«Os Diários Secretos» – Camilla Läckberg

Aprecio bastante os livros da escritora sueca Camilla Läckberg e como tal foi com grande expectativa que parti para a leitura deste Os Diários Secretos, até porque saía um bocado da norma e em vez de um crime por resolver trazia também, paralelamente, um regresso ao passado, mais propriamente à Segunda Guerra Mundial e ao nazismo.
Só que, além disso, trazia muito mais, algo que para mim era desnecessário pois não é o que procuro neste tipo de livros – policiais entenda-se. Muitos dramas familiares, passeios de bebés, gravidezes, trocas de fraldas, questões domésticas, crises de meia-idade, etc.  – nada contra isso, mas não é o que estou à espera de encontrar num livro deste género, pelo menos não em tais quantidades. Não que surja a despropósito, nada disso, está bem inserido na história, mas para mim a certa altura tornou-se algo maçador ter de lidar com as questões de bebés e casamentos e ex-mulheres quando o queria era saber o que se passava com o passado da mãe da habitual protagonista, Erica Falk. Acho que o livro ficaria a ganhar se fosse mais reduzido, mas, por outro lado, não posso esperar que ele seja escrito especificamente para mim, certo?
A «heroína» dos romances de Camilla Läckberg, após terminada a sua licença de maternidade, procura retomar a escrita dos seus livros, mas ao mesmo tempo está obcecada com os diários da mãe, que encontrou junto a uma medalha nazi. Erica levara a medalha para ser observada por um historiador especialista em nazismo, mas, curiosamente, ele veio a ser assassinado e ela começa a pensar se haverá uma relação entre as duas coisas. Por seu turno, o seu marido, Patrick está agora a cuidar da filha bebé de ambos, mas não consegue afastar-se do trabalho e acaba envolvido na investigação do assassínio do historiador.
Com os habituais flashbacks, a autora vai-nos dando a conhecer o passado, sendo esta uma técnica que domina muito bem, pois doseia a informação a passar ao leitor de um modo que nos mantém presos ao enredo. A escrita, clara e directa, ajuda a cativar, o que aliado a uma boa contextualização histórica e um competente enquadramento no presente constituem as bases de uma leitura agradável e perturbadora em simultâneo, pois são abordados temas que não deixam ninguém indiferente, nomeadamente a presença dos ideais nazis na sociedade contemporânea. E aqui mais uma vez, como é norma no policial sueco, a sociedade daquele país nórdico não escapa incólume e de novo se fica com a impressão de que a fachada de perfeição oculta uns podres que só o silêncio e o esquecimento ajudam a manter em banho-maria. Esta viagem no tempo origina igualmente uma viagem geográfica, pois a Noruega é também chamada à liça, nomeadamente a sua faceta colaboracionista.
E a «paisagem», não esqueçamos, é um elemento fundamental na obra de Camilla Läckberg.
O retrato da pacata cidade costeira sueca de Fjällbacka, cenário obrigatório dos romances de Läckberg, mais uma vez ajuda a envolver o leitor, principalmente se for um habituée  destes romances, pois o pitoresco lugar assume praticamente o papel de uma personagem, já que atrás de muitas portas há segredos por revelar. Camilla Läckberg  parece usar a «sua» cidade como um calendário do advento e a cada romance abre uma ou duas janelas para vasculhar (e denunciar) o que lá dentro se passa. Aguardemos para ver o que nos ocultam as próximas janelas.

Autora: Camilla Läckberg
Título original: Tyskungen
Editora: Dom Quixote
Tradução: Ricardo Gonçalves (do inglês)
Ano de Edição: 2012
Páginas: 520
Sinopse: «O verão está a chegar ao fim e a escritora Erica Falk regressa ao trabalho depois de gozar a licença de maternidade. Agora cabe ao marido, o inspector Patrik Hedstrӧm, tratar da pequena Maja. Mas o crime não dá tréguas, nem sequer na tranquila cidade de Fjällbacka e, quando dois adolescentes descobrem o cadáver de Erik Frankel, Patrik terá de conciliar os cuidados à filha com a investigação do homicídio deste historiador especializado na Segunda Guerra Mundial.
Camilla Läckberg combina com mestria uma história contemporânea com a vida de uma jovem na Suécia dos anos 1940. Com recurso a numerosos flashbacks, a autora leva-nos a descobrir o obscuro passado da família de Erica Falk.»

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