Entrevista a Alberto S. Santos – Autor de «A Profecia de Istambul» (Porto Editora)

Alberto S. Santos tinha um desafio enorme pela sua frente. Depois do grande sucesso do seu romance de estreia, A Escrava de Córdova, insistiu no romance histórico e apresentou A Profecia de Istambul (ler aqui a crítica). A aposta está ganha e em entrevista ao Porta-Livros falou do seu livro, o que o inspirou a escrevê-lo e, entre outras coisas, como lida com as suas duas carreiras paralelas, a de escritor e a de autarca, pois é desde há dez anos presidente da Câmara de Penafiel.

Como lhe surgiu a ideia para este romance?
Surgiu da forma mais imprevisível. Fui ao Luxemburgo. De cada vez que vou a uma cidade é sagrado visitar as livrarias. Na cidade do Luxemburgo de repente dei com uma investigação de um historiador francês sobre a vida de cidadãos do século XVI que viveram o Mediterrâneo e todas as peripécias do Mediterrâneo, sobretudo os processos psicológicos a que muitos foram sujeitos nas suas vivências, nomeadamente no que toca a cativos e renegados. Achei que era uma temática muito interessante que ainda não tinha visto tratada em Portugal com muita intensidade. Achei fascinante e que podia dar uma boa história e a partir daí motivei-me a investigar mais sobre o tema até construir um conjunto de personagens, umas fictícias outras reais, e seguir por aí adiante.

O romance dá exemplo de harmonia entre povos e religiões como acontece em Argel – é uma espécie de recado ou desejo para a actualidade?
No fundo é o meu subconsciente a alargar-se através daquilo que vou escrevendo. O meu primeiro romance (A Escrava de Córdova) também toca essa temática do ecumenismo das religiões, da tolerância inter-religiosa e sobretudo procurava evidenciar que ao longo dos séculos, as religiões, que deviam ser as primeiras propagadoras do entendimento entre os povos, normalmente são o contrário. Têm sido, em muitos momentos, instigadoras da desavença entre os povos. Acho que ao final deste tempo todo o mundo e a humanidade deviam parar um pouco para pensar. Aliás, vejo agora na televisão estas manifestações que estão a ocorrer nos países islâmicos e muitas vezes penso nisso: que talvez seja o momento de a humanidade pensar e reposicionar a sua história para o futuro, procurando retirar das religiões não as questões no sentido perverso que a história no passado nos indica, mas valores mais consentâneos com aquilo que elas próprias defendem: entendimentos, tolerância e sobretudo respeito pela condição humana.

Um romance histórico requer muito estudo – que tipo de investigação levou a cabo?
Para este livro em concreto o grosso do trabalho foi feito pela minha investigação, parte dela em documentos da época, nomeadamente processos da inquisição sobre pessoas que renegaram a fé e estiveram no Norte de África e depois foram apanhados outra vez por aqui, relatos de pessoas que viveram nessa época e escreveram na primeira pessoa no século XVI e XVII e livros de história e histórias biográficas. Tive apenas uma conversa com um professor de história de uma universidade que mais do que tudo me indicou bibliografia.

Na minha opinião, por vezes o romance tem informação histórica em excesso prejudicando com detalhes o desenvolvimento do enredo. Não pensa que poderia ter sido mais moderado?
Uma das vantagens que pode ter o romance histórico é permitir ao leitor que, além de se poder vincular e estar perto de tudo o que é a vida das personagens, consiga entrar dentro de uma época. É a parte mais difícil, claramente, para um narrador, pois implica o domínio de muitas coisas, nomeadamente da mentalidade da época. Mas quando estou a escrever aceito o risco de parar mais tempo na descrição de pequenos pormenores que podem não ter muito interesse para a economia da história e para a parte romanesca da narrativa mas ajudam a contextualizar melhor quer as personagens quer os próprios leitores no espaço em que decorre. Isso pode ter um preço, o da dinâmica da narrativa, mas eu procuro esse equilíbrio.

Cria alguma espécie de laço afectivo com as personagens? Elas conseguem surpreendê-lo?
Laços de afecto e desafecto, quer com elas quer com aquelas que vou estudando o seu percurso de vida. Há aqui uma personagem que procurei seguir com o máximo rigor neste livro, que é o Fernando Del Pozo. É uma personagem real e o seu percurso de vida coincide praticamente com aquilo que aqui é narrado. Começou por ser uma personagem principal, a minha primeira ambição foi contar a sua história, mas depois quando a história chegou a Argel percebi que aquilo que as próprias personagens estavam a viver me impelia enquanto narrador para contar uma outra história. Então o Del Pozo passou para personagem secundária e elas mudaram radicalmente a história.

Quando termina a escrita de um romance fica aliviado ou sente pena de deixar aquelas pessoas e aquela história?
É um misto desses dois sentimentos. Aliás, eu neste livro senti, quando estava a chegar ao fim, que tinha tema para contar mais outro tanto daquilo que tinha escrito seguindo a vida das próprias personagens por outras aventuras que achava que podia contar. Aliás, o livro termina de alguma forma rapidamente. O desenlace da história até termina com muita rapidez. Entendi que o livro devia ter aquela dimensão, devia ser contado daquela forma. Fiquei, por um lado, satisfeito por contar uma história com coerência, mas, por outro, com pena de ver que tinha ainda tantas coisas para contar.

Admite pegar em algumas dessas personagens ou dessas coisas que ficaram por contar para escrever um novo romance?
Sim. Aconteceu-me mais no primeiro livro, que termina de uma forma onde essa necessidade é muito mais evidente. Neste eu tentei fechar mais o círculo. Mas essa tentação existe. Até hoje ainda não senti necessidade de contar o seguimento dessas duas histórias. Por um lado, gostaria de o fazer, mas, por outro, acho que posso correr o risco de matar a magia das pessoas das histórias.

Notou em si uma diferença do primeiro para o segundo livro, no processo de escrita?
Sim, o segundo livro foi escrito de uma forma mais fluida, mais linear e talvez mais equilibrada entre o conjunto dos capítulos e o suceder das acções. Foi menos doloroso.

Já tem algo mais manga? Vai continuar no romance histórico?
Neste momento já estou a esboçar uma outra história que não sei se será romance histórico, não sei como se poderá classificar. É uma história que vai decorrer em meados do século passado. Tem um pouco que ver com o lendário do mundo rural do norte do país.

Ficou surpreendido com o sucesso que teve com o romance de estreia?
Claramente surpreendido. Quando escrevi aquela história não foi inicialmente com a ambição de poder ser publicada, pelo menos com a força que foi. Mas nunca imaginaria que conseguisse uma editora que se interessasse com aquele entusiasmo e muito menos que ela pudesse chegar tão longe quanto chegou.

Surpreendeu-se consigo próprio?
Fiquei surpreendido com os dois livros. O segundo foi uma responsabilidade maior. Senti que os leitores iam fazer um julgamento e nessa matéria claramente que tinha essa noção. Mas quando digo que me surpreendi a mim próprio em ambos… se hoje imaginasse essa empreitada de escrever um e outro ia sofrer por antecipação porque acharia que não seria possível escrevê-lo.

É inevitável associar a sua carreira de autarca à de escritor. Há ligações entre acontecimentos do seu dia-a-dia enquanto autarca a situações, devidamente comparadas, de outras épocas? Tira ensinamentos?
É verdade, não só como autarca mas também como pessoa. O facto de estudar o passado ajuda-me a compreende melhor o presente e a estar melhor situado no tempo em que vivo. Essa é uma das vantagens, a vantagem de estudar e investigar o nosso passado comum ajuda-me a essa melhor compreensão e também me permite que através das histórias que conto os leitores possam fazer também eles esse percurso e essa análise. Podia também dizer que nas minha investigação encontro muitas vezes personagens que me ajudam a compreender muitas pessoas que conheço hoje no presente. Lembro-me que quando estudava algumas cortes, nos palácios, mesmo nos islâmicos, nomeadamente em Córdova, para a escrita do primeiro livro, havia as figuras dos bajuladores oficiais. Muitas vezes vejo pessoas que me fazem lembrá-los.

Pensa que para o seu sucesso poderá ter contribuído o facto de ser presidente de uma câmara?
Acho que não. A minha ideia é que um leitor padrão olha para um presidente de câmara e não está a vê-lo a escrever livros. Essa circunstância até podia ser mais inibidora. Com uma excepção, na zona onde resido reconheço, ao contrário do que eu imaginaria, que senti um carinho muito grande por parte das pessoas em descobrirem o que é que eu tinha escrito. Talvez de início por curiosidade e a seguir isso gerou alguma surpresa que se transformou numa pequena onda local e regional de passa palavra positivo. Até porque que a primeira história tinha alguma vinculação a zona onde resido, a parte cristã da história iniciou e terminou lá e isso ajudou muitas pessoas que ali vivem a compreender melhor parte do seu passado.

Como é que conjuga as suas duas carreiras?
Não vou negar que muita gente vem tratar de assuntos e no fim aparece com um livro para ser autografado ou para uma dedicatória e fala das impressões que foi tendo. Isso obriga-me também a fazer alguma gestão daquilo que é o meu tempo dedicado à minha profissão para que depois me permita libertar algum espaço sem comprometer o meu vínculo com a função que tenho para dedicar à promoção do livro e a escrita.

A sua ambição passa por se dedicar em exclusivo à escrita?
Neste momento dou-me bem com esta situação, mas não vou negar que gostaria de poder dedicar-me à escrita, mas também ter tempo para fazer outras coisas: participar em movimentos de cidadania, associativos, predispor-me para estar presente na sociedade e na comunidade, mas sem estes vínculos que a causa pública implica. O caminho pode ser calmamente seguido nesse sentido. Depende daquilo que eu possa fazer a seguir a este mandato – não posso fazer mais nenhum, a lei não permite – e também da reacção de acolhimento por parte dos leitores.

Esta vocação para a escrita já vem de há muitos anos ou é recente?
Se me perguntar a minha vocação para escrever… sim. Fui advogado até há dez anos e nessa função há dois momentos importantes, o momento em que se escreve e põe no papel o posicionamento da estratégia, uma petição, um requerimento, uma acção judicial, e depois há o momento do confronto verbal, da oralidade, nos tribunais. Eu sempre canalizei muito mais energia para a parte da escrita, era aquela de que eu gostava mais, jogar tudo o que sabia na parte da escrita. Sempre fui desenvolvendo o recurso da escrita nas peças que utilizava nos tribunais, mas é óbvio que a técnica de escrita de advogado não tem nada que ver com técnica do romance, e essa fui descobrindo naturalmente, com as minhas experiências pessoais.

Quais são as suas preferências literárias?
As minhas referências literárias são mais da literatura escrita em português. Quem mais me marcou foram os autores portugueses: Eça de Queirós, Camilo Castelo Branco e o brasileiro Machado de Assis. São mestres as contar histórias pela forma simples e rica como escrevem. Leio-os para me inspirar na forma como descrevem ambientes e contam histórias. Quanto aos contemporâneos, acho que um dos romances históricos mais bem conseguidos dos últimos tempos é o Equador, do Miguel Sousa Tavares.

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4 thoughts on “Entrevista a Alberto S. Santos – Autor de «A Profecia de Istambul» (Porto Editora)

  1. Carlos Machado diz:

    É sempre gratificante para quem anda metido nestas coisas das escritas ver alguém que alcança sucesso pela sua qualidade e não por ser figura mediática (embora, localmente o possa ser).
    Os meus parabéns ao Alberto S. Santos e ao Porta-Livros na divulgação de autores portugueses menos conhecidos

  2. Rui Lopes Silva diz:

    Fiquei agradavelmente surpreendido por saber que este antigo colega das lides forenses se dedicava, para além da vida autárquica, à literatura, em especial num género literário que aprecio bastante. Nesse domínio recomendo, para os apreciadores de romance histórico, outro jovem autor: César Magarreiro. Mas devo reconhecer que fiquei bastante curioso por vir a conhecer o trabalho literário desenvolvido por este conterrâneo. As minhas felicitações.

  3. Luís Carvalho diz:

    A escrava de Córdova levou-me para uma realidade de há 1000 anos que desconhecia. A profecia de Istambul introduziu-me no mundo de há 500 anos. Obrigado ao autor por ter conseguido proporcionar-nos estes belos e enriquecedores passeios onde a história se cruza com a ficção e o que fica são mensagens plenas de humanidade.

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