«Bar Flaubert» – Alexis Stamatis

De literatura grega pouco conheço, nem clássicos nem contemporâneos (aqui só um pouco de Panos Karnezis), mas recentemente tive uma bela surpresa ao ler Bar Flaubert, um belo e viciador romance de Alexis Stamatis editado agora pela Porto Editora, embora seja um original já de 2000.
Sim, demorou uns anos a cá chegar, mas agora que podemos frequentar o Bar Flaubert não há que hesitar, é um «lugar» de visita obrigatória. Mas isso nem é preciso recomendar, pois assim que se põe ou pé (ou, melhor, a vista) neste romance de lá já não se quer sair. Logo a abrir, o que me ocorre dizer é que Bar Flaubert me faz lembrar A Sombra do Vento, de Carlos Ruiz Zafón, o que é um tremendo de um elogio, pois trata-se de um dos meus livros preferidos.
Há um manuscrito misterioso, um autor ainda mais misterioso e um jornalista curioso que por acaso encontra em casa do seu pai esse romance, chamado precisamente Bar Flaubert, que o deixa enfeitiçado. Enfeitiçado a ponto de largar tudo para encontrar o seu autor, um tal Loukas Matthaiou misteriosamente desaparecido na década de 70 e sobre quem o pai mostrara grande repulsa em falar. Isso só espicaça ainda mais a vontade do jornalista (já agora, chama-se Yannis Loukas), que, prestes a entrar nos 40 anos e numa fase indefinida da sua vida, se agarra a «isto» para lhe dar algum sentido. Assim, a procura pelo autor de Bar Flaubert é, também, uma busca por si próprio, uma demanda que o leva a Barcelona, Florença e Berlim, antes do regresso à Grécia – Stamatis praticamente «criou» um livro de viagens dentro do romance, quase sem que o leitor dê por isso, pois as cidades visitadas são, na sua essência, elas próprias personagens/protagonistas deste envolvente romance e sem elas nada faria sentido.
Pista a pista, Stamatis seduz-nos, não nos deixa pousar o livro, pois doseia com grande inteligência e precisão os dados que nos quer apresentar, através de uma história que mistura emoção (há tiros, roubos de arte, mortes, perseguições de carros) com erudição (deambulações cativantes sobre pintura, literatura) sem desníveis de estilo ou quebras de ritmo. Além disso, o romance apresenta um leque de personagens ricas e diversificadas, que vão crescendo com o desenrolar do enredo, e é com gosto acrescido que se assiste ao desenvolvimento das suas personalidades face aos acontecimentos surpreendentes que se vão sucedendo.
As obrigatórias revelações surpreendentes que um romance deste género teria de incluir são, também, perfeitamente plausíveis e credíveis, elementos fundamentais para fazer de Bar Flaubert um romance maduro que, ao mesmo tempo, se lê como um thriller, deixando-nos incertos entre saborear cada página ou passar rapidamente à seguinte (quiçá atropelando umas frases e/ou palavras) para se conhecer os desenvolvimentos da narrativa – na dúvida, o melhor é mesmo saborear, até porque, chegados ao fim, fica aquela inevitável sensação de vazio que surge sempre que se acaba de ler um bom livro e do qual se sente imediatamente saudades.
Bar Flaubert tem uma alma que esperaria encontrar, por exemplo, num romance espanhol, mas isso será fruto do meu desconhecimento face à literatura grega, pois se calhar essa «tal» alma será, isso sim, mediterrânica.
Esqueça a Grécia «falida», esqueça a Grécia do futebol e conheça uma outra Grécia, aquela que nos chega por via da literatura e que para já nos traz o Bar Flaubert de Alexis Stamatis – esperemos que se sigam mais bons exemplos.

Autor: Alexis Stamatis
Título original: Bar Flaubert
Editora: Porto Editora
Tradutor: Mário Dias Correia
Ano de Edição: 2012
Páginas: 280
Sinopse: «Yannis Loukas é um jornalista freelancer, filho de um prestigiado escritor, que aceita ajudar o pai a compilar uma autobiografia. Esquadrinhando o arquivo pessoal da família, Yannis descobre um misterioso manuscrito intitulado Bar Flaubert, cuja publicação o pai tinha recusado alguns anos antes. Ao lê-lo, a sensação de que alguém transpôs para o papel os seus sentimentos mais íntimos e secretos leva Yannis a querer encontrar o autor, um homem chamado Loukas Matthaiou. Mas quem é de facto esse homem e por que razão todos os que com ele se cruzaram parecem de alguma forma ter sido marcados pela sua personalidade carismática? Seguindo as pistas que Matthaiou foi deixando ao longo do seu livro, a vida de Yannis irá sofrer uma reviravolta imprevisível, numa demanda que cruza as fronteiras da ficção com a realidade.»

Anúncios

One response to “«Bar Flaubert» – Alexis Stamatis

  1. Pingback: «Estrela do Mar», de Joseph O’Connor, foi a minha perola literária de 2012 | Porta-Livros

Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão / Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão / Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão / Alterar )

Google+ photo

Está a comentar usando a sua conta Google+ Terminar Sessão / Alterar )

Connecting to %s