«Vermelho da Cor do Sangue» – Pedro Garcia Rosado

Já o disse (ou escrevi) e não me canso de o repetir que fazem falta em Portugal policiais do estilo dos criados por Pedro Garcia Rosado. Contemporâneos, urbanos, despretensiosos, realistas, ou seja, que geram uma identificação e um vínculo com o leitor, que ali vê reflectidas nas páginas a realidade que vê nas páginas dos jornais e, principalmente, nas televisões.
As personagens de Pedro Garcia Rosado são pessoas “reais”, não há ali super-heróis, ou super-detectives, com um poder e perspicácia acima da média. O que ali vemos (lemos) é um retrato realista da nossa sociedade.
Em Vermelho da Cor do Sangue (editado em 2010 pela ASA) a fórmula repete-se (e ainda bem que assim é), pelo que podemos deleitar-nos com um belo policial, cheio de ritmo, ao nível do que se faz “lá fora” dentro do género. Não há aqui as melancolias do ser português que tantas vezes são retratadas nos “nossos livros”. A essas “melancolias” ninguém lhes tira o valor e o interesse, naturalmente, mas é bom ter alternativas que nos permitam tão só ler um policial menos reflexivo e mais pragmático, mais, digamos assim… realista, mais… notícia de jornal ou de telejornal. Não se pense, contudo, que isso implica ser menos profundo ou trabalhado (ou, sequer, pior escrito), nada disso, só é apresentado de uma forma diferente, mais consentânea, em meu entender, com as características atribuídas ao género. E isso não é novidade em Pedro Garcia Rosado, pelo menos para quem (como eu) já leu as obras A Cidade do Medo (que, tal como Vermelho da Cor do Sangue, integra a colecção Não Matarás) e Crimes Solitários.
Em Vermelho Cor de Sangue reencontramos personagens já nossas conhecidas, tanto do lado dos “bons” como dos “maus”, se bem que esta distinção básica de géneros seja muito volúvel. Na sequência de um “simples” roubo de jóias é revelado um segredo há muito guardado (desde 1975 e envolvendo os comunistas portugueses e da União Soviética), o que espoleta uma sequência de eventos que vai afectar uma série de figuras bem colocadas na sociedade portuguesa. Um passaporte retirado desse cofre torna-se o objecto preferido de muita gente, desde as autoridades ao seu antigo dono e a outros implicados, pois veio desenterrar um caso antigo de desvio de verbas que vieram a sustentar negócios que estariam na base de fortunas de alguns “respeitáveis” que, entre os princípios ideológicos e a fortuna material, optaram por esta última.
O enredo está bem tecido e apesar de haver muitas ligações e interligações entre personagens, o leitor nunca se perde, tendo ainda “tempo” para apreciar os problemas comuns do dia a dia de alguns dos protagonistas, tão parecidos com os nossos e bem retratados por Garcia Rosado.
É, assim, um excelente retrato da sociedade portuguesa que, embora passado na actualidade, nos faz também regressar aos animados e agitados anos pós-25 de Abril, um momento histórico aqui bem aproveitado e descrito pelo escritor, destacando que muitas vezes não eram só as motivações políticas que orientavam os comportamentos.

Autor: Pedro Garcia Rosado
Editora: ASA
Ano de edição: 2011
Sinopse: «Quando um mercenário ucraniano conhecido por Gengis Khan assalta a casa do banqueiro Ramiro de Sá, além de um segurança morto e das jóias roubadas, deixa atrás de si um problema inesperado: do cofre do banqueiro foi também levado o passaporte de Valentim Zadenko, um emissário do Partido Comunista da União Soviética que entrou em Lisboa no dia 24 de Novembro de 1975 e aí desapareceu misteriosamente.
Enquanto o inspector Joel Franco, da Polícia Judiciária, investiga o homicídio do vigilante, o passaporte torna-se uma relíquia que muitos querem deitar a mão: não só o próprio Ramiro de Sá, mas também o chefe da máfia russa, um inspector do Serviço de Estrangeiros e Fronteiras, um veterano do PCUS que foi camarada de Zadenko e ainda Svetlana, a filha do operacional desaparecido, que vem para Lisboa à sua procura, alertada por um angolano que estudou em Moscovo e participou no assalto. Na busca do documento, todos os caminhos acabarão, mais tarde ou mais cedo, por ir dar a Ulianov, um ex-KGB especialmente treinado que em Portugal se tornou dirigente de um grupo criminoso. Joel terá de contar com a sua ajuda para desenterrar uma conspiração criminosa que nasceu no PREC e envolveu militares revolucionários, banqueiros, assassinos … e várias garrafas de Barca Velha.»

Um pensamento sobre “«Vermelho da Cor do Sangue» – Pedro Garcia Rosado

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