«Uma Verdade Incómoda» – John le Carré

Uma Verdade IncómodaQue eu gosto de romances de espionagem, não é segredo para ninguém, ou pelo menos não o é para quem costuma seguir este blogue. Assim sendo, após tantos anos de afastamento, da minha parte, tornava-se inevitável, mais cedo ou mais tarde, um regresso a John Le Carré, um dos mestres do género e com a obra amplamente editada em Portugal. Por motivos vários isso só aconteceu agora, mas acertei em cheio, ao fazê-lo com este Uma Verdade Incómoda, editado pela altura de verāo pela Dom Quixote.
Desde logo destaco, além da escrita de qualidade (bem tratada pelo ótima traduçāo de J. Teixeira de Aguilar), o refinado sentido de humor que cruza a obra, abordando uma temática séria, e preocupante, com uma leveza inteligente e nunca chocante. A mesma leveza, mas essa mais chocante, com que determinados personagens do romance encaram as ações tomadas, ou por tomar, que envolvem vidas, literalmente, de terceiros.
É preocupante pensar que estes livros de ficção muitas vezes se inspiram em casos ou situações reais, e le Carré, bom conhecedor do meio político e da espionagem, é useiro e vezeiro nisso. As asneiras cometidas pelos serviços secretos chocam, mas o que efetivamente espanta é o modo como os superiores, e entre estes encontram-se altas patentes do governo de sua majestade, tentam abafar tais fracassos, passando por cima de tudo e todos sem olhar a meios, com o objetivo único de sair incólume ou beneficiado, até, das situações.
Le Carré não poupa praticamente ninguém, numa forte crítica ao seguidismo e à ambição sem limites. Gere com suprema sabedoria a gestação e a educação das personagens, dando-nos suavemente a conhecendo as respetivas personalidades, unindo aos poucos os pontos da trama, com uma leveza que nos leva a pensar: «Como é que cheguei aqui sem dar por nada?»
Tudo se passa no meio de uma elite, no caso britânica, que só brilha a superfície, contra a qual pouco se pode fazer. E se os peões ao menos achassem que estavam a ser movidos em função do bem comum, a coisa não estaria mal. Mas como não podia deixar de ser, o bem é outro… ou para outros.
Uma frescura surpreendente num octogenário e uma lucidez na escrita e na argumentação de fazer inveja a outros especialistas do ramo.
As descrições de ambientes são fundamentais em qualquer romance, e num deste tipo mais ainda, pois ajudam a compreender melhor as personagens e as suas atitudes. Seja em gabinetes, no terreno, em operações armadas, ou na pacata ruralidade britânica, as cenas são descritas com uma precisão e uma «cor» que dispensam longa frases descritivas, enumerativas e diretas; o ambiente criado por le Carré envolve-nos com subtileza, «estamos lá», literalmente.      

Autor: John le Carré
Título Original:A Delicate Truth
Editora: Dom Quixote
Tradução: J. Teixeira de Aguilar
Ano de Edição: 2013
Páginas: 363

Sinopse: «Uma operação de contraterrorismo, baptizada com o nome de código Vida Selvagem, está a ser montada na mais preciosa colónia britânica – Gibraltar. O seu objectivo: capturar e raptar um importante comprador de armas jihadista. Os seus autores: um ambicioso Ministro dos Negócios Estrangeiros e um fornecedor privado de equipamentos de defesa que é também seu amigo íntimo. A operação reveste-se de tal delicadeza que nem o chefe de gabinete do ministro, Toby Bell, tem acesso a ela.
Suspeitando de uma desastrosa conspiração, Toby procura impedi-la, mas é rapidamente colocado no estrangeiro. Três anos decorridos, chamado por Sir Christopher Probyn, um diplomata britânico aposentado, ao seu arruinado solar da Cornualha, e seguido de perto pela filha deste, Toby vê-se obrigado a escolher entre a sua consciência e o dever para com o serviço. Mas se a única coisa necessária para o triunfo do mal é que os homens bons nada façam, como pode ele manter-se calado?»

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