“O Miúdo que Pregava Pregos numa Tábua” – Manuel Alegre

Vou ter de recorrer, para descrever este livro, a uma expressão que, sinceramente, detesto, mas, na verdade, de momento não me ocorre uma outra mais apropriada: “É uma delícia.” Talvez, se no futuro descobrir algo que substitua este “é uma delícia”, venha aqui ao texto e faça a troca, mas, na verdade, quem me lê agora já não o vai saber, e quem me ler na altura, nunca saberá que eu achei O Miúdo que Pregava Pregos numa Tábua “uma delícia”. Mas, isso agora pouco importa, na altura se verá.
A verdade é que o novo livro de Manuel Alegre, uma novela, recentemente editado pela Dom Quixote, é um verdadeiro page turner (agora este texto tornou-se mais técnico e com menos alma), mas não no sentido que costuma ser aplicado aos best-sellers que enchem os tops das livrarias, construídos de forma a prender o leitor. O Miúdo que Pregava Pregos numa Tábua prende o leitor de uma forma, digamos, “natural”, desinteressada.
Trata-se de um livro muito pessoal pois retrata episódios de uma infância (e outros já mais à frente na idade) que, na essência, é a de Alegre (não podemos menosprezar o papel da imaginação), onde ele toma contacto pela primeira vez com o processo criativo, uma “história” entre muitas outras, todas, nota-se, relatadas com sentimento, com orgulho, com nostalgia. Há referências familiares (os pais, os avós a irmã), geográficas (Porto, Espinho, Paris), de gostos (a caça), que ajudam a “explicar” a personalidade de Alegre, que se dá a conhecer pela perspectiva de um miúdo ansioso por conhecer o mundo que o rodeia.
É, portanto, um livro em que dá conhecer uma parte bastante importante da sua vida, aquela que o levou a ser aquilo que é hoje. É, também, um livro de reconhecimento, agradecimento, homenagem às pessoas que o influenciaram e “orientaram”, nomeadamente Sophia de Mello Breyner Andresen e Miguel Torga, entre outras referências mais “familiares”.
Mas, acima de tudo, porque é isso que na verdade interessa ao leitor, é um livro muito interessante e agradável de ler, independentemente de abordar a infância de Alegre, sobre um miúdo que pregava pregos numa tábua. Uma história bem contada e bem escrita. E o que mais se pode querer de um livro, seja ele uma novela ou romance?

2 pensamentos sobre ““O Miúdo que Pregava Pregos numa Tábua” – Manuel Alegre

  1. A bolinha vermelha que a Maria Conceição Caleiro dá no Ípsilon a este livro desconcerta. E desconcerta porque nós, os descomprometidos leigos, nunca sabemos se há mais contextos além do visível. A verdade é que eu, que já folheei o livro com vagar, tendo a concordar com o facto de haver uma certa evolução no escritor, que deve ganhar em humildade o que tem de perder em modéstia (afinal, promove-se a si próprio), e deve notar-se na escrita o esforço de depuração que em Alegre não se nota. De qualquer modo, ficamos a pensar no papel e na ética dos críticos. Eu tendo a pensar que a crítica severa da MCC, mesmo que seja justa, nunca deveria vir acompanhada daquela bola vermelha, que é um estigma injusto e redutor.

    1. ruiazeredo

      Não li a crítica, mas bola vermelha não me parece nada justo. para isso teriam de ser atribuídas bolas negativas. Mas isso é como no cinema, exigem mais a uns autores do que a outros, esquecendo a obra por si só. Sem nunca esquecer o passado e o currículo do autor (seja ele escritor ou cineasta), não podemos deixar de apreciar a obra por ela mesma, ou seja, arrancando na primeira palavra/”frame” e terminando em “fim”. Gostaria de ver como certas obras seriam apreciadas se fosse previamente “apagado” o nome do autor. Seria um exercício interessante.

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