconstrução do relato policial clássico neste romance. Se se observar com mais atenção percebe-se que a figura do detective, do investigador e da vítima (três figuras típicas das novelas policiais) estão modificadas. E há outros elementos em que distorce o enredo aparentemente clássico. Sobretudo, o ponto de vista de um lógico matemático sobre a criminalística, e acho que é isso que dá uma certa originalidade ao livro.

Porque resolveu envolver a matemática no enredo?
Aparece de um modo quase instrumental. É a maneira como um matemático observaria os acontecimentos. O que me interessava no romance era mostrar até que ponto o que é uma conjectura, uma hipótese, pode sobrepor-se à realidade e determinar uma segunda realidade com consequências trágicas

Tem formação matemática?
Tenho um doutoramento em matemática e um pós-doutoramento em lógica matemática.

Conseguiu incluir a matemática de um modo simples.
Sim, é um romance que não requer nenhum conhecimento prévio dos leitores e, para além disso, não é o único elemento do romance. Há partidas de ténis, histórias de amor, conversas sobre outros temas, sobre o que é um crime perfeito… Acho que os leitores não têm de se assustar por encontrar demasiada matemática no livro.

Não há o perigo de retirar alguma emoção?
Nunca pensei que a matemática estivesse divorciada do emocional. Quem ler o meu livro pode aperceber-se dos elementos do romantismo e da aventura que pode encontrar também na investigação matemática. Por exemplo, há um capítulo inteiro sobre o último Teorema de Fermat que foi um problema que os matemáticos tentaram resolver durante trezentos anos e que se chamava o Moby Dick dos matemáticos.
De certa forma, o épico é o mesmo: capturar a baleia branca ou demonstrar um teorema muito difícil. Há pessoas que dedicam a vida inteira a isto.

As equações matemáticas têm semelhanças à resolução de um crime?
Não necessariamente, mas neste caso há um vínculo. A série lógica propõe um problema de abstracto para resolver e parte do interesse do romance é que o leitor pode tentar adivinhar ao mesmo tempo que os investigadores qual é o símbolo que virá a seguir, ou seja, qual será o próximo crime.

Como é que alguém que estudou matemática se transfere para a escrita?
Foi ao contrário. A literatura esteve sempre em primeiro lugar na minha vida. O meu pai foi um escritor amador muito prolífico. Na minha família sempre houve interesse pela literatura e desde criança li muitos livros. A matemática foi um acidente muito posterior, na época de universidade, mas sempre me considerei um escritor. O meu primeiro livro foi escrito quando tinha 14 anos. O primeiro livro de contos surgiu aos 25 anos. A carreira matemática foi algo paralelo, mas posterior.

Então reformulo a questão. Estando ligado à escrita, como decidiu estudar matemática?
Dentro da matemática encontrei alguns temas que me interessavam por terem uma costela filosófica: há temas da lógica, alguns paradoxos lógicos, a discussão dos infinitos. Esse mundo está muito aproximado da literatura. Interessou-me esse aspecto e por isso comecei a estudar dentro da matemática a parte relacionada com lógica matemática.

Aproveita sempre os conhecimentos em matemática nas suas obras?
Nem sempre. Tenho um livro de contos com temas muito variados. Também sou conhecido no meu país pelos contos eróticos. Só no caso de Crimes Imperceptíveis me aproveitei dos meus conhecimentos do mundo académico e do mundo dos matemáticos.

As viagens que faz para promover os seus livros são aproveitadas para retirar ideias?
Sim, sim. Não será impossível que num futuro policial algum momento do enredo decorra no Porto. É uma cidade maravilhosa, do tipo que eu gosto, onde o passado persiste no presente. Há uma convivência entre o passado e o presente e foi por isso que escolhi Oxford como cenário de Crimes Imperceptíveis. Há muitas outras cidades na Europa que conservam o peso dos séculos.

E na Argentina?
Nem tanto. Até porque lá é difícil do ponto de vista policial separar a intriga das ligações com a corrupção e as ligações à política. Assim, é difícil pensar na figura de um investigador independente, que é uma das regras do jogo do policial clássico.

Viveu em Inglaterra durante dois anos. Aproveitou algo dessa sua experiência?^
Sim, claro. O ponto de vista sobre Oxford é o mesmo que eu tive quando estive lá.

Mesmo na construção das personagens?
Não, as personagens são todas fictícias. O investigador (Arthur Seldom) já aparecia num livro anterior. O narrador também é, de certo modo, a continuação dessa personagem de Acerca de Roderer.

 (Entrevista realizada em 2004)

Julia Navarro – Entrevista a propósito de “A Irmandade do Santo Sudário”

Julia Navarro, jornalista espanhola, estreou-se aos 50 anos no mundo literário com um romance de aventuras, A Irmandade do Santo Sudário (edição Gótica/Círculo de Leitores em 2004 – nova edição Bertrand em 2015), onde o protagonismo é dado ao manto que terá envolvido o corpo de Cristo. Várias personalidades e sociedades secretas lutam entre si, ao longo de 2000 anos, para se apoderarem da preciosa relíquia. Julia Navarro explicou como nasceu e cresceu a obra, cuja acção até passa por Portugal.

Como lhe ocorreu escrever um romance tendo por protagonista o Santo Sudário?
Por acaso! Já escrevi livros sobre política, ensaios, história e nunca pensei em escrever um romance. Surgiu um dia, ao ler uma notícia perdida num jornal – quando estava na praia – sobre um cientista, um microanalista forense, um dos muitos que estudaram o Santo Sudário. Trazia uma pequena biografia do cientista e uma pequena nota sobre o sudário e a controvérsia que há na comunidade científica sobre a sua autenticidade.
Nunca tinha lido nada sobre o tema, nem me interessara até então, mas ao ler sobre esta controvérsia (há quem diga que o sudário é falso e com origem no século XIV e outros que dizem que é autêntico) a minha imaginação despertou. Comecei a “escrever” mentalmente o romance. Uns dias mais tarde, estava no Sul de Espanha, junto a Portugal, e levei o meu filho ao castelo de Castro Marim (uma fortaleza templária) e aí acabei de “escrever”mentalmente o meu romance. Aí decidi que os templários tinham de ter um papel importante no enredo.

SSÉ tudo ficção?
É um romance de ficção. Está escrito no presente e no passado e há dados sobre o que se diz na lenda do Santo Sudário, como o facto de ele ter aparecido no século IV na cidade de Edessa. Fica aí até ser levado pelos cruzados para Constantinopla. Com todos esses acontecimentos históricos o que faço é montar um romance.

Não temeu ter reacções negativas por parte da Igreja por usar um símbolo como este?
Não, porque este não é um romance contra nada nem ninguém. Não é um romance religioso, mas sim de aventuras. A parte religiosa, trato-a com respeito porque há milhões de pessoas no mundo que acreditam que o Santo Sudário é o manto que envolveu o corpo de Jesus. Há que ter respeito pelas crenças. Nunca seria capaz de usar um elemento religioso para fazer uma burla, uma crítica.

Após ter escrito o romance o Santo Sudário passou a ter algo de poderoso para si?
O Santo Sudário tem algo de especial, transcende algo dele. Talvez seja a fé de milhões de pessoas. Se perguntar se acredito que é na realidade o Santo Sudário respondo: “Não sei”. Mas também a Igreja não o assegura e permite que seja estudado por cientistas. O Papa, há uns anos, visitou a Catedral de Turim e disse que o Santo Sudário era um enorme desafio para a Igreja. Há algo de especial, mas pode ser que seja a fé nele depositada.

A teoria aplicada no romance – a existência de dois sudários – tem algum fundamento?
É mentira, claro. Um padre meu amigo disse-me: “Pena que o tenhas inventado, haveria de ser a verdade”.

É inevitável estabelecer um paralelo com O Código Da Vinci.
Não tem nada a ver, mas não me chateia a comparação. Há muitas diferenças, porque não questiono fundamentos da fé e das crenças dos cristãos, nem entro em discussões sobre a autenticidade do Santo Sudário. O Código da Vinci” pode ter-me beneficiado, mas quando escrevi o romance ainda não tinha sido publicado.

Porque há agora tanto interesse em romances com fundo religioso?
Vivemos numa sociedade com uma enorme crise de valores, e o Homem está a deixar de lado as crenças tradicionais. O Homem desde sempre perguntou de onde vimos, qual o sentido da vida? Essa busca é feita de forma distinta. Às vezes em páginas de livros.

É uma mistura de romance policial com a vertente religiosa. Porquê?
Não é um romance religioso, apenas há uma relíquia que está no meio de uma aventura e de uma investigação policial.

E a Julia Navaro é religiosa?
Sou filha da minha geração, ou seja tive uma educação religiosa e tenho um sentido transcendental da vida: Isso significa que sou religiosa? Não sei, não sei. Acredito em Deus.

Não lhe provocou problemas interiores fazer um romance com um símbolo religioso?
Não, não. A vida tem de ter um sentido para além de estarmos aqui, mas continuamos à procura dessa resposta desde que somos Humanidade. Há pessoas que encontram essas respostas na religião, outras não, como é o meu caso. O Ocidente tem 2000 anos de cultura cristã e independentemente de ser católica praticante ou não estamos impregnados dessa cultura.

Acredita na existência de sociedades secretas como as que há no seu livro?
Acho que sim, no mundo há seitas, pessoas que agem na sombra. Também acho que na sociedade da globalização há pessoas que tomam decisões sobre os nossos países. Apesar de ser chamada de sociedade da informação, está muito mal informada. Aparentemente toda a informação está aí, mas cada vez sabemos menos. Sociedades económicas, multinacionais, tomam decisões sobre o futuro dos nossos países, sem nos apercebermos. Acreditamos que as nossas democracias formais são as que funcionam, mas nesta época há um poder globalizador. Também acredito que há seitas religiosas, formadas por gente fanática, o que me assusta porque no fanatismo há gente que acredita em nome das suas crenças religiosas tudo lhes é permitido. A mim tudo o que seja uma seita, que seja secreto, provoca-me repulsa. Na democracia não há lugar para sombras, nem organizações secretas.

O livro
A Irmandade do Santo Sudário, editada pela Gótica na colecção Cavalo de Tróia e pelo Círculo de Leitores, é um envolvente livro de aventuras, escrito de uma forma simples que cativa o leitor desde a primeira página.
Tudo começa quando ocorre um incêndio na catedral de Turim, onde está religiosamente guardado o Santo Sudário, manto que terá envolvido o corpo de Cristo. No local aparece o cadáver de um homem sem língua e na prisão já penava outro com as mesmas características, que anos antes tentara roubar o sudário. O Departamento de Arte, dirigido pelo detective Marco Valoni e pela historiadora Sofia Galloni, enceta uma empolgante investigação, mas a autora faz-nos também recuar no tempo, passando pelo Império Bizantino, a França de Filipe, o Belo, Portugal e Espanha, sempre com os Templários bem presentes.
Na actualidade os alvos da investigação são homens de negócios cultos e refinados, figuras da Igreja, com o elemento comum de serem solteiros, ricos e poderosos.

(Entrevista realizada em 2004)

Sérgio Luís de Carvalho – Entrevista a propósito de “O Destino do Capitão Blanc”

Sérgio Luís de Carvalho, autor do recentemente editado romance O Destino do Capitão Blanc (um lançamento da Planeta), deu uma entrevista ao Porta-Livros onde aborda esta sua obra cuja acção decorre na fase final da Primeira Guerra Mundial. O sidonismo é outros dos temas incluídos neste romance que, em simultâneo, traça um retrato de um homem do seu tempo (o Capitão Blanc), dividido entre a guerra que enfrenta e os seus conflitos interiores. Sérgio Luís de Carvalho aborda e explica, nesta entrevista, o conteúdo do seu livro, assim como nos fala, em termos gerais, do que entende por romance histórico.

O Destino do Capitão Blanc pode ser catalogado como um romance histórico, mas na verdade acaba por ser uma obra bastante intimista centrada na vida e nas relações pessoais de um militar português cujas preocupações vão muito para além da guerra e da política? Como optaria por classificar o seu romance?
Sempre parti do princípio que o chamado romance histórico é um género de literatura no fundo igual a qualquer outro género. Trata das mesmas realidades e questões, só que algures noutro tempo. Por isso, salvaguardando os respectivos contextos narrativos e factos históricos, claro, as questões fulcrais e basilares que Blanc enfrenta em pouco divergem das de um soldado medieval ou das de um legionário romano. Independentemente das conjunturas, da visão do mundo, da realidade de época e do quotidiano, as questões pessoais essenciais estão lá: o medo, o amor, a coragem, o poder, a guerra, o desejo de acertar contas, a vontade do regresso a casa, as saudades, a responsabilidade, a culpa… Poderíamos estar a falar de Ulisses, de Ricardo III ou do soldado Ryan, afinal.
Mas sim, classificaria este romance como “histórico” porque cumpre esse requisito básico: o de se passar no passado e ser baseado num contexto e/ou factos históricos.

Ao arrancar para este projecto, pretendia escrever sobre um indivíduo ou sobre um momento histórico? Ou seja, preocupavam-no mais as questões relacionadas com a complexa vida pessoal do Capitão Blanc ou as relacionadas com o relato da guerra e com o Sidonismo?
Na verdade o que me cativou desde logo foram os eventos das derradeiras horas da Primeira Guerra. Trata-se de algumas das mais estranhas e absurdas horas de que há registo. O armistício é assinado no dia 11 de Novembro pelas 6 horas da manhã, e o cessar-fogo é estipulado para as 11 horas: a 11ª hora, do 11º dia do 11º mês de 1918. Mas as ordens dos altos comandos aliados estipularam que os ataques programados até às 11 horas se mantivessem, desde que nenhum tiro fosse disparado depois das 11 horas. Esta decisão incompreensível conduziu à morte de milhares de soldados. O último morreu às 10.59. E note-se que as derradeiras ofensivas foram desencadeadas contra trincheiras alemãs que iriam ser abandonadas nos dias seguintes, como o armistício estipulava.
Este facto, que surge num dos últimos capítulos do romance, foi, afinal, o ponto de partida. Mas claro que eu queria que um militar português estivesse envolvido nos eventos desse dia. Assim nasceu o capitão Blanc, e começou a forjar a sua própria história, a sua memória, os seus sentimentos, angústias, esperanças. E o romance passou, gradualmente, a girar em torno dele e, claro, dos homens do CEP. Ao fim de pouco tempo, não era o Blanc que girava em função desse massacre, mas esse massacre que começou a tomar sentido em função da história do capitão Blanc. 

O que o levou a optar por este período específico da História de Portugal para servir de pano de fundo ao seu romance?
Antes de mais a evidência histórica. Durante os últimos meses da Primeira Guerra, Sidónio Pais era presidente e o sidonismo era uma força importante, se bem que aqui e ali mostrando já sinais de erosão. Esse contexto era incontornável. Mas o Blanc vai, por analepse, recontando-nos a sua história pessoal que se confunde com os derradeiros anos da monarquia, com a implantação da república e com a divisão do Partido Republicano. Blanc andou pela Sintra e pela Cascais burguesas, pelo Real Colégio Militar (actual Colégio Militar), pela Escola de Guerra (actual Academia Militar), combateu as incursões do Paiva Couceiro, tornou-se sidonista…
Bom, era inevitável que, tomando como ponto de partida (e de chegada) o massacre de 11 de Novembro, o contexto fosse o da guerra de 14-18 e o de Portugal sidonista e republicano.

Os soldados portugueses eram menosprezados pelos seus próprios aliados. Com este romance pretende, nomeadamente, fazer justiça sobre o papel das tropas portuguesas na Primeira Guerra Mundial?  
O sentimento dos restantes soldados aliados pelos nossos soldados não era uniforme. Oscilava entre uma certa e inevitável sobranceria (que a falta de ilustração e até a rusticidade dos muitos soldados do CEP “justificava”) e uma relativa admiração pela sua capacidade de resistência. Estávamos mal equipados e mal preparados, de facto. Depois de La Lys o CEP desagregou-se e passou a servir como tropa de apoio aos ingleses. Cavando trincheiras, por exemplo, o que os nossos soldados “agradeciam”, pois assim não estavam nas primeiras linhas…
Curiosamente, vários estudos estrangeiros que li sobre a Primeira Guerra referem-se à nossa participação de forma muito marginal, e amiúde em termos pouco elogiosos. E, nos seus diários, até alguns dos nossos melhores e mais competentes oficiais são críticos do comportamento de alguma oficialidade e de alguma soldadesca. E dos poderes políticos nacionais, claro.
Não tive intenção de prestar justiça, o romance não tinha esse intuito didáctico. Mas inevitavelmente acabei por deixar que a caneta (ou o teclado) escorresse para uma mal disfarçada admiração por aqueles infelizes. No contexto em que foram, com a preparação que levavam, com as condições que não tinham, era impossível alguém fazer melhor. 

Pensa que em Portugal há um desconhecimento sobre o papel de Portugal na Primeira Guerra Mundial?
Bom, esse desconhecimento recai um pouco sobre variados aspectos da história nacional. Não só sobre o papel de Portugal na Primeira Guerra. Não me cabe aqui explanar as razões dessas lacunas, mas o facto de termos uma longuíssima História, de os nossos alunos e docentes de História terem uma carga horária que torna pouco viável grandes análises dos nossos momentos mais marcantes, de serem escassos os programas/filmes/séries de TV sobre a História nacional, de a produção cinematográfica portuguesa ser escassa, enfim, tudo isso contribui para um certo desconhecimento… É certo que a produção historiográfica portuguesa está ao nível da que se faz lá fora, essa produção dirige-se mais a um público académico.  
Enfim, se desconhecimento há, aplica-se igualmente a inúmeros aspectos da nossa História.

Com os seus romances tenta de alguma forma ensinar algo aos seus leitores sobre a História de Portugal?
Sinceramente, não é esse o principal objectivo. Tento escrever romance, não um tratado/estudo histórico, ainda que dê muita atenção ao rigor histórico. Mas se contribuir para um maior conhecimento de factos e épocas, tanto melhor. Não escrevo romances didácticos, mas ficarei feliz se os meus romances tiverem, no final, um pouco dessa vertente. 

Que tipo de investigação fez para se preparar para este romance? Encontrou muito material disponível?
Nos meses que antecedem a escrita de um romance histórico reúno material que me dê informações fiáveis sobre o assunto em causa. No caso concreto deste romance reuni e li várias obras de referência, desde os estudos de Isabel Pestana Marques, Aniceto Afonso e Matos Gomes, até colectâneas do cancioneiro do CEP ou memórias de ex-combatentes. Também li estudos estrangeiros sobre os eventos dos derradeiros dias do conflito e recolhi vários sites académicos sobre o assunto. Ao longo do romance, e para esclarecer pequenas dúvidas que sempre surgem, contactei instituições credíveis como, por exemplo, museus nacionais e estrangeiros (Museu da Carris, Museu do Automóvel do Caramulo, Imperial War Museum).
Por outras palavras, há um estudo inicial que me dá o grosso da informação e, constantemente, durante a redacção, há um contínuo de estudos para certificar aspectos que me vão surgindo. Por norma reúno várias centenas de páginas de apontamentos. 

O facto de ser um romance histórico não retira liberdade de acção às personagens?
Uma pergunta pertinente. Depende. Se estiver a tratar de uma personagem com uma biografia muito conhecida, pode haver esse problema. Há, nesse caso, menos margem de manobra para efabular. Porém, e tomando como exemplo este romance, o que se verificou é que a personagem central é ficcionada, ainda que movendo-se em cenários e factos históricos. Assim sendo, tive alguma liberdade na construção da personagem, desde que respeite o seu contexto, isto é, desde que construa uma personagem credível no mundo e época em que se move.
Essa “liberdade” é menor, claro, em personagens reais e de biografia histórica conhecida, como é o caso do pintor quatrocentista Konrad Witz, que foi a principal personagem do meu anterior romance, O retábulo de Genebra

Nas partes em que não há registos históricos, ou os que há não são fidedignos, permite-se a recorrer à sua imaginação para preencher essas lacunas?
Decerto, mas com uma grande condicionante: os aspectos romanceados têm de respeitar a época em que decorrem. Por assim dizer usa-se a lógica do “se não existiu, poderia perfeitamente ter existido”. A linha entre realidade histórica e ficção é sempre ténue, mas convém que para o leitor as coisas fiquem claras. Por isso indico genericamente, em apêndice, quais os factos históricos e os efabulados ao longo do romance. 

Os seus estudos em História ditam o tipo de romance que vai escrever, ou admite vir a tentar algo fora do âmbito do romance histórico?
Não despimos a pele da nossa formação em nenhum caso, mesmo em romances “não-históricos”. A nossa formação, a nossa visão da realidade, a forma como usamos a utensilagem dessa nossa formação (académica e não só) no dia a dia e na escrita, estão lá sempre.
Escrevi já alguns romances onde a narrativa histórica coexiste com partes não-históricas (El-Rei pastor, Retrato de S. Jerónimo no seu estudo ou Os peregrinos sem fé), e neste caso essa harmonização exige, mesmo assim, claro, o rigor nas passagens e capítulos históricos. Só escrevi um romance de todo “não-histórico”: Os rios da Babilónia. Mas confesso que me sinto mais confortável a lidar com o romance histórico. 

Pode saber-se se já trabalha em algum novo projecto literário e, se sim, qual é o tema?
Estou, de momento a escrever um romance cuja acção decorre em 1556/57, na raia luso-espanhola, entre Olivença (ao tempo, portuguesa) e Barcarrota (perto de Badajoz). E envolve um estranho mistério. Histórico, de resto…

Vítor Burity da Silva – Entrevista a propósito de “Este lago não existe” e “Rua dos anjos”

O escritor angolano Vítor Burity da Silva viu recentemente editadas em Portugal duas das suas obras, Rua dos anjos e Este lago não existe, que serviram de mote à Porto Editora para lançar a colecção Literatura Plural. O Porta-Livros entrevistou o autor, abordando temas como os seus livros, a sua carreira, a literatura angolana, a Angola de hoje e as relações entre Portugal (onde vive) e o seu país de origem. 

Um elemento sempre presente na sua escrita, pelo menos nestes dois livros (Rua dos anjos e Este lago não existe), é o sonho. Porque esta necessidade de sonhar, sua e das personagens?
Bem, o sonho faz parte da vida, não é? E nós temos sempre, temos ambições, temos objectivos. E quando um homem sonha as coisas acontecem… diz o poeta. É no fundo um interiorismo, eu mergulho muito para dentro para vivenciar recalcamentos, amarguras, mágoas, frustrações, que fazem parte do percurso de vida e então o sonho está sempre presente, grande parte como metáfora para muitas outras coisas. 

E ao escrever sobre isso, liberta-se de alguma forma?
Liberto, liberto, é uma descarga imensa. Eu fico mal quando não escrevo, tenho de escrever todos os dias. Tal como um atleta precisa de treino para descomprimir, eu preciso de escrever para descomprimir.

Vendo por estes dois livros, opta muito por histórias a dois.
É coincidência nesses dois livros, noutros tenho mais gente. Normalmente gosto mais de uma narrativa directa, sem grandes interferências de personagens. As personagens vão aparecendo metaforicamente também e muitas das vezes as personagens aparentes nestas histórias na realidade não são personagens, são um seguimento do narrador numa discussão. Mas neste caso apareceram de facto estas duas pessoas, embora em Rua dos Anjos a história esteja centrada numa só, e a pessoa misteriosa é uma metáfora, uma mão de Deus, que Serafim precisa para se reorganizar, para se reerguer. Ele nem tem de onde vem, esta ali, pura e simplesmente. Em Angola isso foi utilizado como discriminação, mas eu nem disse nada disso. É engraçado, é a liberdade de interpretação de cada um, pode ser questionada, e um tipo põe-se à margem, e põe-se à mão, ao escrever. 

Estas vivências das suas personagens são vivências íntimas, pertencem a casos que observa ou nascem por si, naturalmente?
Nascem naturalmente, mas têm que ver com a vida, com o dia-a-dia, são ainda resquícios da guerra, da mágoa, da separação de pais, de casamentos não muito felizes, e o que vejo dos outros. 

É bem visível nestas obras a imaginação existente dentro das personagens. É uma maneira de mostrar a sua própria imaginação?
Não intencionalmente, mas vê-se muito os pensamentos das personagens, é uma forma que tenho de dar vida às personagens que uso. 

Apega-se muito às suas personagens? Quando acaba a escrita de um livro tem pena de as deixar ou já está farto delas?
Não, não me farto, e gosto. Tantas vezes me sinto um Serafim, independentemente do que formos, há tantas vezes que nos sentimos mal, com o nosso dia-a-dia, com os nossos casamentos, com o nosso trabalho, e o sem-abrigo Serafim é uma metáfora da sociedade, a história não é propriamente dos sem-abrigo, é o sem-abrigo que todos somos em determinados momentos da nossa vida, quando não temos terras, não temos deus, motivos nem motivação. 

Quando começou a escrever, a sentir a necessidade de contar as suas histórias?
Eu escrevo desde sempre, desde muito pequenino. Comecei também a ler muito cedo, já livros pesados. Já na escola primária as pessoas comentavam a forma como eu escrevia, as redacções; agora são composições… Questionavam muito a minha imaginação. Ainda há tempos encontrei a minha professora da primária e ela disse: “Eu sempre disse que ias ser escritor.” Tinha uma imaginação muito forte, e cá estou. Tenho muitas coisas escritas, milhares e milhares, só que, pronto, fui publicando as mais recentes. 

Quando teve a noção que pretendia fazer carreira como escritor?
Sabe, eu tenho ouvido de um outro escritor, que admiro bastante, que é o Lobo Antunes, que diz isto (e penso como ele): não passamos a ser escritores quando escrevemos, passamos a ser escritores quando temos maturidade para o ser. E então temos de ter muito treino. Nem tudo o que escrevemos é para ser definitivo, é preciso muito treino, escrever muito e ler bastante. 

Já escreveu algo de que se tenha arrependidos, que tenha olhado para trás e pensado: isto é mesmo mau?
Já, dois ou três livros, não muito grandes, de que não gosto nada. Há um do qual já nem me lembro do título.

E o contrário, passa-se? Olhar para um livro e pensar: isto ficou mesmo bem?
Gosto muito do Este lago não existe, gosto muito. É uma metáfora, não é um poema como dizia o Pepetela, supera as frustrações relativas ao que não conseguimos, aos nosso objectivos . 

Vive entre o Porto e Luanda. Qual dos dois será aquele que considera efectivamente a sua casa?
Angola é o meu país, onde nasci, é o país onde na essência vivo, só que por outras razoes vim para cá estudar, fui ficando, as coisas foram acontecendo, depois vêm os casamentos e os divórcios e vou-me mantendo por cá, mas mais três ou quatro anos e volto para Angola. Mas gosto de cá estar. 

Qual dos dois ambientes – Portugal e Angola – influencia mais a sua escrita?
Para lhe ser sincero, Angola, até pelo sangue tropical, pelos escritores e pelas músicas que há. O povo português é muito melancólico, chora muito, o povo angolano, não, o povo angolano é feliz. A qualquer título faz-se uma festa, dançamos, comemos, bebemos. 

Um aluno angolano, chegado há pouco tempo a uma universidade portuguesa, questionado quanto às diferenças entre Portugal e Angola, disse: “Isto não é um país diferente, e um planeta diferente.» As diferenças são ainda assim tão grandes?
Essas comparações são utópicas, porque comparamos uma coisa que nasceu com uma que existe há muitos anos, comparamos uma criança com um homem. Angola tem cinco anos de Histórias, é bom não esquecer isso, as pessoas às vezes esquecem-se que 35 anos de guerra não deixam nada mexer-se. Não se construiu, muito pelo contrário destruiu-se. Foi a guerra, aquilo é livre há cinco anos e está a provar que tem capacidade para crescer. 

Como encara este regresso de portugueses a Angola?
Isto é um bocado o filho e o pai. O pai cria o filho, educa-o, dá-lhe ensino, e depois, mais tarde, precisa dele para viver. Já vive de reforma, ganha pouco, e é um bocado como Portugal e Angola. Portugal neste momento tem mais carências do que Angola, já é um país “velho”, já tem poucas saídas. É bom para Portugal e Angola continuar este relacionamento. 

Acredita que esta parceria vai resultar bem?
A perspectiva do português em Angola não é a mesma. antes qualquer português era dono, patrão, hoje é um cidadão, imigrante, estrangeiro.

Do que conhece, como classifica a integração dos portugueses em Angola?
É boa, os portugueses que lá estão que conheço estão bastante bem. Há dificuldades, é normal, mas temos um relacionamento muito bom com os portugueses, como com qualquer estrangeiro que respeite o país onde vive. 

Com que regularidade vai a Angola?
Tenho ido de três em três meses e fico lá um mês ou dois meses. 

Não se sente dividido?
Neste momento vou “usando” Angola como um lugar maravilhoso para férias, tenho lá a família quase toda. 

Os seus dois livros abrem uma nova colecção da Porto Editora, Literatura Plural. O que podem dar aos portugueses os autores angolanos?
É bom para se mostrar ao mundo que ao contrário do que muita gente pensa os africanos também sabem escrever. Há escritores africanos bons, mas também já ouvi escritores africanos não-negros dizerem que os únicos escritores africanos que escrevem são os brancos. Pessoas dessas vão desaparecendo, já não fazem falta. 

Como é hoje em dia o panorama literário em Angola?
A dificuldade até agora foi a guerra, Não há editoras, não há livrarias, agora tudo está a modificar-se, está a ficar um país normal, como os outros, e tudo começa a acontecer: as editoras começam a colocar-se lá, as gráficas, tudo vai fluindo. Antes, os escritores que mais se destacavam de lá faziam-no cá: Luandino Vieira, Pepetela, Agualusa. Agora, as editoras estão a regressar e com elas a partir para o mundo, e acredito que mais apreçam.

Que papel podem ter os escritores neste fase de desenvolvimento de Angola?
Têm sempre um impacto de evolução nas populações, os estudantes estão empenhados, lêem bastante, procuram, querem conhecer novos autores, há um interesse muito, muito grande em adquirir conhecimentos novos. 

O que podem esperara de si os seus leitores nos próximos tempos.
Tenho muitas coisas feitas, que a seu tempo irão saindo, mas para o próximo anos estamos a tentar lançar uma história relacionada com estas fases da Angola de hoje: a fase anterior à guerra, a fase da guerra e a fase actual.