«Peregrino» – Terry Hayes (Topseller)

Capa PEREGRINOPeregrino, obra de estreia de Terry Hayes, é um thriller de espionagem ambicioso e arrojado que obtém excelentes resultados. Isso mesmo vai poder ser confirmado pelos leitores portugueses a partir de 26 outubro de 2015, dia em que a Topseller o lança no mercado. Felizmente, já tive a oportunidade de o ler, e com atenção, dado que fui o tradutor da edição portuguesa.
A trama é complexa e há personagens complexas, mas isso não deve, nem pode, assustar os mais preguiçosos na leitura. O ritmo é tal que essas complexidades se desvanecem por completo, sendo este um daqueles livros que nos custa deixar e em que ansiamos, estranhamente, dada a natural curiosidade de leitor, por uma conclusão demorada. Está-se bem lá dentro, estamos entretidos, e não devem ser as mais de 600 páginas a assustar. O livro envolve-nos e aí o mérito é todo do autor, inexperiente até aqui enquanto romancista, mas muito batido na relação com o público, pois é há muitos anos argumentista de cinema e televisão com obra feita. Escreveu, por exemplo, Mad Max 2 e 3, Calma de Morte, A Verdadeira História de Jack, o Estripador, etc. A sua experiência na sétima arte não será alheia ao estilo cinematográfico que imprimiu a Peregrino, cuja adaptação ao grande ecrã está já garantida pela mão do realizador Matthew Vaughn, autor de filmes como Kingsman: Serviços Secretos, X-Men: O Início e Kick Ass – O Novo Super-Herói.
Peregrino apresenta uma história ambiciosa, com dois protagonistas fortes (o bom e o vilão, dependendo da perspetiva), bem secundados por uma galeria de secundários fundamentais para o desenrolar do enredo. Cingindo-me aqui aos dois protagonistas/antagonistas, posso referir que o Peregrino é o típico herói americano solitário, com uma vida pessoal complicada, patriota (mas com as suas cautelas e dúvidas) e extremamente implacável e eficiente, além de ser também uma espécie de «MacGyver». Já o Sarraceno é, também, goste-se ou não, um patriota (saudita), além de empenhado, engenhoso, inteligente e implacável, determinado a abalar e mudar o mundo, para que este se enquadre na sua perceção daquilo que entende por ideal.
O romance é uma espécie de mistura de policial com thriller de espionagem, já que começa em Nova Iorque com a investigação de um crime quase perfeito e «acaba» com uma ameaça terrorista de cariz global, capaz de mudar o mundo tal como o conhecemos. O ponto em comum é o protagonista, nome de código Peregrino, mas que dado o seu passado de espião de topo responde por muitos outros nomes… falsos.
O que está em causa nesta história é uma ameaça terrorista global através de um vírus já erradicado mas que o terrorista, conhecido por Sarraceno (nome atribuído pelo próprio Peregrino, por significar árabe ou muçulmano que perseguia cristãos – assim se percebe de imediato o mote da história), consegue fabricar com recurso aos seus conhecimentos médicos e a produtos roubados ou comprados anonimamente na Internet. Depois, socorrendo-se de informações obtidas facilmente na Internet, orquestra um engenhoso plano para difundir o vírus no país alvo do seu ódio, naturalmente os EUA. Esse ódio começou a germinar ainda enquanto adolescente na Arábia Saudita, de onde é natural, a partir do momento em que o seu pai foi decapitado publicamente por questões políticas.
Todos os seus passos são relatados minuciosamente, ao mesmo tempo que acompanhamos os avanços (e recuos) do seu perseguidor, o Peregrino. É uma espécie de duelo à distancia, com o Peregrino a seguir um inimigo desconhecido. Pelo caminho vamos conhecendo episódios da vida de ambos, que os tornaram aquilo que são, o que nos leva, entre um e outro, desde a primeira guerra do Afeganistão à Turquia atual, passando por Nova Iorque (e o 11 de setembro), Bulgária, Florença, Arábia Saudita, etc., havendo ainda espaço para histórias paralelas. Este é, aliás, um dos pontos fortes deste livro: as histórias complementares, essenciais para o desenrolar da ação, tantas vezes tão ricas que elas próprias, por si, aguentariam uma história independente. Aliás, quase pode dizer-se que quem comprar este livro leva dois romances consigo, pois a principal das histórias paralelas (que envolve crimes «quase» perfeitos, relações amorosas e dinheiro) é de tal forma completa e cativante que daria por si só um bom e rebuscado policial.
E depois temos as «cenas» de ação, com muita violência física e psicológica, vivas, entusiasmantes e frenéticas, onde não falta sangue, nem mortes.
A nível de estilo, os parágrafos curtos e as frases simples e diretas ajudam à compreensão do enredo rebuscado. É uma opção compreensível numa obra com tantos saltos no espaço e, principalmente, no tempo, dado que para apresentar os devidos enquadramentos geopolíticos a história anda para trás e para a frente com frequência. A princípio, ao leitor menos «empenhado» pode parecer difícil de acompanhar, mas concentre-se porque quando der por ela já entrou no «esquema» e vai estar a desfrutar de um excelente livro de espiões. Em suma, deixe-se levar pelo Peregrino.

Bodrum, o «centro» de Peregrino
Bodrum, bela e popular estância de férias na costa turca, tornou-se este verão mundialmente conhecida pelos piores motivos, pois lá perto foi captada a famosa e horrível fotografia da criança síria refugiada que morreu afogada junto à praia. Mas Bodrum é também um dos principais cenários do thriller Peregrino, de Terry Hayes. Como em qualquer bom livro de espiões (e este é-o, sem ponta de dúvida), pode contar com várias localizações exóticas, remotas e cosmopolitas, e imagine-se já a viajar por Suíça, Grécia, Paris, Nova Iorque, Afeganistão, Paquistão, Arábia Saudita, etc. Mas se ler Peregrino, vai efetivamente passar muito tempo em Bodrum, uma terra que mistura história (desde o tempo dos romanos ao dos nazis em fuga) e praias e férias, e que é descrita com vigor e vida, enquanto decorrem cenas de grande tensão e emoção. Terry Hayes, além do talento natural para montar e contar histórias, revela neste livro um outro dom, a descrição de cenários, desde os mais rurais e desérticos, aos urbanos, conseguindo assim levar a que o leitor se «encaixe» bem no enredo.

Sinopse: «Uma corrida vertiginosa contra o tempo e um inimigo implacável.
Uma jovem mulher brutalmente assassinada num hotel barato de Manhattan.
Um pai decapitado em praça pública sob o sol escaldante da Arábia Saudita.
Os olhos de um homem roubados do seu corpo ainda vivo.
Restos humanos ardendo em fogo lento na montanha de uma cordilheira no Afeganistão.
Uma conspiração para levar a cabo um crime terrível contra a Humanidade.
E um único homem para descobrir o ponto preciso onde estas histórias se cruzam: Peregrino.»

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