Como é que lhe surgiu a ideia de escrever um romance e de ser escritor?
Ser escritor vem por arrasto da vontade que sempre tive de me expressar para além do quotidiano. Sempre tive uma veia artística, sempre tive vontade expressar qualquer coisa de mim. Tive gosto pela música, tocava guitarra, entrei em peças de teatro. Depois, nos escuteiros, mais tarde, eu era um daqueles que estava sempre na linha da frente, criava peças, números, inclusive criámos uma réplica dos Heróis do Mar, que estavam na berra, e como éramos de Cacilhas, junto ao rio, criámos os Heróis do Rio, com letras adaptadas aos escuteiros. Tive grupos de garagem, fiz teatro amador, fiz rádio pirata. E no meio disto tudo tive de trabalhar, e fui para a banca. No banco, por brincadeira, fiz uns mails um bocado “subversivos”, que tinham muito sucesso, e diziam-me que estava no sítio errado, que devia era escrever. E isto tudo batia-me na cabeça. Um dia, estava a ler a Cidade dos Deuses Perdidos, da Isabel Allende, que é um livro um bocado juvenil de mais, mas que tem umas ideias giras sobre o El Dorado, sobre a mística da selva sul-americana, o jaguar. E depois lembrei-me de um filme, o Cat People (A Felina), aquele erotismo, a sensualidade, a Nastassja Kinsky, a mulher pantera. E aquilo veio-me à cabeça e pensei: porque não fundir isto tudo e fazer o meu próprio livro, com os ingredientes que eu gosto? E pus mãos a obra e foi saindo, e fui gostando. E, quando dei por mim, tinha quinhentas e tal páginas.
Deve ter sido um trabalho longo e extenuante?
Eu tenho uma vida normal, sou bancário e pai de dois filhos. Sobra pouco tempo. E depois o livro obrigou-me a uma certa pesquisa porque, sendo um livro de fantasia, é também um livro histórico, porque assenta sobre a conquista do México por parte dos espanhóis. Portanto, quem ler o livro lerá sobre a invasão de Cortez e do seu braço-direito Pedro de Alvarado. São personagens reais, que conquistaram o México, mais concretamente arrasaram a cultura e a civilização astecas. Tive de fazer pesquisa sobre os povos maias, incas, astecas, a América Central, e sobre as conquistas dos espanhóis.
Mistura personagens reais com fictícias. Falando das reais, não se sente que está a intrometer-se um pouco na vida deles, ao imaginar aquilo que teriam feito?
Só me meto praticamente com um deles, pois criei-lhe um descendente que nos contextualiza nos dias de hoje, e que é o Miguel de Alvarado, que herda um diário deste seu antepassado, bem como um quadro, e que são a ligação entre o passado e o presente. Mas penso que a família não vai levar a mal… (risos)
E as personagens fictícias, como é que as construiu? Inspirou-se em pessoas suas conhecidas?
Parte das personagens são extrapolações de mim, dos meus estados de espírito. Em dadas alturas sentirei o que sentiu a Daniela, todos nós temos um lado masculino e um feminino, tenho uma parte que eu gostaria de ser, que é o James Cadwell, que é um indivíduo recto, honesto, limpo, um herói perfeito, que é uma parte de mim que gostaria que fosse mais visível mas não é. Tenho lá um fotógrafo trapalhão e voluntarioso, que é o Gordon, que é muito parecido comigo na parte da trafulhice e do desleixo. Tem partes da minha mulher, na Daniela. De resto, as personagens vão nascendo por si, também.
Pondo tanto de si nas personagens não sente, por vezes, que está a expor-se demasiado?
Tanto posso numa demasiada altura sentir aquilo que estou a escrever de uma forma mais pronunciada e real, como posso estar noutro momento a criar uma situação que não tenho nada que ver com ela.
Inicialmente, dizia muito ingenuamente que ia fazer um livro e teria publicá-lo de alguma forma, nem que tivesse de gastar umas massas. Já plantei árvores, já tenho filhos, falta-me o livro, nem que fosse simbolicamente queria fazê-lo. Mas a uma certa altura estava a gostar tanto do livro que ia ficar com pena se não fosse editado, ia doer um bocado. Por isso, a Porto Editora vir ter comigo foi a coisa mais fantástica que me poderia ter acontecido.
Como é que se sentiu quando teve a noção de que ia ser publicado?
Foi como um conto de fadas. Ainda hoje estou um bocado a viver um sonho. Por exemplo, a feira do livro, que sempre encarei, desde miúdo, como uma coisa mística… de repente eis-me nela. É uma das coisas mais bonitas que já me aconteceu.
Foi um bocado arriscado, para um autor desconhecido, arrancar com um livro tão grande…
Era, mas senti que ou fazia como pensava que ele devia ficar ou então não valia a pena. Se fosse só para ele sair ou para agarrarem nele, estaria a prostituir-me só para obter um resultado. Ou faço a história como a quero fazer, com os ingredientes todos e os ambientes e tudo o que quero, ou não vale a pena. E fiz.
Que autores o inspirara mais para escrever Jaguar?
Toda a minha infância e parte da imaginação que ela acarreta com a parte das leituras do Júlio Verne, do Sir Arthur Conan Doyle, o Mundo Perdido, a Viagem ao Centro da Terra, as histórias de aventura, ficaram aqui decalcadas. Hoje em dia há poucas histórias desse cariz e tenho pena. O espaço onde vivemos hoje em dia, o planeta, é um bocado claustrofóbico, porque tudo está descoberto. Não há praticamente mistérios hoje em dia. E é uma pena, porque o mistério e o desconhecido é que sempre levou as pessoas a descobrirem mais e dá-me a sensação de que no nosso planeta chegámos ao limite. Onde restam os pequenos espaços virgens é nos oceanos ou, então, um dos poucos paraísos terrestres que ainda hoje existe é a América Central e do Sul. Daí o facto de gostar da aventura.
Mudaria algo no seu livro, agora depois de já o ter visto editado?
Eu acho que está o livro perfeito, com os timings perfeitos, as personagens perfeitas. Tudo no sitio. Não mudava nada. Eu sou suspeito, mas gostei de ler o livro.
O seu próximo romance, vai ser dentro deste género de aventura?
Vou enveredar por um caminho novo. Resolvi fazer uma catarse do meu lado negro e resolvi fazer um thriller um bocado gore. Neste livro vai haver um apelo a músicas e letras dos anos 60. 70, 80. O próprio personagem principal vive um bocado as coisas ou estende-as em função das músicas que elege como suas para determinados momentos.