O escritor angolano Vítor Burity da Silva viu recentemente editadas em Portugal duas das suas obras, Rua dos anjos e Este lago não existe, que serviram de mote à Porto Editora para lançar a colecção Literatura Plural. O Porta-Livros entrevistou o autor, abordando temas como os seus livros, a sua carreira, a literatura angolana, a Angola de hoje e as relações entre Portugal (onde vive) e o seu país de origem.
Um elemento sempre presente na sua escrita, pelo menos nestes dois livros (Rua dos anjos e Este lago não existe), é o sonho. Porque esta necessidade de sonhar, sua e das personagens?
Bem, o sonho faz parte da vida, não é? E nós temos sempre, temos ambições, temos objectivos. E quando um homem sonha as coisas acontecem… diz o poeta. É no fundo um interiorismo, eu mergulho muito para dentro para vivenciar recalcamentos, amarguras, mágoas, frustrações, que fazem parte do percurso de vida e então o sonho está sempre presente, grande parte como metáfora para muitas outras coisas.
E ao escrever sobre isso, liberta-se de alguma forma?
Liberto, liberto, é uma descarga imensa. Eu fico mal quando não escrevo, tenho de escrever todos os dias. Tal como um atleta precisa de treino para descomprimir, eu preciso de escrever para descomprimir.

Vendo por estes dois livros, opta muito por histórias a dois.
É coincidência nesses dois livros, noutros tenho mais gente. Normalmente gosto mais de uma narrativa directa, sem grandes interferências de personagens. As personagens vão aparecendo metaforicamente também e muitas das vezes as personagens aparentes nestas histórias na realidade não são personagens, são um seguimento do narrador numa discussão. Mas neste caso apareceram de facto estas duas pessoas, embora em Rua dos Anjos a história esteja centrada numa só, e a pessoa misteriosa é uma metáfora, uma mão de Deus, que Serafim precisa para se reorganizar, para se reerguer. Ele nem tem de onde vem, esta ali, pura e simplesmente. Em Angola isso foi utilizado como discriminação, mas eu nem disse nada disso. É engraçado, é a liberdade de interpretação de cada um, pode ser questionada, e um tipo põe-se à margem, e põe-se à mão, ao escrever.
Estas vivências das suas personagens são vivências íntimas, pertencem a casos que observa ou nascem por si, naturalmente?
Nascem naturalmente, mas têm que ver com a vida, com o dia-a-dia, são ainda resquícios da guerra, da mágoa, da separação de pais, de casamentos não muito felizes, e o que vejo dos outros.
É bem visível nestas obras a imaginação existente dentro das personagens. É uma maneira de mostrar a sua própria imaginação?
Não intencionalmente, mas vê-se muito os pensamentos das personagens, é uma forma que tenho de dar vida às personagens que uso.
Apega-se muito às suas personagens? Quando acaba a escrita de um livro tem pena de as deixar ou já está farto delas?
Não, não me farto, e gosto. Tantas vezes me sinto um Serafim, independentemente do que formos, há tantas vezes que nos sentimos mal, com o nosso dia-a-dia, com os nossos casamentos, com o nosso trabalho, e o sem-abrigo Serafim é uma metáfora da sociedade, a história não é propriamente dos sem-abrigo, é o sem-abrigo que todos somos em determinados momentos da nossa vida, quando não temos terras, não temos deus, motivos nem motivação.
Quando começou a escrever, a sentir a necessidade de contar as suas histórias?
Eu escrevo desde sempre, desde muito pequenino. Comecei também a ler muito cedo, já livros pesados. Já na escola primária as pessoas comentavam a forma como eu escrevia, as redacções; agora são composições… Questionavam muito a minha imaginação. Ainda há tempos encontrei a minha professora da primária e ela disse: “Eu sempre disse que ias ser escritor.” Tinha uma imaginação muito forte, e cá estou. Tenho muitas coisas escritas, milhares e milhares, só que, pronto, fui publicando as mais recentes.
Quando teve a noção que pretendia fazer carreira como escritor?
Sabe, eu tenho ouvido de um outro escritor, que admiro bastante, que é o Lobo Antunes, que diz isto (e penso como ele): não passamos a ser escritores quando escrevemos, passamos a ser escritores quando temos maturidade para o ser. E então temos de ter muito treino. Nem tudo o que escrevemos é para ser definitivo, é preciso muito treino, escrever muito e ler bastante.
Já escreveu algo de que se tenha arrependidos, que tenha olhado para trás e pensado: isto é mesmo mau?
Já, dois ou três livros, não muito grandes, de que não gosto nada. Há um do qual já nem me lembro do título.
E o contrário, passa-se? Olhar para um livro e pensar: isto ficou mesmo bem?
Gosto muito do Este lago não existe, gosto muito. É uma metáfora, não é um poema como dizia o Pepetela, supera as frustrações relativas ao que não conseguimos, aos nosso objectivos .
Vive entre o Porto e Luanda. Qual dos dois será aquele que considera efectivamente a sua casa?
Angola é o meu país, onde nasci, é o país onde na essência vivo, só que por outras razoes vim para cá estudar, fui ficando, as coisas foram acontecendo, depois vêm os casamentos e os divórcios e vou-me mantendo por cá, mas mais três ou quatro anos e volto para Angola. Mas gosto de cá estar.
Qual dos dois ambientes – Portugal e Angola – influencia mais a sua escrita?
Para lhe ser sincero, Angola, até pelo sangue tropical, pelos escritores e pelas músicas que há. O povo português é muito melancólico, chora muito, o povo angolano, não, o povo angolano é feliz. A qualquer título faz-se uma festa, dançamos, comemos, bebemos.
Um aluno angolano, chegado há pouco tempo a uma universidade portuguesa, questionado quanto às diferenças entre Portugal e Angola, disse: “Isto não é um país diferente, e um planeta diferente.» As diferenças são ainda assim tão grandes?
Essas comparações são utópicas, porque comparamos uma coisa que nasceu com uma que existe há muitos anos, comparamos uma criança com um homem. Angola tem cinco anos de Histórias, é bom não esquecer isso, as pessoas às vezes esquecem-se que 35 anos de guerra não deixam nada mexer-se. Não se construiu, muito pelo contrário destruiu-se. Foi a guerra, aquilo é livre há cinco anos e está a provar que tem capacidade para crescer.
Como encara este regresso de portugueses a Angola?
Isto é um bocado o filho e o pai. O pai cria o filho, educa-o, dá-lhe ensino, e depois, mais tarde, precisa dele para viver. Já vive de reforma, ganha pouco, e é um bocado como Portugal e Angola. Portugal neste momento tem mais carências do que Angola, já é um país “velho”, já tem poucas saídas. É bom para Portugal e Angola continuar este relacionamento.
Acredita que esta parceria vai resultar bem?
A perspectiva do português em Angola não é a mesma. antes qualquer português era dono, patrão, hoje é um cidadão, imigrante, estrangeiro.
Do que conhece, como classifica a integração dos portugueses em Angola?
É boa, os portugueses que lá estão que conheço estão bastante bem. Há dificuldades, é normal, mas temos um relacionamento muito bom com os portugueses, como com qualquer estrangeiro que respeite o país onde vive.
Com que regularidade vai a Angola?
Tenho ido de três em três meses e fico lá um mês ou dois meses.
Não se sente dividido?
Neste momento vou “usando” Angola como um lugar maravilhoso para férias, tenho lá a família quase toda.
Os seus dois livros abrem uma nova colecção da Porto Editora, Literatura Plural. O que podem dar aos portugueses os autores angolanos?
É bom para se mostrar ao mundo que ao contrário do que muita gente pensa os africanos também sabem escrever. Há escritores africanos bons, mas também já ouvi escritores africanos não-negros dizerem que os únicos escritores africanos que escrevem são os brancos. Pessoas dessas vão desaparecendo, já não fazem falta.
Como é hoje em dia o panorama literário em Angola?
A dificuldade até agora foi a guerra, Não há editoras, não há livrarias, agora tudo está a modificar-se, está a ficar um país normal, como os outros, e tudo começa a acontecer: as editoras começam a colocar-se lá, as gráficas, tudo vai fluindo. Antes, os escritores que mais se destacavam de lá faziam-no cá: Luandino Vieira, Pepetela, Agualusa. Agora, as editoras estão a regressar e com elas a partir para o mundo, e acredito que mais apreçam.
Que papel podem ter os escritores neste fase de desenvolvimento de Angola?
Têm sempre um impacto de evolução nas populações, os estudantes estão empenhados, lêem bastante, procuram, querem conhecer novos autores, há um interesse muito, muito grande em adquirir conhecimentos novos.
O que podem esperara de si os seus leitores nos próximos tempos.
Tenho muitas coisas feitas, que a seu tempo irão saindo, mas para o próximo anos estamos a tentar lançar uma história relacionada com estas fases da Angola de hoje: a fase anterior à guerra, a fase da guerra e a fase actual.













