E cá estou de volta!

O Porta-Livros está de regresso após umas semanas de férias e é com redobrado prazer que retomo o contacto regular convosco.
Desde já posso anunciar que nos próximos dias irei aqui deixar a minha opinião sobre os livros que li neste espaço de tempo, nomeadamente Equador, de Miguel Sousa Tavares, Os Diários Secretos, de Camilla Läckberg, O Barulho das Coisas a Cair, de Juan Gabriel Vásquez, O Cavalo Amarelo, de Agatha Christie, e Triângulo, de Pedro Garcia Rosado.
Entretanto, as editoras já começaram a divulgar (e a lançar) uma série de novidades, algumas bem «apetitosas», da habitual rentrée de Setembro e aos poucos aqui divulgarei o que aí vem, dos contos de Carlos Fuentes à poesia de Maria do Rosário Pedreira, do veterano Mário de Carvalho ao novato Bruno Margo, passando por Salman Rushdie, Joanne Harris e, claro, a Nobel Herta Müller, que a partir do dia 10 de Setembro (até 14) visita Portugal para apresentar Já Então a Raposa Era o Caçador(Veja aqui o programa)

Até Setembro!

O Porta-Livros vai gozar um merecido período de férias, mas promete voltar lá pelos primeiros dias de Setembro. Como não vos quero deixar «desamparados», apresento-vos aqui uma pequena lista de sugestões de livros que podem aproveitar para ler, estejam ou não de férias. Todos os pretextos são bons, desde o simples prazer da leitura até à necessidade de viajar através das letras, passando pela ocupação dos tempos livres, em casa, na esplanada, na praia, nos transportes públicos, a caminhar ou na prisão, como o nosso amigo já aí em cima 🙂
Entre novidades e livros mais «antigos», aqui ficam algumas propostas que vos levarão a Inglaterra, Turquia, Berlim, Lisboa, Paris, Nova Iorque, etc., num verdadeiro cruzeiro por mares de letras e frases.
Até Setembro! Boas férias e boas leituras!

Rui Azeredo

A Leitora Real – Alan Bennet (ASA)
Este pequeno livro é uma verdadeira surpresa e preciosidade. Lê-se em duas horas (facto por mim comprovado), mas serão duas horas de puro entretenimento e diversão, suportadas, saliente-se, num inteligente humor britânico. Aliás, só pelo ponto de partida da ficção dá para o adivinhar: Um dia a rainha de Inglaterra descobre a biblioteca itinerante estacionada no Palácio de Buckingham. Ali conhece Norman, o jovem ajudante de cozinha que se torna seu conselheiro literário, no mesmo dia em que fez o impensável: levou (e leu) um livro.
E tudo mudou no reino, ou pelo menos no modo como Isabel II o passou a encarar. A literatura ajuda a tornar o mundo melhor, será a mensagem deste divertido romance que se pode ler de um assentada, entre uma bebida e outra, à borda da piscina, ou entre um banho e outro.
Puro prazer de descontracção.

O Fogo de Istambul – Jason Goodwin (Porto Editora)
Este romance histórico transporta-nos à Istambul do século XIX, onde somos levados a acompanhar uma investigação «policial» protagonizada por um protagonista bem peculiar, um eunuco chamado Yashim Togalu que vai tentar descobrir quem está por detrás de uma vaga de crimes que ocorre precisamente quando o Império Otomano se prepara para seguir os passos de modernização da Europa.
Trata-se de um livro que, além de ter uma história envolvente, é profundamente detalhado (sem ser chato, antes pelo contrário) na descrição de ambientes e costumes da época, numa linguagem cuidada, colorida e viva.

A Mente Louca dos Grandes Líderes Mundiais – Nassir Ghaemi (Matéria-Prima)
Esta não é definitivamente a típica leitura leve de Verão, mas a verdade é que é também nestas alturas que se dispõe de mais tempo para leituras mais profundas.
Segunda a editora, a Matéria-Prima, o psiquiatra Nassir Ghaemi «apresenta-nos uma visão inovadora e polémica sobre as poderosas ligações entre doença mental e liderança e avança com uma tese controversa: as principais características dos que sofrem de perturbações de humor – realismo, empatia, resiliência e criatividade – são também as que fazem deles os melhores líderes em tempos de crise.»
Assim, ao longo da obra são apresentados os exemplos de Churchill, Bush, Kennedy, General Sherman, Luther King e Ghandi, e em contraponto alega-se que a «normalidade» de George W. Bush o terá impedido de estar à altura de uma crise mundial.
Nem todos concordarão com as teses apresentadas (e bem embrulhadas/justificadas), mas não deixará de ser interessante ver (ler) como se defende Nassir Ghaemi neste seu livro polémico e provocador.

Equador – Miguel Sousa Tavares (Oficina do Livro)
Já muito se disse sobre este romance que, inegavelmente, cativou os portugueses. A Oficina do Livro, apesar das largas dezenas (centenas) de milhares de exemplares vendidos, apostou em cativar ainda mais público e relançou Equador (e também Rio das Flores) com novas capas. Na minha opinião é uma boa aposta, pois as capas são belíssimas.
Confesso que a mim me «apanharam» finalmente e este será, por certo, um dos meus livros deste Verão. Mais tarde direi o que achei da obra.

Os Demónios de Berlim – Ignacio del Valle (Porto Editora)
Este romance tem tudo: uma boa história, está bem escrito, é um livro de guerra e um policial, sem se esquecer de nos presentear com um leque de personagens de excepção, a começar, claro, pelo protagonista, Arturo Andrade, um espanhol que no meio do caos que é a Berlim de 1945 tem de localizar o alemão Ewald von Kleist. Encontra-o, mas morto, na chancelaria do Reich com um misterioso bilhete no bolso. Está aqui o ponto de partida para um excelente thriller, um dos melhores livros que li nos últimos anos, que decorre numa cidade em derrocada onde a todo o momento entrarão os Soviéticos.
As histórias pessoais de quem vive este drama do fim da guerra, em ambos os lados da barricada (alguns nem sabem bem de que lado estão), é um dos pontos fortes desta preciosidade confeccionada pelo espanhol Ignacio del Valle.

Némesis – Philip Roth (Dom Quixote)
O que dizer, em termos de qualidade, de um livro de Philip Roth? Embora tenha achado este Némesis algo previsível numa das suas vertentes (a dada altura torna-se demasiado óbvio o que vai suceder ao protagonista), não deixa de ser uma excelente obra que, ainda por cima, decorre inteiramente no Verão. A estação do ano é uma das personagens principais do romance, cuja acção decorre em 1944, em Newark, sob um calor demolidor, mas onde a preocupação maior é uma epidemia aterradora poliomielite.
As questões sociais lançadas pelo grassar da doença, os mais desfavorecidos são como sempre os mais afectados, são muito bem abordados por Roth, que com a sua escrita de génio nos faz sentir toda aquela opressão efectivamente vivida na época.
A descrição de ambientes é mesmo uma das melhores «armas» deste romance.

Nossa Senhora de Paris – Vítor Hugo (Europa-América)
E que tal recuperar um clássico neste Verão? E se aceitar o repto, porque não Nossa Senhora de Paris, obra de Victor Hugo, de quem quase só se fala de Os Miseráveis?
Com um pouco de esforço é possível encontrar a edição de bolso (em dois volumes) desta obra que, para os mais distraídos, conta a história do Corcunda de Notre-Dame – não, o Corcunda de Notre-Dame não é uma criação da Disney J. Trata-se de um romance dirigido ao público adulto, que tem como núcleo a Catedral da Notre-Dame de Paris, numa conhecida história cuja acção decorre no século XV. Tem aqui a oportunidade conhecer os verdadeiros Quasímodo e Esmeralda.

Casino Royale – Ian Fleming (Contraponto)
Férias sem um livro de espiões não são propriamente férias. Por isso, e que tal apostar tão só no espião mais famoso do mundo? James Bond, ou 007, nasceu dos livros, criado por Ian Fleming, e um dos mais conhecidos, principalmente por causa da recente versão cinematográfica, é este Casino Royale. A base da história é a mesma, mas naturalmente há muitas diferenças entre a tela e o papel, quanto mais não seja porque se passaram mais de 50 anos até que o livro fosse adaptado ao cinema.
Mas a essência 007 está cá toda: casinos, as bebidas requintadas, as belas mulheres que se intrometem sempre no caminho do agente secreto, o inevitável vilão, os paraísos turísticos, os carros, etc. Mas o principal é que se trata de uma boa história de espionagem. Um verdadeiro clássico do género. E a capa é tão bonita, não acham?

As Ideias que Mudaram o Mundo – Steve Johnson (Clube do Autor)
Se neste Verão pretende dedicar algum do seu tempo a compreender melhor o mundo que o rodeia, porque não conhecer algumas das ideias que o mudaram?
O autor recupera a história de quase duzentas invenções e, além de as apresentar, mostra como e em que ambiente elas foram geradas.
Johnson junta as ideias em sete padrões:
As descobertas que surgem a partir de outras descobertas;
As redes em que há troca constante de informações;
As intuições construídas lentamente;
As intuições acidentais;
A aprendizagem a partir dos erros;
As sinergias entre diferentes áreas do conhecimento;
Os processos generalizados de sedimentação do saber.

Duarte e Marta – Mistério no Pavilhão de Portugal – Maria Inês Almeida e Joaquim Vieira (Porto Editora)
Para o público juvenil, sugiro aqui a nova série Marte e Duarte (da qual já saíram dois volumes, este Mistério no Pavilhão de Portugal e ainda Ameaça no Vale do Douro), assinada por Maria Inês Almeida e Joaquim Vieira. Os protagonistas são dos adolescentes (o Duarte e a Marta) que vivem uma série de peripécias, dando vida a histórias cheias de dinamismo, como pude comprovar pelo que já li deste primeiro volume. Tudo começa à saída de um concerto rock, junto ao Pavilhão de Portugal, quando a dupla de heróis repara num vulto em movimento sobre a cobertura do edifício. Sem o saberem envolvem-se numa aventura cheia de mistérios que têm de resolver em menos de 24 horas.

Gato das Botas – Stella Gurney (adaptação) e Gerald Kelley (ilustrações) (Arteplural)
O Gato das Botas que conhecemos hoje em dia é o do cinema, «nascido» em Shrek e já com direito a filme próprio. Mas convém não esquecer que o verdadeiro nasceu da pena de Charles Perraut. Este que aqui propomos, em termos de imagem até pode ser parecido com o do grande ecrã, mas o essencial da história respeita o genuíno. Sendo uma versão mais infantil, não faltam os apelativos cenários pop-up, janelas para abrir e tiras para puxar.

Um «raio X» ao fotojornalismo com a colaboração de João Silva


Diz-se que uma imagem vale mil palavras. Concordo. Mas há alturas em que as imagens, por si só, não bastam. E é sobre um caso desses que escrevo neste texto. De nada valeria aos fotógrafos de guerra Greg Marinovich e João Silva estarem a expor as suas fotos neste livro de que vos falo – Bang-Bang Club, uma edição bem-vinda do Clube do Autor – sem que algo mais se explicasse.
Trata-se de um livro sobre fotojornalismo de guerra e por muito boas que fossem as fotos deles, sozinhas não teriam conseguido contar a história que esta dupla pretendeu contar, precisamente a do Bang-Bang Club, um grupo de quatro amigos que, com as suas máquinas, retrataram os últimos e sangrentos dias do apartheid na África do Sul.
Trata-se de um excelente documento para tentar perceber esse conturbado período da história sul-africana, sendo ao mesmo tempo um testemunho de como vivem, e reagem, os fotojornalistas em situações de perigo extremo, rodeados pela morte, que acaba também por os atingir.
É precisamente a morte de um dos elementos do Bang-Bang Club, o sul-africano Ken Oosterbroek, que serve de ponto de partida ao livro escrito a meias pelo seu compatriota Greg Marinovich e por João Silva (sim, para os mais distraídos, é o premiado fotojornalista português do New York Times). Já agora, refira-se que o outro elemento do grupo é o também sul-africano Kevin Carter, que venceu o Pulitzer em 1994 com uma famosa foto tirada no Sudão onde se vê uma criança e um abutre e que se suicidou poucos meses depois de receber o galardão.
A eterna questão dos jornalistas de guerra é aqui abordada, sendo um dos pontos fulcrais da obra. Até onde deve intervir um jornalista envolvido num cenário de guerra? Como deve reagir perante uma série de atrocidades que decorrem à sua frente? A sempre defendida opção pela não intervenção deixa inevitavelmente as suas marcas, pois embora cientes das suas obrigações profissionais, não deixam de ser seres humanos que testemunham coisas terríveis.
O livro está escrito de uma forma simples e objectiva, mas envolve o leitor pela sua genuinidade e sinceridade, pois bastas vezes os autores confessam que não saberiam como reagir em determinadas situações extremas, assim como têm dificuldade em compreender, e interiorizar, os seus próprios comportamentos. O que é natural, pois ao contrário do que sucede muitas vezes com as suas fotos, não vivem num mundo a preto e branco. Aliás, a franqueza deles por vezes chega a ser desconcertante, nomeadamente no assumir de um distanciamento face ao que testemunham. Mas a verdade é esta, sem esse distanciamento, conseguiriam cumprir a sua missão enquanto fotojornalistas?
O livro vem completado com fotos da autoria dos quatros elementos do Bang-Bang Club, com um útil e minucioso glossário, assim como com uma cronologia da África do Sul. O prólogo é assinado por Desmond Tutu.
É, em suma, um preciso documento para quem se interessa por jornalismo e pela história do apartheid.
A foto de cima é da autoria de João Silav e a de baixo de Greg Marinovich. 

«Dancem» com Jorge Salavisa

Dançar a Vida, o livro de memórias de Jorge Salavisa, escritas pelo próprio, acaba de chegar às livrarias, numa edição Dom Quixote. Tive o privilégio imenso de acompanhar a elaboração deste livro desde praticamente a sua génese e de assim conhecer pessoalmente este «senhor» (como se diz aqui no Porto), e foi um enorme prazer ser por ele levado ao mundo da dança internacional, mas também a épocas mágicas do século XX, a palcos de todo o mundo, a sociedades e meios que me pareciam tão distantes. É um relato franco e aberto, sem coscuvilhices, um retrato social de Portugal e de um português que venceu «lá fora», para onde partiu quase de mãos vazias e onde passou por muito, sempre com o fito de vencer numa actividade onde foi um verdadeiro pioneiro e um nome grande, tantas vezes esquecido.
A alma com que Salavisa nos transmite as suas experiências e vivências põe-nos literalmente a viver a sua vida, o que é uma experiência fantástica. Assim, não percam esta oportunidade de viver a vida de Salavisa, fantástica e tremendamente preenchida, note-se, e contada/escrita com emoção e firmeza.
A entrada é, avise-se desde já, um verdadeiro soco no estômago, pois Salavisa abre o jogo por completo e relata uma recente tentativa de suicídio (a segunda) falhada, felizmente, que é um momento marcante da sua vida. Daí em diante, após uma entrada que nos deixa perceber que nada ficará por contar nas páginas seguintes, acompanhamos Salavisa de volta à sua infância, de onde segue para uma aventura de vida que o levou, enquanto bailarino, com base em Paris e depois em Londres (onde fez a sua carreira), aos quatro cantos do mundo, com episódios mirabolantes, exóticos, intensos, tristes, alegres, bizarros, emocionantes, etc.
Finda a carreira de bailarino, segue-se uma outra mais, digamos… «burocrática», como director de companhias e teatros,  aí já de novo em Portugal. Gulbenkian, Companhia Nacional de Bailado, São Luiz  foram os seus pousos e esta parte do seu relato pessoal, sem ser indiscreto, revela-nos como funcionam nos bastidores as instituições portuguesas, demasiado dependentes dos poderes políticos e de outros interesses, muitas vezes pessoais.
Mas, na minha opinião, o melhor está na primeira metade do livro, onde Salavisa nos transporta até à «sua» África, e aos bastidores do mundo internacional do bailado, apresentando-nos, além da sua família, personagens como Margot Fonteyn e Rudolf Nureyev, e outras menos mediáticas mas simplesmente fabulosas e quantas vezes extravagantes. Abre-nos o pano a um mundo maravilhoso e colorido que estamos habituados a ver apenas em filmes.
Tive a felicidade de aceder a este mundo contado antes de qualquer comum dos mortais, pois ajudei a passar para o papel (ou melhor dizendo, para o word) o manuscrito de Jorge Salavisa, que me foi ditando as suas memórias nuns intensos dias de trabalho onde ouvi avidamente histórias sobre histórias que me enriqueceram cultural e pessoalmente. Agora, não percam a oportunidade de através da leitura desfrutarem dessa experiência maravilhosa que é dançar com Jorge Salavisa.
Já agora, fica a informação, Dançar a Vida é lançado a 7 de Maio, às 18h30, no Teatro Nacional de São Luiz, em Lisboa, com apresentação de Ana Bola e Miguel Honrado.

Katherine Webb deu-me uma lição

O meu trabalho enquanto revisor e tradutor permite-me/obriga-me a ler obras que, se calhar, de outro modo nunca me passariam pela frente dos olhos. Se às vezes isso pode ser penoso (felizmente tal tem sido muito raro) outras proporciona-me agradáveis surpresas.
Katherine Webb seria um nome que muito dificilmente me atrairia a atenção. É uma escritora voltada para o público feminino e as capas dos seus romances não o disfarçam. Pois é, só que eu li um romance dela e gostei bastante. Tratava-se de A Herança, que foi editado em 2011 pela Asa. É uma verdadeira saga familiar que vai desde o velho oeste americano até a actual Inglaterra rural e tem de tudo: pessoas desaparecidas, amores por viver, segredos de família, e mistérios q. b.
A acção decorre alternadamente entre o passado (início século XIX) e o presente. A trama está bem montada e os saltos no tempo nem por um momento baralham o leitor. Bem escrito, A Herança é assim uma agradável e empolgante leitura, onde a descrição de ambientes é uma das suas mais-valias. O empoeirado velho oeste merece os melhores retratos sépia deste romance.
Ora a verdade e que Webb está de volta, pois a Asa edita em Abril O Mundo Invisível, onde se repete a fórmula das viagens no tempo, desta vez não para enquadrar e compreender o presente como sucedia em A Herança, mas sim como fruto de uma investigação de uma jornalista sobre um estranho caso ocorrido cem anos antes.
Perdido o efeito surpresa, este romance não é tão envolvente como o primeiro, mas não deixa de ser uma boa aposta, especialmente pela história de 1911, onde se fala de direitos das mulheres, amores proibidos e… fadas, as tais que povoam o citado mundo invisível.
Katherine Webb é sem dúvida uma escritora a seguir com atenção. Não se deixem «enganar» pelas capas 🙂

Da Costa Rica às Ilhas Virgens

O painel de estatísticas deste blog apresenta desde há dias um mapa indicativo da origem geográfica dos visitantes do Porta-Livros. Que recebe muitas visitas do Brasil, já eu tinha percebido, mas não fazia ideia de que era quase metade das oriundas de Portugal.
A grande distância vêm os EUA, mas curioso, curioso, é verificar que praticamente todos os dias o Porta-Livros é visitado por uma pessoa na Costa Rica. Se é sempre o mesmo visitante, não faço ideia, mas se é só me resta agradecer-lhe por diariamente atravessar o Atlântico para saber algo mais sobre o que se passa a nível de livros em Portugal.
Fica assim personalizado neste persistente visitante da Costa Rica o obrigado a todos os que do estrangeiro vêm espreitar este blog português.

PS – Hoje pela primeira vez apareceu um visitante das Ilhas Virgens Britânicas.

O fantástico é fantástico. Obrigado Raymond E. Feist!

A minha ligação profissional ao mundo dos livros abriu-me, naturalmente, as portas à leitura de géneros e obras que, se calhar, de outro modo, por dispensável conservadorismo meu, não me passariam pela frente dos olhos. A literatura fantástica não estava no meu topo de preferências e por isso de certeza que já perdi muita coisa boa. Mais certo disso fiquei depois de ter sido um dos tradutores (o outro foi o meu amigo José Remelhe) de O Mago – As Trevas de Sethanon, do mestre Raymond E. Feist, recentemente editado pela Saída de Emergência. Que prazer me deu entrar naquele complexo mundo criado por Feist (já agora, isto de ficcionar mundos e nações, e mapas, e povos, e raças, e famílias, etc., etc. deve ser cá uma complicação) e participar, com todos aqueles personagens, numa aventura em Midkemia, onde a Ordem e o Caos se envolvem numa batalha gigantesca, na qual participam magos, dragões, guerreiros, elfos, príncipes, anões, etc., com armas mágicas e outras mais «terrenas», como adagas e bestas. As pormenorizadas descrições das batalhas são fantásticas, mas equiparadas em qualidade às descrições das povoações por onde a trama passa, sem esquecer personagens bem construídas e credíveis.
As Trevas de Sethnanon  é um livro muito bem trabalhado por Raymond E. Feist, que justifica plenamente o epíteto de mestre do fantástico. Fiquei fã, sem dúvida.
Não são fãs de literatura fantástica? Esqueçam isso. Encarem este romance apenas como aquilo que ele é, um excelente livro de aventuras.

Os conselhos de Agatha Christie, a surfista, aos (candidatos a) escritores

Motivos profissionais levaram-me a ler a imensa (700 páginas) Autobiografia de Agatha Christie recentemente editada em Portugal pela Asa. Não sou fã da escritora, por isso devo dizer que pessoalmente não era obra que me «puxasse», mas para os seus seguidores indefectíveis este é sem dúvida um livro a ter em conta.
De qualquer maneira, há aspectos curiosos a ter em conta nesta biografia. Mesmo levando em conta a época em que viveu, Agatha Christie era uma perfeita snob, sem uma noção do mundo real em que vivia e a quem a distinção entre classes era algo que até lhe dava jeito. É um exercício curioso verificar as noções de vida de privação que grassavam entre a classe privilegiada a que pertencia a escritora. Penso que a parte mais interessante desta obra é a relativa à participação em escavações arqueológicas na Síria, com o seu segundo marido.
Depois há curiosidades como esta: Agatha Christie passou grandes temporadas no Hawai a fazer surf. Confesso que para mim esta foi uma revelação!
Do que ela percebia, naturalmente, era do ofício de escritor, sobre o qual tinha uma visão muito prática. Atente-se ao que vem na página 437: «Bom, isso está muito bem se ele for um génio, mas o mais provável é que seja um comerciante. Tem algo que acha que consegue fazer bem, e quer vendê-lo bem. Se assim é, tem de lhe dar a dimensão e a aparência que tem mais procura. Se fosse carpinteiro, não serviria de nada fazer uma cadeira com o assento dois metros acima do chão. Ninguém quereria sentar-se nela. De nada serve dizer que a cadeira fica mais bonita assim. Se quer escrever um livro, estude de que tamanho são os livros que se vendem e escreva dentro desses limites. (…) Se gosta de escrever apenas para si, é diferente – pode escrever o livro do comprimento que quiser e da forma que quiser; mas provavelmente terá de se dar por feliz com o prazer de o ter escrito.»