«A Investigação» – Philippe Claudel

«O Investigador, deixando-se arrastar como uma palha pela forte corrente do rio, abdicou. Renunciou pela primeira vez na sua existência a pensar como indivíduo que possui uma vontade, que domina as suas ações, vivendo num país que garantia a cada cidadão liberdades fundamentais, tão fundamentais que, na maior parte das vezes, todos os cidadãos, incluindo o Investigador, usufruíam delas sem tomar plenamente consciência.(…) Era um pouco como se de algum modo tivesse abandonado uma parte do seu corpo para entrar num outro corpo, vasto e sem limites.»

Philippe Claudel já nos ensinou que é possível escrever bons romances em poucas páginas. É um regra que segue sempre e o quanto isso me agrada. Nunca há ali nada de acessório e superficial, tudo vale a pena, e mais uma vez isso acontece ao longo das 180 páginas de A Investigação, a sua mais recente obra, editada pela Sextante.
É um livro claustrofóbico e labiríntico, quase «kafkiano», sobre o nosso presente, sobre a nossa sociedade, que nos limita e prende, que nos leva a seguir um caminho sem questionar, como um cordeirinho – no próprio livro há uma representação dessa situação das vendas nos olhos, através de uma alegoria da qual consta uma linha pintada no passeio que os transeuntes alienados seguem até embaterem no muro onde conduzia. «…fique sabendo que vi certos indivíduos, perto do muro, que não se atreviam a afastar-se da linha, tentando escalar o muro de cinco metros, sem nenhum apoio e que termina por arame farpado, até esfolarem a pele dos dedos e partir as unhas, e para chegar até onde?»
Como de costume, está tremendamente bem escrito, é imaginativo, moderno e belo, e parte de uma situação real, uma vaga de suicídios na France Telecom, para traçar um retrato impiedoso da nossa sociedade. O Investigador é enviado à Empresa para averiguar o que se passa, mas entra num mundo anónimo e cinzento, sem alma, onde tudo parece funcionar mecanicamente e seguindo regras estritas, e onde cada desvio à norma se torna uma via sem saída. O Investigador afunda-se no anonimato de uma grande Empresa, onde não se sabe quem manda, um pouco como quando telefonamos para uma linha de atendimento e nunca há um responsável à mão. Daí neste romance não haver nomes, as personagens são identificadas pelas suas funções – o Investigador (que chega ao ponto de esquecer o seu próprio nome), o Responsável, o Guarda-Noturno, o Guia, a Psicóloga, os Turistas, os Deslocados, os Arquitetos, e até a Empresa e a Cidade.
O ambiente chuvoso, frio e cinzento ajuda a criar o ambiente deprimente em que mergulhamos acompanhando o Investigador na sua descida aos infernos da burocracia e do anonimato. O que não se compreende não é para interrogar, é para seguir, parece ser o lema daquelas com quem se vai cruzando numa caminho sinuoso que nunca o leva onde pretende e onde uma série de equívocos o desvia do seu rumo, tanto o da sua investigação como o do seu próprio ser. O termo espiral de loucura é aqui perfeitamente adequado em A Investigação.
Claudel traça um retrato sombrio e negro para a humanidade, com todos presos num estado de quase alucinação colectiva, sugados pela Empresa, que roubou a vida e a cor a tudo o que a rodeava. O «eu», a singularidade, desaparecem, dão espaço ao conjunto, ao global, onde todos são iguais, e onde a vida e a alma se extinguem penosamente. Não se chamasse A Investigação e este romance bem poderia repetir o título de um outro livro brilhante de Claudel: Almas Cinzentas.
Excelente!

Autor: Philippe Claudel
Título original: L’Enquête
Editora: Sextante
Tradutora: Isabel St. Aubyn
Ano de Edição: 2012
Sinopse: «“Não é olhando que descobrirás.” Como pôde o Investigador adivinhar? Como pôde saber que esta investigação de rotina seria a última da sua vida?
Encarregado de descobrir as causas de uma onda de suicídios numa grande empresa, o Investigador sucumbe gradualmente à ansiedade. O hotel onde se instala é abrigo não só de turistas, como de gente deslocada e estranha. Na empresa onde investiga, ninguém o apoia e o clima é hostil. Terá caído numa armadilha, será vítima de um pesadelo demasiado real? Não consegue comer, beber ou dormir, e as suas perguntas só dão origem a mais perguntas. À medida que faz algumas descobertas, interroga-se se não se tornará ele na nova presa a ser esmagada por aquela máquina infernal. E começa a compreender a nossa impotência face a um mundo que nós próprios construímos e que conduz à nossa destruição.»

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