“O Tesouro” – Selma Lagerlöf

O Tesouro, de Selma Lagerlöf, recentemente recuperado pela Cavalo de Ferro na colecção Gente Independente, é efectivamente um “tesouro”. Trata-se de uma pequena (em tamanho, não em grandeza, se me faço entender) pérola da literatura sueca (e não só) do início do século XX. Uma das razões, sem dúvida, que levou a que Selma Legerlöf se tornasse, em 1909, a primeira escritora a ganhar o Nobel – ela é autora também de obras como A Viagem Maravilhosa de Nils Holgerssn Através da Suécia e A Saga de Gösta Berling.
O Tesouro é uma espécie de fábula, com laivos (muitos e intensos) de sobrenatural (as maldições são uma constante), onde o tema central é o bem e o mal, e as dúvidas que os indivíduos sentem quando têm de optar por um desses caminhos, especialmente quando em jogo há algo de pessoal e íntimo. Selma Lagerlöf joga bem com as ambiguidades do ser humano, e, dada a credibilidade que aplica na construção das personagens, leva o leitor a ter dificuldade em julgar ou aplaudir quando decisões mais questionáveis são tomadas. Porque, afinal, somos todos humanos e as personagens de O Tesouro bem reflectem isso.
As descrições das paisagens gélidas estão muito bem conseguidos, levando-nos, sem dificuldade, a imaginar o quanto era difícil viver no meio daquelas condições invernosas implacáveis. O mar gelado, com os barcos presos, é a perfeita imagem deste romance. Ambiente frio, paralisante, para objectos e para pessoas, que submetidas a tais condições revelam o que há de mais profundo em si, bom e/ou mau.
A acção decorre na época em que Frederico II da Dinamarca reinava na província de Bohus. Torarin, um vendedor de peixe de Marstrand, atravessa a região em direcção a Solberga acompanhado pelo seu cão e, apesar da invulgar reticência deste, decide pedir abrigo para repousar em casa do senhor Arne, um abastado e avarento padre luterano que já conhece há alguns anos e que leva uma vida muito humilde. A mulher de Arne, durante o jantar, ouve o som de facas a serem afiadas, algo que espanta todos os outros, mas, que, contudo, ignoram o seu alerta. Mais tarde, durante a noite, toda a família é chacinada e desaparece o tesouro que o senhor da casa tão ciosamente guardava – moedas de prata. Torarin, que já havia partido quando se deu o assalto, regressa ao lar destruído e descobre que a filha adoptiva do senhor Arne era a única sobrevivente. Em reconhecimento pela hospitalidade constante do falecido senhor da casa, acaba por recolhê-la e levá-la consigo.
A rapariga vai assumir um papel central no enredo, pois é a única capaz de reconhecer o trio de assaltantes, mas, quando um dia conhece um trio de escoceses, não se apercebe que são os mesmos que roubaram a família. Apaixona-se por um deles e é o fantasma da sua irmã adoptiva que a induz a fazer justiça. É aqui que mais se nota a dicotomia bem/mal, pois se quer vingar a irmã, também sofre por estar apaixonada por aquele homem ganancioso, algo que não se apercebe devido à sua ingenuidade. Deixa-se seduzir e ela própria inventa desculpas para não denunciar o bandido.
Os seus conflitos interiores (funcionado o fantasma como se da sua própria consciência se tratasse) dão o mote para a conclusão do romance, onde não falta o toque de tragédia que remata tão bem este O Tesouro.
Uma obra notável de Selma Lagerlöf, que nos faz viajar pela essência da alma humana e pelo modo como se enfrentem as adversidades, sejam elas espirituais ou físicas.

5 pensamentos sobre ““O Tesouro” – Selma Lagerlöf

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