«Estrela do Mar» – Joseph O‘Connor

Aviso prévio: Estrela do Mar, do irlandês Joseph O’Connor, é dos melhores livros que li nos últimos anos. Portanto, nas próximas linhas vão ler uma série de elogios a esta obra (um original de 2002) que foi editada em Portugal em 2011 pela Dom Quixote e que, injustamente, tem passado algo despercebida no nosso país. Até a mim passou inicialmente despercebida. E quando digo «até a mim» não estou a armar-me em superior a outros e que por isso deveria ter descoberto o livro mais cedo. Quero apenas dizer que ter em casa um livro com uma ilustração de um barco na capa e não lhe ter pegado logo (nem que fosse para ler as primeiras páginas) não é habitual. É que se tivesse lido as primeiras páginas não o teria largado mais (e foi isso que aconteceu quando lhe peguei há dias), pois trata-se de um romance bem escrito da primeira à última página. E mais, é de toda a justiça destacar que é um romance muito bem traduzido por Francisco Agarez, que adaptou na perfeição ao português particularidades muito próprias da cultura e tradições irlandesas.
A acção decorre em 1847, entre a Irlanda e a América, a bordo do Estrela do Mar, no qual navegamos mas do qual saímos para viajar ao encontro do passado de uma série de personagens/passageiros que fogem de um país afectado pela fome, uma tragédia que ceifou a vida a milhares e milhares de pessoas e que vai continuar a somar vítimas a bordo.
Sentimo-nos como mais um passageiro deste barco que ruma a Nova Iorque carregado de esperança e de dor, envolvidos pela descrição viva e detalhada da vida a bordo com que Joseph O’Connor nos presenteia. E fá-lo não só do modo tradicional, narração na primeira pessoa, mas recorrendo a diversas fontes, como os escritos de um jornalista, o diário do bordo do capitão, canções tradicionais, notas (nomeadamente do médico), cartas, etc. Tudo isto dá uma outra vida e colorido à obra, que beneficia de uma escrita rica e de pormenores requintados que nos cativam como sereias aos mais incautos marinheiros. Ficamos, assim, envolvidos por um romance efectivamente notável que através dos dramas pessoais traça um retrato da grande calamidade que na época afectou a Irlanda.
Mas este não é «apenas» um romance histórico, pois só as histórias pessoais bastariam para alimentar um excelente livro. Crimes, desentendimentos familiares, lutas fratricidas, amores por viver, desencontros, mortes (naturais e não tanto), há de tudo a bordo do Estrela do Mar e das memórias de quem o «habita».
É um romance irremediavelmente envolvente. Por exemplo, a entrada do Estrela do Mar no porto de Nova Iorque envolve-nos num cenário fantástico, excelentemente descrito, que nos leva facilmente a imaginar todo aquele cenário, de frio, fome, desolação, doença, morte, desespero, de tragédia e drama. É um excelente exemplo do que este livro tem para nos oferecer.
Já agora, para quem gosta de saber curiosidades sobre figuras públicas, Joseph O’Connor é irmão da cantora Sinead O’Connor.

Autor: Joseph O’Connor
Título original: Star of The Sea
Editora: Dom Quixote
Tradutor: Francisco Agarez
Ano de Edição: 2011
Sinopse: «No Inverno impiedoso de 1847, de uma Irlanda dilacerada pela injustiça e pela calamidade natural, o Estrela do Mar levanta ferro em direcção a Nova Iorque. Levando a bordo centenas de refugiados à força, destacam-se entre eles uma criada de servir que tem um segredo devastador, um Lorde Merridith arruinado e a sua família, um aspirante a romancista, um compositor de baladas revolucionárias. Todos desafiando corajosamente o Atlântico em busca de um novo lar. Todos mais intimamente ligados do que possam pensar. Mas um assassino secreto vigia as cobertas do navio, procurando, faminto, a vingança que lhe trará a absolvição.»

7 pensamentos sobre “«Estrela do Mar» – Joseph O‘Connor

  1. Francisco Agarez

    Pela parte que me toca, Obrigado, meu caro Rui Azeredo. Quanto ao livro de Joseph O’Connor, não podia estar mais de acordo consigo: é mais uma vítima inocente da enxorrada editorial que arrasta pérolas como esta para o abismo do esquecimento.

  2. ana b.

    Felizmente tive quem mo sugerisse. Se não, provavelmente, ter-me-ia passado ao lado: não me recordo de ver nenhuma referência ao livro, nos sítios habituais.
    E também testemunho a excelência da tradução.

    1. ruiazeredo

      Olá, Armando, seja bem aparecido 🙂
      Não se vai arrepender, por este ponho as mãos no fogo. Nem que não faça o seu estilo, a qualidade é inquestionável.
      Abraço,
      Rui

  3. Pingback: «Estrela do Mar», de Joseph O’Connor, foi a minha perola literária de 2012 | Porta-Livros

  4. José Eiras Antunes

    Antes de mais os meus cumprimentos. Descobri este livro por acaso e estou a lê-lo neste momento. Uma maravilha de narrativa e qualidade literária, com um estilo original e surpreendente.
    José Eiras Antunes

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