“Diário a Rum” – Hunter S. Thompson

Diário a Rum, de Hunter S. Thompson (criador do jornalismo gonzo, que acaba com a distinção entre autor e sujeito, ficção e não-ficção), é um divertido e mordaz romance sobre a Porto Rico dos anos 50, regado, como o título indica, a rum, assim como a sexo e calor, isto tudo num ambiente de festa constante e grande irresponsabilidade.
O protagonista deste romance de estreia de Hunter S. Thompson (1937-2005) é Paul Kemp, alter ego do autor, um jovem jornalista nova-iorquino que parte para a ilha de Porto Rico, para San Juan, à procura de um novo rumo. Arranja trabalho num jornal local, onde encontra uma série de colegas jovens idealistas, mas já todos uns fracassados – como ele próprio!
O idealismo é imediatamente posto de parte mal surge um copo de rum à frente, e eles estão sempre a surgir, dado o calor. Assim, a actividade principal naquela ilha é apanhar bebedeiras e provocar problemas com os locais. Nota-se um grande contraste entre uns e outros, um pouco como colonizadores e colonos reticentes. Mas se uns locais são a favor da integração nos EUA, outros são absolutamente contra, o que cria um ambiente de constante tensão.
Hunter S. Thompson, o autor do livro que deu origem ao filme Delírio em Las Vegas, traça um belo retrato de Porto Rico e seus ambientes, vivo, colorido, envolvente e credível, por vezes quase em tom de reportagem.
Porto Rico, para estes jornalistas, é uma profusão de festas, bailes, álcool, ócio. Paul Kemp, quando lá chega, pretende marcar a diferença, mas deixa-se arrastar por aquele ambiente algo decadente, esmorecendo o seu entusiasmo sob o sol inclemente de Porto Rico.
Diário a Rum é um belo retrato de época, escrito de forma clara, precisa, simples e objectiva, com pormenor, mas sem ser exaustivo – parece uma peça jornalística, mas não excessivamente factual, já que não lhe falta emoção e sentimento, e, acima de tudo, reflexão. Um belo retrato sociológico, em suma.
Através da personagem principal, acompanhamos o evoluir da relação dos chegados de fora com aquela ilha, que parece envolver e submergir os forasteiros com o seu ambiente peculiar, tornando-os pessoas amorfas que facilmente desistem dos seus sonhos e ideais. Hunter S. Thompson é implacável na forma como aborda esta cedência das personagens face às facilidades que a ilha oferece, não poupando ninguém, pois são poucos os que escapam a serem retratados de um modo pouco elogioso.
A sequência dos loucos festejos em St. Thomas, onde Paul e um casal amigo participam e decorre a um ritmo alucinante, é talvez a mais exemplificativa do ambiente em que decorre Diário a Rum. Bares, festas improvisadas, cortejos, álcool, bebedeiras descomunais, dormidas na praia, formam o caminho percorrido até ao caos inevitável, sempre dentro de uma grande bolha de irresponsabilidade e desresponsabilização.
Assim era a vida de um americano em Porto Rico, e Hunter S. Thompson descreve-o na perfeição… fruto da própria experiência.

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4 responses to ““Diário a Rum” – Hunter S. Thompson

  1. bilesses candengue

    Já o li há vários anos. É divertido.
    Um ritmo muito interessante.
    Não percebo porque aparece como novidade.

  2. Pingback: «Diário a Rum» já tem trailer | Porta-Livros

  3. Uma nota curiosa para quem não sabe:

    Este livro esteve cerca de 30 anos na gaveta antes de ser descoberto pelo Johnny Depp, quando este vivia na casa do HST, na preparação para o filme “Delírio em Las Vegas”. Foi o Johnny Depp que convenceu o Bom Doutor a publicar o livro.

    Já li o livro umas treze vezes (gostava de estar a exagerar, a sério que gostava) e é muito diferente daquilo que as pessoas conhecem do Thompson. É, no entanto, um livro muito bom, com uma imagética extremamente tropical e festiva.

    Em relação ao filme, não gostei do que vi no trailer e já acompanho a produção do filme há mais de oito anos. O filme, por seu lado, esteve um ano na gaveta antes de encontrar distribuidor. O que me diz que o filme não deverá ser nada por aí além.

    Mas terei que ver por mim e retirar as minhas próprias conclusões. Aconselho VIVAMENTE a lerem o livro antes de ver o filme, pois são histórias COMPLETAMENTE diferentes.

    By the way… excelente texto, Rui.

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