Entrevista a Edson Athayde, autor de «Jonas Vai Morrer»

O brasileiro Edson Athayde, que se tornou conhecido através do mundo da publicidade, está agora voltado para a literatura e lançou recentemente o seu novo romance, Jonas Vai Morrer, obra escrita no âmbito de Guimarães 2012 – Capital Europeia da Cultura, durante uma residência literária na cidade-berço. O enredo decorre precisamente em Guimarães 2012, nos finais dos anos 80. Trata-se de um romance que o próprio autor cataloga de como quase-policial e que, por sua sugestão, deve ser ouvido ao som de uma balada dos Smiths, ou dos Radiohead. Mas para conhecer melhor o livro (e Edson Athayde) leia esta entrevista que o escritor deu via email ao Porta-Livros.

Jonas vai morrer é um livro bastante intimista. Pôs muito de si nas personagens?
Acho que o exercício foi o contrário: criar personagens muito distintos da minha personalidade e trajectória. Os cenários não. Posso dizer que estive em todos aqueles lugares, mas vivi situações num mundo paralelo aos dos personagens da história.

Os protagonistas deste romance são pessoas algo perturbadas. Sente-se fascinado por este tipo de mentes que «fogem» à norma?
Gosto de uma frase do Caetano Veloso: “Ao perto, ninguém é normal”. Do ponto de vista da ficção, os errados, os tortos, os rotos são sempre mais interessantes dos que os banais.

Além, naturalmente, da própria paisagem, de que forma Guimarães influenciou a escrita deste romance?
A única coisa que eu tinha antes de começar a escrever o livro era o seu título. E esse projecto estava reservado para ser escrito em Buenos Aires. A partir do momento em que ficou decidido que eu iria tocar a obra no âmbito de Guimarães 2012, isso tornou-se o principal vértice do meu trabalho. Aqueles personagens e aquelas tramas só nasceriam em Guimarães, só apareceram porque eu estava lá e queria contar uma história naquele cenário. O grande exemplo é o personagem Pedro. A sua principal característica é ser uma pessoa sem um passado. Isso só ocorreu-me pelo contraponto a Guimarães, a cidade com mais história do país.

Houve algum motivo especial para escolher os anos 80 como época deste enredo?
Gosto de histórias de época. Mas, no caso, os anos 80 aparecem como um factor credibilizador de uma história de um tempo onde as pessoas não vivem a falar ao telemóvel e a fazer pesquisas no Google. Você até pode escrever um livro de mistério nos dias de hoje, mas acho mais charmoso fazer isso numa época em que as pessoas têm de fazer as suas investigações de maneira mais pessoal.

Revelou-se um livro difícil de escrever, nomeadamente a parte final, quando esteve doente. Foi um alívio libertar-se da história ou fica de tal modo ligado às personagens que lhe custa deixá-las?
Não tenho grande pudores em relação aos personagens. Se eles têm vida própria, quem sou eu para impedir que morram ou que matem-se uns aos outros. No caso, a única coisa que dificultou foi que não queria um final totalmente soturno, sem uma linha qualquer de esperança. Foi complicado encontrar as portas que me permitissem ser coerente com o resto do livro mas, ao mesmo tempo, deixar um sinal mais optimista.

Jonas Vai Morrer poderia ser catalogado de diversas formas quanto ao género. Se fosse dono de uma livraria em que estante o colocaria?
Bem, ele está na prateleira dos autores portugueses (o que muito me orgulha).
Quanto ao género digo sempre que ele é um quase-policial.

Sei que gosta de ouvir música enquanto escreve. E para quem lê este o seu novo romance recomenda alguma banda sonora?
Qualquer balada dos The Smiths, sem dúvida. Radiohead também serve.

Aproveita ideias que teve para anúncios para elaborar cenas no romance, ou, por outro lado, há cenas que acha que poderiam dar um bom anúncio?
Não há qualquer canal comunicante entre as duas actividades no que toca a conteúdos.

Que argumentos utilizaria para «vender» Jonas Vai Morrer a um potencial leitor?
Trata-se de um livro que procura o equilíbrio entre uma trama ágil e o respeito pela língua portuguesa. Uma prosa que quer-se prima de alguma poesia.

Há algum motivo especial para os seus romances terem sempre um Pedro como protagonista?
Gosto de nomes simples e bíblicos. Essa é uma regra. A outra é que os personagens é que escolhem os seus nomes. E há sempre um que diz-me chamar-se Pedro.

Que diferenças pode apontar ao escritor Edson Athayde desde o seu romance de estreia O Rapaz das Fotografias Eternas até ao presente Jonas Vai Morrer?
Acho que o «Jonas» é um livro mais «adulto». Ao obrigar-me fugir do realismo fantástico (universo que me é muito caro) e, assim, dosear também mais a ligação com a poesia e com a metaliguagem, acabou por resultar num romance mais «seco». Não sei se o próximo vai seguir esse caminho ou voltar para a minha maneira anterior de escrita, mas gostei do exercício.

Depois de já se ter envolvido em tantas actividades criativas, pensa continuar de futuro pela literatura ou vai dedicar-se a algo novo?
A minha praia é contar histórias, independente dos formatos e suportes. Teatro, cinema, televisão, nada está fora do meu campo de vista. Mas gosto muito dos livros. Pretendo daqui a uns dois anos ter outro romance para apresentar.

4 pensamentos sobre “Entrevista a Edson Athayde, autor de «Jonas Vai Morrer»

  1. Helena Lopes

    Já li o livro “Jonas Vai Morrer”, e gostei da forma como foi escrito. A viagem não é tranquila, como avisa o autor. Dissecar os pensamentos, intenções, e atos pouco ortodoxos dos voláteis personagens, faz-nos sentir que voamos, e por vezes aterramos, mas em lodo. . .na altura em que acabei de ler o livro senti um soco, e um nó na garganta, não conseguia ter opinião. Agora já me distanciei o suficiente, e o saldo é positivo. Acho que retrata de forma magistral as nossas mentes conturbadas, que formam a massa social, o declínio das instituições, a loucura ao poder. Parabéns Edson Atayde, nunca deixe de escrever.

  2. Wagner Luiz Santos

    Eu por outro lado sou fã do Edson e como brasileiro acho os portugueses burros demais sem nenhum atrativo intelectual.

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