Assim começa… «Sangue Sábio», de Flannery O’Connor

«Hazel Motes ia sentado no sentido da marcha do comboio, no assento de riço verde, olhando ora para a janela, como se quisesse saltar dali para fora, ora para a ponta do corredor, no outro extremo da carruagem. O comboio precipitava -se em frente, por entre copas de árvores que desabavam de tempos a tempos, exibindo o sol muito vermelho na orla dos bosques mais longínquos. Mais perto, os campos arados encurvavam-se e desvaneciam-se e os poucos porcos que fuçavam os sulcos pareciam enormes pedras manchadas.»
(Cavalo de Ferro, 2007. Tradução de Nuno Batalha)fotografia

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Assim começa… «Cem Anos de Solidão», de Gabriel García Márquez

«Muitos anos depois, diante do pelotão de fuzilamento, o coronel Aureliano Buendía haveria de recordar aquela tarde remota em que o pai o levou a conhecer o gelo. Macondo era então uma aldeia de vinte casas de barro e cana, construídas na margem de um rio de águas transparentes que se precipitavam por um leito de pedras polidas, brancas e enormes como ovos pré-históricos. O mundo era tão recente que muitas coisas ainda não tinham nome e para as mencionar era preciso apontar com o dedo. Todos os anos, pelo mês de Março, uma família de ciganos andrajosos montava a sua tenda perto da aldeia e, num grande alvoroço de apitos e timbales, davam a conhecer as novas invenções.»  (Publicações Dom Quixote. Tradução de Margarida Santiago)dq-cem

Assim começa… «A Última Viagem», de Laurent Gaudé

«Ao primeiro espasmo, ninguém se apercebe de nada e os que o rodeiam continuam a rir-se. Um leve movimento dos ombros, como para se proteger de um toque invisível, um gesto ínfimo que se dilui no tumulto do banquete, debruça-se ligeiramente para a frente e leva a mão ao ventre. A dor é tão aguda que o paralisa durante alguns segundos, mas antes de gritar, antes mesmo de ter tempo para se amedrontar, a dor desaparece. A música à sua volta é cada vez mais intensa, cafarnaum de risos, flautas e tambores. Retoma o folego. Sentiu, nas entranhas, aquela coisa que cresce – uma espécie de definhamento do corpo, mas a dor passou tão depressa que se sente estupefacto. Ergue a cabeça, observa que à sua volta os convivas continuam a rir sem que ninguém tenha visto nada, e então pede que voltem a servi-lo.»
(Sextante, 2013. Tradução de Isabel St. Aubyn)
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Assim começa… «A Rainha dos Caraíbas», de Emilio Salgari

«O célebre mar dos Caraíbas, açoitado pelo temporal, rugia furioso, projectando verdadeiras catadupas de água contra os molhes de Porto Limão e as costas da Nicarágua e da Costa Rica.
O sol estava no ocaso e as trevas caíam rapidamente como se tivessem pressa de ocultar a tremenda luta travada entre a terra e o céu.
Ainda não chovia, mas não devia tardar e por isso os habitantes tinham-se apressado a abandonar as ruas da cidadela e o pequeno porto, refugiando-se nas suas casas.
Apenas alguns pescadores e soldados da diminuta guarnição espanhola permaneciam na praia, afrontando a fúria crescente das vagas e as massas de água que o vento erguia do mar e arremessava contra o molhe.»
(Via Óptima, 2009. Tradução de António Vilalva)
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Assim começa… «O Leopardo», de Giuseppe Tomasi di Lampedusa

«“Nunc et in hora mortis nostrae. Amen”
Termina a oração quotidiana do rosário. Durante meia hora, a voz pacata do Príncipe tinha evocado os Mistérios Dolorosos; durante meia hora, misturaram-se outras vozes tecendo um murmúrio ondulante em que se destacavam as florinhas de ouro de palavras invulgares: amor, virgindade, morte; e, enquanto durava aquele murmúrio, o salão rococó parecia ter mudado de aspeto; até os papagaios que abriam as asas irisadas na seda da tapeçaria tinham o ar de intimidados; a própria Madalena, no meio das duas janelas, mais parecia uma penitente em vez de uma bela louraça, distraída sabe-se lá com que devaneios, como se via sempre.»
(Publicações Dom Quixote, 2014. Tradução de José Colaço Barreiros)O Leopardo