Category Archives: Opinião sobre livros

«O Retrato da Mãe de Hitler» – Domingos Amaral

cl-O Retrato da Mãe de HitlerA II Guerra Mundial já não estará tão presente no imaginário dos jovens de hoje em dia como o esteve num passado não muito distante. Mas, tal como aconteceu ao escritor Domingos Amaral, também no meu esteve presente; afinal, por volta dos meus dez anos, ainda só tinham passado cerca de trinta anos desde o final do conflito e agora já lá vão quase setenta anos. Por isso, esta é uma temática que continua a agradar-me, pelo que, depois da agradável surpresa que já se revelara Enquanto Salazar Dormia, foi um prazer regressar, com O Retrato da Mãe de Hitler (uma edição Casa das Letras), a este mundo, na vertente da espionagem, ainda para mais centrado em Lisboa, que por norma fica fora do roteiro da literatura relativa a este período tão importante e cativante da história. É que se em termos bélicos a guerra não passou pelo nosso país, já em termos de informação, segredos e espionagem, Portugal, e principalmente Lisboa, foi palco de importantes movimentações.
Mas se em Enquanto Salazar Dormia a ação decorria em plena guerra, este O Retrato da Mãe de Hitler passa-se no pós-guerra e baseia-se na questão dos tesouros nazis que estes, os nazis que escaparam, tentavam passar para os seus novos destinos ou vender pelo caminho para tentarem financiar uma nova vida longe dos seus perseguidores, principalmente na América do Sul.
Para O Retrato da Mãe de Hitler, Domingos Amaral recorreu, basicamente, aos mesmos personagens de Enquanto Salazar Dormia, aproveitando até para atar algumas pontas que tinham ficado «soltas». Terá, desta vez,  mais romance (e sexo) e menos espionagem, mas mantém as características de um genuíno page-turner, sem momentos mortos e com uma escrita clara e descomplexada, cinematográfica, capaz de prender o leitor. (A cena final, num hidroavião clipper a sair de Cabo Ruivo, no Tejo, em Lisboa, é o melhor exemplo da cinematografia deste livro).
O protagonismo é de novo entregue a Jack Gil que tem de lidar, desta vez, com mais um oponente terrível, o seu pai. Ao mesmo tempo tem de lidar com a sua antiga paixão, a fogosa, surpreendente e reaparecida Alice, sempre dúbia nos seus comportamentos e nas suas alianças e motivações. Enquanto se «entretém» com ela, com o pai e com as pretensões deste em apoderar-se de tesouros nazis em trânsito por Portugal, Jack Gil tenta organizar a sua vida, unindo-se a Luisinha, irmã da sua falecida noiva e a quem aprende a amar, depois de uma vida de libertinagem que por vezes tem dificuldade em deixar para trás.
Este romance apresenta uma série de pormenores curiosos sobre a sociedade portuguesa da época, retratando o modo de vida no nosso país nos tempos de Salazar, onde as liberdades eram muito limitadas. Basta ver, por exemplo, como era a difícil relação com o cinema de Hollywood, aqui bem retratada por via da paixão da personagem  Luisinha pela sétima arte. É, portanto, um bom retrato de uma época, bem cimentado numa profunda investigação por parte de Domingos Amaral, que soube passar para o papel, bem misturado com a animada ficção que criou, as informações recolhidas em arquivos e documentos.
Um romance animado, vivo, cativante, uma ótima escolha para uma descontraída leitura de verão, um entretenimento saudável que, para pena minha, tive de «atacar» em dias de chuva. Agora que o verão chegou, não hesite, pegue em O Retrato da Mãe de Hitler e vá para a praia, para o campo ou para a esplanada e saboreie este refrescante livro.

Sinopse: «No mesmo dia em que Hitler morreu, 30 de Abril de 1945, um coronel das SS chamado Manfred apodera-se de um valioso tesouro nazi, roubando um cofre em Munique, que contém alguns bens pessoais do próprio Führer, entre os quais uma pistola dourada e o retrato da mãe de Hitler.
Perseguido pelos judeus, Manfred acaba por chegar a Portugal, onde irá tentar vender o seu tesouro aos coleccionadores de relíquias nazis.
Jack Gil Mascarenhas Deane já não trabalha para os serviços secretos ingleses, pois a guerra acabou, mas a chegada do seu pai a Lisboa vai alterar a sua vida. O pai é um colecionador de tesouros nazis e vai obrigar Jack Gil a ajudá-lo na sua demanda pelos valiosos artefactos, que muitos nazis, como Manfred, tentam vender em Lisboa, antes de fugirem para a América do Sul.»

Autor: Domingos Amaral
Editora: Casa das Letras
Ano de Edição: 2013
Páginas: 420

«A Coisa Terrível que Aconteceu a Barnaby Brocket» – John Boyne (com ilustrações de Oliver Jeffers)

ber_BarnabyBrocketEste é um livro que deveria integrar qualquer PPL, ou seja, Plano Pessoal de Leitura, seja ele de um jovem (a quem A Coisa Terrível que Aconteceu a Barnaby Brocket  é dedicado) ou de um adulto (a quem não fica nada mal ler esta obra). John Boyne, que já antes brindara o público juvenil com O Rapaz do Pijama Às Riscas, apresenta aqui uma bela apologia do direito à diferença, socorrendo-se de diversos e distintos exemplos para mostrar ao leitor que há espaço para todos neste mundo, venham de onde vierem, sejam como forem, vivam como vivam.
Portanto, se é preconceituoso não leia este livro editado em Portugal pela Bertrand. Se não é, vá já a correr à Feira do Livro, se morar em Lisboa ou passar por lá, ou a uma livraria – ou grande superfície, dado que não é preconceituoso – e compre um exemplar. Se não gostar de ler, tem aqui um bom pretexto para tentar mudar isso.
Mas este livro não é só mensagem, é também uma grande aventura. Barnaby Brocket, o rapaz australiano que flutua e que por isso é rejeitado pelos seus pais orgulhosamente «normais», corre mundo depois de a sua mãe «inadvertidamente» o «perder» como quem perde um balão numa feira. Foram, para os pais, oito anos de tormento constante, eles que, por motivos muito pessoais, só queriam ser discretos. Um filho flutuante era algo que apenas serviria para dar nas vistas, para chamar atenções indesejadas, por isso a mãe, com o beneplácito do pai, entendeu que chegara a hora de «dispensar» um filho tão problemático. E lá foi ele a flutuar. Parece cruel, e é, mas há compensações que vão amenizando o sofrimento de um rapaz que se vê longe dos pais e dos irmãos, estes desejados por serem «normais».
Barnaby, ingénuo como qualquer criança e sempre ansioso por voltar a casa onde espera encontrar os pais arrependidos e desejosos de o verem, acaba por ir parar a uma fazenda de café do Brasil, de onde salta para Nova Iorque, para Toronto, para a Irlanda, para África, até dar um grande pulo até ao espaço. Pelo caminho, conhece duas senhoras lésbicas, uma futura mãe solteira, um aspirante a artista deserdado pelo pai, um jornalista desfigurado, um milionário com uma doença terminal, um vilão e astronautas que tinham outras carreiras previstas nas suas vidas. Todos tinham algo em comum com Barnaby: foram rejeitados pelas respetivas famílias por não serem «normais». Curiosamente, é ele que os ajuda a resolver algo que não conseguiu no seu caso pessoal: a reconciliação.
A aventura decorre a bom ritmo e a leitura acompanha esse andamento, graças à linguagem viva e colorida de John Boyne (bem acompanhada pelas ilustrações de Oliver Jeffers) que de um modo inteligente, e às vezes sub-repticiamente, vai introduzindo novos dados para análise. Quase sem se perceber, A Coisa Terrível que Aconteceu a Barnaby Brocket , enquanto nos entretém, vai-nos dando muito em que pensar. E sentimo-nos a flutuar…

Sinopse: «Os Brocket são as pessoas mais normais do mundo. São respeitáveis, quase enfadonhos, e muito orgulhosos da sua normalidade. Na verdade, Alistair e Eleanor Brocket torcem o nariz a tudo o que seja invulgar, estranho ou diferente. No entanto, assim que o filho mais novo Barnaby vem ao mundo, torna-se claro que ele é tudo menos normal. Para grande vergonha dos pais, Barnaby parece desafiar as leis da gravidade… e flutua!
O pequeno Barnaby é uma criança solitária; afinal de contas, é difícil fazer amigos quando se passa a vida no ar. Desesperado por agradar aos pais, faz tudo o que pode para parar de flutuar, mas simplesmente não consegue.
Até que, num fatídico dia, a mãe decide que não aguenta mais. Afinal, ela só queria um filho normal – e não uma criança estranha, invulgar e flutuante! Isso dá mau nome à família… Por isso, Barnaby tem de partir.
Sentindo-se atraiçoado, assustado e sozinho, Barnaby flutua sem rumo, até que se depara com um balão muito especial. Assim, começa uma viagem mágica à volta do mundo; da América do Sul a Nova Iorque, do Canadá à Irlanda, e até no espaço sideral, Barnaby faz uma série de novos e incríveis amigos, e descobre que nada nos faz tão felizes como sermos quem realmente somos.»

Autor: John Boyne (com ilustrações de Oliver Jeffers)
Título original: The Terrible Thing That Happened to Barnaby Brocket
Editora: Bertrand
Tradução: Irene Guimarães
Ano de Edição: 2013
Páginas: 208

«A Filha do Papa» – Luís Miguel Rocha

A Filha do PapaPronto, agora já entendo o «fenómeno» Luís Miguel Rocha. O thriller A Filha do Papa (uma edição Porto Editora) é efetivamente um livro cativante e envolvente que vai ganhando fôlego e ritmo a cada virar de página. Mesmo não sendo o Vaticano e papas um tema de minha preferência, bem pelo contrário, os mistérios que povoam este romance foram suficientes e bem montados para me prender a atenção – e bem preciso é ter atenção ao ler este A Filha do Papa, pois não só há uma grande profusão de histórias em desenvolvimento simultâneo como um elevado número de personagens que por vezes nos pode deixar confuso. Mas, essa profusão de personagens tem o seu lado positivo, pois permite-nos uma maior variedade de escolha entre aqueles de quem gostamos ou não. Mas isso de tomar partidos pode ser perigoso, pois, como seria de calcular num romance bem pensado, as coisas nunca são só pretas ou brancas.
A trama está bem organizada e disposta de um modo quase cinematográfico e aqueles que pensem, talvez por preconceito, que se trata de uma obra menor, não pensem que este livro é «light» pois o enredo é denso e requer que se puxe pela cabeça. A escrita simples, direta e descomplexada de Luís Miguel Rocha ajuda ao envolvimento do leitor. E assim teria de ser, pois há muita informação, histórica ou ficcional, a ser transmitida ao leitor, notando-se que o autor fez bem o (imenso) trabalho de casa.
Ora, esse trabalho de casa incidiu principalmente sobre a vida de Pio XII, o tão mal amado papa acusado de ser amigo dos nazis e antissemita e que aqui, nesta ficção (ou nem por isso), sai branqueado nessa matéria. Mas, noutra, que é afinal de contas o núcleo deste romance, fica-se a saber que terá tido uma filha secreta e esse é o mote para todas as confusões que alimentam a trama deste livro. No meio dessa trama envolvem-se duas personagens habituais nos romances de papas de Luís Miguel Rocha, a jornalista Sarah e o padre muito «especial» Rafael, de quem se vai conhecer também revelações bombásticas relativas à sua vida pessoal.
Já agora, um reparo. O pormenor de enumerar quase rua a rua os locais em Roma por onde vão passando as personagens nas mais diversas situações pode ser interessante para quem conhece bem a cidade, mas para os outros pode revelar-se algo… «desnecessário». Mas que não seja isto a desencorajar alguém a leitura deste romance, pois é apenas, como referi, um pormenor no meio de muita coisa que nos prende. A Filha do Papa trata-se de um livro bem pensado e «apresentado» que por certo repetirá o êxito dos anteriores romances de Luís Miguel Rocha, deixando já os leitores à espera de mais.

Sinopse: «Será o antissemitismo a verdadeira razão para o Papa Pio XII não ter sido beatificado? Quando Niklas, um jovem padre, é raptado, ninguém imagina que esse acontecimento é apenas o início de uma grande conspiração que tem como objetivo acabar com um dos segredos mais bem guardados do Vaticano – a filha do Papa Pio XII. Rafael, um agente da Santa Sé fiel à sua Igreja e à sua fé, tem como missão descobrir quem se esconde por detrás de todos os crimes que se sucedem e evitar a todo o custo que algo aconteça à filha do Papa. Conseguirá Rafael ser uma vez mais bem-sucedido? Ou desta vez a Igreja Católica não será poupada?»

Autor: Luís Miguel Rocha
Editora: Porto Editora
Ano de Edição: 2013
Páginas: 432

«Morte com Vista para o Mar» – Pedro Garcia Rosado

Capa Morte com Vista para o MarPedro Garcia Rosado prossegue, agora na Topseller, a sua «cruzada» pelo «bem-estar» do policial português. O seu mais recente contributo, Morte com Vista para o Mar (e com este já lá vão oito thrillers), é mais um bom exemplo daquilo que se deve/pode esperar de um policial contemporâneo. Tem uma boa história, personagens credíveis e apresenta um bem elaborado e preciso retrato da sociedade portuguesa, nomeadamente dos jogos de interesses que ensombram muitas das autarquias.
Além disso, o escritor continua (e ainda bem) a não temer introduzir cenas bastantes violentas onde quase dá para ver o próprio sangue, que escorre abundantemente.
Tudo começa, como não podia deixar de ser, com um crime, bastante violento por sinal, ou não fosse utilizado um machado, que ocorre nas Caldas da Rainha (é bom que se verifique este tipo de «descentralização» na literatura portuguesa), do qual resulta a morte de um antigo professor. Patrícia Ponte, inspetora da PJ que em tempos manteve uma relação com a vítima, investiga o caso e pede a ajuda do seu ex-marido, Gabriel Ponte, também ele inspetor da PJ, mas já reformado e a viver na zona onde decorreu o assassínio. O professor estaria prestes a denunciar um esquema de corrupção e lavagem de dinheiro, mas com o decorrer da investigação vai-se percebendo que as causas do crime poderão ter sido outras. Só que, ao remexer no lodo, as águas vão ficando cada vez mais turvas e envolvendo cada vez mais gente, desde governantes a investidores.
Grão a grão, Pedro Garcia Rosado vai-nos «alimentando» com mais dados, laçando-nos de uma maneira que nos deixa perfeitamente envolvidos e que nos prende até ao final da história, que se desenvolve a um ritmo crescente. Um toque aqui e um toque ali servem para nos prender a atenção constantemente e um dos melhores exemplos é a introdução de um terceiro elemento, a jornalista Filomena Coutinho, que não só serve para desenvolver a faceta pessoal das personagens como para denunciar uma certa maneira de funcionar de alguns órgãos de comunicação social. Nota-se que o autor se movimenta com à-vontade nos meios que retrata (as forças policiais, as autarquias, as empresas obscuras e a comunicação social), o que só dá mais credibilidade a este Morte com Vista para o Mar e ao mundo que pretende retratar.
Com a sua escrita simples (mas não básica) e direta, Pedro Garcia Rosado ganhou de novo a aposta, e ganha também o leitor que se dedique a este livro, seja ou não amante de policiais.
Note-se que Morte com Vista para o Mar marca o arranque de uma nova série, dedicada às investigações de Gabriel e Patrícia Ponte, assim como de Filomena Coutinho, e para setembro de 2013 está marcada a «estreia» de um novo episódio: Morte na Arena: A Descida aos Infernos. Ficamos à espera!

Sinopse: «Nas traseiras de uma moradia isolada nas Caldas da Rainha, um professor de Direito reformado aparece morto à machadada. Patrícia, inspetora-coordenadora da Polícia Judiciária, pede ajuda ao ex-marido Gabriel Ponte, antigo inspetor da PJ, que assim regressa ao mundo da investigação criminal. Meses antes, o professor tinha contactado Patrícia, sua antiga aluna e amante, para denunciar a existência de um esquema de corrupção e de lavagem de dinheiro em torno do projeto de um empreendimento turístico gigantesco nas falésias da costa atlântica.
As primeiras provas apontam para que este homicídio seja resultado de um affaire com uma mulher casada, mas poderá o professor ter sido assassinado por saber demais?»

Autor: Pedro Garcia Rosado
Editora: Topseller
Ano de Edição: 2013
Páginas: 310

«Cenas da Vida de Aldeia» – Amos Oz

Cenas da Vida de AldeiaJá aqui o terei confessado antes: não sou grande apreciador de contos. Mas, tendo em conta que Cenas da Vida de Aldeia (uma edição Dom Quixote) vem assinado pelo israelita Amos Oz (que me deslumbrara com Uma História de Amor e Trevas) e era composto por temas que no seu todo contavam uma única história, entendi que o risco de me aborrecer não era grande. E entendi bem, pois estava na presença de um belo livro, cuja leitura dos contos só faz sentido se os ler a todos, pois trata-se de um único corpo composto por fragmentos de vidas.
Apesar de serem vidas de pessoas que vivem numa aldeia com as particularidades próprias de uma região invariavelmente sob tensão, no fundo, na essência, são as vidas de pessoas como quaisquer outras, com os mesmos problemas, dúvidas, incertezas, certezas, convicções, etc.
Nestas Cenas lemos/vemos as vidas de Tel Ilan, aldeia fictícia israelita, pacata e enquadrada num belo cenário rural. Através do quotidiano dos habitantes (há uns e outros que saltam de história para história; afinal, a aldeia é pequena e é natural que se cruzem, certo?) vivemos também nós a própria Tel Ilan, não como um turista ou viajante de passagem, mas como um deles, pois Amos Oz leva-nos ao interior das casas, das suas vidas. E o que conhecemos são pessoais normais, condicionadas pelo ambiente que as rodeia, mas isso é, no fundo o que se passa com todos nós, seja esse ambiente uma guerra, uma ilha, um bairro isolado e marginalizado.
Cenas da Vida de Aldeia é portanto, como já deu para perceber, um livro sobre pessoas e a beleza dele reside no modo como Amos Oz leva a que nos envolvamos com elas, tomando-as como nossas. O nosso apetite aguça-se com uma boa dose de mistérios ocultos naquelas casas e ruas, assim como com histórias bizarras, amores perdidos, obsessões, melancolia e saudade, momentos macabros, e com um toque de imprevisibilidade bastas vezes incrementado por finais deixados em aberto, escancarando as janelas da imaginação do leitor para daí tirar as suas próprias conclusões.
Assim sendo, só me resta dizer: compre o seu bilhete até Tel Ilan, pois mesmo que não goste da aldeia em si quando lá chegar, vai por certo apreciar a viagem. É que Amos Oz escreve tão bem que só isso vale a viagem.

Sinopse: «Um turista de passagem pela pacata aldeia de Tel Ilan verá casas rústicas centenárias, altos ciprestes, colinas verdes e pomares. Uma Toscana no coração dos montes de Manassés. Mas sob a superfície pululam os segredos e os enigmas: escavam à noite nas fundações da casa de Pessach Kedem. Há um mistério escondido no quarto de dormir da família Levin. E porque ficou o agente imobiliário trancado na cave do falecido escritor? Todas as histórias deste livro, à exceção da última, têm lugar numa aldeia imaginária. Um lugar que vai sendo construído de conto para conto como uma Macondo israelita – uma superpersonagem concreta, vibrante e poderosa.
Mas Cenas da Vida de Aldeia é, acima de tudo, uma obra em que as personagens passam de uma história para outra, errando entre aquilo que perderam e o que irão perder.»

Autor: Amos Oz
Título original: Tmunot Mihayei Hakfar
Editora: Publicações Dom Quixote
Tradução: Lúcia Liba Mucznick
Ano de Edição: 2013
Páginas: 206

«A Praia dos Afogados» – Domingo Villar

pe-praiaA Praia dos Afogados é um policial com algo mais. Ou seja, quem se der ao «trabalho» de ler este livro não vai deleitar-se «apenas» com uma história em volta de um crime, vai, isso sim, deleitar-se com um belo romance que retrata uma região (a costa da Galiza) e as pessoas que lá vivem, particularmente a comunidade piscatória, com um realismo e um entusiasmo que não deixa ninguém indiferente.
Domingo Villar, o seu autor (galego, como será fácil de perceber ao longo das páginas), apresenta, a quem não conhece, uma Galiza que não é só aquela que se vê e absorve nos passeios pela costa. A quem conhece, saberá bem lá «regressar», pois com esta leitura é inevitável não reconhecer o ambiente muito típico daquele pedaço de terra logo ali a seguir ao Minho.
O crime, no caso o assassínio de um pescador, é somente o pretexto para nos levar a travar conhecimento com uma série de personagens que poderíamos encontrar ali ao virar da esquina, ou melhor, ao cruzar o rio Minho. Através do inspetor Leo Caldas, que investiga a morte do pescador Justo Castelo, e das pessoas que o envolvem, tanto quem o ajuda a desvendar o mistério da morte, como os suspeitos, podemos traçar um retrato bem realista do dia-a-dia das pequenas populações costeiras e das dificuldades que enfrentam, principalmente depois de findos os anos dourados da faina. São as visitas aos restaurantes/tascos locais, à lota, às casas humildes, à lota, o modo como comem, como passam o tempo, como trabalham, os costumes e as crenças dos pescadores, tudo isso nos envolve, tanto quanto o mistério em si, pois, com discrição, elegância e suavidade, Domingo Villar enreda-nos na trama e quando nos apercebemos estamos completamente presos à história.
O livro tem as voltas e reviravoltas típicas de um policial, mas não daquelas absurdas, antes das que apanham as pessoas desprevenidas na vida real, pois, como sempre, nem tudo o que parece é.
Com uma escrita cuidada e um argumento bem pensado e fundamentado, estamos perante uma excelente leitura, e para aqueles que entendem a presença de muitos diálogos como sinal de escassa qualidade literária, aqui vai um aviso: deixem-se de preconceitos!
Se os houvesse para colar em livros, este A Praia dos Afogados sem dúvida mereceria um selo de qualidade.

Autor: Domingo Villar
Título original: La playa de los ahogados
Editora: Sextante
Tradução: Helena Pitta
Ano de Edição: 2013
Páginas: 420
Sobre o livro: «Uma manhã, o cadáver de um marinheiro é arrastado pela maré até à beira-mar de uma praia galega. Se não tivesse as mãos amarradas, Justo Castelo seria outro dos filhos do mar a encontrar a sua sepultura entre as águas, durante a faina. Sem testemunhas nem rasto da embarcação do falecido, o inspetor Leo Caldas mergulha no ambiente marinheiro da povoação, tentando esclarecer o crime entre homens e mulheres renitentes em revelar as suas suspeitas, mas que, quando decidem falar, indicam uma direção demasiado insólita.»

«Em Parte Incerta» – Gillian Flynn

gone girl_01Há livros sobre os quais se criam grandes expectativas e depois, quando chega a hora de serem lidos, acaba por se gerar alguma desilusão, pois a fasquia estava demasiado elevada.
Confesso que foi esse o meu receio ao avançar para a leitura de Em Parte Incerta. Depois de tudo o que se escrevera (e dissera) sobre este romance da norte-americana Gillian Flynn, acabei por ficar um pouco de pé atrás, temendo a referida desilusão. Mas, depois, temendo, por outro lado, estar a passar ao lado de algo importante e marcante resolvi arriscar e… ganhei a aposta! Que livro fantástico!
É apresentado como um thriller, o que só por si já seria motivo de regozijo, mas é muito mais do que isso. Em Parte Incerta é um retrato da América nascida da crise de 2008; não um retrato global de toda a sociedade, mas um retrato em pequena escala da influência da crise no quotidiano das pessoas – mas, não será isso mesmo o que melhor espelha o que vai no mundo, esses pequenos mundos, os «nossos» mundos?
Os dois protagonistas (Nick e Amy, que formam um casal) são um reflexo das consequências da crise em todos nós. E como é que isso se processa? Ora muito bem, a autora, neste que é o seu segundo romance editado em Portugal (o outro foi Objectos Cortantes), criou duas personagens interessantíssimas, tão reais e humanas que até assustam, que se veem envolvidas, num período em que passavam por uma fase de decadência económica, num acontecimento que abala todos de forma tremenda. O acontecimento é o desaparecimento de Amy, como é bom de ver. E, desse ponto de partida, começamos a conhecer as personagens (não só as duas principais, como as que as rodeiam, familiares, amigos, polícias ou advogados.) Poder-lhes-ia chamar de personagens peculiares, mas, vendo bem, não passam de pessoas como nós ou como aquelas que conhecemos. Por isso, em vez de peculiares, são apenas «normais». E contatar isso é que pode revelar-se assustador.
Claro que as personagens que passamos a conhecer melhor são Nick e Amy, tanto através do relato do que vai sucedendo como através de memórias e do diário da desaparecida. E é curioso que, página à frente, página atrás, amamos um e odiamos o outro, e, de repente, já é o contrário. E essa é uma das grandes «armas» deste romance, a ambiguidade das personagens e das situações, as constantes evoluções e (des)evoluções no que sentimos por elas, até darmos por nós perdidos sem saber o que pensar. E, de repente, ainda meio «zonzos», levamos um soco no estômago, e todo se torna ainda mais… «inclassificável».
Todo este jogo deixa-nos preso ao livro, graças a uma técnica de atração irrepreensível de Gillian Flynn que sabe como poucos captar (para não mais largar) a atenção do leitor.
Se nem nós, leitores, na posição privilegiada de espectadores (com acesso a mais informações do que os protagonistas), conseguimos entender as mente de Amy e Nick e tomar partidos, quanto mais os próprios, que não sabem da missa a metade? Nunca como aqui foi tão apropriada a frase de promoção de um livro: «Acha mesmo que conhece a pessoa que dorme ao seu lado?»

PS - Segundo a edição de abril da revista inglesa Total Film, o realizador David Fincher está em negociações para deitar a mão à versão cinematográfica de Em Parte Incerta, com base num argumento escrito pela própria Gillian Flynn.

Autor: Gillian Flynn
Título original: Gone Girl
Editora: Bertrand
Tradução: Fernanda Oliveira
Ano de Edição: 2013
Páginas: 520

Sinopse: «O casamento pode dar cabo de uma pessoa…
Uma manhã de verão no Missouri. Nick e Amy celebram o quinto aniversário de casamento. Enquanto se fazem reservas e embrulham presentes, a bela Amy desaparece. E quando Nick começa a ler o diário da mulher, descobre coisas verdadeiramente inesperadas…
Com a pressão da polícia e dos media, Nick começa a desenrolar um rol de mentiras, falsidades e comportamentos pouco adequados. Mostra-se evasivo, é verdade, e amargo – mas será mesmo um assassino?
Entretanto, todos os casais da cidade se perguntam já se conhecem de facto a pessoa que amam. Nick, apoiado pela gémea Margo, assegura que é inocente. A questão é que, se não foi ele, onde está a sua mulher? E o que estaria dentro daquela caixa de prata escondida atrás do armário de Amy?
Com uma escrita incisiva e a sua habitual perspicácia psicológica, Gillian Flynn dá vida a um thriller rápido e muito negro que confirma o seu estatuto de uma das melhores escritoras do género.»