Pré-publicação de «O Longo Inverno», de Ruta Sepetys, a lançar a 14 de Outubro pela Contraponto

 A 14 de Outubro a Contraponto (uma chancela Bertranda) lança O Longo Inverno, de Ruta Sepetys, uma obra da qual pode ler já aí a seguir, em pré-publicação no Porta-Livros, as primeiras páginas. A tradução é de Susana Sousa e Silva.
O Longo Inverno é o primeiro romance de Ruta Sepetys, uma norte-americana filha de refugiados da Lituânia, nação que, juntamente com a Letónia e a Estónia, desapareceu do mapa em 1941, até reaparecer 1990. Segundo a Contraponto, Ruta “quis dar voz a centenas de milhares de pessoas que perderam a vida durante a limpeza estalinista na região báltica”. Veja o que diz a sinopse: «Em 1941, Lina, de 15 anos, prepara-se para ingressar na escola de artes e para tudo o que aquele verão lhe pode proporcionar. No entanto, uma noite, a polícia secreta soviética invade a sua casa, levando-a juntamente com a sua mãe e o irmão mais novo. São enviados para a Sibéria. O pai de Lina é separado da família e conduzido para um campo de concentração.
Lina decide arriscar tudo e usa a sua arte como forma de enviar mensagens, na esperança de que estas cheguem ao campo prisional onde o seu pai se encontra e lhe transmitam que a sua família ainda está viva.
É uma longa e comovente viagem. Apenas a força, o amor e a esperança fazem com que Lina e a família resistam a cada dia. Mas será o amor suficiente para os manter vivos?
O Longo Inverno é um romance arrebatador, de cortar a respiração e que revela a miraculosa natureza do espírito humano.»

PRÉ-PUBLICAÇÃO

1.

Levaram -me em camisa de noite.
Recordando agora como tudo se passou, percebo que os sinais estavam todos lá: as fotografias de família queimadas na chaminé, a minha mãe cosendo as nossas pratas e joias mais valiosas ao forro do casaco até altas horas, todas as vezes em que o meu pai não voltou para casa logo após o trabalho. Jonas, o meu irmão mais novo, fazia perguntas.
Eu também, mas talvez me tenha recusado a ler os indícios.
Só mais tarde entendi que os meus pais planeavam a nossa fuga. Não fugimos.
Fomos capturados.
14 de Junho de 1941. Vestira a camisa de noite e sentara -me à secretária para escrever uma carta à minha prima Joana. Abri um novo caderno cor de marfim e uma caixa de lápis e canetas que me fora oferecida pela minha tia quando eu fizera quinze anos.
A brisa noturna entrava pela janela aberta e pairava sobre a minha secretária, fazendo ondular o cortinado. Senti o perfume dos lírios -do-vale que a minha mãe e eu plantáramos dois anos antes.
«Querida Joana.»
Ninguém bateu. Um estrondear insistente fez -me dar um salto na cadeira. O som de punhos golpeando violentamente a nossa porta. Dentro de casa, ninguém se mexeu. Levantei -me da secretária e espreitei para o corredor. A minha mãe estava parada diante do mapa da Lituânia pendurado na parede numa moldura. Tinha os olhos fechados, o rosto parecia tenso e deixava transparecer uma ansiedade que eu nunca vira. Rezava.
– Mãe – disse Jonas, espreitando pela porta ligeiramente entreaberta do seu quarto – Não vais abrir a porta? Parece que querem arrombá -la.
A minha mãe virou a cabeça e olhou para Jonas e para mim, que estávamos à porta dos nossos quartos. Tentou sorrir.
– Sim, meu querido, vou abrir. Não deixarei que ninguém arrombe a porta da nossa casa.
Os saltos dos seus sapatos ressoaram no soalho de madeira do corredor e a saia fina e comprida esvoaçou à altura dos tornozelos. A minha mãe era uma mulher elegante e bonita, deslumbrante, na verdade. O seu sorriso era inusitadamente largo e iluminava tudo ao seu redor. Tive a sorte de herdar os seus cabelos cor de mel e os brilhantes olhos azuis. Jonas ficou com o seu sorriso.
Um clamor de vozes fez estremecer o vestíbulo.
– O NKVD! – sussurrou Jonas, empalidecendo. – Tadas contou-me que os vizinhos dele foram levados num camião. Estão a prender pessoas.
– Não. Aqui, não – repliquei.
A polícia secreta soviética não tinha motivo para vir a nossa casa.
Fui até ao fundo do corredor e parei na esquina para espreitar e ouvir o que diziam. Jonas tinha razão. Três oficiais do NKVD cercavam a minha mãe. Usavam bonés azuis com um rebordo vermelho e uma estrela dourada sobre a pala. Um oficial alto tinha os nossos passaportes na mão.
– Precisamos de mais tempo. Estaremos prontos de manhã – disse a minha mãe.
– Vinte minutos, ou não viverão o suficiente para ver o amanhecer – retrucou o oficial.
– Mais baixo, por favor. Tenho crianças em casa – murmurou a minha mãe.
– Vinte minutos – rugiu o oficial.
Deixou cair o cigarro incandescente no soalho asseado da nossa sala e calcou -o com a bota.
Estávamos prestes a transformar -nos em cigarros.

2.

Vinham prender-nos? Onde estaria o papá? Corri para o meu quarto. No parapeito da janela, estava um pão acabado de cozer, e por baixo do rebordo, um gordo maço de rublos. A minha mãe assomou à porta, logo seguida por Jonas.
– Mas para onde vamos, mãe? Que fizemos? – perguntava ele.
– É um mal -entendido. Ouviste, Lina? Temos de agir depressa e colocar numa mala tudo o que nos seja útil e não aquilo de que mais gostamos. Entendes? Lina! Roupa e sapatos são a nossa prioridade. Tenta enfiar tudo o que puderes numa mala.
Olhou para a janela. Com um gesto rápido, pôs o pão e o dinheiro sobre a secretária e correu as cortinas com um movimento brusco.
– Promete -me que não farás caso se alguém te oferecer ajuda. Havemos de resolver isto sozinhos. Não podemos envolver nem familiares, nem amigos nesta confusão, entendes? Mesmo que alguém chame por ti, não respondas.
– Vêm prender -nos? – começou Jonas.
– Promete!
– Prometo – anuiu Jonas em voz baixa. – Mas onde está o papá?
A minha mãe parou e pestanejou rapidamente.
– Virá ter connosco. Temos vinte minutos. Juntem as vossas coisas. Já!
O meu quarto começou a rodopiar. A voz da minha mãe ressoou na minha cabeça.
– Já! Já!
Que estaria a acontecer? Os ruídos que o meu irmão de dez anos fazia enquanto corria de um lado para o outro no seu quarto trouxeram-me de volta à realidade. Tirei a mala do armário e abri -a sobre a cama.
Precisamente um ano antes, os soviéticos haviam iniciado movimentos de tropas junto à fronteira e haviam entrado no país. Em agosto, a Lituânia fora oficialmente anexada à União Soviética. Um dia, quando me queixei do facto, à hora do jantar, o papá zangou -se comigo e disse -me que nunca devia proferir comentários injuriosos contra os soviéticos. Mandou -me para o quarto de castigo. Desde então, não voltei a manifestar -me em voz alta. Mas pensava muito sobre o assunto.
– Sapatos, Jonas, meias de reserva, um casaco! – ouvi a minha mãe gritar ao fundo do corredor.
Agarrei na fotografia de família que estava pousada na prateleira e pu-la no fundo da mala vazia com a moldura dourada virada para cima. Os rostos olharam -me, felizes, sem suspeitar de nada. Fora tirada na Páscoa, dois anos antes. A avó ainda vivia. Se era certo que íamos ser presos, queria levá-la comigo. Mas não era verdade, não podíamos ser presos. Não fizéramos nada de mal.
Por toda a casa ecoavam estrondos e pancadas.
– Lina – chamou a minha mãe entrando no meu quarto em passo apressado com os braços carregados de coisas. – Despacha-te!
Escancarou a porta do meu armário, abriu as gavetas e começou a atirar coisas para dentro da minha mala com gestos frenéticos.
– Mãe, não encontro o meu caderno de desenhos. Onde está? – perguntei, em pânico.
– Não sei. Compraremos um novo. Arruma a tua roupa. Depressa!
Jonas entrou no meu quarto a correr. Estava vestido como se fosse para a escola, com o uniforme e uma gravata pequena, e trazia a pasta e os livros numa mão. Os seus cabelos loiros estavam primorosamente penteados para o lado.
– Estou pronto, mãe – disse numa voz trémula.
– N -não – gaguejou a minha mãe ao vê-lo com o uniforme da escola.
Respirou fundo e baixou a voz.
– Não, meu amor, a tua mala. Vem comigo.
Agarrou-o pelo braço e correu até ao quarto dele.
– Lina, arruma sapatos e meias na mala. Depressa!
Atirou-me a minha gabardina de verão. Vesti-a, calcei as sandálias e agarrei em dois livros, fitas para o cabelo e na escova. Onde estaria o meu caderno de desenhos? Tirei a ardósia, a caixa com os lápis e as canetas e o maço de rublos de dentro da secretária e guardei-os no meio da roupa que havíamos metido na mala. Fechei-a e saí a correr, deixando as cortinas a esvoaçar em movimentos ondulantes sobre o pão fresco, que continuava pousado sobre a minha secretária.

Vi o meu reflexo na porta envidraçada da padaria e detive -me um instante. Tinha um salpico de tinta verde no queixo. Limpei -o e só depois abri a porta. Uma campainha retiniu por cima da minha cabeça. O interior da loja estava quente e cheirava a fermento.
– Lina, que bom ver -te – a mulher aproximou -se do balcão em passo rápido, pronta para me atender. – Em que posso ajudar -te?
Eu conhecia-a?
– Peço desculpa, mas não…
– O meu marido é professor na universidade. Trabalha com o teu pai – explicou. – Já te tenho visto na cidade com os teus pais.
Assenti com um aceno de cabeça.
– A minha mãe pediu-me que viesse buscar um pão – disse eu.
– Com certeza – replicou a mulher, movendo -se de forma expedita atrás do balcão.
Embrulhou um pão anafado em papel pardo e entregou -mo. Quando lhe estendi o dinheiro para pagar, recusou -o com um aceno de cabeça.
– Por favor – disse num sussurro. – Jamais poderemos pagar a dívida que temos para convosco.
– Não compreendo – empurrei as moedas na sua direção.
Ela ignorou -me.
A campainha soou. Alguém entrou na loja.
– Dá cumprimentos meus aos teus pais – disse a mulher, afastando-se para ir atender outro cliente.
Nessa noite, mencionei o episódio do pão ao papá.
– Foi muito amável da parte dela, mas não era necessário – disse ele.
– Mas que fez o papá? – perguntei.
– Nada, Lina. Já acabaste os trabalhos de casa?
– Deve ter feito alguma coisa para merecer um pão de graça – insisti.
– Eu não mereço nada. Devemos defender o que é correto, Lina, sem esperar que nos agradeçam ou nos recompensem por isso. E agora vai acabar os trabalhos de casa.