“Justine” – Lawrence Durrell

justine“Justine”, obra clássica de Lawrence Durrell (1912-1990) editada em Portugal pela Ulisseia, é um dos vértices de uma tetralogia que tem a mítica cidade egípcia de Alexandria como pano de fundo, ou quiçá, como protagonista.

No seu todo, a obra de Durrell intitula-se “Quarteto de Alexandria”, incluindo, para além deste “Justine”, “Baltasar”, “Mountolive” e “Clea”. Estes quatro volumes foram escritos entre 1957 e 1960 e fizeram de Durrell um candidato ao Nobel da Literatura.

A acção decorre no período que medeia as duas guerras mundiais. Alexandria é, no fundo, a personagem principal desta teia de enredos amorosos, políticos e religiosos, sendo excelentemente secundada por personagens bem elaboradas, das quais Justine e o narrador são só os melhores exemplos.

Este par vive um amor proibido (ambos são já comprometidos), com tanto de intenso como de dramático e, principalmente, fatalista.

Durrell, para contar a sua história, não é linear no tempo, já que recorre muitas vezes a saltos ao passado que permitem ao leitor compreender (e julgar) melhor certos actos das personagens no presente.

E as personagens são, inequivocamente, uma das grandes traves-mestras da qualidade deste romance, não só o narrador e Justine, como também Nessim (marido de Justine), elissa (companheira do narrador) ou os outros que vão povoando as suas vidas e, em simultâneo, de Alexandria, através dos quais nos é dado um retrato desta misteriosa cidade.

Durrell, através do narrador, faz comparações entre Alexandria e Justine –

 “… compreendo que ela é uma verdadeira filha de Alexandria; isto é, nem grega, nem síria, nem egípcia, mas uma híbrida, um complexo” – dando à cidade uma vida e uma personalidade por norma só reservada a seres humanos, daí se compreendendo a devoção do escritor pela cidade.

Mas esta devoção não significa admiração pura, já que, por exemplo, na descrição dos beijos proibidos do casal escreve: “as implicações de cada beijo seriam diferentes em Itália e em Espanha; aqui os nossos corpos estavam feridos pelos ventos ásperos e esterilizantes que sopravam dos desertos africanos, e éramos obrigados a substituir o amor por uma ternura cerebral mais cruel, que, longe de repelir a solidão, só servia para exacerbá-la ainda mais”. Ou seja, Alexandria ganha corpo neste romance, de tal forma que é quem mais influencia os comportamentos de quem vive no livro.

Por isso,“Justine” é acima de tudo um livro que nos apresenta uma cidade muito peculiar e fascinante, através de uma bela e trágica história de amor, conduzida por uma mulher fascinante que, não consegue, ela própria, guiar os seus sentimentos como quereria, levada por algo tão forte e intenso que a deixa arrasada.

A adoração de Durrell por Alexandria nota-se em todos os pormenores e há a destacar um passeio nocturno do narrador por um bairro indígena, depois de uma noite complicada onde tentou descobrir o que era afinal, o amor, o sexo.

No fundo, o que a autor transmite é a que personalidade é moldada pelo local onde se vive.

5 pensamentos sobre ““Justine” – Lawrence Durrell

  1. Pingback: Guerra & Paz edita «Papisa Joana» de Lawrence Durrell | Porta-Livros

  2. Justine foi um acontecimento inusitado em minha vida,nele Durrel descreve uma mulher tao intensa em uma relaçao tao profunda,voltada para o seu proprio eu,que quase me encontro devida tamanha personalidade moldada apartir de relaçoe interpessoais no lugar onde se vive

  3. Cláudio Buono

    O que mais me marcou em “Justine” foi justamente o clima da cidade. Não haveria outra cidade, outro clima, onde esses amores poderiam acontecer senão em Alexandria.

  4. Roberto Iemini de Carvalho

    O ” Quarteto de Alexandria”, q reli há pouco tempo, é uma das maiores experiência estética literária pela qual já passei. Se ” Justine ” é uma obra-prima absoluta, os outros três volumes subsequentes lhe conferem uma perspectiva mais profunda. Me sinto um tanto desolado por tal obra estar aparentemente relegada a poucos e raros leitores…

  5. Fernando Moura

    É só para te dizer que não estás só. “Justine” é o meu livro de mesa de cabeceira. Leio muitos autores, clássicos e modernos, mas de vez em quando tenho necessidade de voltar a “Justine”.
    Quase que sei de cor as páginas onde estão as passagens de que mais gosto-
    FERNANDO M.

Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão /  Alterar )

Google photo

Está a comentar usando a sua conta Google Terminar Sessão /  Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão /  Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão /  Alterar )

Connecting to %s

This site uses Akismet to reduce spam. Learn how your comment data is processed.