Monthly Archives: Abril 2011

Lívia Borges estreia-se com «Julia Felix – Frescos de Pompeia», uma edição Presença

A Editorial Presença lança a 3 de Maio Julia Felix – Frescos de Pompeia, romance de estreia de Lívia Borges, uma licenciada em gestão que tem um grande fascínio pela Antiguidade Clássica. Assim, não é de estranhar que tenha optado por um romance histórico passado no século I da era cristã, no antigo império romano, para dar início à sua carreira literária. Mais informações em: http://frescosdepompeia.blogspot.com
Entre os dias 3 e 8 de Maio vai decorrer aqui no Porta-Livros um passatempo onde será oferecido pela Editorial Presença um exemplar deste livro.

Sinopse: «Julia Felix – Frescos de Pompeia é um romance histórico passado no século I da era cristã, que se desenrola ao longo de cerca de sessenta anos, sensivelmente entre os governos de Cláudio e de Trajano. A autora entretece com mestria os grandes acontecimentos históricos que então tiveram lugar com a história de vida da protagonista, Julia Felix, uma mulher singular, que nos apaixona desde logo pela sua beleza, inteligência e tenacidade. Com uma sólida fundamentação histórica, um enredo bem construído e ritmado e uma prosa cativante, esta obra está destinada ao sucesso junto do vasto público do romance histórico.»

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Quatro contos longos de Mário de Carvalho em «O Homem do Turbante Verde»

O Homem do Turbante Verde, o novo livro de Mário de Carvalho, já foi colocado à venda pela Caminho, que ainda recentemente reeditara Contos da Sétima Esfera.

Sobre o livro: «Cenários evocadores dos nossos dias enlaçam-se com os destinos de uma juventude confrontada com perplexidades e dilemas de um tempo histórico ainda recente. Percursos aventurosos numa África irreal, toda feita de caprichos literários, vão de par com histórias sombrias, cheias de inquietação e susto.
A ironia afável conjuga-se com a crueldade. Uma estranheza, ora inquietante ora divertida, acompanha o delírio mais inesperado. Uma linguagem que aposta na clareza, sem fazer quaisquer concessões ao facilitismo.
O HOMEM DO TURBANTE VERDE: Contos longos, com fôlego. Quatro secções, quatro olhares, quatro vozes, traços de mistério, de fantasia, de atribulação, de crueldade. E alguns ecos de uma geração que se bateu, digna e desassombradamente, por um mundo melhor. Mas não serão, afinal, todos os lugares da ficção lugares mágicos?»

Ahab publica «Prosas Apátridas» de Julio Ramón Ribeyro

A Ahab acaba de lançar Prosa Apátridas, do autor peruano Julio Ramón Ribeyro (1929-1994), que Mario Vargas Llosa considera “um escritor magnífico, um dos melhores da América Latina e provavelmente da língua espanhola”. ). Já no final da sua vida recebeu o Prémio Juan Rulfo pelo conjunto da sua obra, que inclui principalmente contos, como os presentes em Los gallinazos sin plumas (1954), Silvio en El Rosedal (1977) e Sólo para fumadores (1987).

Sinopse: «Que nome dar a estes pequenos textos “que não se ajustam cabalmente a nenhum género, pois não são poemas em prosa, nem páginas de um diário íntimo, nem anotações destinadas a um posterior desenvolvimento”? Julio Ramón Ribeyro decidiu apelidá-los de Prosas Apátridas, “pois carecem de um território literário próprio”.
Estas duas centenas de textos – que exploram temas tão diversos como a literatura, a memória e o esquecimento, e também a velhice e a infância ou o amor e o sexo – revelam um escritor curioso e de olhar acutilante, cuja ironia subtil capta a realidade do Homem moderno em toda a sua profundidade.
Muitas vezes divertidos, às vezes melancólicos, mas sempre profundos e íntimos, os fragmentos que compõem estas Prosas Apátridas permitem-nos aceder ao universo de um narrador maravilhoso. O leitor tem nas suas mãos o testemunho espiritual de um dos grandes autores hispânicos do século XX.»

Entrevista a valter hugo mãe – Autor de «o nosso reino»

valter hugo mãe, poeta, editor e agora romancista (esta entrevista foi inicialmente publicada em O Comércio do Porto a 5 de Dezembro de 2004), lançou recentemente a sua estreia na prosa, o nosso reino (Temas e Debates) e quase em simultâneo deixou as quasi, editora famalicense da qual era sócio.
Cedências editoriais a uma linha mais “popularista” levaram-no a procurar novos rumos e agora não disfarça o entusiasmo pela prosa, depois de anos dedicados em exclusivo à poesia. Para trás fica a sua ligação a uma editora que apostou na qualidade e cresceu longe das grandes cidades.
O nosso reino, que roça o surrealismo, leva-nos a um mundo rural onde a religião e Deus impõem a sua força e poder a um crédulo miúdo de oito anos
(Nota: o nosso reino foi reeditado em 2011 pela Alfaguara, sendo assim a sua terceira edição em três editoras distintas – antes tinha saído na Temas & Debate e na QuidNovi.)

Neste seu primeiro romance a morte e a religião são omnipresentes. Porquê?
Fiz essa opção por natureza. Quase tudo no livro foi encontrado por acaso. Comecei a escrever o livro de surpresa, não estava sequer à espera de escrever um romance. É um bocado o que se passou sempre com os meus livros de poesia. De repente estava a escrever um livro de poesia e não apenas um poema. Desta vez eu tinha uma frase – provavelmente estava anotada para vir a ser um verso –, a primeira do livro, (“o homem mais triste do mundo”) e que me deu a ideia de procurar esse indivíduo, de saber quem seria. E as coisas surgiram um bocado umas a partir das outras e sem dar muito conta disso estava dentro de um ambiente religioso, a fazer considerações sobre as questões da fé e do transcendente, sobretudo do esperar alguma coisa de que não existe prova, de que não existe uma garantia. E o mundo da religião é também feito para a crença no impossível, no inexistente. O livro é todo à volta do que há e do que não há e do que se pensa ou do que se quer que exista.

Tem uma imagem da Igreja tenebrosa e obscura?
Tenho tendência para acreditar que existe alguma coisa. A história do Cristo é uma história tão incrível, tudo o que a Bíblia conta é tão incrível, que tenho tendência para acreditar que seria impossível ser inventada. A realidade ultrapassa sempre a ficção. Tenho tendência para acreditar que aquilo que ali está em boa parte é verdade. Por isso tenho uma relação, sem dúvida, com questões religiosas de alguém que tem a tendência para acreditar. Mas tenho ao mesmo tempo alguma dificuldade em lidar com o sistema operativo da religião. Não tenho reconhecido em muitos padres uma autoridade moral e espiritual que me convença. Dos poucos padres com os quais estive mais perto todos me frustaram, ou porque entram em actividades políticas e impingem às pessoas programas políticos, ou porque como pessoas são seres intratáveis, antipáticos. Há sempre qualquer coisa… Até hoje não conheci um padre que me convencesse. Para ser um líder espiritual precisa de ser alguém profundamente inteligente, porque um indivíduo que está em cima de um púlpito a tentar dirigir a vida dos outros tem de saber muito bem o que é bom para os outros e por isso qualquer opção ou conselho que esteja a dar tem de ser muito bem fundamentado. Infelizmente, acho que a inteligência não tem sido muito procurada quando se abrem concursos para padres.

Noto alguma desilusão não com a Igreja em si, mas com quem a habita.
Sim, um bocado como se passa no romance. O padre do romance diz que a igreja é muito antiga e muito grande e é impossível conhecer todos os padres que a habitam. Também tenho certas dúvidas sobre a pertinência de haver uma hierarquia na Igreja. O papa, depois os bispos, os cardeais, uns mandam nos outros, até ao soldado raso, que acaba por mandar na paróquia. Parece-me que seria mais lógico que a igreja funcionasse como um clube de amigos, sistema integrado em que toda a gente pudesse participar activamente no que é dito e decidido dentro daquela casa. E se o sistema já de si pode ser duvidoso, se for posto em prática por pessoas que, como todos nós, têm problemas e carências a todos os níveis, leva-me a acreditar que a melhor forma de ser religioso ou ter fé em alguma coisa é ficarmos sossegadinhos com as nossas convicções e fazer as leituras que devemos fazer.

O temor que o protagonista tem em relação ao padre da aldeia é fruto de experiência pessoal?
Não. Tentei fazer com que o romance não tenha absolutamente nada de autobiográfico. Claro que fui eu que o escrevi, há-de haver coisas que são minhas, coincidem com ideias minhas. Imaginemos se eu tivesse tido uma tia que é boa em matemática, como acontece com a tia do miúdo no romance, em vez da tia do miúdo do romance ser boa em matemática era boa a geografia. Tentei fazer com que as coisas não coincidissem em absoluto com nada que se passou comigo. Há uma coisa ou outra. Em relação ao padre, nunca me apareceu nenhum a bater. Quando era miúdo – costumava ir à missa com os meus pais – nunca nenhum padre me prestou alguma atenção. Ou seja, os padres também têm a tendência, pelo menos os que eu vi, para ver as crianças e os miúdos como uma espécie de aborrecimento, de barulho de fundo. “Tens de te portar bem na igreja, não faças barulho.” Não é preciso pôr os miúdos a cantar e dançar, mas os padres deviam suscitar os miúdos para a conversa, porque muitas vezes estão a esconder coisas, a passar por coisas e a passar por dúvidas e o padre poderia ser a melhor pessoa para impedir que se agrave. Nunca tive problemas, mas também nunca senti acompanhamento por padre nenhum. Das poucas vezes que me confessei quando era miúdo senti que estava a fazê-lo para uma máquina. Não estabeleci diálogo nenhum. Eu dizia que tinha chamado nomes ao meu irmão e ele dizia “reza três avé-marias”. Era quase como pôr uma moeda numa máquina e da máquina tirava um ovinho com a sina ou coisa do estilo.

Será por isso que as pessoas estão mais afastadas da Igreja, enquanto edifício?
Sem dúvida. As pessoas não conseguem manter fidelidade a uma parede e a igreja neste momento é uma parede, pelo facto de não existir diálogo, pelo facto da eucaristia ser, sobretudo, um evento quase espectacular, onde o público não intervém, fica passivo a ouvir as maiores barbaridades que os padres dizem nos sermões. Lembro-me de ter ido a um casamento em que um padre dizia que não havia problema nenhum em a mulher obedecer piamente ao homem. Se ela gostasse muito dele e ele gostasse muito dela, porque não haveria de obedecer ao homem? Essas coisas fazem-me mal. Um senhor, de cinquenta e tal anos que nem sequer é casado, ou pelo menos não devia, estar ali tão sapiente sobre o que o homem e uma mulher devem fazer numa relação… Estas posturas são cada vez mais obsoletas. Não é que algum dia tenham sido modernas, o que está errado, está errado. É tão evidente que existem essas deficiências de postura que as pessoas acabam por se fartar. As mulheres hoje em dia já pensam, acho que a Igreja não acredita muito nisso.

“Os líricos românticos acham que os artistas têm de ter uma panca”

O romance decorre antes do 25 de Abril, mas também poderia ser deslocado para a actualidade de alguns meios rurais.
No meu livro tudo é muito exagerado porque é uma criança que está a contá-lo.
Nunca devemos acreditar piamente no que o narrador está a dizer. Eu, enquanto leitor deste livro, duvido sempre das intenções do miúdo. Tive sempre alguma ligação com a questão de África (nasci em Angola) e ao longo da minha vida fui conhecendo algumas pessoas que estiveram em África. Como acontece em todas as guerras e conflitos, existe um enorme mito do como foi e como era e muitas vezes as pessoas tornavam as coisas mais agressivas. Contavam-me coisas pirotécnicas, absolutamente absurdas, que só por estupidez é que achariam que os outros iam acreditar.

Recorreu a uma criança para poder escrever exageros mais livremente?
A criança tem várias utilizações. O livro, todo ele, é uma interpelação à figura de Deus, é uma espécie de encosto de Deus à parede, a ver se ele responde. Acho que a questão de as crianças serem puras e ingénuas e merecerem toda a atenção, faz com que esse pedido desenfreado por uma manifestação divina seja mais eloquente e mais passível de ser atendido. Como queria extrapolar, exagerar e criar universos fantásticos, a ingenuidade de um miúdo é passível de me dar até um surrealismo, que é uma das possibilidades de leitura do romance.

Foi-lhe difícil meter-se dentro da mente de uma criança?
Não. Tive uma infância muito interessante e especial. O mais interessante era a minha própria cabeça, era muito curioso e tinha a mania de ouvir as conversas das outras pessoas. A minha curiosidade era de ouvir as coisas e fazer as lógicas e as ligações. Era um miúdo muito convencido com as minhas verdades. O que fiz no fundo foi transformar esse miúdo e fazê-lo sofrer o que eu sofria com 4 ou 5 anos – era de uma credibilidade incrível.

Nunca pensou em aproveitar esses pensamentos de criança para fazer livros infantis?
Toda a gente me diz isso. Este livro tem duas coisas: está tão ligado aos livros para miúdos como a dada altura poderá estar ligado aos livros fantásticos e filmes de terror. Eu vou passar pelas duas coisas. Já tenho estado a escrever outras coisas e tenho intenção de escrever puramente aventura, infanto-juvenil, terror. Algumas das coisas que estou a escrever já estão a aflorar e explorar esses universos. Sempre fui fascinado pela fantasia em todos os seus sentidos, desde os filmes de animação de criação de mundos, seres espectaculares, bichos nas profundezas do mar, ou no interior da Terra. Sempre adorei esses filmes de animação com a fantasia levada ao extremo do gore. O que me decidi finalmente foi começar a contar histórias.

Porque escreve em minúsculas?
Escrevo assim porque num texto todas as palavras têm a mesma dignidade, estão todas em pé de igualdade e depois o leitor é que lhes confere importância.

É dos poucos autores portugueses com página na net.
Tenho um site que é feito por um amigo. As pessoas têm o preconceito que o escritor tem de ser muito discretozinho, não aparecer, as entrevistas têm de ser muito sérias. O escritor tem de ser um bicho raro. É um preconceito dos líricos românticos que acham que a malta das artes e os artistas têm de ter uma panca muito grande.

“São as raparigas cor-de-rosa que estão a vender livros e isso assusta-me”

Não acha que há lançamentos literários a mais em Portugal?
Os livros nunca são demais se forem bons.

Ou há poucos leitores no nosso país?…
Os leitores é uma coisa que se faz. Se houver livros as pessoas acabam por aparecer. A questão é que se edita muito lixo, se calhar por causa da necessidade de popularizar um bocado a coisa. O problema é que as pessoas não estão a comprar os melhores livros. É uma pena que o José Luís Peixoto ainda não tenha entrado nos hipermercados. Como é que ele ainda não consegue estar ao lado dos livros da Margarida Rebelo Pinto? Por mais popular que ele seja (e é), a Margarida Rebelo Pinto, a Susanna Tamaro, e todas estas raparigas cor-de-rosa pertencem a um mundo muito mais popular. E são elas que estão a vender livros, a ganhar dinheiro, a ficar famosas e isso assusta-me um bocado. A Margarida Rebelo Pinto no Sei Lá tem uma personagem que a dada altura parece muito importante e depois desaparece aí na página 40. Esqueceu-se da personagem… Ela que seja feliz, mas preferia que o José Luís Peixoto vendesse 200 mil exemplares e que a Margarida vendesse três mil.

Mas a literatura light não pode servir para habituar as pessoas a ler?
Pode. Algumas daí passam para outro lado, têm um prazer enorme a ler e querem mais e vão buscar o… Paulo Coelho (sorriso). Pode ser que depois consigam abrir um bocado os olhos. Algumas já lêem o Equador (de Miguel Sousa Tavares). Mas depois já podem chegar a uma coisa… melhor.

“A poesia é uma coisa para meia dúzia de freaks”

Agora que experimentou a prosa, a poesia foi posta de parte?
Escrevo sempre poesia e vou ser sempre poeta, o que acontece é que já tenho nove livros de poesia, já errei em alguns. Os meus primeiros livros eram muito maus, preferia não os ter escrito. De momento escrevo um poema e deixo-o de lado, fascina-me a prosa. A poesia é quase um exercício de abandonar as pessoas, muito autista. Na prosa, estou a fazer o contrário, chamo as pessoas para entrarem nos livros, sinto-me mais acompanhado e comunicativo.

Continua a escrever poesia?
Vou continuar a escrever mas decidi que em 2005 não publico poesia. Tenho publicado muita poesia e acho que o mundo tão cedo não precisa de poesia minha.

Não se sente frustrado por só agora muita gente passar a reparar em si?
Sim, mas eu não estava iludido. A poesia é realmente uma coisa para meia dúzia de freaks, para gente muito estranha. Não é violento que as pessoas agora me conheçam pela prosa.

Está satisfeito com este romance?
O facto de ter feito uns livros de poesia ao princípio mauzinhos permitiu-me agora fazer um romance do qual não me vou envergonhar. As pessoas têm dito que é excepcional, têm adorado. Acho também que o que acontece neste livro, e não acontecia na poesia, é que as minhas intenções são mais claras. A poesia é mais abstracta, mais resistente ao leitor e muita gente está fundamentalmente a entender o que quero, o que digo. Os meus amigos que compravam os meus livros por simpatia agora dizem: “Então o valter afinal é isto, então como escritor diz estas coisas, já entendo.” O livro veio fazer uma luz sobre as minhas intenções literárias.

“As quasi complicaram-se, isso é verdade, é um projecto cada vez mais complexo”

Porque resolveu editar “o nosso reino” na Temas & Debates e não na editora da qual era sócio na altura, as edições quasi?
Porque é muito confrangedor editar nas quasi um livro meu e eventualmente ser colocado numa posição em que o tenho de promover. O que acontecia é que os livros que editei na quasi não os promovia. Os livros seguiam para os críticos no meio dos outros todos e depois era capaz de entrar em contacto com um ou outro crítico para falar de um ou outro livro mas nunca falaria do meu. Era muito interessante: podia fazer as capas, podia fazer o livro no dia em que me apetecesse, a tipografia por consideração à minha pessoa imprimia o livro rapidíssimo. Era tudo muito bonito, mas efectivamente era muito mau em termos de promoção e divulgação. Isto também passa pelo facto de ter uma consideração muito grande pela colecção da Temas e Debates, a Lusografias – gosto muito do trabalho da Maria do Rosário Pereira. E a prova de que o efeito tem sido outro é que o livro tem chegado a muitos mais lugares, a muito mais gente, porque ainda existe a Ana Pereirinha que faz os contactos promocionais todos e diz a toda a gente que é “muito bom, muito bom, muito bom” e as pessoas ficam convencidas de que pelo menos vale a pena ir ver o que é.

Falou nas quasi. Há dias soube-se da sua saída como sócio da editora. A que se deveu essa partida?
Se calhar um bocado por gostar de estrear. Estreei como editor, estive cinco anos como editor e agora vou correr riscos. Quer dizer… nas quasi corremos riscos. Montar uma editora em Famalicão, editar montanhas de poetas, ser apreciado por uns e odiado por outros, mexer com a consciência das pessoas foi um risco. Mas bem sucedido, porque as quasi em termos comerciais se viabilizaram. Em última análise é a prova que o projecto é válido. No que respeita aos cinco anos que lá passei valeu mesmo a pena. Neste momento gostava de me dedicar mais à escrita. Pode surgir uma ou outra proposta para alguma ligação para outras editoras. Pode ser. Não descarto a hipótese de continuar ligado ao mundo da edição, que era o meu trabalho na quasi, mas nunca a nível de editor/empresário. Nas quasi tinha de reunir com contabilistas, bancos, e aturar credores e fornecedores e pedir dinheiro aos devedores. Torna-se muito complicado e passou o meu tempo ali e quero começar de novo.

Mas acha que as quasi cresceram de mais e se desvirtuaram? Há algum descontentamento?
Não, não. As quasi complicaram-se, isso é verdade, é um projecto cada vez mais complexo. Não se desvirtuou, foi-se adaptando. De início, editávamos alguns livros e por isso precisávamos de algum dinheiro. Passado algum tempo passámos a editar muitos livros de poesia e passámos a precisar de muito dinheiro e isso fez com que em termos de critérios tenhamos sentido a necessidade de abrir um pouco mais os nossos horizontes, os nossos leques de autores e tudo isso. Tentámos sempre não fazer grandes concessões em relação à qualidade mas por vezes tivemos a necessidade de entrar em domínios mais populares, de mais fácil acesso ao público. E isso, na minha perspectiva, foi sempre motivado pela vontade que eu tinha de investir em gente que eu sabia que não ia vender muito. Fico um bocado curioso por saber o que o Jorge (Reis-Sá) vai fazer agora, mas sei que no imediato vai seguir o que estava a ser feito. Mas depois… será a imagem dele que ficará. A minha tem sobretudo a ver com estes cinco anos.

Acha que vai ser uma editora mais comercial?
…é possível.

Foi por isso que saiu?
Eu aqui cheio de rodeios e rodeios… Não sei, não sei. Pode ficar mais comercial até porque a crise tem obrigado a que todas as editoras tenham uma postura mais aberta e popular. E as quasi se quiserem subsistir com alguma simpatia e com ambiente agradável provavelmente vão ter de continuar com uma política, não digo popularista, mas com momentos espontâneos de popularidade.

Achava que o ideal era encerrar um ciclo e fechar a editora?
Não! Mesmo que na pior das hipóteses o Jorge arrase com a editora e passe a editar as coisas mais horríveis, o meu nome esteve ali apenas nos primeiros cinco anos, o resto não teve nada a ver comigo. Espero que ele não faça isso, sei que ele não vai fazer, tenho confiança, vai correr tudo bem. Inclusive é possível que participe numa ou outra coisa das quasi. Mas sempre muito como outsider. Faz-me um bocado de aflição as pessoas que ficam ligadas às coisas que criaram e que depois não gostam que elas mudem. Não me importo nada. Se as quasi virarem uma editora de livros pornográficos, óptimo. Se calhar até compro alguns ou espero que o Jorge me mande alguns (risos).

“Tivemos facilidade. Achavam todos muito engraçado uma editora em Famalicão”

As quasi são a prova de que numa terra como Famalicão é possível criar um projecto rentável na área cultural?
As quasi são a prova de que se as pessoas tabelarem por cima, lidarem com a qualidade, com aquilo que é reconhecido (seja no norte, sul, este ou oeste), o projecto diz respeito a toda a gente, diz respeito ao país. As quasi tornaram-se numa editora nacional porque os livros que editaram são de carácter nacional. Quando eu entrei (há cinco anos) e profissionalizámos a editora e criámos a empresa foi ponto assente que as quasi estariam em Famalicão, mas seriam de Portugal. Então, com tudo quanto poderia passar pela pieguice do local, do pedido do amigo da porta do lado, nós tentámos ser implacáveis. Se for bom entras se não for… nem que seja a vizinha da porta de cima, nem que apareça de soutien à janela. Acho que as quasi servem de prova para esse tipo de esforço do que numa determinada localidade se pode fazer para desenvolver um projecto que diga respeito a toda a gente. E por isso de início começámos logo a seduzir o António Ramos Rosa, o Eugénio Lisboa, os herdeiros do José Régio e o José Luís Peixoto.

Sentiram mais dificuldades por serem da periferia?
Tivemos facilidade, porque chegávamos a qualquer lado e diziam: “Ahh, aqueles rapazes tão simpáticos de Famalicão. Imaginem uma editora em Famalicão’. Achavam todos muito engraçado. E de engraçado em engraçado arranjávamos tudo. Depois editávamos as pessoas de quem gostávamos e essa energia de aparecermos perante alguém como admiradores passava imediatamente. E desde seduzir do Mário Soares ao Eduardo Prado Coelho foi muito fácil. Por ser de Famalicão acharam que era um projecto descentralizador e quiseram participar. Acho que se calhar o segredo neste momento está em sedear uma coisa qualquer em Freixo-de-Espada-à-Cinta e falar com o Prado Coelho (risos).

Quais foram os momentos mais marcantes do tempo que passou nas quasi?
A 11ª edição de Poemas de Deus e do Diabo, do José Régio, que estava esgotado há vinte anos e que só nós pudemos reeditar. Fiquei deslumbrado. O termos inventado o livro de letras do Caetano Veloso, que só passado um ano saiu no Brasil. Um livro que já tinha sido pedido por editoras de todo o mundo. Nós perguntámos e ele disse que sim e perguntámos outra vez e ele disse que sim. Editámos a Adriana Calcanhotto, um livro que ainda não existe no Brasil. Quando fizemos uma tournée com o Mário Soares e ele disponibilizou-se para apresentar a obra em Famalicão, Porto e Lisboa. Aceitou que em Lisboa fosse o Freitas do Amaral a apresentar o livro. Fomos jantar lá com o Freitas do Amaral, que foi a primeira vez que entrou na casa dele. Foi um momento histórico. Editámos um livro do Mark Kozelek (n.d.r. líder do grupo Red House Painters), que é o único a nível mundial. Os americanos e ingleses nem conseguem acreditar que ele tem um livro editado em Portugal.

(Entrevista realizada em Dezembro de 2004)

Entrevista a Pablo de Santis – Autor de «O Calígrafo de Voltaire»

Pablo de Santis apresentou em 2005 em Portugal O Calígrafo de Voltaire (Temas & Debates), um romance que mistura história e ficção e nos leva à perturbante época em que religiosos fervorosos tentaram acabar com o Iluminismo.

Fez muitos estudos históricos para poder escrever O Calígrafo de Voltaire?
A maior parte é imaginação, se bem que conheço um pouco da época devido a leituras prévias. A verdade é que li mais sobre a Revolução Francesa do que sobre Voltaire. É um período incrível porque os principais direitos e organizações das sociedades modernas provêm de uma época e de um grupo de homens quase psicóticos, assassinos impiedosos. Parece-me incrível que os nossos direitos venham do que ocorreu em França no final do século XVIII.

Tanto O Calígrafo de Voltaire como A Tradução, anteriormente editado em Portugal (ASA), têm como pano de fundo a escrita. Isso acontece por acaso ou tem mesmo uma preferência por esse tema?
É uma presença forte, a da escrita, em outros livros meus. Também acontece num romance policial que se chama Filosofia e Letras, que decorre num prédio abandonado na Faculdade de Filosofia e Letras de Buenos Aires, onde críticos literários procuram a obra de um escritor misteriosamente desaparecido. É um tema um pouco recorrente.
Mas tenho outros romances com outros temas. Tenho um romance com neurologistas e um novo sobre arquitectura.

São mundos bastante específicos que devem requerer muito estudo antes da elaboração do romance.
Só em algumas coisas. São sempre romances de fantasia, não são realistas. De forma geral, há uma grande distância com uma visão realista do mundo.

Mas em O Calígrafo de Voltaire pegou numa personagem histórica conhecida e criou uma história à volta dela. Porque escolheu Voltaire?
Primeiro, devido à distância temporal e também à grande distância entre a Argentina e esse mundo. E Voltaire é uma personalidade à volta da qual havia muitas lendas. E gostava da imagem desta personagem que exercia a sua influência à distância. Ele estava em casa, na fronteira de França com a Suíça, sempre preparado para escapar em caso de perigo. Mas, se calhar, o mais pessoal é o tema da caligrafia, que me interessava. O personagem calígrafo, que produzia tintas invisíveis venenosas.
Quando estudava caligrafia, há mais de 30 anos, já era uma matéria algo esquecida, anacrónica, sem sentido…

Na altura já gostava de caligrafia?
Não. Tenho uma péssima letra, incompreensível. Mas atraiu-me sempre o mundo das penas, das tintas. Ganhei muita experiência numa revista de banda desenhada e estive em contacto com muitos desenhadores. E nessa altura faziam-se as letras à mão.

Não se incomoda por inventar factos à volta de factores verdadeiros?
Não, porque não é um romance histórico. É evidente que se aproveita de feitos reais. Acho que nas primeiras páginas de um livro estão sempre as regras do jogo, o que vai ser a narração. Acho que é evidente desde o começo que se trata de fantasia.

É um amante de literatura fantástica e de ficção científica (FC). Nunca se sentiu tentado a escrever nesse registo?
Há alguns elementos de FC nos romances. A FC na Argentina está muito ligada à literatura fantástica. É uma espécie de zona nebulosa, não é como na literatura anglo-saxónica onde é um género à parte. É uma FC mais de sábios loucos encerrados numa casa, do que de fatos espaciais.

Ficou satisfeito com este romance?
Sim, não faria mudanças. Os meus livros têm algo em comum que é o enredo muito organizado e uma presença do género policial na forma de organizar o argumento.

Quando começa a escrever um livro já o tem todo estruturado, já sabe por onde o leva?
Faço um esquema bastante completo antes de começar, com os principais acontecimentos da acção. Para mim ao escrever há três películas: a história, a lógica (que tenha sentido, que se faça autónoma e não haja contradições) e a escrita em si, o cuidado com as palavras. Para mim, a escrita sobrepõe-se entre estes estados.

Durante o processo de escrita não lhe ocorre que poderia seguir por outro que caminho que não o que já havia traçado?
Pensa-se sempre se não se deveria fazer outra coisa. Em geral temos sempre uma visão do romance que não se cumpre.

Foi jornalista numa revista pouco credível.
Sim, era uma revista dedicada aos escândalos e ao oculto. Mas serviu-me, principalmente, para ganhar velocidade na escrita. E o jornalismo tem sempre algo de excitante, porque todos os dias se conhece gente nova.

O livro

O coração nas mãos…

Pablo de Santis apresenta um romance de cariz histórico que mistura com habilidade factos reais e fantasia. O autor argentino pegou num tema e numa personalidade europeias (o Iluminismo e Voltaire) e elaborou um romance com o seu quê de policial, assim como recheado de momentos macabros. Logo de início, aliás – a história começa com a chegada de um foragido a um porto argentino. No meio da bagagem carrega um frasco de vidro com o coração de Voltaire.
Começa o protagonista (o calígrafo Dalessius que trabalhou para Voltaire) a recordar como chegou àquele porto. Os trabalhos, além dos da escrita, que executou para o patrão, em defesa do Iluminismo.
Voltaire, comandando à distância, mandou-o investigar o plano de um grupo de fanáticos religiosos que pretendiam “apagar a Luz” em prol da recuperação de fiéis para a Igreja. Na execução da sua missão, Dalessius constata o poder da escrita, tanto através do que fica no papel, como dos métodos utilizados para tal, desde tinta invisíveis a venenosas. Santis leva-nos por um mundo obscuro, através da sua escrita precisa mas imaginativa. Num mundo de loucos, Santis desenvolveu um romance pleno de mistério e obscurantismo.

(Entrevista realizada em 2005)

Guerra & Paz edita «Papisa Joana» de Lawrence Durrell

A Guerra & Paz lançou em Abril três títulos, destacando-se entre eles Papisa Joana, um clássico assinado por Lawrence Durrell, autor, por exemplo, de Justine, que integra a tetralogia Quarteto de Alexandria.
Lawrence Durrell ficou fascinado pela figura da Papisa Joana e assim escreveu a insólita história de uma jovem mulher que viaja pela Europa do século IX disfarçada de monge e acaba a comandar a cristandade durante dois anos como Papa João VIII.
Outro dos lançamentos da Guerra & Paz, é Profiler, de Pat Brown (uma das poucas mulheres profilers do mundo), onde podemos conhecer alguns dos casos fascinantes e misteriosos, nomeadamente através dos perfis das vítimas e dos retratos psicológicos dos assassinos.
Correntes do Índico é o segundo romance de Joaquim de Oliveira Ribeiro e conta a história de uma família que, no início do século XX, viajou das Ilhas Maurícias até Lourenço Marques. Segundo a editora, neste livro, baseado em personagens históricas e reais, “o real e o onírico têm um encontro feliz”. Quem o ler ficará a conhecer, por exemplo, Louis Baldini Vissenjou, “um ilustre e esquecido inventor que cria a máquina de descasque industrial da castanha de caju” e Madame Félix, “mulher de espírito inquieto e idade indefinida”.

«Eu Mato» – Giorgio Faletti

“Eu mato” é a mensagem deixada em directo numa rádio de Monte Carlo por um serial-killer antes de praticar no idílico principado do Mónaco os seus assassínios.
Eu Mato é, também, o título deste policial italiano, escrito por Giorgio Faletti (este é o seu romance de estreia) e recentemente editado em Portugal pela Contraponto.
Trata-se de um policial ao estilo europeu, apesar de ter por protagonista um norte-americano, que decorre num ambiente pouco habitual na literatura do género editada em Portugal (Monte Carlo) e com boas doses de sangue e horror. Apesar de ser um livro extenso, não lhe falta ritmo e acção, pois o que lá está, no texto, é material necessário. Encontrei aqui algumas semelhanças com o mestre francês do género (Jean-Christophe Grangé), nomeadamente na construção do perfil psicológico do assassino. Este, tal como em geral nas obras de Grangé, é requintadamente dedicado aos pormenores e sanguinário, ou não esfolasse ele as suas vítimas. Mas, faça-se justiça, Grangé segue num patamar superior… e a alguma distância.
O romance começa quando um conhecido locutor da rádio Monte Carlo recebe em directo no seu programa – em que conversa por telefone com os ouvintes – a chamada de um desconhecido que, com a voz distorcida, revela tratar-se de um assassino. Não é levado a sério, mas no dia seguinte um piloto de fórmula 1 e a namorada são encontrados mortos (e mutilados) no seu barco, que entrou descontrolado por uma marina dentro. E assim começou a série de crimes que dá corpo (e sangue) a este Eu Mato, que, é de destacar, tem uma capa bem apelativa a que a imagem anexa não faz justiça – o vermelho do sangue é brilhante, numa opção muito bem conseguida.
Um agente do FBI, Frank Ottobre, que viveu recentemente uma tragédia pessoal (a morte da mulher), apesar de relutante, acaba por se ver envolvido na investigação do crime, que passa por desvendar as pistas que o assassino deixa previamente em directo no já referido programa.
O livro, como seria de depreender pelo seu volume (cerca de 550 páginas), dedica muito do seu conteúdo à formação das personagens, algumas delas bastante interessantes e bem construídas, embora por vezes não fujam ao estereótipo – mas, ei, também não se pode estar sempre à espera de inovação, certo? –, como o agente que quer descansar mas que se vê obrigado a ajudar o amigo que o tinha acolhido no pacato Mónaco. Mas é das relações entre as personagens, muitas vezes cruzadas, que vive muito este thriller, que assim tem uma boa base onde assentar, de modo a não se limitar a ser “apenas” mais uma história típica de crime à espera de ser resolvido.
Uma boa estreia na escrita de Giorgio Faletti, que antes já se tinha dedicado à música e à representação. Vamos lá ver se pega em Portugal e repete, na devida escala, o êxito de Itália, onde vendeu mais de três milhões de exemplares.