Rosa Aneiros – Entrevista a propósito de “Resistência”

Rosa Aneiros, uma jornalista e escritora galega nascida em 1976, ficou apaixonada pela história dos resistentes portugueses ao regime ditatorial que vigorou até ao 25 de Abril de 1974. Tudo aconteceu durante uma visita ao Museu de Peniche. Logo aí decidiu que o seu primeiro romance (Resistência – Publicações Dom Quixote) seria sobre estas pessoas que lutaram contra o regime e conseguiu escrever um livro de fazer inveja (no bom sentido) a autores portugueses que nunca arriscaram a escrever sobre um tema tão próximo de nós. A ajuda de Álvaro Cunhal acabou por ser preciosa.

 Cmo é que uma escritora galega, tão jovem, escolhe um tema como a resistência portuguesa à ditadura como pano de fundo para romance de estreia?
Não fui eu que escolhi a ideia, ela é que me escolheu a mim. Não houve uma intenção prévia. Numa viagem de férias entrei no Museu de Peniche sem saber o que era, mas fiquei impressionada. Descobri que um acontecimento histórico tão recente (25 de Abril de 74) tinha uma exposição com nomes e apelidos das pessoas que nele participaram. Algumas dessas pessoas podem ainda estar vivas. Em Espanha ainda não conseguimos que se formasse a associação pela recuperação da memória histórica para recuperar coisas, por exemplo, da Guerra Civil. Em Portugal recupera-se essa memória, não existe essa negação do passado. Estava de férias e comecei a escrever o romance logo nessa altura. Percebi de repente: “Aqui há uma história que quer ser contada”. Entretanto, tive de regressar a Portugal para construir as personagens e tive de conhecer a História do país para que tivesse um mínimo de credibilidade.
Foi também um trabalho muito jornalístico e aprendi muito de um país que está tão próximo, mas às vezes tão longe da Galiza. A nível de conhecimento ainda há muito que temos de conhecer uns dos outros.

O pormenor com que está escrito Resistência leva a crer que é uma obra feita por um português…
Curiosamente, o Manuel Jorge Marmelo (foi o primeiro autor português a quem enviei o romance) disse-me que este era um tema que nunca seria escrito por um novo autor português. E perguntei porquê? “Porque é demasiado recente, muito chegado a nós”. Isso deu-me mais ânimo, porque era uma história que tinha o atractivo do distante, de algo que nunca vivi. Sobretudo nos espaços sabia que ia ser muito atractiva para o público galego.
Uma dos “problemas”da literatura galega é que é muito egocêntrica, é tudo ambientado muito na Galiza. Os galegos têm muito interesse por Portugal.

Como é que os portugueses poderão aceitar um livro escrito por uma galega sobre um tema que tanto diz respeito a Portugal?
Tenho um bocado de medo. Uma coisa são os dados históricos, onde podes deixar passar algum erro, mas o mais difícil é recolher o ambiente, captar o que se viveu, até porque muita gente está viva. Dependerá muito, também, de cada leitor.

Como decorreu o processo de investigação?
Recorri essencialmente a documentação escrita, à Internet, ao Centro de Documentação do 25 de Abril e Álvaro Cunhal enviou-me os seus livros e aí consegui absorver a sensação do medo, de estar sempre a ser observado.
Os livros de Manuel Tiago (pseudónimo de Álvaro Cunhal) são muito frios, estão muito próximos da realidade e o facto de lê-los serviu-me para me ambientar.

Ao escrever este livro já havia a intenção de publicá-lo em Portugal?
Nem sequer tinha a intenção de publicá-lo. Era uma história que me deixava muito insegura. Era o meu primeiro romance e não tinha a noção do que valia.
Enviei o livro a alguns amigos e eles gostaram muito. Acabou por ser rápida a publicação.

Agora já acha que é um bom livro?
O tempo leva as coisas ao sítio. Ainda o vejo com demasiada proximidade. Há partes que mudaria, mas apenas na maneira de contar a história.

Deve ser um bocado assustador lançar uma primeira obra?
Passou-se com Resistência o que os meus editores chamam o efeito-Resistência. Eu era praticamente uma desconhecida e este romance fez-me ganhar mais público. Esgotou a primeira edição na Galiza. Antes, quando escrevia, era algo muito mais individual, agora as pessoas falam comigo sobre a minha obra. Nota-se mais a presença do público.
É uma fase mais bonita, porque te mostra a verdadeira literatura. Não o tempo que passas a escrever, mas o momento em que partilhas as histórias e as personagens.

Agora vai começar a receber a reacção de portugueses…
Isso assusta-me bastante. É complicado contarem-nos uma história sobre nós, mas contada de fora é mais asséptica e mais livre de pressões. Não gostava que ninguém se sentisse ofendido, porque não era a minha intenção.

Já está trabalhar noutro romance?
Sim… Mas na Galiza digo sempre que não (risos). Sou uma escritora que acredita muito pouco em mim. As histórias atrapalham-me muito e sou pouco objectiva com elas e nunca sei se as vou acabar. Já tenho umas páginas manuscritas, mas digo sempre não. Estou a escrever a história de uma mulher, de 34 anos, que está passar uma fase difícil da sua vida em que todas as coisas em que acreditava de repente se desmoronam. Passa-se durante a época da maré negra do “Prestige” na Galiza. Vivemos essa fase muito como um conjunto, colectivamente. Temos de deixar passar algum tempo para perceber como nos afectou individualmente, como interiorizamos. Esta é uma história nada colectiva, é muito intimista. Afundou-se o barco no momento em que ela se afundou e uniram-se as duas coisas.

Deve ser difícil fazer uma segunda obra, depois de uma primeira tão bem sucedida?
O problema que tenho é que histórias como Resistência surgem uma vez na vida. É difícil que todas as histórias te consigam agarrar da mesma maneira. É uma história fascinante, de um povo que um dia se revolta e derruba uma ditadura. Em Espanha deixou-se o ditador morrer na cama

(Entrevista realizada em 2004)

O LIVRO

Resistência, livro escrito pela galega Rosa Aneiros e editado pela Dom Quixote, mais parece obra de um romancista português, tal o detalhe, a emoção, a paixão e o conhecimento que emprega ao descrever histórias que tanto nos dizem respeito. De São Pedro de Moel a Lisboa leva-nos a seguir os passos daqueles que, principalmente na década de 60, lutaram pela liberdade. Rosa Aneiros mistura estas causas políticas com dramas pessoais, daí resultando um livro bastante atraente, humano e equilibrado. Nem é um panfleto político, nem um simples drama humano, e nota-se ainda uma constante presença da esperança, como que prenunciando a revolução que aí vinha.
Mas Resistência traz tudo ao leitor: a guerra colonial, as dúvidas instaladas em quem lá estava, os abusos de poder, assim como o desejo de mudança e as diversas formas de luta.
Dinis e Filipa, protagonistas de um amor incompreendido, representam o motor que faz/fez funcionar a Resistência.

2 pensamentos sobre “Rosa Aneiros – Entrevista a propósito de “Resistência”

    1. ruiazeredo

      Boa-tarde, na verdade já há muito que não vejo este livro à venda. Talvez seja melhor contactar directamente a editora, no caso a Dom Quixote. Cumprimentos, Rui Azeredo

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