“O Hipnotista” – Lars Kepler

A saga Millenium, como é do conhecimento público, abriu portas à implantação (será definitiva?) do policial nórdico em novos mercados, e o português não é a excepção. Assim, é natural que a cada passo sejam anunciados os legítimos sucessores de Stieg Larsson. Lars Kepler, com O Hipnotista, é “o” último dessa lista. O “o” vai entre aspas, porque na realidade não se trata de um escritor, mas sim de um casal de escritores suecos: Alexander Ahndoril e Alexandra Coelho Ahndoril (aqui convém esclarecer que Alexandra é filha de uma portuguesa, sendo este o tipo de informações de que os portugueses adoram).
Sob este pseudónimo lançaram O Hipnotista (editado entre nós pela Porto Editora), que mesmo não sendo o sucessor da trilogia Millenium é, sem dúvida, um excelente policial, que só ganharia em não carregar esse fardo da comparação com um fenómeno literário com o peso do de Stieg Larsson.
O romance, a estreia de Lars Kepler, que não a dos seus elementos, pois ambos eram já conhecidos escritores suecos, tem um escrita prática e directa – à sueca – e o seu elemento mais negativo será, talvez, um excesso de detalhe e pormenor em determinadas fases. Esse é, contudo, um problema que facilmente se esquece, pois, na verdade, O Hipnotista tem um ritmo bastante acelerado, sem tempos mortos, quase não se notando as suas 560 páginas.
A obra tem uma trama bem montada, com uma dose suficiente de reviravoltas e surpresas, capaz de prender o leitor mais exigente de policiais.
Neste romance acontece uma série de crimes bárbaros, revelando – o que já vem sendo comum – os podres de uma sociedade sueca que, afinal, não será tão perfeita como se idealiza à distância.
Há dois casos que se cruzam: um jovem (Josef) que, em Estocolmo, assassina de forma bárbara os seus familiares, e um rapaz doente (Benjamin) que é raptado de sua casa. Em comum nestes dois casos temos o hipnotista Erik Maria Bark. Foi, em tempos, o mais famoso hipnotista sueco, mas quando, ao serviço da medicina, ocorrem graves problemas com pacientes seus, promete a si próprio nunca mais hipnotizar ninguém. Quebra a promessa dez anos mais tarde (na actualidade) para tentar ajudar a deslindar um caso gravíssimo da tal família assassinada de forma atroz. Só há um sobrevivente, mas está inconsciente, pelo que apenas através do hipnotismo será possível aceder às informações preciosas de que será detentor. Nomeadamente, vem a descobrir-se que é ele, afinal, o assassino e que tem uma irmã, que sobreviveu ao massacre mas que está em parte incerta. Quando ele (Josef) escapa do hospital onde estava internado torna-se imperioso capturá-lo antes que encontre a irmã.
O regresso de Erik ao hipnotismo espoletou ainda uma outra nova situação, esta com incidência directa na sua família, que atravessava já um período difícil a nível de relacionamentos. O seu filho Benjamin foi raptado e, para o descobrir a tempo de tomar a sua medicação, torna-se necessário descobrir em contra-relógio o que o liga ao caso da família assassinada, pois há duvidas de que tenha sido Josef o real mentor/autor do rapto. Isto obriga Erik a “reabrir” na sua mente os casos que estudou no passado, aqueles casos de doentes mentais que correram mal e que o levaram a abandonar a pratica do hipnotismo.
Outro dos protagonistas deste romance é, inevitavelmente, um polícia, no caso um finlandês residente na Suécia de nome Joona Linna – é ele que convence Erik a retornar ao hipnotismo. Uma personagem muito interessante, dotada de uma personalidade persistente, perspicaz, mas, também, com as suas carências a nível de afectos e relações pessoais.
O Hipnotista traça, portanto, em paralelo com a trama de investigação, um excelente retrato social da Suécia contemporânea, com graves problemas sociais, nomeadamente dentro dos quadros familiares. O livro incide muito nos problemas pessoais de cada personagem, retratando, nomeadamente, o seu (des)enquadramento na sociedade, abordando faixas etárias que vão desde a infância aos velhos. Chega a ser assustador o grau de instabilidade emocional da maior parte das personagens deste livro, muita delas revelando serem portadoras de profundos distúrbios mentais. O Hipnotista revela, acima de tudo, uma sociedade muito fria e distante dos seus habitantes.
O Hipnotista é um romance competente e cativante, bem doseado entre a descrição dos factos (por vezes quase com o pormenor de um relatório) e dos ambientes e a “alma” das personagens.

10 pensamentos sobre ““O Hipnotista” – Lars Kepler

  1. Pithon

    Quem não leu não tem a mínima ideia do que está perdendo!! é contagiante, não tinha vontade nem de sair para ler-lo!!!Cad}ê o segundo livro em português? eu li em italinao

  2. Pingback: Dupla sueca Lars Kepler regressa com «O Executor» | Porta-Livros

  3. Antonieta

    É um verdadeiro absurdo contar quem é o assassino em um romance policial. É possível comentar, recomendar, analisar pontos fortes e fracos sem destruir o prazer de o leitor fazer suas próprias descobertas.Nunca encontrei algo assim antes!

    1. ruiazeredo

      Cara Antonieta, antes de fazer os seus comentários, pense bem no que está a dizer. O objectivo deste romance não é descobrir quem é o assassino, pois isso é logo revelado no início. Aliás, esse é o ponto de partida da história. Já agora, esclareça-me, já leu o livro? Cumprimentos, Rui Azeredo

  4. Antonieta

    Caro Rui
    Acho que você deveria, pelo menos, colocar aviso de spoiler.
    Mesmo tendo lido outras críticas que sairam em jornais, mesmo sabendo que não se tratava de um “quem matou”, de um policial não convencional, mas de um livro de suspense, você deu informações que eu ainda iria descobrir.
    Quanto a sua pergunta, estou com o livro aqui, mas não tive ainda tempo de ler.
    Cumprimentos, Antonieta
    PS. Foi apenas uma observação.
    Gostei de seu site e vou recomendá-lo.

    1. ruiazeredo

      Cara Antonieta, acolho com prazer todas as observações e desde já lhe agradeço. Mas insisto: quando ler o livro, vai perceber que não revelei nada de mais. Não há nada para descobrir nessa questão. Diga-me, depois de ler o livro, se tenho ou não razão 🙂
      Cumprimentos, e passe sempre por aqui. É muito bem-vinda ao Porta-Livros.
      Rui Azeredo

  5. Pingback: «A Raiz do Ódio» – Anne Holt | Porta-Livros

  6. Claiperon

    Foi um dos melhores livros que li nos últimos anos. Acabei lendo em uma madrugada, foi a noite de insônia mais gratificante de 2012. E agora já com “O Pesadelo” em mãos, espero ser tão bom como foi este.

Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão /  Alterar )

Google photo

Está a comentar usando a sua conta Google Terminar Sessão /  Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão /  Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão /  Alterar )

Connecting to %s

This site uses Akismet to reduce spam. Learn how your comment data is processed.