Category Archives: Opinião sobre livros

«Uma Verdade Incómoda» – John le Carré

Uma Verdade IncómodaQue eu gosto de romances de espionagem, não é segredo para ninguém, ou pelo menos não o é para quem costuma seguir este blogue. Assim sendo, após tantos anos de afastamento, da minha parte, tornava-se inevitável, mais cedo ou mais tarde, um regresso a John Le Carré, um dos mestres do género e com a obra amplamente editada em Portugal. Por motivos vários isso só aconteceu agora, mas acertei em cheio, ao fazê-lo com este Uma Verdade Incómoda, editado pela altura de verāo pela Dom Quixote.
Desde logo destaco, além da escrita de qualidade (bem tratada pelo ótima traduçāo de J. Teixeira de Aguilar), o refinado sentido de humor que cruza a obra, abordando uma temática séria, e preocupante, com uma leveza inteligente e nunca chocante. A mesma leveza, mas essa mais chocante, com que determinados personagens do romance encaram as ações tomadas, ou por tomar, que envolvem vidas, literalmente, de terceiros.
É preocupante pensar que estes livros de ficção muitas vezes se inspiram em casos ou situações reais, e le Carré, bom conhecedor do meio político e da espionagem, é useiro e vezeiro nisso. As asneiras cometidas pelos serviços secretos chocam, mas o que efetivamente espanta é o modo como os superiores, e entre estes encontram-se altas patentes do governo de sua majestade, tentam abafar tais fracassos, passando por cima de tudo e todos sem olhar a meios, com o objetivo único de sair incólume ou beneficiado, até, das situações.
Le Carré não poupa praticamente ninguém, numa forte crítica ao seguidismo e à ambição sem limites. Gere com suprema sabedoria a gestação e a educação das personagens, dando-nos suavemente a conhecendo as respetivas personalidades, unindo aos poucos os pontos da trama, com uma leveza que nos leva a pensar: «Como é que cheguei aqui sem dar por nada?»
Tudo se passa no meio de uma elite, no caso britânica, que só brilha a superfície, contra a qual pouco se pode fazer. E se os peões ao menos achassem que estavam a ser movidos em função do bem comum, a coisa não estaria mal. Mas como não podia deixar de ser, o bem é outro… ou para outros.
Uma frescura surpreendente num octogenário e uma lucidez na escrita e na argumentação de fazer inveja a outros especialistas do ramo.
As descrições de ambientes são fundamentais em qualquer romance, e num deste tipo mais ainda, pois ajudam a compreender melhor as personagens e as suas atitudes. Seja em gabinetes, no terreno, em operações armadas, ou na pacata ruralidade britânica, as cenas são descritas com uma precisão e uma «cor» que dispensam longa frases descritivas, enumerativas e diretas; o ambiente criado por le Carré envolve-nos com subtileza, «estamos lá», literalmente.      

Autor: John le Carré
Título Original:A Delicate Truth
Editora: Dom Quixote
Tradução: J. Teixeira de Aguilar
Ano de Edição: 2013
Páginas: 363

Sinopse: «Uma operação de contraterrorismo, baptizada com o nome de código Vida Selvagem, está a ser montada na mais preciosa colónia britânica – Gibraltar. O seu objectivo: capturar e raptar um importante comprador de armas jihadista. Os seus autores: um ambicioso Ministro dos Negócios Estrangeiros e um fornecedor privado de equipamentos de defesa que é também seu amigo íntimo. A operação reveste-se de tal delicadeza que nem o chefe de gabinete do ministro, Toby Bell, tem acesso a ela.
Suspeitando de uma desastrosa conspiração, Toby procura impedi-la, mas é rapidamente colocado no estrangeiro. Três anos decorridos, chamado por Sir Christopher Probyn, um diplomata britânico aposentado, ao seu arruinado solar da Cornualha, e seguido de perto pela filha deste, Toby vê-se obrigado a escolher entre a sua consciência e o dever para com o serviço. Mas se a única coisa necessária para o triunfo do mal é que os homens bons nada façam, como pode ele manter-se calado?»

«O Livro do Anjo» – Alfredo Colitto

ca-O Livro do AnjoHá livros que nos surpreendem. No meu caso, O Livro do Anjo, de Alfredo Colitto, editado pelo Clube do Autor, foi um deles.
Peguei-lhe convicto de que iria servir para me entreter em tempo de férias, uma leitura descontraída, um «policial» no século XIV, mas pouco mais do que isso. E se não tivesse passado disso já teria sido bom, afinal era o que eu procurava. Mas, era algo mais, pois não só se revelou um bom retrato de época, Veneza em 1313, como apresenta uma boa história, bem pensada e apresentada, reforçada com personagens plausíveis e cativantes. Ou seja, Alfredo Colitto, autor que eu desconhecia, mas a que vou estar agora mais atento, sabe prender a atenção do leitor.
Escolher Veneza como cenário é uma opção segura, mas é preciso saber agarrá-la, e Colitto assim o fez, descrevendo a cidade com uma vida e um pulsar magnéticos, com cor e movimento, de um modo quase cinematográfico, muito visual.
Veneza não é uma cidade como as outras e naturalmente já não o era no século XIV, e portanto não é de estranhar que possa praticamente ser considerada uma verdadeira personagem. Tudo se passa da maneira que se passa porque se está em Veneza, e o autor aproveita-se bem disso. Depois, lançou lá uma série de personagens cativantes, começando pelo protagonista, Mondino de Liuzzi, um médico com «jeito para detetive» que é levado a investigar o homicídio de um judeu, que entretanto morre na prisão. Tudo está relacionado com o Sefer-ha-Razim, o Livro dos Mistérios que teria sido ditado pelo anjo Raziel a Noé. A vertente religiosa, sempre presente neste tipo de obras e quase inevitável, é introduzida de um modo natural, cruzando-se harmoniosamente com uma outra história paralela, esta dizendo respeito aos templários. Pelo meio, ou melhor, como motor do enredo, está, como também é natural, uma feroz ânsia de poder, motivada por razões que caberá ao leitor descobrir.
Tal amálgama de temas foi bem gerida por Colitto que, apimentando a obra com crimes horrendos e sangrentos, doseia e gere com sabedoria o ritmo da história, prendendo o leitor com pormenores lançados aqui e acolá de modo a que o interesse na leitura seja constante, equilibrado e duradouro.
A mim prendeu-me mais do que eu esperaria. Haja surpresas assim.

Autor: Alfredo Colitto
Título Original: Il Libro dell’Angelo
Editora: Clube do Autor
Tradução: Maria Irene Bigotte de Carvalho
Ano de Edição: 2013
Páginas: 296
Sinopse: «1313. A cidade de Veneza fervilha com os preparativos para a festa da Ascensão até que a maré alta traz à porta da Basílica de São Marcos os cadáveres de três crianças cristãs que haviam sido crucificadas. Um crime tão hediondo tem de ser expiado sem demoras. Eleazar de Worms, judeu, é acusado do homicídio e acaba por morrer na prisão. Na cela onde foi encarcerado, Eleazar deixa escrita uma misteriosa frase em latim. Porque a terá escrito com o seu próprio sangue? Qual o seu significado?
Afinal, a macabra descoberta pode ter ligação com o Sefer-ha-Razim, o Livro dos Mistérios que, segundo a lenda, foi ditado pelo anjo Raziel a Noé que, por sua vez, o terá transcrito numa pequena «tábua» de safira. Mondino de Liuzzi, médico anatomista, parte para Veneza na tentativa de ilibar o judeu. Quando este morre, Liuzzi decide continuar a investigar. O médico rapidamente percebe que terá de lutar contra os mais poderosos da cidade ao mesmo tempo que se encontra frente a frente com a mulher que ama e com aquela que amou no passado — e talvez ainda ame. Sendo ele próprio perseguido, conta com a ajuda do seu amigo Gerardo para chegar à verdade. O jovem, outrora membro da Ordem dos Templários, tem também uma missão: pôr a salvo o precioso mapa de Lamberto de Saint-Omer, que indica o caminho para as Terras Austrais, para lá do oceano. Mondino, desafiando o poder de Veneza e arriscando a própria vida, terá de descobrir o enigma de uma antiga linhagem de guardiães que remonta aos tempos do dilúvio, numa história de intriga, mistérios e morte.»

«Uma Breve História de África» – Gordon Kerr

Breve Historia de AfricaQue Libéria viria de liberdade já eu calculava, vem de liber, mais precisamente, mas que Monróvia, a capital, vem de Monroe, presidente norte-americano, é que me era desconhecido. Vem tudo explicado em Uma Breve História de África – Das Origens da Raça Humana à Primavera Árabe, obra do escocês Gordon Kerr editada pela Bertrand, mas não se trata de um livro de curiosidades. É, como o nome indica, um livro de história. Há pormenores que para mim se transformaram em curiosidades porque, na verdade, me eram completamente desconhecidos. E acredito que o sejam também para inúmeros de vós que me leem neste momento.
A verdade é que África, apesar de aqui tão próxima (por exemplo, a distância que separa Lisboa de Madrid em linha reta é de 503 quilómetros, enquanto da nossa capital a Rabat, em Marrocos, são apenas 561 quilómetros), na sua essência continua a ser-nos desconhecida. Sim, é verdade, se calhar conhecemos bem Angola, Cabo Verde, Guiné-Bissau, Moçambique e São Tomé e Príncipe, mas porque nos unem laços históricos. Mas, o que se passou nesses territórios antes de lá chegarmos, ou antes de chegaram os outros colonizadores ocidentais a África? Quanto a isso pouco se sabe, mas é possível começar a conhecer algo mais lendo este Uma Breve História de África, livro escrito de forma sucinta e clara, e assim a chave ideal para começar a abrir as portas do conhecimento.
Gordon Kerr não se alonga em grandes descrições e explicações, nem em julgamentos, e muitos haveria a fazer dada a profusão de guerras e conflitos que assolaram (e assolam) o continente africano. Limita-se o autor a ser factual, cabendo a quem lê, caso o entenda, fazer os seus juízos. Recolhidas estas pistas, poderá o leitor partir para outras leituras mais específicas, desenvolvendo o seu conhecimento sobre o berço da civilização.
Uma boa leitura para quem pretenda que África seja algo mais do que as nossas cinco ex-colónias ou de que um mero destino turístico.

Autor: Gordon Kerr
Título Original: A Short History of Africa: From the origins of the human race to the Arab Spring
Editora: Bertrand
Tradução: Pedro Carvalho
Ano de Edição: 2013
Páginas: 184
Sinopse: «África. O berço da civilização. Dos primórdios da era humana no continente africano pré-histórico à “chamada Primavera Árabe” de 2011, Gordon Kerr apresenta uma introdução abrangente à vasta história deste enorme continente.
Começa pelas origens da raça humana e pelo desenvolvimento da tecnologia na Idade da Pedra, percorre as eras antiga e medieval e aborda o significado da presença árabe, os estados muçulmanos e o comércio transariano.
A obra prossegue com a ascensão e queda de estados-nação e reinos antes da chegada dos europeus; o Império do Gana, os reinos da Floresta e da Savana, Ioruba, Oyo, Benim, Ashanti, Luba, Luanda, Lozi e muitos outros, o início do comércio de escravos, bem como as conquistas europeias e a colonização da áfrica subsariana, a “Corrida por África”.
Por fim, o autor avança para os frequentes e amargos conflitos pela independência, começando no período de colonização e exploração do continente, e culminado com a análise da África do século XXI.»

«Inferno» – Dan Brown

ber-infernonDepois de O Símbolo Perdido, que pareceu pouco mais ser do que um lembrete aos seus fãs de que ainda andava por aí, Dan Brown consegue com Inferno (edição Bertrand) voltar a entusiasmar quase ao nível de O Código Da Vinci. O mesmo efeito será praticamente impossível de alcançar tendo em conta que mantém a fórmula, recorrendo ao mesmo protagonista (Robert Langdon) e à mesma estrutura (descodificar enigmas, passo a passo, até à solução final). O Código Da Vinci, apesar de toda a onda mediática criada, surpreendeu os leitores que nunca tinham contactado com a obra de Dan Brown. Agora, para conseguir surpreender de novo, o escritor norte-americano terá de fazer algo completamente original, mas provavelmente neste momento ele desejará isso tanto quanto os seus fiéis seguidores, ou seja, nada.
Assim, o que se pode esperar de Inferno? Uma história trepidante, desenvolvida logo a partir de um início a cem à hora, cujo ritmo nunca abranda e com uma bem doseada série de voltas e reviravoltas. Uma coisa ninguém pode negar: Dan Brown é um profissional e cumpre como poucos a sua missão (prender o leitor). Eu fui «apanhado», e ainda bem, por uma história que me levou a Florença, depois, na altura certa, a Veneza e, por fim, a Istambul, não por acaso todas elas cidades históricas e carismáticas, onde o leitor se sente envolvido não apenas pelo enredo como também pela paisagem. Terá sido aí que, em parte, O Símbolo Perdido, patinou. Washington, por muito interessante que possa ser, a um português, ou europeu, pouco mais diz do que o facto de ser a capital dos Estados Unidos, e, se virmos bem, não há leitor que não aprecie um cenário que o envolva. E Dan Brown por norma aproveita bem os cenários que escolheu (e isso verifica-se em Inferno), servindo de guia ao descrever pormenorizadamente os locais, tanto ao nível estético como histórico, encaixando bem essas descrições no enredo, em doses bem ponderadas.
Resolvido esse problema a contento, até porque é sabido que os americanos adoram as históricas cidades europeias, passemos ao enredo em si, mais uma vez bem montado e estruturado, com tudo a funcionar muito bem a partir do momento em que encontramos um Langdon sem memória num hospital de Florença.
Tendo por pano de fundo o problema da sobrepopulação da Terra, e uns fanáticos defensores de medidas radicais para pôr fim a essa «enfermidade», Inferno ainda assim é uma companhia descontraída para umas horas de leitura bem passadas.
Já deu para perceber que o livro tem os condimentos todos para dar certo. Não há aqui grandes rasgos de imaginação, mas também, confessem lá, não era disso que estavam à espera, pois não? Então aproveitem e desçam ao Inferno com Dan Brown e Robert Langdon.

Sinopse: «“Procura e encontrarás.” É com o eco destas palavras na cabeça que Robert Langdon, o reputado simbologista de Harvard, acorda numa cama de hospital sem se conseguir lembrar de onde está ou de como ali chegou. Também não sabe explicar a origem de certo objeto macabro encontrado escondido entre os seus pertences. Uma ameaça contra a sua vida irá lançar Langdon e uma jovem médica, Sienna Brooks, numa corrida alucinante pela cidade de Florença. A única coisa que os pode salvar das garras dos desconhecidos que os perseguem é o conhecimento que Langdon tem das passagens ocultas e dos segredos antigos que se escondem por detrás das fachadas históricas. Tendo como guia apenas alguns versos do Inferno, a obra-prima de Dante, épica e negra, veem-se obrigados a decifrar uma sequência de códigos encerrados em alguns dos artefactos mais célebres da Renascença – esculturas, quadros, edifícios –, de modo a poderem encontrar a solução de um enigma que pode, ou não, ajudá-los a salvar o mundo de uma ameaça terrível… Passado num cenário extraordinário, inspirado por um dos mais funestos clássicos da literatura, Inferno é o romance mais emocionante e provocador que Dan Brown já escreveu, uma corrida contra o tempo de cortar a respiração, que vai prender o leitor desde a primeira página e não o largará até que feche o livro no final.»

Autor:
 Dan Brown
Título Original: Inferno
Editora: Bertrand
Tradução: Fernanda Oliveira, Ana Lourenço e Tânia Ganho
Ano de Edição: 2013
Páginas: 551

«Morte na Arena» – Pedro Garcia Rosado

Morte-Na-Arena_af capa_001Gosto de livros assim, que «arrancam» logo no início. Pedro Garcia Rosado tem esse hábito nos seus policiais e faz muito bem. Morte na Arena, uma edição Topseller (o livro sai a 29 de agosto), é mais um bom exemplo disso.
E tem outro hábito, o autor: não se atrapalha em fazer jorrar sangue e criar cenários horríveis e macabros. E nem sequer gosta de deixar as coisas apenas subentendidas. É tudo muito claro. Vai direto ao assunto e com isso ganha o leitor, que assim tem nas mãos um livro vivo, trepidante e, em consequência, envolvente e irresistível.
Neste Morte na Arena não há tempo para o leitor pensar em coisas tipo: “E se avançasse umas tantas páginas, será que perderia o fio à meada?” É que por vezes deparamo-nos com livros tão grandes e rebuscados que a sensação que persiste é que há ali páginas desnecessárias. Servem, essas páginas excedentes, aparentemente, apenas um propósito, convencer quem as escreve que se trata de um autor credível, pois persiste entre muitos a ideia de que livro com poucas páginas é livro pouco profundo.
Mas com Pedro Garcia Rosado não será a poupança de palavras a impedir-nos de refletir, pois Morte na Arena deixa muito em que pensar, nomeadamente em relação à sociedade portuguesa e aos respetivos podres, principalmente ao nível das forças policiais e da Justiça, e até do poder político.
Para este romance/thriller Pedro Garcia Rosado recorre aos seus habituais «convidados»: Gabriel Ponte, o ex-PJ, a sua ex-mulher Patrícia, inspetora coordenadora da PJ, e a ex-amante de Gabriel, Filomena, a jornalista.
É com bastante interesse que se acompanha as investigações, tanto a oficial como a de Gabriel, que se completam mutuamente, relativas ao aparecimento em Lisboa de partes do corpo de uma rapariga (filha de um líder partidário) desaparecida uns meses antes e dos corpos de quatro agentes da polícia, que foram encontrados em circunstâncias e locais suspeitos.  Descemos, literalmente, ao submundo de Lisboa, um mundo de túneis e esconderijos debaixo de terra onde coabitam ratos e os rejeitados da sociedade, assim como uma nova classe, vinda do alto, que resolve divertir-se e fazer dinheiro às custas das vidas dos oprimidos e mais debilitados, com um total desprezo pelo valor de uma vida humana.
Gabriel Ponte e os seus «amores» baixam ao Inferno, onde se debatem com o próprio Diabo e outros semelhantes a este. É essa descida aos infernos que nos leva a um cenário hiperviolento, brutal, sangrento, chocante! Atadas todas as pontas, mergulham num poço de podridão e imundície, de onde, como é costume nas obras de Pedro Garcia Rosado, as elites não escapam imunes, prontas que estão, sempre, a aproveitar-se dos mais fracos, que desprezam e tratam como seres inferiores, ali presentes apenas para servir de objeto de entretenimento, de um meio para atingir um fim, enfim, meras marionetas, mas de usar e literalmente deitar fora.
O que Morte na Arena nos revela é um verdadeiro submundo no subsolo de Lisboa, os alicerces podres e corrompidos de uma cidade aparentemente luminosa e límpida. Leva-nos a pensar no que estará por debaixo das aparências, do que se vê.
Este policial, tal como os anteriores do autor, é, ao fim e ao cabo, uma obra de denúncia onde não é poupada a nossa sociedade. Um livro muito atual que se lê num ápice, como qualquer bom policial, e perante o qual se percebe que o autor sabe o que faz, não só por dominar sem mácula este género literário como por, a nível de enredo, dar a ideia de saber muito bem em que meios se movimenta, o que não deixa de ser assustador.
Se a nossa sociedade é mesmo assim…

«O Impostor» – Damon Galgut

alfaguara-image012Mas afinal quem é o impostor?, é a pergunta que se poderá colocar após a leitura deste cativante romance assinado pelo sul-africano Damon Galgut, que em Portugal foi editado pela Alfaguara. À primeira vista, poder-se-á pensar que se trata do protagonista, Adam, mas a verdade é que, no fundo, todos (ou quase todos) são impostores nesta história que decorre numa África do Sul saída do apartheid mas ainda por se resolver.
As fragilidades das pessoas são exploradas ao máximo, todos têm as suas falhas, e grande parte do problema passa por não se revelarem verdadeiramente, mas apenas máscaras do que realmente são, para assim melhor defenderem os seus interesses ou os interesses daqueles a quem pretendem bajular.
Adam, um desencantado com a vida e candidato a poeta, é apenas o pretexto encontrado por Damon Galgut para servir de núcleo à trama, o motor que faz avançar o enredo. Sem saber o que fazer da vida, tanto a nível profissional como pessoal, vai viver para uma casa vazia, fora da cidade, pertença do seu irmão abastado. O objetivo é isolar-se para ser «possuído» pela poesia, mas o reencontro com um velho colega de escola leva-o por outros rumos, onde se cruza com o seu próprio passado e com uma série de personagens da «nova» África do Sul, nomeadamente Baby, a mulher do seu amigo e com quem vem a envolver-se. Mas todos, desde Baby ao seu amigo Canning, passando até pelo seu misterioso vizinho, se revelam «sombras» de quem realmente são, incluindo o próprio Adam, que na procura do seu «eu» vai revelando várias camadas de quem é. Parece complicado, mas não é, no fundo é uma história simples sobre pessoas e um país adulto mas ainda à procura do seu rumo, tal como Adam.
É o retrato de uma África do Sul pós-apartheid, onde afinal, para muitos, nada mudou; continua a haver exploradores e explorados, apesar de agora os exploradores serem multirraciais. Há uma mensagem de defesa da natureza, denunciando a violação da mesma por parte do poder económico que, além disso é corrupto.
Em O Impostor, sente-se o ambiente, as terras, as estações, sem que Damon Galgut necessite de ser exaustivo e detalhado, mas a verdade é que somos literalmente, e literariamente, envolvidos pelo seu retrato deste país, tanto na vertente das paisagens selvagens, com a sua fauna e flora cativantes, como das paisagens urbanas e suburbanas.
O Impostor, pelas suas personagens e paisagens, é um livro que nos envolve e nos permite conhecer melhor a verdadeira alma da África do Sul.

Sinopse: «Na sociedade do pós-apartheid, Adam perde o emprego e vê-se forçado a deixar Joanesburgo e mudar-se para uma casa abandonada nos limites da cidade. Aí, no meio da savana, entre a depressão e a embriaguez, tenta encontrar na literatura um novo caminho. Mas, afinal, encontra Canning, um homem que diz que Adam lhe salvou a vida nos tempos de escola.  Adam não se recorda de Canning mas decide entrar no jogo, seduzido por tudo o que Canning tem: uma grande fortuna herdada do pai e uma bela e enigmática mulher, por quem se sente perigosamente atraído.
Na extravagante mansão de Canning e Baby, um local mágico e fantástico, Adam é arrastado para uma estranha relação a três, que o transforma irremediavelmente.

Autor: Damon Galgut
Título original: The Impostor
Editora: Alfaguara
Tradução: Fátima Alice Rocha
Ano de Edição: 2013
Páginas: 318

«After Earth – Depois da Terra» – Peter David (ideia de Will Smith)

chamempolicia_capa.inddAfter Earth – Depois da Terra é o livro oficial do novo filme de M. Night Shyamalan (protagonizado por Will Smith e Jaden Smith) que estreou em Portugal a 11 de julho. Ainda não vi o filme, mas já li o livro (é assim que gosto de fazer para depois verificar se a minha visão idealizada coincide com a do realizador), quanto mais não seja porque fui um dos tradutores, a par de Renato Carreira, desta edição da Saída de Emergência.
Desde já posso dizer que estou muito curioso com a versão cinematográfica, pois gostei bastante do livro, escrito por Peter David, especialista neste género de adaptações. E apesar de todas as críticas negativas que têm sido feitas ao filme – agora está na moda desancar no Shyamalan, que teve o «azar» de realizar o «O Sexto Sentido» logo no início da carreira – não conto com grandes surpresas, pois por norma estas versões oficiais respeitam na íntegra o argumento.
E posso garantir que estamos perante uma bela aventura, com uma mensagem ecológica, dividida entre dois mundos, a «esgotada» Terra, que deixou de servir de lar à Humanidade, e Nova Prime, o novo mundo que acolheu os «eleitos» do velho e corroído planeta do sistema solar.
A escrita é simples e ritmada, tal como a estrutura desta obra de ficção científica, privilegiando a ação, mas sem esquecer questões como a família e as suas relações, a política, a religião, sem aprofundar estes temas, mas enquadrando-os adequadamente no enredo.
Como em qualquer obra de ficção científica que se preze, há algumas ideias futuristas bem trabalhadas, tanto a nível de viagens no espaço como, inevitavelmente, de armamento. São soluções credíveis dentro do contexto do mundo «criado» para esta história, que apresenta também algumas novidades a nível de organização política e governativa, com os destinos de Nova Prime a serem dirigidos por uma «troika» (não daquele tipo que infelizmente conhecemos no Portugal real) onde estão em pé de igualdade os poderes militar, religioso e científico. Regra fundamental: nunca desrespeitar o equilíbrio ambiental, pois ninguém esquece o que aconteceu à Terra.
À Terra é precisamente onde vão parar Cypher e Kitai Raige, pai e filho, o primeiro um general de topo especialista em caçar Ursas e o segundo um adolescente que pretende seguir as pisadas do pai, que venera tanto quanto teme. Únicos sobreviventes de uma nave que, após uma série de infelizes eventos, se despenha na Terra, têm de enfrentar um planeta que se «revoltou» contra o ser humano. Sozinhos e debilitados no planeta, pai e filho têm assim à força a possibilidade de resolveram ou enfrentarem tudo o que os afasta. Na segunda parte do livro surge a maioria da ação, quando Kitai dá por si sozinho no terreno em virtude da incapacidade física do pai. Um confronto/reencontro entre pai e filho, obrigados a unir esforços em nome da sobrevivência mútua.
Note-se que os Raige são assim uma espécie de família representativa do espírito de Nova Prime, pois desde a partida de Terra em 2072 desempenharam papéis cruciais, em varias áreas, na história do «novo mundo».
Há em Depois da Terra uma série de histórias paralelas, em diferentes janelas de tempo (nomeadamente os últimos dias na Terra antes do êxodo), que ajudam a compreender o que representa Nova Prime, como chegou ao «presente» – cerca de 1000 Depois da Terra (D.T.) – e principalmente quem são os seus habitantes e que perigos enfrentam, nomeadamente os temíveis Skrel. Trata-se de um povo oriundo de outro mundo que, determinado a expulsar os humanos do seu planeta sagrado, envia para lá uma arma terrível, as Ursa, fera assassina cujas sucessivas gerações, cada vez mais aprimoradas, atormentam ao longo de séculos os habitantes de Nova Prime.
Todas estas histórias paralelas deixam suficientes pistas para novos projetos no âmbito desta obra, que por certo obterão luz verde se o filme alcançar o ambicionado sucesso.
Em resumo, uma boa obra de ficção científica, na vertente da ação, onde estão presentes os elementos essenciais para captar a atenção do leitor apreciador do género.

Sinopse: «O general Cypher Raige, do Corpo Unificado de Patrulheiros, é apenas o último de uma longa linhagem de heróis. Durante mil anos, desde que o apocalipse ambiental dominou a Terra, os Raige foram um instrumento fundamental para a sobrevivência da humanidade. Lideraram o caminho quando os sobreviventes foram forçados a abandonar a Terra, instalaram-se num planeta inóspito ao qual chamaram Nova Prime, enfrentaram a chacina por parte de uma misteriosa força alienígena e estabeleceram um novo lar na ponta mais longínqua da galáxia.
Cypher acabou de regressar para junto da família após uma prolongada missão no exterior. Para o seu filho de treze anos, Kitai, acompanhar o lendário pai é a aventura de uma vida – e uma oportunidade para salvar a relação deles.
Mas, quando um asteroide colide com a nave deles, despenham-se e Cypher fica seriamente ferido, correndo risco de vida. Kitai Raige sempre quis provar que estava à altura de conviver com um apelido tão ilustre. E agora, talvez cedo de mais, terá a sua oportunidade. Com a vida do pai em risco, Kitai tem de se aventurar em terreno desconhecido e hostil num novo mundo que parece estranhamente familiar: a Terra.»

Autor: Peter David (segundo ideia de Will Smith)
Título original: After Earth
Editora: Saída de Emergência
Tradução: Rui Azeredo e Renato Carreira
Ano de Edição: 2013
Páginas: 236