O buraco negro na Feira do Livro do Porto

BNNão sou fã da Avenida dos Aliados. Está bonita, não há duvida, mas parece-me me fria e distante – de tal maneira que nunca me ocorre ir até lá passear. Para mim não é mais do que um local de passagem, pouco acolhedor. Siza Vieira é um grande arquiteto, mas ali não me convenceu – se calhar estou a ser egoísta, mas é assim que vejo e sinto as coisas.
Os Aliados ganham vida, em meu entender, em poucas ocasiões: quando o clube da terra ganha o campeonato – o que acontece frequentemente, mas o que a mim de pouco me vale por ser sportinguista – ou quando lá se realiza a Feira do Livro do Porto.
Mas agora, diz-se «quando lá se realizava…»
Pois, agora que está prestes a começar a Feira do Livro de Lisboa mais se pensa que este ano não há feira no Porto (e será só este ano?) Não sei de quem serão as culpas. De todos, se calhar, mas, desculpem, minhas é que não são. Sempre lá fui todos os anos, desde a Rotunda da Boavista (onde me lembro de andar a saltar de banca em banca para me abrigar da chuva com livros do Arthur C. Clarke debaixo do braço), passando pelo tormento do Palácio de Cristal (que, nos dias mais quentes e abafados, me fazia ter saudades da chuva de outros tempos), até regressar aos Aliados, o seu lugar «natural». Não me limitei a ir lá «ver as montras», sempre comprei livros; mesmo que para mim não precisasse, haveria a quem oferecer, quanto mais não fosse para incutir aos outros o gosto pela leitura.
E agora? Poderão dizer que para incutir o gosto pela leitura posso continuar a oferecer os tais livros, comprados noutros sítios. Pois posso, mas isso não passa apenas por oferecer ou sugerir os livros. Passa, principalmente, pelo ambiente em que eles são escolhidos, pelo ritual de passar por todas as bancas para ver o que interessa, por ver as pessoas a acarinhar os livros, por encontrar as pessoas com quem por norma só comunico por e-mail, por conversar com um ou outro escritor – eu sei que, por exemplo, para encontrar o Richard Zimler me basta ir à Foz, mas eu gosto de o ver ali no meio dos livros e das pessoas, na Feira, nos Aliados.
Este ano não haverá nada disso. O ritual está em pausa, espero que por pouco tempo.
Nunca pensei que fosse possível.

Rui Azeredo

(Créditos da imagem: NASA E/PO, Sonoma State University, Aurore Simonnet)

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