«Em Parte Incerta» – Gillian Flynn

gone girl_01Há livros sobre os quais se criam grandes expectativas e depois, quando chega a hora de serem lidos, acaba por se gerar alguma desilusão, pois a fasquia estava demasiado elevada.
Confesso que foi esse o meu receio ao avançar para a leitura de Em Parte Incerta. Depois de tudo o que se escrevera (e dissera) sobre este romance da norte-americana Gillian Flynn, acabei por ficar um pouco de pé atrás, temendo a referida desilusão. Mas, depois, temendo, por outro lado, estar a passar ao lado de algo importante e marcante resolvi arriscar e… ganhei a aposta! Que livro fantástico!
É apresentado como um thriller, o que só por si já seria motivo de regozijo, mas é muito mais do que isso. Em Parte Incerta é um retrato da América nascida da crise de 2008; não um retrato global de toda a sociedade, mas um retrato em pequena escala da influência da crise no quotidiano das pessoas – mas, não será isso mesmo o que melhor espelha o que vai no mundo, esses pequenos mundos, os «nossos» mundos?
Os dois protagonistas (Nick e Amy, que formam um casal) são um reflexo das consequências da crise em todos nós. E como é que isso se processa? Ora muito bem, a autora, neste que é o seu segundo romance editado em Portugal (o outro foi Objectos Cortantes), criou duas personagens interessantíssimas, tão reais e humanas que até assustam, que se veem envolvidas, num período em que passavam por uma fase de decadência económica, num acontecimento que abala todos de forma tremenda. O acontecimento é o desaparecimento de Amy, como é bom de ver. E, desse ponto de partida, começamos a conhecer as personagens (não só as duas principais, como as que as rodeiam, familiares, amigos, polícias ou advogados.) Poder-lhes-ia chamar de personagens peculiares, mas, vendo bem, não passam de pessoas como nós ou como aquelas que conhecemos. Por isso, em vez de peculiares, são apenas «normais». E contatar isso é que pode revelar-se assustador.
Claro que as personagens que passamos a conhecer melhor são Nick e Amy, tanto através do relato do que vai sucedendo como através de memórias e do diário da desaparecida. E é curioso que, página à frente, página atrás, amamos um e odiamos o outro, e, de repente, já é o contrário. E essa é uma das grandes «armas» deste romance, a ambiguidade das personagens e das situações, as constantes evoluções e (des)evoluções no que sentimos por elas, até darmos por nós perdidos sem saber o que pensar. E, de repente, ainda meio «zonzos», levamos um soco no estômago, e todo se torna ainda mais… «inclassificável».
Todo este jogo deixa-nos preso ao livro, graças a uma técnica de atração irrepreensível de Gillian Flynn que sabe como poucos captar (para não mais largar) a atenção do leitor.
Se nem nós, leitores, na posição privilegiada de espectadores (com acesso a mais informações do que os protagonistas), conseguimos entender as mente de Amy e Nick e tomar partidos, quanto mais os próprios, que não sabem da missa a metade? Nunca como aqui foi tão apropriada a frase de promoção de um livro: «Acha mesmo que conhece a pessoa que dorme ao seu lado?»

PS – Segundo a edição de abril da revista inglesa Total Film, o realizador David Fincher está em negociações para deitar a mão à versão cinematográfica de Em Parte Incerta, com base num argumento escrito pela própria Gillian Flynn.

Autor: Gillian Flynn
Título original: Gone Girl
Editora: Bertrand
Tradução: Fernanda Oliveira
Ano de Edição: 2013
Páginas: 520

Sinopse: «O casamento pode dar cabo de uma pessoa…
Uma manhã de verão no Missouri. Nick e Amy celebram o quinto aniversário de casamento. Enquanto se fazem reservas e embrulham presentes, a bela Amy desaparece. E quando Nick começa a ler o diário da mulher, descobre coisas verdadeiramente inesperadas…
Com a pressão da polícia e dos media, Nick começa a desenrolar um rol de mentiras, falsidades e comportamentos pouco adequados. Mostra-se evasivo, é verdade, e amargo – mas será mesmo um assassino?
Entretanto, todos os casais da cidade se perguntam já se conhecem de facto a pessoa que amam. Nick, apoiado pela gémea Margo, assegura que é inocente. A questão é que, se não foi ele, onde está a sua mulher? E o que estaria dentro daquela caixa de prata escondida atrás do armário de Amy?
Com uma escrita incisiva e a sua habitual perspicácia psicológica, Gillian Flynn dá vida a um thriller rápido e muito negro que confirma o seu estatuto de uma das melhores escritoras do género.»

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10 responses to “«Em Parte Incerta» – Gillian Flynn

  1. Andreia Rezende Pereira

    Este livro seria com o titulo Garota Exemplar?

  2. Também gostei muito deste livro. É um retrato psicológico impressionante e uma história muito bem conseguida 🙂
    Só um pequeno reparo, já havia um livro desta autora publicado em Portugal, de seu nome “Objectos Cortantes”.

  3. Cristina Valente

    tou a adorar!!

  4. Fiquei com uma enorme vontade de ler.

  5. Será mesmo? Já li cerca de 100 páginas e não me está a interessar grande coisa. Até me sinto mal pois praticamente toda a gente adorou este livro.

  6. Bem, Márcia, a unanimidade nunca foi positiva, por isso… 🙂

  7. Pingback: «A Rapariga no Comboio» – Paula Hawkins | Porta-Livros

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