Entrevista a Maria Inês Almeida e Joaquim Vieira, autores da colecção Duarte e Marta

«Estas são as histórias de mistério, intriga e acção que todos os jovens gostam de ler, mas actualizadas para o século XXI» – palavras de Joaquim Vieira (JV), que, em parceria (e sintonia) com Maria Inês Almeida (MIA), se envolveu numa grande aventura, a criação de uma colecção de livros de ficção para jovens (Duarte e Marta, uma edição Porto Editora), desde Junho nas livrarias.
Os dois primeiros passos já foram dados – Mistério no Pavilhão de Portugal e Ameaça no Vale do Douroe nesta entrevista ao Porta-Livros (feita via @mail) os autores, ambos jornalistas, explicam como aqui chegaram na companhia de Duarte e Marta e revelam-nos até onde os pretendem levar à caça de aventuras. Como diz Maria Inês Almeida, «As aventuras surgem se estivermos atentos ao que está à nossa volta e aos problemas dos outros.»

Como surgiu esta ideia de se lançarem numa colecção para jovens?
JV: Conhecemo-nos no âmbito de outro projecto profissional que não chegou a concretizar-se, e, dado que ambos tínhamos experiência no campo editorial, interrogámo-nos sobre se não seria interessante lançar em co-autoria uma colecção para jovens. A primeira dica foi da Maria Inês, e eu aproveitei-a e não a larguei mais.
MIA: Quem escreve para crianças também está contaminado pela sede de aventuras. Achámos que o facto de sermos de gerações diferentes também nos faria ter sensibilidades complementares e estar atentos a coisas diferentes. São formas diferentes de ver o mundo, e isso é desafiador e estimulante no próprio desenho da colecção, porque abre mais os jovens, não em resignação perante o mundo que há, mas na vontade de ajudar em fazer o mundo. O mundo está a fazer-se, não está feito. Assim como os jovens. Assim como nós. À medida que os anos passam nós olhamos para o mundo que já foi. Os jovens estão a olhar para o mundo que ainda não é. E isso desafia-nos.

Querem apresentar-nos estes dois heróis? E já agora, como chegaram aos nomes Marta e Duarte?
JV: São dois jovens, um rapaz e uma rapariga, colegas de turma, que vivem em Lisboa (embora ele venha do Porto) e que, devido à sua generosidade e predisposição para ajudar os outros e resolver problemas com que deparem, acabam envolvidos em aventuras que os vão aproximar como amigos. Chegámos a estes nomes porque nos soaram bem, depois de termos experimentado outros.
MIA:  O Duarte e Marta gostam de música, têm curiosidades, os seus próprios interesses (a Marta por exemplo colecciona selos personalizados), gostam de estar com amigos, têm Facebook e têm um sentido de justiça e ideias muito concretas: acham que é preciso lutar pelas coisas em que acreditam, com noções de ajuda aos outros e de solidariedade. Estão também muito virados para os aspectos práticos da vida e, nessa medida, são bons a resolver problemas concretos. Ambos sabem que uma boa amizade pode ser tão forte como um primeiro amor.

Que cuidados tiveram na construção das personagens tendo em conta que se dirigem a um público especial?
JV: Dado que se trata de um público ainda em formação, há toda uma série de valores consensualmente aceites como positivos que devem ser preservados neste tipo de livros e que caracterizam as personagens principais.
MIA: Que fossem personagens bem dispostas, cativantes e interessadas pelos outros e pelo que os rodeia. Devia passar também a ideia de que não estalamos os dedos e dizemos: «Agora quero viver uma aventura.» As aventuras surgem se estivermos atentos ao que está à nossa volta e aos problemas dos outros.

Sendo vocês, os autores, de gerações diferentes, notaram diferenças no entendimento que faziam das peculiaridades dos adolescentes?
JV: Sim, mas isso até pode ser uma vantagem, porque temos conseguido harmonizar essas diferenças e chegar a um entendimento, elevando, quanto a mim, a exigência com que os livros são produzidos.
MIA: Sim, mas como já referi são sensibilidades complementares, e isso é um desafio. Encontramo-nos a meio caminho.

Contactaram jovens da idade da Marta e do Duarte para que vos ajudassem a construir as suas personalidades?
JV: Não particularmente para este efeito, mas aproveitámos a observação daqueles que conhecemos. No meu caso, o facto de ter um filho com a idade aproximada do Duarte foi uma vantagem.
MIA: No meu caso, o meu filho tem 4 anos mas tem umas amigas vizinhas, mais velhas, entre os 7 e 12 anos. Tornei-me ainda mais atenta, mas não para construir personalidades. Atenta ao que usam, como falam, como pensam em relação a determinadas coisas. É importante estar dentro desta realidade. E é muito engraçado pois elas já dão dicas e pedem para que escreva sobre coisas… No outro dia, as de 7 anos pediram-me se podia escrever um livro sobre animais de estimação.

Que tipo de investigação fizeram para compor os dois primeiros livros?
JV: Foi bastante variada. Posso dizer que para o primeiro volume contactámos com um ex-responsável da PSP e um professor de engenharia civil, para certas especificidades técnicas, e no segundo visitámos as caves do vinho do Porto em Vila Nova de Gaia. E em ambos os casos fizemos observações em locais onde se passa a acção. Além de muita pesquisa na internet. Até procurámos saber como se fabricam bombas detonadas à distância por telemóvel.
MIA: Vou dar um exemplo: para o primeiro volume, andámos a investigar se, do ponto de vista técnico, uma explosão que rebentasse dois ou três cabos da pala do Pavilhão de Portugal poderia acarretar a quebra dos restantes. Neste aspecto, a história devia ter consistência e não tratar-se de uma mera fantasia. A conclusão a que chegámos foi muito curiosa, mas prefiro não a mencionar. Quem ler o livro percebe.

Pretendem pôr os protagonistas a percorrer o país (e o estrangeiro) nas suas aventuras? É uma forma de ensinar algo aos leitores? Têm essa preocupação de transmitir algo mais além da história?
JV: Embora o objectivo principal seja o entretenimento, temos o entendimento de que uma colecção deste tipo, dirigida a um público jovem, deve possuir uma componente didáctica, e por isso os protagonistas irão viajar por Portugal (em primeira prioridade) e, quiçá, pelo estrangeiro.
MIA: De qualquer forma, o nosso objectivo não é dar lições. Mas não há dúvida de que a viagem, a descrição de outros lugares e comunidades, é uma forma de transmitir conhecimentos. Basta ver como muitos jovens conheceram as sete partidas do mundo a partir das aventuras de Tintin.

Têm em «Uma Aventura» um concorrente de peso. Encaram essa colecção como um «rival» ou antes como uma inspiração, dado o reconhecido sucesso da mesma?
JV: Eu não diria nem uma coisa nem outra, porque nunca li nenhum volume dessa colecção (sou do tempo das aventuras dos 5, da Enid Blyton). Mas é claro que temos a noção da sua existência e do êxito que teve. Ter produzido já à volta de uns 50 títulos, segundo creio, é obra, e isso não pode deixar de ser reconhecido. É natural que se veja o nosso trabalho como concorrencial, mas não tivemos essa intenção. O tipo de protagonistas (apenas um rapaz e uma rapariga) é diferente, e procurámos actualizá-los e eles e às histórias para o século XXI, com tudo o que caracteriza o novo quotidiano da juventude.
MIA: Eu sou da geração da Aventura, e não posso dizer que não tenho presentes esses livros, que consumi na minha adolescência com tanto entusiasmo. Mas se alguma relação existe é sem dúvida de inspiração, não de rivalidade, porque julgo existirem consideráveis diferenças entre um projecto e outro. De qualquer maneira, quanto mais não seja pela dimensão, o nosso não pode comparar-se com ele.

Como é o processo de escrever a quatro mãos? Está cada um de vocês mais ligado a um dos personagens ou determinado tipo de situações?
JV: Para cada novo volume, começamos por nos reunirmos para delinear a história que queremos contar. Depois, com esse esqueleto já de pé, cada um de nós escreve as partes correspondentes a certas componentes da acção, trocando-as por email, fazendo observações críticas e tentando encaixá-las. No fim, voltamos a reunir, para harmonizar todo o conjunto. Nenhum de nós está ligado a uma personagem em particular.
MIA: Como nos encontramos em permanente interacção, estamos sempre a reagir ao que o outro diz. Acima de tudo é muito divertido. Nós divertimo-nos com o Duarte e Marta, e acho que às vezes, quando dialogamos, já entramos numa ou outra personagem. Do tipo: «Ah, mas agora a Marta diz-lhe: ‘Duarte, vai jogar Solitário!’» Esta é uma expressão que a Marta usa quando quer «calar» o Duarte.

As ilustrações (de Zé Nova e Ana Freitas) são bastante cativantes. Que tipo de trabalho foi feito para se chegar a este resultado?
JV: Inicialmente foi muito discutido o tipo de ilustração mais adequada, com testes a vários desenhadores. Creio que o Zé Nova e a Ana Freitas interpretaram muito bem a intenção dos autores do texto. Damos sempre indicações muito específicas sobre as ilustrações a produzir. Se estamos insatisfeitos, oferecem-nos a possibilidade de solicitar retoques, aperfeiçoamentos e até alterações.
MIA: E testámos o Duarte e Marta enquanto imagem junto do nosso público alvo. Estes livros não são só escrita, são também uma expressão gráfica. Do ilustrador, da equipa de marketing da Porto Editora, das nossas editoras (Susana e Sandra). É um conjunto. O Zé Nova e a Ana Freitas estão de parabéns. Sentimo-nos muito bem interpretados, e os jovens têm sentido uma empatia pela imagem do Duarte e Marta.

O que é que vocês oferecem aos leitores que as outras colecções do género não oferecem? O que diriam a um jovem leitor para o convencer a ler um dos vossos livros?
JV: O que já atrás foi dito: estas são as histórias de mistério, intriga e acção que todos os jovens gostam de ler, mas actualizadas para o século XXI, não só no perfil das personagens como nas temáticas abordadas. Pelo menos a nossa intenção tem sido essa.
MIA: Se não acreditássemos que esta colecção traz uma mais-valia, não avançaríamos. Isto para nós também é uma aventura: encontrar os impulsos de aventura dos tempos de hoje. E conhecer por dentro uma aventura. Julgamos que a colecção fará a sua diferença no encontro com os desejos e sonhos desta geração. Hoje uma jovem leitora disse-me o seguinte sobre os livros: “Nota-se que não é de autoras inglesas e que não é preciso ser de fora para ser bom. Está complexo ao mesmo tempo que está simples. Ela [a Marta] gosta de ser rapariga mas não é pirosa.” Gostei de ouvir.

Do próximo volume há já alguma coisa que possam revelar?
JV: O próximo volume já está escrito, mas penso que só a Porto Editora poderá autorizar a divulgação de qualquer elemento sobre a história.
MIA: Há tantas solicitações e a sede de acção do Duarte e da Marta é tão grande que eles não vão parar. Os dois têm pela frente um mundo de aventuras.

(Fotos cedidas pela Porto Editora)

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