Entrevista a Pablo de Santis – Autor de «O Calígrafo de Voltaire»

Pablo de Santis apresentou em 2005 em Portugal O Calígrafo de Voltaire (Temas & Debates), um romance que mistura história e ficção e nos leva à perturbante época em que religiosos fervorosos tentaram acabar com o Iluminismo.

Fez muitos estudos históricos para poder escrever O Calígrafo de Voltaire?
A maior parte é imaginação, se bem que conheço um pouco da época devido a leituras prévias. A verdade é que li mais sobre a Revolução Francesa do que sobre Voltaire. É um período incrível porque os principais direitos e organizações das sociedades modernas provêm de uma época e de um grupo de homens quase psicóticos, assassinos impiedosos. Parece-me incrível que os nossos direitos venham do que ocorreu em França no final do século XVIII.

Tanto O Calígrafo de Voltaire como A Tradução, anteriormente editado em Portugal (ASA), têm como pano de fundo a escrita. Isso acontece por acaso ou tem mesmo uma preferência por esse tema?
É uma presença forte, a da escrita, em outros livros meus. Também acontece num romance policial que se chama Filosofia e Letras, que decorre num prédio abandonado na Faculdade de Filosofia e Letras de Buenos Aires, onde críticos literários procuram a obra de um escritor misteriosamente desaparecido. É um tema um pouco recorrente.
Mas tenho outros romances com outros temas. Tenho um romance com neurologistas e um novo sobre arquitectura.

São mundos bastante específicos que devem requerer muito estudo antes da elaboração do romance.
Só em algumas coisas. São sempre romances de fantasia, não são realistas. De forma geral, há uma grande distância com uma visão realista do mundo.

Mas em O Calígrafo de Voltaire pegou numa personagem histórica conhecida e criou uma história à volta dela. Porque escolheu Voltaire?
Primeiro, devido à distância temporal e também à grande distância entre a Argentina e esse mundo. E Voltaire é uma personalidade à volta da qual havia muitas lendas. E gostava da imagem desta personagem que exercia a sua influência à distância. Ele estava em casa, na fronteira de França com a Suíça, sempre preparado para escapar em caso de perigo. Mas, se calhar, o mais pessoal é o tema da caligrafia, que me interessava. O personagem calígrafo, que produzia tintas invisíveis venenosas.
Quando estudava caligrafia, há mais de 30 anos, já era uma matéria algo esquecida, anacrónica, sem sentido…

Na altura já gostava de caligrafia?
Não. Tenho uma péssima letra, incompreensível. Mas atraiu-me sempre o mundo das penas, das tintas. Ganhei muita experiência numa revista de banda desenhada e estive em contacto com muitos desenhadores. E nessa altura faziam-se as letras à mão.

Não se incomoda por inventar factos à volta de factores verdadeiros?
Não, porque não é um romance histórico. É evidente que se aproveita de feitos reais. Acho que nas primeiras páginas de um livro estão sempre as regras do jogo, o que vai ser a narração. Acho que é evidente desde o começo que se trata de fantasia.

É um amante de literatura fantástica e de ficção científica (FC). Nunca se sentiu tentado a escrever nesse registo?
Há alguns elementos de FC nos romances. A FC na Argentina está muito ligada à literatura fantástica. É uma espécie de zona nebulosa, não é como na literatura anglo-saxónica onde é um género à parte. É uma FC mais de sábios loucos encerrados numa casa, do que de fatos espaciais.

Ficou satisfeito com este romance?
Sim, não faria mudanças. Os meus livros têm algo em comum que é o enredo muito organizado e uma presença do género policial na forma de organizar o argumento.

Quando começa a escrever um livro já o tem todo estruturado, já sabe por onde o leva?
Faço um esquema bastante completo antes de começar, com os principais acontecimentos da acção. Para mim ao escrever há três películas: a história, a lógica (que tenha sentido, que se faça autónoma e não haja contradições) e a escrita em si, o cuidado com as palavras. Para mim, a escrita sobrepõe-se entre estes estados.

Durante o processo de escrita não lhe ocorre que poderia seguir por outro que caminho que não o que já havia traçado?
Pensa-se sempre se não se deveria fazer outra coisa. Em geral temos sempre uma visão do romance que não se cumpre.

Foi jornalista numa revista pouco credível.
Sim, era uma revista dedicada aos escândalos e ao oculto. Mas serviu-me, principalmente, para ganhar velocidade na escrita. E o jornalismo tem sempre algo de excitante, porque todos os dias se conhece gente nova.

O livro

O coração nas mãos…

Pablo de Santis apresenta um romance de cariz histórico que mistura com habilidade factos reais e fantasia. O autor argentino pegou num tema e numa personalidade europeias (o Iluminismo e Voltaire) e elaborou um romance com o seu quê de policial, assim como recheado de momentos macabros. Logo de início, aliás – a história começa com a chegada de um foragido a um porto argentino. No meio da bagagem carrega um frasco de vidro com o coração de Voltaire.
Começa o protagonista (o calígrafo Dalessius que trabalhou para Voltaire) a recordar como chegou àquele porto. Os trabalhos, além dos da escrita, que executou para o patrão, em defesa do Iluminismo.
Voltaire, comandando à distância, mandou-o investigar o plano de um grupo de fanáticos religiosos que pretendiam “apagar a Luz” em prol da recuperação de fiéis para a Igreja. Na execução da sua missão, Dalessius constata o poder da escrita, tanto através do que fica no papel, como dos métodos utilizados para tal, desde tinta invisíveis a venenosas. Santis leva-nos por um mundo obscuro, através da sua escrita precisa mas imaginativa. Num mundo de loucos, Santis desenvolveu um romance pleno de mistério e obscurantismo.

(Entrevista realizada em 2005)

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