«Amanhecer com Monstro Marinho» – Neil Jordan

Neil Jordan é principalmente conhecido pela sua carreira de cineasta – filmes como Jogo de Lágrimas, Entrevista com o Vampiro ou A Companhia dos Lobos, servem para atestar a sua qualidade e popularidade –, mas antes ainda de se dedicar à realização o irlandês já dera os primeiros passo na escrita. Assim, paralelamente construiu uma notável carreira literária, que pode ser seguida em português com Sombra e agora este Amanhecer com Monstro Marinho, ambos editados pela Cavalo de Ferro.
Amanhecer com Monstro Marinho conta-nos a tormentosa relação entre pai e filho, abalada por uma grande rivalidade que vai repercutir-se, até, a nível político com consequências gravosas para ambas as partes.
O protagonista deste romance é Donal Gore que, depois de perder a mãe, e ainda em jovem, apaixona-se perdidamente por Rose, a sua professor de piano, com quem sonha manter uma relação. Todavia, a sua vida sofre uma convulsão ao saber que o seu pai e Rose pretendem casar. Donal, profundamente desiludido, sai de casa e vai combater pelos republicanos na Guerra Civil espanhola, uma forma de penalizar o pai, um politico conservador irlandês. Acompanhamos então a vida de Donal em cenário de combate, até este ser capturado e estar prestes a ser fuzilado. Enquanto aguarda pela morte, recorda o seu passado com o pai, nos tempos da inocência, e Neil Jordan mostra-nos um mundo pequeno e belo que parece escapar incólume à agitação que o rodeia, mesmo nos tempos de maior instabilidade. São os tempo em que Donal e o pai pescavam, o seu dia-a-dia, primorosamente retratados pelo autor, com uma escrita bela e fluida, que gera cenários e momentos envolventes, que agarram o leitor sem parcimónia. Donal agarra-se a essas memórias para sobreviver e para surpresa sua é-lhe dada a oportunidade de sobreviver, pois um oficial alemão permite-lhe o regresso à Irlanda a troco de se tornar seu informador. Começa aqui um enredo de espionagem que serve de pretexto para lermos as dúvidas interiores de Donal, tanto quanto às suas novas funções (que implicam traição) como no que respeita ao relacionamento com o pai (também ele alvo de traição por parte do filho, politicamente e afectivamente). O regresso a casa espoleta o reatar da relação com o pai (agora, um “vegetal” acamado) e simultaneamente com Rose. O que poderia parecer a essência de uma novela mexicana (ou portuguesa) – mulher trai marido com o filho deste, ou filho trai pai com mulher deste – é afinal o pretexto para um belíssimo livro, poético, que abarca a tal relação a três com subtileza e equilíbrio, ou seja, com arte.

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