«A Ilha de Sukkwan» – David Vann

A Ilha de Sukkwan, do norte-americano David Vann, é um verdadeiro soco no estômago, ou antes, um duplo soco no estômago. Primeiro, é um livro notável, extremamente bem escrito e estruturado. Tinha lido críticas fantásticas generalizadas a este romance editado entre nós pela Ahab e comecei a ficar preocupado: por norma, quando surge esta unanimidade, acabo por sair decepcionado face às grandes expectativas que entretanto gero. Mas desta vez não, A Ilha de Sukkwan é efectivamente fabuloso e só não me alongo a fazer mais elogios pois poderia parecer bajulação (não sei a quem, na verdade) e também não quero criar expectativas em excesso. Eu, admirador confesso de livros pequenos (cento e poucas páginas), desta vez queria mais. Não sei bem o quê, é certo, pois tudo está no sítio e na dimensão certa neste romance, nada mais haveria a dizer, mas apetecia-me ler mais sobre esta história de um pai e de um filho para a qual o autor se inspirou na sua própria vida e no suicídio do seu pai. Quando tinha 13 anos, o pai de David Vann pediu-lhe que passasse um ano com ele no Alasca, onde tinham vivido antes do divórcio dos pais. David recusou e passado duas semanas o pai suicidou-se, levando-o a carregar um pesado sentimento de culpa. Decorridos mais de trinta anos resolveu passar para o papel uma história com traços comuns com esta. Em A Ilha de Sukkwan um pai convida um filho para passar um ano com ele no Alasca e este aceita. Será uma forma do autor tentar reescrever uma história real que acabou mal? Não me parece, pois esta não terá um final mais feliz. E entra aqui o Segundo (Lembram-se? Havia já lá bem atrás um Primeiro.) Isolados no meio da natureza inóspita (gelada) vivem num ambiente sufocante e tenso, adensado pela difícil relação entre os dois, agravada pelo estado espírito do pai, bastante desequilibrado e deprimente. E bem sabemos o efeito que isso pode ter num adolescente, que ainda por cima está isolado do mundo sem perspectivas de contacto para tão cedo. Este é pois o segundo soco no estômago: os ambientes, a tensão, o isolamento (o Alasca) dentro do isolamento (pai e filho cada um no seu canto). É uma obra muito dura (extremamente dura) e a meio, quando já nos víamos envolvidos num ambiente sufocante, há uma reviravolta surpreendente, que nos derruba. É verdade, ao lermos este livro, parece que levamos uma sova, mas vale a pena. Sim, não se deixe enganar pelo início algo idílico de pai e filho em comunhão com a natureza. Quando a coisa aperta, o lado negro vem ao de cima, a condição humana revela-se, não digo no seu pior, mas de uma forma chamemos-lhe… estranha. A segunda parte do livro revela-nos como se pode comportar um ser humano quando levado a extremos e o resultado é bastante preocupante, pois tem a particularidade de ser bem plausível.
Quando um livro é muito bem escrito (como este) tudo nos parece possível e credível, mesmo situações que à partida tomaríamos por inimagináveis e inconcebíveis numa relação pai-filho.

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