Atomium de Bruxelas: Muito mais do que esferas cintilantes

 

O edifício Atomium, em Bruxelas, parece saído de um filme de ficção científica, mas daqueles já de há umas décadas, o que só lhe dá mais brilho e encanto. São nove esferas (todas com 18 metros de diâmetro e interligadas entre si) em aço inoxidável, atingindo os 102 metros de altura,  e só por esta descrição já daria para perceber o efeito que teria na paisagem tal construção.
Sempre pensei que o Atomium fosse uma peça meramente «decorativa» e mesmo depois de o ter visto «ao vivo» em 1996, aquando de uma deslocação a Bruxelas enquanto jornalista para a apresentação do novo Mercedes Class A, nada me levou a pensar o contrário. Pura ignorância, afinal. O Atomium, além da sua estética inovadora, que a mim muito cativa, é, para meu espanto, um conjunto de bolas recheadas. E esse recheio vale bem a pena, mesmo para quem não aprecie, exteriormente, aquele conjunto de esferas brilhantes.

De efémero a «eterno»

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Modelo do Atomium em exposição no interior © 2020 – http://www.atomium.be – SOFAM

O Atomium, monumento mais visitado da capital belga (mais precisamente no periférico Parque Heysel), tem algo em comum com a Torre Eiffel, em Paris. Ambos foram erigidos para assinalar e embelezar grandes exposições internacionais e ambos deveriam ser efémeros. E se a Torre Eiffel já se aguenta desde 1889, também o Atomium ostenta uma bela idade, 62 anos, dado que foi criado para a Expo 58 de Bruxelas. Os mais de 600 mil visitantes que por lá passam todos os anos, o que faz dele a mais popular atração turística de Bruxelas, provam que teria sido um erro o seu desmantelamento.  Ainda assim, durante anos foi-se degradando, acabando por encerrar para obras de restauro. Entre 2004 e 2006 passou por um processo de renovação, a que se seguiu uma reabertura de cara lavada.

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Interior do Atomium © 2020 – http://www.atomium.be – SOFAM

O Atomium representa uma célula unitária de cristal de ferro elemental, aumentada 165 mil milhões de vezes, e a opção por tal forma deve-se ao facto de a exposição mundial de 1958 ter sido dedicada à ciência. O responsável pelo seu projeto foi o engenheiro-arquiteto André Waterkeyn, que reparou que na natureza os átomos do ferro se organizam segundo uma estrutura cúbica regular, que poderia ser representada como um edifício.
Dado que, na época, a Guerra Fria era algo bem palpável e presente, e que poucos anos antes tinham sido lançadas bombas atómicas sobre o Japão, era, no portanto, necessário retirar a «carga» bélica associada ao «pobre» átomo. Assim, Waterkeyn projetou exposições didáticas nas esferas relativas aos benefícios do átomo, para que não fosse encarado como algo nefasto, contribuindo assim para que voltasse a ser o que sempre foi, uma mera partícula e não uma arma demoníaca.
As exposições permanentes do monumento ocupam os níveis 1 e 2 (correspondentes à esfera inferior) e o nível 7 (panorama). Nestes espaços são recordados, através de documentos, fotografias, vídeos e modelos à escala, os mais de 60 anos deste antigo pavilhão da Expo’58, havendo um setor dedicado ao declínio que o edifício sofreu nos anos 90 e que levou ao seu já referido fecho, recuperação e reabertura em 2006.

As vistas

Naturalmente, um edifício de tal dimensão e altura, teria de contar com espetaculares miradouros, de onde é possível ver o centro de Bruxelas. Um deles está situado no Panorama (piso 7, a esfera superior), sendo precisamente aí que começa a visita ao interior do Atomium, após uma subida de elevador. Sobem-se os 92 metros de altura para iniciar a visita, mas também para se desfrutar de uma vista de 360 graus.
Mas há outro miradouro no nível 6 (uma esfera lateral), a uma altura de 36 metros e acessível por escadas rolantes, proporcionando uma espetacular vista de 150 graus.

A Schtroumpfette…

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Entrada da exposição com a Schtroumpfette como protagonista (foto cedida pela organização) © 2020 – http://www.atomium.be – SOFAM

O Atomium funciona igualmente como centro de exposições temporárias e, estando situado na capital belga, acaba por ser natural (e lógico) que muitas dessas mostras de alguma forma se relacionem com a banda desenhada. Por exemplo, presentemente e até ao outono, estará patente uma mostra que tem por protagonista a Estrumpfina, personagem criada por Peyo no mundo dos Estrumpfes, agora também conhecidos por Smurfs (por causa do filme e dos americanos), embora no original se chamem Schtroumpfs. Confuso? Se juntar a designação espanhola, a situação não melhora, antes pelo contrário: Pitufos.
A Estrumpfina, ou Smurfina, ou Smurfette, ou Schtroumpfette, como se preferir, é a vedeta de uma exposição que denuncia a desigualdade de género, numa parceria com as Nações Unidas. A Estrumpfina assume uma particular importância nesta matéria, nomeadamente desde que a jornalista Katha Pollitt, do New York Times, criou o termo O Princípio de Estrumpfina para descrever a representação inferior das mulheres em filmes e séries de televisão. A Estrumpfina é a única representante feminina no azulado e masculino mundos dos Estrumpfes e melhor exemplo não poderia haver.
Assim, com painéis instalados no piso térreo são mostrados diversos exemplos do Princípio de Estrumpfina através de filmes e séries contemporâneas, a par de painéis de banda desenhada dos Estrumpfes, onde a Estrumpfina é subestimada e excluída pelos seus próprios companheiros.
Antes desta exposição, esteve patente uma outra com Spirou como protagonista, dedicada aos direitos humanos. A exposição da Estrumpfina pode ser visitada nos pisos 0 (átrio de entrada) e 5 (esfera central) do Atomium pelo menos até ao próximo outono.

…e o Bruegel

Uma outra exposição é dedicada ao pintor belga Bruegel, o Velho, intitulada «Bruguel, Uma Experiência Poética». Sob o lema um mundo e uma mente inovadores, esta mostra pode ser visitada até 15 de novembro de 2020 nos pisos 2 e 3 do Atomium.
A mostra visa assinalar o 450.º da morte do pintor renascentista belga Bruegel, o Velho. Trata-se de uma exposição imersiva e interativa relativa às facetas conhecidas, mas também as mais inesperadas, da sua obra e personalidade.
A exposição está montada de forma a levar o visitante a mergulhar no seio do mundo do pintor, nomeadamente graças à reprodução das suas obras em cenários tridimensionais.

O Atomium e a BD

Situando-se o Atomium em Bruxelas, não é de estranhar que surja como cenário de várias histórias de banda desenhada. Aliás, em 2018 foi publicado um álbum oficial dos 60 anos do monumento, intitulado Sourire 58, com argumento de Patrick Weber e desenhos de Baudouin Deville. Trata-se de um thriller geopolítico de espionagem em plena Guerra Fria que tem por cenário precisamente a Exposição Universal de 1958, com o Atomium a ocupar lugar de destaque.
Baudouin Deville é, aliás, autor de outro álbum de banda desenhada que tem o Atomium como «estrela», Atomium 58, onde além da ilustração se ocupou também do argumento. Trata-se do terceiro volume da série L’inconnu de la Tamise, publicada nos anos 1980.
Estes álbuns não têm edição portuguesa, ao contrário de Os Sarcófagos do 6.º Continente, uma aventura de Blake e Mortimer assinada por Yves Sente e André Juillard. Os conhecidos heróis criados por Edgar P. Jacobs têm de enfrentar em Bruxelas uma ameaça que tenta destruir o próprio evento no dia de abertura e como se vê logo pela capa o Atomium ocupa, inevitavelmente, um lugar de destaque. Os Sarcófagos do 6.º Continente saiu em dois volumes (A Ameaça Universal e Duelo de Espíritos), em 2003 e 2004.

Um passeio por toda a Europa… em miniatura

Se depois do Atomium pretender continuar a explorar as imediações, não há como evitar a Mini Europa, logo ao lado e a poucos minutos a pé. Como o nome diz, trata-se de uma Europa em miniatura, com reproduções detalhadas de edifícios e eventos históricos de toda a União Europeia.
Sim, como é evidente Portugal está representado, sendo o acrescento mais recente uma reprodução do Castelo de Guimarães. De resto, tem a Ribeira do Porto, o Oceanário, a Torre de Belém e umas casinhas típicas algarvias.
Trata-se de um espaço muito agradável para passear, sendo perfeito para famílias, tendo o bónus de proporcionar uma bela vista sobre o Atomium.

Para mais informações, pode consultar os sites oficiais:
https://atomium.be/Home/Index
https://www.minieurope.com/

 

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