Category Archives: Opinião sobre livros

«Uma Breve História de África» – Gordon Kerr

Breve Historia de AfricaQue Libéria viria de liberdade já eu calculava, vem de liber, mais precisamente, mas que Monróvia, a capital, vem de Monroe, presidente norte-americano, é que me era desconhecido. Vem tudo explicado em Uma Breve História de África – Das Origens da Raça Humana à Primavera Árabe, obra do escocês Gordon Kerr editada pela Bertrand, mas não se trata de um livro de curiosidades. É, como o nome indica, um livro de história. Há pormenores que para mim se transformaram em curiosidades porque, na verdade, me eram completamente desconhecidos. E acredito que o sejam também para inúmeros de vós que me leem neste momento.
A verdade é que África, apesar de aqui tão próxima (por exemplo, a distância que separa Lisboa de Madrid em linha reta é de 503 quilómetros, enquanto da nossa capital a Rabat, em Marrocos, são apenas 561 quilómetros), na sua essência continua a ser-nos desconhecida. Sim, é verdade, se calhar conhecemos bem Angola, Cabo Verde, Guiné-Bissau, Moçambique e São Tomé e Príncipe, mas porque nos unem laços históricos. Mas, o que se passou nesses territórios antes de lá chegarmos, ou antes de chegaram os outros colonizadores ocidentais a África? Quanto a isso pouco se sabe, mas é possível começar a conhecer algo mais lendo este Uma Breve História de África, livro escrito de forma sucinta e clara, e assim a chave ideal para começar a abrir as portas do conhecimento.
Gordon Kerr não se alonga em grandes descrições e explicações, nem em julgamentos, e muitos haveria a fazer dada a profusão de guerras e conflitos que assolaram (e assolam) o continente africano. Limita-se o autor a ser factual, cabendo a quem lê, caso o entenda, fazer os seus juízos. Recolhidas estas pistas, poderá o leitor partir para outras leituras mais específicas, desenvolvendo o seu conhecimento sobre o berço da civilização.
Uma boa leitura para quem pretenda que África seja algo mais do que as nossas cinco ex-colónias ou de que um mero destino turístico.

Autor: Gordon Kerr
Título Original: A Short History of Africa: From the origins of the human race to the Arab Spring
Editora: Bertrand
Tradução: Pedro Carvalho
Ano de Edição: 2013
Páginas: 184
Sinopse: «África. O berço da civilização. Dos primórdios da era humana no continente africano pré-histórico à “chamada Primavera Árabe” de 2011, Gordon Kerr apresenta uma introdução abrangente à vasta história deste enorme continente.
Começa pelas origens da raça humana e pelo desenvolvimento da tecnologia na Idade da Pedra, percorre as eras antiga e medieval e aborda o significado da presença árabe, os estados muçulmanos e o comércio transariano.
A obra prossegue com a ascensão e queda de estados-nação e reinos antes da chegada dos europeus; o Império do Gana, os reinos da Floresta e da Savana, Ioruba, Oyo, Benim, Ashanti, Luba, Luanda, Lozi e muitos outros, o início do comércio de escravos, bem como as conquistas europeias e a colonização da áfrica subsariana, a “Corrida por África”.
Por fim, o autor avança para os frequentes e amargos conflitos pela independência, começando no período de colonização e exploração do continente, e culminado com a análise da África do século XXI.»

«Inferno» – Dan Brown

ber-infernonDepois de O Símbolo Perdido, que pareceu pouco mais ser do que um lembrete aos seus fãs de que ainda andava por aí, Dan Brown consegue com Inferno (edição Bertrand) voltar a entusiasmar quase ao nível de O Código Da Vinci. O mesmo efeito será praticamente impossível de alcançar tendo em conta que mantém a fórmula, recorrendo ao mesmo protagonista (Robert Langdon) e à mesma estrutura (descodificar enigmas, passo a passo, até à solução final). O Código Da Vinci, apesar de toda a onda mediática criada, surpreendeu os leitores que nunca tinham contactado com a obra de Dan Brown. Agora, para conseguir surpreender de novo, o escritor norte-americano terá de fazer algo completamente original, mas provavelmente neste momento ele desejará isso tanto quanto os seus fiéis seguidores, ou seja, nada.
Assim, o que se pode esperar de Inferno? Uma história trepidante, desenvolvida logo a partir de um início a cem à hora, cujo ritmo nunca abranda e com uma bem doseada série de voltas e reviravoltas. Uma coisa ninguém pode negar: Dan Brown é um profissional e cumpre como poucos a sua missão (prender o leitor). Eu fui «apanhado», e ainda bem, por uma história que me levou a Florença, depois, na altura certa, a Veneza e, por fim, a Istambul, não por acaso todas elas cidades históricas e carismáticas, onde o leitor se sente envolvido não apenas pelo enredo como também pela paisagem. Terá sido aí que, em parte, O Símbolo Perdido, patinou. Washington, por muito interessante que possa ser, a um português, ou europeu, pouco mais diz do que o facto de ser a capital dos Estados Unidos, e, se virmos bem, não há leitor que não aprecie um cenário que o envolva. E Dan Brown por norma aproveita bem os cenários que escolheu (e isso verifica-se em Inferno), servindo de guia ao descrever pormenorizadamente os locais, tanto ao nível estético como histórico, encaixando bem essas descrições no enredo, em doses bem ponderadas.
Resolvido esse problema a contento, até porque é sabido que os americanos adoram as históricas cidades europeias, passemos ao enredo em si, mais uma vez bem montado e estruturado, com tudo a funcionar muito bem a partir do momento em que encontramos um Langdon sem memória num hospital de Florença.
Tendo por pano de fundo o problema da sobrepopulação da Terra, e uns fanáticos defensores de medidas radicais para pôr fim a essa «enfermidade», Inferno ainda assim é uma companhia descontraída para umas horas de leitura bem passadas.
Já deu para perceber que o livro tem os condimentos todos para dar certo. Não há aqui grandes rasgos de imaginação, mas também, confessem lá, não era disso que estavam à espera, pois não? Então aproveitem e desçam ao Inferno com Dan Brown e Robert Langdon.

Sinopse: «“Procura e encontrarás.” É com o eco destas palavras na cabeça que Robert Langdon, o reputado simbologista de Harvard, acorda numa cama de hospital sem se conseguir lembrar de onde está ou de como ali chegou. Também não sabe explicar a origem de certo objeto macabro encontrado escondido entre os seus pertences. Uma ameaça contra a sua vida irá lançar Langdon e uma jovem médica, Sienna Brooks, numa corrida alucinante pela cidade de Florença. A única coisa que os pode salvar das garras dos desconhecidos que os perseguem é o conhecimento que Langdon tem das passagens ocultas e dos segredos antigos que se escondem por detrás das fachadas históricas. Tendo como guia apenas alguns versos do Inferno, a obra-prima de Dante, épica e negra, veem-se obrigados a decifrar uma sequência de códigos encerrados em alguns dos artefactos mais célebres da Renascença – esculturas, quadros, edifícios –, de modo a poderem encontrar a solução de um enigma que pode, ou não, ajudá-los a salvar o mundo de uma ameaça terrível… Passado num cenário extraordinário, inspirado por um dos mais funestos clássicos da literatura, Inferno é o romance mais emocionante e provocador que Dan Brown já escreveu, uma corrida contra o tempo de cortar a respiração, que vai prender o leitor desde a primeira página e não o largará até que feche o livro no final.»

Autor:
 Dan Brown
Título Original: Inferno
Editora: Bertrand
Tradução: Fernanda Oliveira, Ana Lourenço e Tânia Ganho
Ano de Edição: 2013
Páginas: 551

«Morte na Arena» – Pedro Garcia Rosado

Morte-Na-Arena_af capa_001Gosto de livros assim, que «arrancam» logo no início. Pedro Garcia Rosado tem esse hábito nos seus policiais e faz muito bem. Morte na Arena, uma edição Topseller (o livro sai a 29 de agosto), é mais um bom exemplo disso.
E tem outro hábito, o autor: não se atrapalha em fazer jorrar sangue e criar cenários horríveis e macabros. E nem sequer gosta de deixar as coisas apenas subentendidas. É tudo muito claro. Vai direto ao assunto e com isso ganha o leitor, que assim tem nas mãos um livro vivo, trepidante e, em consequência, envolvente e irresistível.
Neste Morte na Arena não há tempo para o leitor pensar em coisas tipo: “E se avançasse umas tantas páginas, será que perderia o fio à meada?” É que por vezes deparamo-nos com livros tão grandes e rebuscados que a sensação que persiste é que há ali páginas desnecessárias. Servem, essas páginas excedentes, aparentemente, apenas um propósito, convencer quem as escreve que se trata de um autor credível, pois persiste entre muitos a ideia de que livro com poucas páginas é livro pouco profundo.
Mas com Pedro Garcia Rosado não será a poupança de palavras a impedir-nos de refletir, pois Morte na Arena deixa muito em que pensar, nomeadamente em relação à sociedade portuguesa e aos respetivos podres, principalmente ao nível das forças policiais e da Justiça, e até do poder político.
Para este romance/thriller Pedro Garcia Rosado recorre aos seus habituais «convidados»: Gabriel Ponte, o ex-PJ, a sua ex-mulher Patrícia, inspetora coordenadora da PJ, e a ex-amante de Gabriel, Filomena, a jornalista.
É com bastante interesse que se acompanha as investigações, tanto a oficial como a de Gabriel, que se completam mutuamente, relativas ao aparecimento em Lisboa de partes do corpo de uma rapariga (filha de um líder partidário) desaparecida uns meses antes e dos corpos de quatro agentes da polícia, que foram encontrados em circunstâncias e locais suspeitos.  Descemos, literalmente, ao submundo de Lisboa, um mundo de túneis e esconderijos debaixo de terra onde coabitam ratos e os rejeitados da sociedade, assim como uma nova classe, vinda do alto, que resolve divertir-se e fazer dinheiro às custas das vidas dos oprimidos e mais debilitados, com um total desprezo pelo valor de uma vida humana.
Gabriel Ponte e os seus «amores» baixam ao Inferno, onde se debatem com o próprio Diabo e outros semelhantes a este. É essa descida aos infernos que nos leva a um cenário hiperviolento, brutal, sangrento, chocante! Atadas todas as pontas, mergulham num poço de podridão e imundície, de onde, como é costume nas obras de Pedro Garcia Rosado, as elites não escapam imunes, prontas que estão, sempre, a aproveitar-se dos mais fracos, que desprezam e tratam como seres inferiores, ali presentes apenas para servir de objeto de entretenimento, de um meio para atingir um fim, enfim, meras marionetas, mas de usar e literalmente deitar fora.
O que Morte na Arena nos revela é um verdadeiro submundo no subsolo de Lisboa, os alicerces podres e corrompidos de uma cidade aparentemente luminosa e límpida. Leva-nos a pensar no que estará por debaixo das aparências, do que se vê.
Este policial, tal como os anteriores do autor, é, ao fim e ao cabo, uma obra de denúncia onde não é poupada a nossa sociedade. Um livro muito atual que se lê num ápice, como qualquer bom policial, e perante o qual se percebe que o autor sabe o que faz, não só por dominar sem mácula este género literário como por, a nível de enredo, dar a ideia de saber muito bem em que meios se movimenta, o que não deixa de ser assustador.
Se a nossa sociedade é mesmo assim…

«O Impostor» – Damon Galgut

alfaguara-image012Mas afinal quem é o impostor?, é a pergunta que se poderá colocar após a leitura deste cativante romance assinado pelo sul-africano Damon Galgut, que em Portugal foi editado pela Alfaguara. À primeira vista, poder-se-á pensar que se trata do protagonista, Adam, mas a verdade é que, no fundo, todos (ou quase todos) são impostores nesta história que decorre numa África do Sul saída do apartheid mas ainda por se resolver.
As fragilidades das pessoas são exploradas ao máximo, todos têm as suas falhas, e grande parte do problema passa por não se revelarem verdadeiramente, mas apenas máscaras do que realmente são, para assim melhor defenderem os seus interesses ou os interesses daqueles a quem pretendem bajular.
Adam, um desencantado com a vida e candidato a poeta, é apenas o pretexto encontrado por Damon Galgut para servir de núcleo à trama, o motor que faz avançar o enredo. Sem saber o que fazer da vida, tanto a nível profissional como pessoal, vai viver para uma casa vazia, fora da cidade, pertença do seu irmão abastado. O objetivo é isolar-se para ser «possuído» pela poesia, mas o reencontro com um velho colega de escola leva-o por outros rumos, onde se cruza com o seu próprio passado e com uma série de personagens da «nova» África do Sul, nomeadamente Baby, a mulher do seu amigo e com quem vem a envolver-se. Mas todos, desde Baby ao seu amigo Canning, passando até pelo seu misterioso vizinho, se revelam «sombras» de quem realmente são, incluindo o próprio Adam, que na procura do seu «eu» vai revelando várias camadas de quem é. Parece complicado, mas não é, no fundo é uma história simples sobre pessoas e um país adulto mas ainda à procura do seu rumo, tal como Adam.
É o retrato de uma África do Sul pós-apartheid, onde afinal, para muitos, nada mudou; continua a haver exploradores e explorados, apesar de agora os exploradores serem multirraciais. Há uma mensagem de defesa da natureza, denunciando a violação da mesma por parte do poder económico que, além disso é corrupto.
Em O Impostor, sente-se o ambiente, as terras, as estações, sem que Damon Galgut necessite de ser exaustivo e detalhado, mas a verdade é que somos literalmente, e literariamente, envolvidos pelo seu retrato deste país, tanto na vertente das paisagens selvagens, com a sua fauna e flora cativantes, como das paisagens urbanas e suburbanas.
O Impostor, pelas suas personagens e paisagens, é um livro que nos envolve e nos permite conhecer melhor a verdadeira alma da África do Sul.

Sinopse: «Na sociedade do pós-apartheid, Adam perde o emprego e vê-se forçado a deixar Joanesburgo e mudar-se para uma casa abandonada nos limites da cidade. Aí, no meio da savana, entre a depressão e a embriaguez, tenta encontrar na literatura um novo caminho. Mas, afinal, encontra Canning, um homem que diz que Adam lhe salvou a vida nos tempos de escola.  Adam não se recorda de Canning mas decide entrar no jogo, seduzido por tudo o que Canning tem: uma grande fortuna herdada do pai e uma bela e enigmática mulher, por quem se sente perigosamente atraído.
Na extravagante mansão de Canning e Baby, um local mágico e fantástico, Adam é arrastado para uma estranha relação a três, que o transforma irremediavelmente.

Autor: Damon Galgut
Título original: The Impostor
Editora: Alfaguara
Tradução: Fátima Alice Rocha
Ano de Edição: 2013
Páginas: 318

«After Earth – Depois da Terra» – Peter David (ideia de Will Smith)

chamempolicia_capa.inddAfter Earth – Depois da Terra é o livro oficial do novo filme de M. Night Shyamalan (protagonizado por Will Smith e Jaden Smith) que estreou em Portugal a 11 de julho. Ainda não vi o filme, mas já li o livro (é assim que gosto de fazer para depois verificar se a minha visão idealizada coincide com a do realizador), quanto mais não seja porque fui um dos tradutores, a par de Renato Carreira, desta edição da Saída de Emergência.
Desde já posso dizer que estou muito curioso com a versão cinematográfica, pois gostei bastante do livro, escrito por Peter David, especialista neste género de adaptações. E apesar de todas as críticas negativas que têm sido feitas ao filme – agora está na moda desancar no Shyamalan, que teve o «azar» de realizar o «O Sexto Sentido» logo no início da carreira – não conto com grandes surpresas, pois por norma estas versões oficiais respeitam na íntegra o argumento.
E posso garantir que estamos perante uma bela aventura, com uma mensagem ecológica, dividida entre dois mundos, a «esgotada» Terra, que deixou de servir de lar à Humanidade, e Nova Prime, o novo mundo que acolheu os «eleitos» do velho e corroído planeta do sistema solar.
A escrita é simples e ritmada, tal como a estrutura desta obra de ficção científica, privilegiando a ação, mas sem esquecer questões como a família e as suas relações, a política, a religião, sem aprofundar estes temas, mas enquadrando-os adequadamente no enredo.
Como em qualquer obra de ficção científica que se preze, há algumas ideias futuristas bem trabalhadas, tanto a nível de viagens no espaço como, inevitavelmente, de armamento. São soluções credíveis dentro do contexto do mundo «criado» para esta história, que apresenta também algumas novidades a nível de organização política e governativa, com os destinos de Nova Prime a serem dirigidos por uma «troika» (não daquele tipo que infelizmente conhecemos no Portugal real) onde estão em pé de igualdade os poderes militar, religioso e científico. Regra fundamental: nunca desrespeitar o equilíbrio ambiental, pois ninguém esquece o que aconteceu à Terra.
À Terra é precisamente onde vão parar Cypher e Kitai Raige, pai e filho, o primeiro um general de topo especialista em caçar Ursas e o segundo um adolescente que pretende seguir as pisadas do pai, que venera tanto quanto teme. Únicos sobreviventes de uma nave que, após uma série de infelizes eventos, se despenha na Terra, têm de enfrentar um planeta que se «revoltou» contra o ser humano. Sozinhos e debilitados no planeta, pai e filho têm assim à força a possibilidade de resolveram ou enfrentarem tudo o que os afasta. Na segunda parte do livro surge a maioria da ação, quando Kitai dá por si sozinho no terreno em virtude da incapacidade física do pai. Um confronto/reencontro entre pai e filho, obrigados a unir esforços em nome da sobrevivência mútua.
Note-se que os Raige são assim uma espécie de família representativa do espírito de Nova Prime, pois desde a partida de Terra em 2072 desempenharam papéis cruciais, em varias áreas, na história do «novo mundo».
Há em Depois da Terra uma série de histórias paralelas, em diferentes janelas de tempo (nomeadamente os últimos dias na Terra antes do êxodo), que ajudam a compreender o que representa Nova Prime, como chegou ao «presente» – cerca de 1000 Depois da Terra (D.T.) – e principalmente quem são os seus habitantes e que perigos enfrentam, nomeadamente os temíveis Skrel. Trata-se de um povo oriundo de outro mundo que, determinado a expulsar os humanos do seu planeta sagrado, envia para lá uma arma terrível, as Ursa, fera assassina cujas sucessivas gerações, cada vez mais aprimoradas, atormentam ao longo de séculos os habitantes de Nova Prime.
Todas estas histórias paralelas deixam suficientes pistas para novos projetos no âmbito desta obra, que por certo obterão luz verde se o filme alcançar o ambicionado sucesso.
Em resumo, uma boa obra de ficção científica, na vertente da ação, onde estão presentes os elementos essenciais para captar a atenção do leitor apreciador do género.

Sinopse: «O general Cypher Raige, do Corpo Unificado de Patrulheiros, é apenas o último de uma longa linhagem de heróis. Durante mil anos, desde que o apocalipse ambiental dominou a Terra, os Raige foram um instrumento fundamental para a sobrevivência da humanidade. Lideraram o caminho quando os sobreviventes foram forçados a abandonar a Terra, instalaram-se num planeta inóspito ao qual chamaram Nova Prime, enfrentaram a chacina por parte de uma misteriosa força alienígena e estabeleceram um novo lar na ponta mais longínqua da galáxia.
Cypher acabou de regressar para junto da família após uma prolongada missão no exterior. Para o seu filho de treze anos, Kitai, acompanhar o lendário pai é a aventura de uma vida – e uma oportunidade para salvar a relação deles.
Mas, quando um asteroide colide com a nave deles, despenham-se e Cypher fica seriamente ferido, correndo risco de vida. Kitai Raige sempre quis provar que estava à altura de conviver com um apelido tão ilustre. E agora, talvez cedo de mais, terá a sua oportunidade. Com a vida do pai em risco, Kitai tem de se aventurar em terreno desconhecido e hostil num novo mundo que parece estranhamente familiar: a Terra.»

Autor: Peter David (segundo ideia de Will Smith)
Título original: After Earth
Editora: Saída de Emergência
Tradução: Rui Azeredo e Renato Carreira
Ano de Edição: 2013
Páginas: 236

«O Retrato da Mãe de Hitler» – Domingos Amaral

cl-O Retrato da Mãe de HitlerA II Guerra Mundial já não estará tão presente no imaginário dos jovens de hoje em dia como o esteve num passado não muito distante. Mas, tal como aconteceu ao escritor Domingos Amaral, também no meu esteve presente; afinal, por volta dos meus dez anos, ainda só tinham passado cerca de trinta anos desde o final do conflito e agora já lá vão quase setenta anos. Por isso, esta é uma temática que continua a agradar-me, pelo que, depois da agradável surpresa que já se revelara Enquanto Salazar Dormia, foi um prazer regressar, com O Retrato da Mãe de Hitler (uma edição Casa das Letras), a este mundo, na vertente da espionagem, ainda para mais centrado em Lisboa, que por norma fica fora do roteiro da literatura relativa a este período tão importante e cativante da história. É que se em termos bélicos a guerra não passou pelo nosso país, já em termos de informação, segredos e espionagem, Portugal, e principalmente Lisboa, foi palco de importantes movimentações.
Mas se em Enquanto Salazar Dormia a ação decorria em plena guerra, este O Retrato da Mãe de Hitler passa-se no pós-guerra e baseia-se na questão dos tesouros nazis que estes, os nazis que escaparam, tentavam passar para os seus novos destinos ou vender pelo caminho para tentarem financiar uma nova vida longe dos seus perseguidores, principalmente na América do Sul.
Para O Retrato da Mãe de Hitler, Domingos Amaral recorreu, basicamente, aos mesmos personagens de Enquanto Salazar Dormia, aproveitando até para atar algumas pontas que tinham ficado «soltas». Terá, desta vez,  mais romance (e sexo) e menos espionagem, mas mantém as características de um genuíno page-turner, sem momentos mortos e com uma escrita clara e descomplexada, cinematográfica, capaz de prender o leitor. (A cena final, num hidroavião clipper a sair de Cabo Ruivo, no Tejo, em Lisboa, é o melhor exemplo da cinematografia deste livro).
O protagonismo é de novo entregue a Jack Gil que tem de lidar, desta vez, com mais um oponente terrível, o seu pai. Ao mesmo tempo tem de lidar com a sua antiga paixão, a fogosa, surpreendente e reaparecida Alice, sempre dúbia nos seus comportamentos e nas suas alianças e motivações. Enquanto se «entretém» com ela, com o pai e com as pretensões deste em apoderar-se de tesouros nazis em trânsito por Portugal, Jack Gil tenta organizar a sua vida, unindo-se a Luisinha, irmã da sua falecida noiva e a quem aprende a amar, depois de uma vida de libertinagem que por vezes tem dificuldade em deixar para trás.
Este romance apresenta uma série de pormenores curiosos sobre a sociedade portuguesa da época, retratando o modo de vida no nosso país nos tempos de Salazar, onde as liberdades eram muito limitadas. Basta ver, por exemplo, como era a difícil relação com o cinema de Hollywood, aqui bem retratada por via da paixão da personagem  Luisinha pela sétima arte. É, portanto, um bom retrato de uma época, bem cimentado numa profunda investigação por parte de Domingos Amaral, que soube passar para o papel, bem misturado com a animada ficção que criou, as informações recolhidas em arquivos e documentos.
Um romance animado, vivo, cativante, uma ótima escolha para uma descontraída leitura de verão, um entretenimento saudável que, para pena minha, tive de «atacar» em dias de chuva. Agora que o verão chegou, não hesite, pegue em O Retrato da Mãe de Hitler e vá para a praia, para o campo ou para a esplanada e saboreie este refrescante livro.

Sinopse: «No mesmo dia em que Hitler morreu, 30 de Abril de 1945, um coronel das SS chamado Manfred apodera-se de um valioso tesouro nazi, roubando um cofre em Munique, que contém alguns bens pessoais do próprio Führer, entre os quais uma pistola dourada e o retrato da mãe de Hitler.
Perseguido pelos judeus, Manfred acaba por chegar a Portugal, onde irá tentar vender o seu tesouro aos coleccionadores de relíquias nazis.
Jack Gil Mascarenhas Deane já não trabalha para os serviços secretos ingleses, pois a guerra acabou, mas a chegada do seu pai a Lisboa vai alterar a sua vida. O pai é um colecionador de tesouros nazis e vai obrigar Jack Gil a ajudá-lo na sua demanda pelos valiosos artefactos, que muitos nazis, como Manfred, tentam vender em Lisboa, antes de fugirem para a América do Sul.»

Autor: Domingos Amaral
Editora: Casa das Letras
Ano de Edição: 2013
Páginas: 420

«A Coisa Terrível que Aconteceu a Barnaby Brocket» – John Boyne (com ilustrações de Oliver Jeffers)

ber_BarnabyBrocketEste é um livro que deveria integrar qualquer PPL, ou seja, Plano Pessoal de Leitura, seja ele de um jovem (a quem A Coisa Terrível que Aconteceu a Barnaby Brocket  é dedicado) ou de um adulto (a quem não fica nada mal ler esta obra). John Boyne, que já antes brindara o público juvenil com O Rapaz do Pijama Às Riscas, apresenta aqui uma bela apologia do direito à diferença, socorrendo-se de diversos e distintos exemplos para mostrar ao leitor que há espaço para todos neste mundo, venham de onde vierem, sejam como forem, vivam como vivam.
Portanto, se é preconceituoso não leia este livro editado em Portugal pela Bertrand. Se não é, vá já a correr à Feira do Livro, se morar em Lisboa ou passar por lá, ou a uma livraria – ou grande superfície, dado que não é preconceituoso – e compre um exemplar. Se não gostar de ler, tem aqui um bom pretexto para tentar mudar isso.
Mas este livro não é só mensagem, é também uma grande aventura. Barnaby Brocket, o rapaz australiano que flutua e que por isso é rejeitado pelos seus pais orgulhosamente «normais», corre mundo depois de a sua mãe «inadvertidamente» o «perder» como quem perde um balão numa feira. Foram, para os pais, oito anos de tormento constante, eles que, por motivos muito pessoais, só queriam ser discretos. Um filho flutuante era algo que apenas serviria para dar nas vistas, para chamar atenções indesejadas, por isso a mãe, com o beneplácito do pai, entendeu que chegara a hora de «dispensar» um filho tão problemático. E lá foi ele a flutuar. Parece cruel, e é, mas há compensações que vão amenizando o sofrimento de um rapaz que se vê longe dos pais e dos irmãos, estes desejados por serem «normais».
Barnaby, ingénuo como qualquer criança e sempre ansioso por voltar a casa onde espera encontrar os pais arrependidos e desejosos de o verem, acaba por ir parar a uma fazenda de café do Brasil, de onde salta para Nova Iorque, para Toronto, para a Irlanda, para África, até dar um grande pulo até ao espaço. Pelo caminho, conhece duas senhoras lésbicas, uma futura mãe solteira, um aspirante a artista deserdado pelo pai, um jornalista desfigurado, um milionário com uma doença terminal, um vilão e astronautas que tinham outras carreiras previstas nas suas vidas. Todos tinham algo em comum com Barnaby: foram rejeitados pelas respetivas famílias por não serem «normais». Curiosamente, é ele que os ajuda a resolver algo que não conseguiu no seu caso pessoal: a reconciliação.
A aventura decorre a bom ritmo e a leitura acompanha esse andamento, graças à linguagem viva e colorida de John Boyne (bem acompanhada pelas ilustrações de Oliver Jeffers) que de um modo inteligente, e às vezes sub-repticiamente, vai introduzindo novos dados para análise. Quase sem se perceber, A Coisa Terrível que Aconteceu a Barnaby Brocket , enquanto nos entretém, vai-nos dando muito em que pensar. E sentimo-nos a flutuar…

Sinopse: «Os Brocket são as pessoas mais normais do mundo. São respeitáveis, quase enfadonhos, e muito orgulhosos da sua normalidade. Na verdade, Alistair e Eleanor Brocket torcem o nariz a tudo o que seja invulgar, estranho ou diferente. No entanto, assim que o filho mais novo Barnaby vem ao mundo, torna-se claro que ele é tudo menos normal. Para grande vergonha dos pais, Barnaby parece desafiar as leis da gravidade… e flutua!
O pequeno Barnaby é uma criança solitária; afinal de contas, é difícil fazer amigos quando se passa a vida no ar. Desesperado por agradar aos pais, faz tudo o que pode para parar de flutuar, mas simplesmente não consegue.
Até que, num fatídico dia, a mãe decide que não aguenta mais. Afinal, ela só queria um filho normal – e não uma criança estranha, invulgar e flutuante! Isso dá mau nome à família… Por isso, Barnaby tem de partir.
Sentindo-se atraiçoado, assustado e sozinho, Barnaby flutua sem rumo, até que se depara com um balão muito especial. Assim, começa uma viagem mágica à volta do mundo; da América do Sul a Nova Iorque, do Canadá à Irlanda, e até no espaço sideral, Barnaby faz uma série de novos e incríveis amigos, e descobre que nada nos faz tão felizes como sermos quem realmente somos.»

Autor: John Boyne (com ilustrações de Oliver Jeffers)
Título original: The Terrible Thing That Happened to Barnaby Brocket
Editora: Bertrand
Tradução: Irene Guimarães
Ano de Edição: 2013
Páginas: 208