Monthly Archives: Março 2009

Sebastian Barry e Danielle Steel nas novidade de Abril da Bertrand

Capa.cdrcinco-dias“Escritos Secretos”, do irlandês Sebastian Barry, é um dos principais destaques das novidades da Bertrand a lançar a 3 de Abril, ou não tivesse sido uma obra finalista do Man Booker Prize 2008 e vencedora do Costa Award 2008 para melhor livro. Mas há também “Cinco Dias em Paris”, de Danielle Steel, o romance histórico “Helena de Esparta – Princesa de Ninguém”, de Esther Friesner, e a reedição  de “Sonetos”, de Florbela Espanca.

Em “Escritos Secretos”, Roseanne está a ponto de completar 100 anos, mas não sabe a sua idade com exactidão. Além disso, enfrenta um futuro incerto já que o Hospital de Roscommon, no qual passou a maior parte da sua vida, vai ser demolido. Perante a possibilidade de ser transferida para um novo hospital ou inserida na comunidade, o Dr. Grene tenta apoiar a sua decisão procurando conhecer melhor a verdadeira história da sua paciente e a razão pela qual ela passou 60 anos da sua vida em asilos, uma vez que parece perfeitamente lúcida. Através da alternância dos diários do médico, que acabou de perder a sua mulher e a mais antiga paciente daquele hospital, e das memórias de Roseanne, este romance converte-se numa invocação à história secreta da Irlanda.

“Cinco Dias em Paris” é o 36.º romance de Danielle Steel, que já vendeu mais de 600 milhões de livros em todo o mundo. A história incide em Peter Haskell, presidente de um império da indústria farmacêutica, que tem tudo o que um homem pode ambicionar: poder, posição social, uma brilhante carreira e uma família, pela qual teve de fazer enormes sacrifícios, e Olivia Thatcher, que é casada com um famoso senador, a quem se dedicou de corpo e alma. Presa numa teia de dever e obrigação a um marido que amou em tempos mas que agora mal conhece, o seu mundo desaba quando o filho morre.

Peter e Olívia encontram-se, acidentalmente, em Paris, no Ritz, numa noite marcada por uma ameaça de bomba. As suas vidas completamente diferentes convergem num momento mágico na Place Vêndome.

“Helena de Esparta – Princesa de Ninguém” é uma biografia romanceada desta mulher mítica da História, também conhecida por Helena de Tróia, assinada por Esther Friesner, que examina com novo olhar a adolescente que virá a ser Helena de Tróia.

A Bertrand reedita agora “Sonetos”, de Florbela Espanca, obra que aparece dividida em Livro de Mágoas, Livro de Soror Saudade, Charneca em Flor e Reliquae e que apresenta ainda fotografias da autora e um estudo crítico de José Régio. Vaidade, Desejos Vãos, O Meu Mal, Inconstância são poemas presentes em “Sonetos”.

Philippe Claudel – Entrevista a propósito de “Almas Cinzentas”

p-claudell1Philippe Claudel foi um escritor francês praticamente desconhecido em Portugal até lançar o romance “Almas Cinzentas” (Edições Asa), cuja quantidade e qualidade de prémios conquistados comprovam o que se torna óbvio ao ler a obra: estamos perante um excelente livro. Claudel, apesar do cenário e argumento sombrio do romance, revelou-se, nesta entrevista, uma pessoa alegre, com gosto pela vida e com grande sentido e desejo de Justiça.

Longe de vedetismos desnecessários, acedeu a falar de si e da sua obra enquanto era conduzido, pelo meio do caótico trânsito lisboeta, para uma sessão com os leitores, obrigação que cumpre com gosto tal o prazer que sente em comunicar directamente com o público.

 

Para si o mundo é demasiado cinzento?

Não, de modo nenhum! Para mim cinzento é uma cor que gosto muito, que tem uma palete com afinidades entre o branco e o preto. Há várias formas de cinzentos: duros, cortantes, doces, rosa, azuis… É apenas uma imagem para demonstrar que a alma humana, nós próprios, podemos estar sempre entre estes dois pontos, o preto e o branco, e que a nossa vida decorre precisamente entre estes dois extremos: o mal absoluto e o bem absoluto. E no fim de contas, a vida de um homem anda entre isso.

 

E porquê um romance sobre a procura da Justiça, mesmo que tardia e irremediável?

Sim, é um romance sobre o mistério e mistérios que nunca se chegam a compreender. Acho que vivemos num mundo em que queremos que tudo seja explicado e não é fácil explicar tudo, ou compreender tudo. Li muitos romances policiais até há dez anos e depois parei, porque cheguei à conclusão que há sempre um culpado, que é apanhado. Acho que por vezes a realidade é mais sombria, mais difusa e menos acessível. Todo o romance é um inquérito sobre um crime, sobre a própria dor do narrador e sobre os homens. Quando escrevo é para compreender os outros.

 

Acha que há uma linha divisória entre o Bem e o Mal?

É muito difícil durante uma vida ninguém errar. Quando há circunstâncias terríveis, como as de guerra, todos os aspectos desumanos do homem revelam-se. No momento em que o crime se torna a lei comum é preciso resistir para se manter a Humanidade. Por vezes, a fronteira entre o Bem e o Mal é muito ténue. Há uns anos dei aulas de literatura numa prisão.

Foi uma experiência muito forte e reaprendi muitas coisas. Aprendi que de um momento para o outro podia passar para o outro lado. Se num momento escolho o caminho errado, se não resisto a certas coisas… É difícil mantermo-nos do lado certo.

 

Questiona a Justiça em geral?

Não é verdadeiramente a Justiça, mas a maneira como funciona. Mas é também uma interrogação sobre como podemos julgar os outros. É muito difícil. O romance ensina a que antes de se julgar os outros devemos julgar-nos a nós próprios.

 

As personagens femininas dão uma certa luminosidade ao romance. Concorda?

Penso que pura e simplesmente as mulheres são a luz da nossa vida. O mundo sem elas seria ainda mais sombrio. Os actos mais assustadores são sempre feitos por homens. Penso que as mulheres têm mais inteligência, sensibilidade, talento. Há tempos disse isto em Damasco, na Síria, e cinco homens saíram da sala. No romance, mesmo mortas, as mulheres dão luminosidade, humanidade, tal como as estrelas.

 

Todas as personagens carregam o peso de uma tragédia na sua vida.

A existência humana carrega sempre a tragédia, mais ainda quando se confronta com circunstâncias históricas terríveis. Mas também temos tragédias íntimas. Todos conhecemos a morte, todos temos à nossa volta pessoas que morrem, que estão doentes ou sofrem.

 

Tem a intenção de mostrar o que há de obscuro em cada um de nós?

Isso também está presente, mas não era uma intenção definida à partida.

 

Na última página diz “Há tantas coisas que não vemos”…

Sim, mas quando escrevo deixo-me conduzir pela história e tenho o prazer de a contar. Mas é claro que em todos nós há uma parte obscura.

 

Tem uma visão negativa da vida?

– Não, de forma nenhuma! Não sou a imagem dos meus romances. Penso que os romances existem para nos fazer reflectir sobre nós próprios, sobre a nossa existência, para descobrir as nossas feridas e não virar-lhes as costas.

 

Não é duro escrever sobre temas tristes?

Não, não! É difícil fazer entender isto, mas quando escrevo sinto uma leveza e um grande prazer, mesmo quando se trata de coisas graves, dramáticas.

 

É verdade que escreveu este romance apenas durante o Outono e o Inverno?

Sim, “Almas Cinzentas”, que demorou três anos e meio a escrever, só pegava nele quando vinha a chuva e o nevoeiro, porque são climas que se adaptam bem ao livro. Puxam para a introspecção, como o romance.

Porquê situar a acção na I Guerra Mundial e na região da Lorena?

Na verdade, quando escrevi o livro não pensei na Lorena, só vivo lá. Só pensei numa pequena aldeia, que pode ser em qualquer local de França. Sobre o período há várias razões: motivos que afectaram a minha família e geográficos (ainda hoje em toda a região há vestígios). Mas pensei mais no sentimento da guerra. Do outro lado da colina há um país que se guerreia.

 

A guerra está presente, mas sem combates. A população sente-se feliz por não combater, mas também tem um sentimento de culpa por ver os outros a morrer tão perto…

É um sentimento muito pessoal. Quando escrevi o livro pensei muito na guerra na ex-Jugoslávia. A dois mil quilómetros de França havia centenas de pessoas a morrer diariamente, havia campos de concentração, torturas, atrocidades. E eu estava como as pessoas da aldeia, sabia mas continuava o meu dia-a-dia.

 

Fez muita pesquisa para poder escrever o romance?

Não, não. Sou muito preguiçoso (risos). Na verdade, quando começo um romance não faço ideia de como vai ser a página seguinte. Parto de uma imagem. Neste caso de uma rapariga na água. Sou um escritor de imaginação e não de pesquisa. O que me interessa é manter-me no verdadeiramente parecido, que seja plausível. Não há datas precisas, nem batalhas, nem lugares, é mais o ambiente.

 

Quando descobriu que poderia ser escritor?

– Desde que sei escrever e a ler. Aos seis anos comecei a inventar histórias. Escrevia coisas muito más até aos 35 anos, quando comecei a ir a editoras. Publiquei o meu primeiro livro aos 37 anos.

 

Não tem medo de bloquear?

Até hoje nunca bloqueei, avanço sempre porque quero saber como continua a história.

 

As comparações que fazem da sua obra com a de George Simenon incomodam-no?

Em França os jornalistas gostam muito de fazer comparações. E porquê Simenon? Porque nas primeiras entrevistas que dei, há seis anos, disse que gostava de Simenon. Mas sinto-me próximo de Simenon através dos universos geográficos e de coisas nele que sempre admirei. Encontra sempre palavras e frases muito simples. Uma criança de dez anos pode ler um ‘Simenon’ sem precisar de ir ao dicionário procurar uma palavra. E com essa grande simplicidade aparente foi muito longe.

 

Tem recebido diversos prémios literários. Isso é importante para si?

Muito honestamente não, porque não é isso que me faz escrever. É como respirar, se paro de escrever morro. É um gesto natural e vital. Os prémios são efeitos secundários. Dá prazer, não posso mentir, mas há que relativizar as coisas até porque em França há muitos prémios literários. Quando se escreve um livro é muito difícil não receber um prémio (risos).

 

Como convence alguém a ler “Almas Cinzentas”?

Quando escrevo é para ficar mais próximo do outro. Um livro serve para nos encontrarmos, é um acto de humanidade. Eu penso que literatura é um grande acto de fraternidade.

 

O livro

almas-cinzentas1A acção de “Almas Cinzentas” decorre numa povoação da Lorena, em 1917, a poucos quilómetros da frente de batalha. Contudo, vivia à margem da guerra, excepto quando por lá passavam os mortos e o feridos vindos da frente. A vida vai decorrendo numa aparente normalidade, até que um dia aparece o cadáver de uma miúda de dez anos. Rapidamente, assim o exigia a situação para se manter o equilíbrio na povoação, é encontrado o culpado: um desertor, que é executado. Contudo, uma testemunha disse ter visto na noite do crime a criança a encontrar-se com o Procurador local. O polícia da aldeia, o narrador da história, nunca acreditou na culpa do desertor, mas só alguns anos mais tarde, numa altura da sua vida em nada tinha a perder, resolveu investigar melhor o caso. Descobre factos assustadores, sobre pessoas da aldeia e, principalmente, sobre si mesmo, o que o leva a voltar a enfrentar fantasmas do passado.

Philippe Claudel, através da sua escrita clara, aproveita a investigação (externa e interna) do polícia para demonstrar que cada pessoa, independentemente da sua personalidade, a qualquer momento pode transpor a linha que distingue o Bem do Mal.

 

(Entrevista realizada em 2004)

“Salazar, o Maçon”, de Costa Pimenta, à venda a 3 de Abril

salazar01O tão aguardado livro “Salazar, o Maçon”, obra de João da Costa Pimenta editada pela Bertrand, chega às livrarias a 3 de Abril e é apresentado como a revelação do maior segredo da vida do ditador.

José da Costa Pimenta, magistrado e autor do livro, não tem dúvidas sobre a adesão de Salazar à Maçonaria. Defende nomeadamente que o facto de ter renunciado a algumas práticas do catolicismo, como a comunhão e a confissão, revela bem mais do que um afastamento da Igreja Católica. Costa Pimenta apresenta como provas o facto de Salazar aos 25 anos ter deixado de se confessar e de comungar e de, anos mais tarde, já no poder, os seus discursos mostrarem que rejeita os dogmas da Santíssima Trindade e da Divindade de Jesus. Ainda segundo o autor desta obra, Salazar tornou-se crente, sacerdote e pregador da sua nova religião e entende que é clara a ligação pessoal do chefe do Estado Novo a qualquer das fraternidades do compasso e do esquadro.

O magistrado José da Costa Pimenta nasceu em 1955 e é investigador do Centro de Filosofia da Universidade de Lisboa.

Porto Editora lança “Uma Longa Viagem com José Saramago”, de João Céu e Silva

longa-viagemA Porto Editora lançou “Uma Longa Viagem com José Saramago”, obra da autoria do jornalista João Céu e Silva que pretende dar a conhecer melhor a vida e a obra do Nobel da Literatura de 1998.

Nesta obra pretende dar-se a conhecer a sua intimidade e até o seu pensamento. Para tal, o autor recorreu a dezenas de horas de conversas sem tabus. As respostas de Saramago foram analisadas por vinte e quatro outros entrevistados, que comentam as suas declarações e a sua prática da escrita, tudo isto envolvido por um cenário de reportagem dos lugares por onde a sua vida passou e de investigação e análise da sua obra.

“O Mágico – Os Segredos de O Imortal Nicholas Flamel” – Michael Scott

o-magico_2009_1A Gailivro acaba de lançar “O Mágico”, de Michael Scott, o segundo volume de Os Segredos de O Imortal Nicholas Flamel, colecção que, recorde-se, arrancou com “O Alquimista”, editado em 2008. (O terceiro volume sai em Abril de 2010. ver aqui.)

Trata-se de uma obra mais destinada ao publico juvenil, mas à qual os jovens adultos não podem/devem ficar indiferentes se gostam deste tipo de aventuras, onde se misturam personagens reais com muita imaginação e fantasia, socorrendo-se de mitologias de todas as épocas e locais para dar um colorido bastante interessante.

O autor irlandês Michael Scott (especialista em mitologia e crenças populares), depois de um arranque interessante com “O Alquimista”, lançou-se para um segundo volume mais cativante e homogéneo. “O Alquimista” terá sido prejudicado pela necessidade de apresentar as personagens e de as enquadrar no contexto da história, mas em “O Mágico” há uma clara melhoria a nível de argumento. Aliás, mesmo não estando ainda completa a saga, este volume agora editado vale por si só, impondo a sua presença acima das “necessidades” de uma saga em movimento. Embora deixando pontas e pistas para o volume seguinte, Michael Scott conseguiu tornar este segundo tomo num corpo individual, com vida própria.

Desta vez Nicholas Flamel, os gémeos Sophie e Josh, e Scatty viajam, através de um portal, desde a Califórnia até Paris, a cidade-natal do alquimista Flamel. A sua mulher, Perenelle, entretanto, fica para trás, encarcerada numa prisão, a mando do diabólico mago Dr. John Dee. Este persegue Nicholas & Cia. até Paris, onde se alia a Niccoló Machiavelli, o aqui literalmente imortal escritor italiano, que trabalha para ele.  Dr. John Dee persegue-o sem tréguas pois pretende deitar a mão às duas páginas que lhe faltam para completar o Livro de Abraão, o mais poderoso livro de todos os tempos e que pode levar à destruição do mundo, em favor dos Anciões Negros, para quem o mago trabalha.

A cada dia que passam sem o livro, Nicholas e Perenelle envelhecem um ano, pondo assim em perigo a sua imortalidade. Flamel pede então a ajuda a um antigo aluno, o Conde de Saint-Germain, que sob a capa de uma estrela rock oculta as suas capacidades de alquimista e mago. Este grupo, em Paris, e nos misteriosos subterrâneos da cidade, enfrenta inimigos humanos, a própria polícia, controlada por Machiavelli, e outros bem mais temíveis, encontrados pelo autor no mundo da mitologia e da fantasia. Enquanto tentam escapar a Dee e Machiavelli, ainda têm tempo para treinar e desenvolver os poderes de Sophie, que está prestes a aprender a segunda magia elementar, a do Fogo. Já o seu irmão, Josh, de tanto querer desenvolver poderes especiais, acaba por se baralhar um pouco e, instigado por Dee e Machavelli, põe em causa as reais boas intenções de Flamel.

Trata-se de um livro pleno de acção, com Michael Scott a lograr misturar com muito talento e imaginação personagens reais com criaturas e situações inspiradas no mundo da fantasia.

“O Capitão Tormenta” – Emilio Salgari

capatormenta1É sempre com algum receio que me dedico a (re)apreciar algo que na minha juventude me marcou. Passa-se isso com filmes e, principalmente, com séries. Ao rever “Espaço 1999” e “Galáctica”, a decepção foi enorme. “Era disto que eu gostava?” E não foi só por causa dos efeitos especiais, os argumentos parecem-me demasiado básicos mesmo se comparados com séries similares da actualidade.

Assim, foi com um misto de entusiasmo e temor que me dediquei à tarefa de regressar a Emílio Salgari, através de “O Capitão Tormenta”, volume incluído na colecção Viva Salgari! que a editora Via Óptima teve a feliz ideia e o bom senso de lançar no princípio de 2009.

Com Salgari tinha medo que sucedesse o mesmo que, por exemplo, aconteceu com as referidas séries de ficção científica, apesar de estar ciente que o meio era diferente – à partida um livro terá mais facilidade em sobreviver aos anos, e não só por estar imune ao peso dos anos, ao contrário dos efeitos especiais televisivos, por exemplo. Mas não, desta vez, tratou-se de um bom regresso ao passado, mais propriamente uma redescoberta. “O Capitão Tormenta” é uma excelente história de aventuras, onde não faltam os habituais ingredientes: lutas de espadas, combates ferozes, difíceis navegações a bordo de galeras e afins, sempre a um ritmo intenso. Um pouco um recheio a que hoje em dia recorre mais o cinema do que a própria literatura.

Este livro, um original de 1905, tem a particularidade de apresentar por protagonista uma mulher, se bem que quase sempre disfarçada de homem. O Capitão Tormenta é na realidade a Duquesa Eleonora, uma italiana que se faz passar por homem para melhor poder levar a cabo a sua tarefa: resgatar das mãos dos turcos o seu amado, o visconde Le Hussière. Enquadrada a trama no século XVI, durante o assédio dos Turcos aos últimos bastiões do Mediterrâneo, vemos o Capitão Tormenta a destacar-se enquanto corajoso cavaleiro, conquistando inclusive o respeito de adversários. Aliás, uma nota dominante nesta obra é o respeito existente entre inimigos (não, todos, claro), respeitando uma série de regras cavalheirescas que podem até parecer estranhas em plena guerra.

O livro é uma constante de acção, mas uma acção não gratuita, ou seja, nada aparece de forma forçada, nada aparece só pela necessidade de animação. Salgari introduz estes elementos com naturalidade, construindo um história bem sustentada e com algumas personagens bem interessantes. O Capitão Tormenta/Eleonora é sem duvida a mais interessante, dada a sua dupla personalidade, mas também o Leão de Damasco (seu inimigo/admirador) ou a insuportável, irascível e ambiciosa Haradja.

A geopolítica da época no Mediterrâneo é outro dos pontos de interesse, dada a profusão de povos em contenda e de alianças estratégicas que são acordadas.

Este volume da colecção Viva Salgari! vem ainda enriquecido com uma introdução interessantíssima sobra a vida e obra de Emílio Salgari, assinada por Luís Torres Fontes, editor da Via Óptima, assim como por uma completa bibliografia salgariana.

“Eva Miranda” – Giardino e Barbieri

eva“Eva Miranda”, de Giardino e Barbieri (uma edição ASA), é apresentado como a primeira “soap opera” em banda desenhada, onde nem sequer faltam anúncios publicitários. Tudo a brincar, claro, mas com um humor apurado, que soube captar bem o espírito e os “tiques” das “soap operas” televisivas, a fugir para o dramalhão mexicano.
A ideia nasceu na mente de Vittorio Giardino, o autor dos desenhos, que desafiou Giovanni Barbieri a esboçar um argumento que fugisse ao tradicional da banda desenhada contemporânea. Assim, graças à imaginação desta dupla italiana, nasceu “Eva Miranda”, álbum cujo nome reporta directamente à bela (e perigosa) protagonista desta história. Eva Miranda chega a Doris Bay, cidade costeira onde está disposta a tudo (mesmo a tudo) para alcançar a fama e a gloria. Em Doris Bay, uma das famílias dominantes são os Stone, os donos da popular bebida Nana’s. Pertencentes à alta sociedade, vêem com desagrado a paixão do filho e herdeiro, Ron, por Cindy, uma simples rapariga que trabalha numa pastelaria. Este amor impossível (por todos os motivos e mais alguns) é, contudo, apenas um dos motores da acção idealizada por Barbieri que, respeitando na íntegra o espírito telenovela, planeou um argumento com muito ritmo (tal como na TV não há tempos mortos) onde não falta drama, lágrimas, sofrimento, traição, paixão, fugas, reencontros, ganância, etc.
Quase sempre em ambientes de luxo, entre mansões e limusinas, praias e piscinas, com o erotismo também constantemente presente. Nesta última matéria, Eva Miranda é a maior contribuinte, ou não fosse ela a rapariga de fora que chega à cidade de todas as oportunidades para vencer na vida… custe o que custar.
Mas se Barbieri agarrou bem no espírito das “soap operas”, Giardino, o mentor da aventura, não se ficou atrás. Através de pranchas de linha clara bem coloridas e recheadas de personagens típicas de telenovelas de nível “duvidoso”, insere o leitor num mundo fantástico, cheio de “glamour” de segunda categoria, onde o mau gosto tem primazia. As poses das personagens parecem inspiradas em fotonovelas dos anos 70, dando a “Eva Miranda” um toque “retro” cativante e, acima de tudo, bem divertido.
A merecer também a atenção a “recriação” em BD de anúncios de TV, que, pela sua imaginação, fariam inveja a alguns dos verdadeiros criadores da época de ouro das “soap operas”.
Com muito humor (só podia ser assim porque este tipo de drama televisivo nem pode ser levado muito a sério) a dupla Giardino/Barbieri recuperou o espírito bem peculiar do mundo das “soap operas”, aproveitando com mestria os tiques e maneirismos do género.