Anthony de Sá – Entrevista a propósito de “Terra Nova”

Anthony de Sá, que viu recentemente editado em Portugal pela Dom Quixote o seu romance Terra Nova, é um descendente de imigrantes açorianos no Canadá. As suas raízes inspiraram-no a escrever uma estimulante obra de estreia e nesta entrevista ao Porta-Livros fala-nos, em simultâneo, de Terra Nova e da comunidade portuguesa no Canadá, dois temas naturalmente indissociáveis. Veja aqui a crítica ao livro.

Como lhe surgiu a ideia de escrever Terra Nova?
Terra Nova é o resultado de uma redescoberta. Depois de vários anos a renegar as minhas raízes culturais teve lugar uma série de eventos que me forçaram a reconsiderar os meus laços a uma cultura que amo profundamente. Foi assim que nasceu Terra Nova.

Terra Nova parece ser uma obra muito pessoal. Viveu muitas das situações lá contadas ou inspirou-se em conversas, relatos, entrevistas?
Terra Nova é ficção, mas um escritor deve escrever sobre o que conhece. Eu conhecia a comunidade onde cresci. Compreendo os apertados laços familiares que nos unem, tanto do lado da minha mãe como do meu pai. Muito do que eu escrevo é tomado emprestado de histórias que ouvi da minha família, especialmente da minha avó. Muitas das situações que aplico às personagens principais são inspiradas em outras pessoas que influenciaram a minha vida. Manuel, Georgina, Terezinha e António são a combinação de muitas pessoas que integraram partes da minha vida mas que se juntaram para formar novas personagens.

A religião e as tradições portuguesas estão muito presentes nesta obra, nomeadamente no que toca às “cenas” açorianas. Que tipo de pesquisas fez para retratar de forma tão fiel e certeira estas vertentes tão importantes da sociedade portuguesa?
A pesquisa é fundamental para “fazer as coisas direito”. Muitas das tradições que os açorianos trouxeram das ilhas para o Canadá sobreviveram e, até, desenvolveram-se. Festivais e tradições eram bastante ricos. A igreja em Toronto celebrava como se estivesse em casa; era um laço importante com o mundo que tinham deixado para trás. Através do diálogo como elementos da família e informações de arquivo relativas a eventos históricos, como a Frota Branca ou a oferenda dos pescadores à Terra Nova nos anos 50, tudo isso foi encontrado em museus em St. John’s, na Terra Nova. Mas uma grande parte da pesquisa resultou de caminhadas pelas ruas de Lomba da Maia num Verão, com indicações das personagens e dos tons culturais deste lugar de onde vieram os meus antepassados.

Escrever sobre emigração surgiu naturalmente ou tratou-se de algo premeditado?
Terra Nova arrancou com a escrita de The Shoeshine Boy. O interesse gerado por essa história conquistou um grande nível de atenção. Foi em conversas com o meu editor que descobrimos que a história da imigração portuguesa, relativamente nova no Canadá, ainda tinha de ser contada. É por aí que começo – com a ideia premeditada de que quero representar a travessia do Atlântico com uma personagem como Manuel. Ele torna-se representativo dos homens que desejam algo mais. O sonho de Manuel é construir um futuro para si num mundo que ele encara como insular e sufocante. Mas o processo é orgânico e a história evolui naturalmente, sem forçar as cenas.

Pretende que este livro seja uma espécie de homenagem aos imigrantes portugueses no Canadá?
É demasiado ambiciosa a ideia de sugerir que esta história representa todas os imigrantes portugueses no Canadá. Terra Nova é inegavelmente “português”, mas como um crítico no Canadá tão eloquentemente referiu “incapaz, tanto de se integrar como de se manter à parte, ele [Manuel] é qualquer imigrante, todo o imigrante, sempre à procura de um sonho que não pode ter, e nunca em casa.”
Tanta gente partiu de Portugal para o Canadá por diferentes razões. No entanto, há algumas semelhanças notórias: muitos deixaram a família parta trás, vieram para um local sobre o qual pouco sabiam e sabiam também que, assim que partissem, não havia regresso possível. A vida nunca mais seria a mesma. Acho que esta é a realização mais impressionante para muitos que chegaram ao Canadá com um sonho. Nunca se tornaram inteiramente canadianos e nunca poderiam regressar ao mesmo lugar, porque tudo tinha mudado. Infelizmente, era uma espécie de limbo, viver num mundo onde o lar poderá ter parecido uma ilusão.

Há interesse no Canadá por uma obra sobre a comunidade portuguesa aí radicada?
Terra Nova recolheu uma grande dose de atenções no Canadá, mas devo dizer que essa atenção pode ter sido estimulada pela tremenda resposta que o livro obteve na comunicação social generalista. Tanto quanto sei, a comunidade portuguesa respondeu maioritariamente de forma positiva. Nomeadamente, fui convidado para ser o orador principal em algumas conferências internacionais dedicadas a questões da identidade e da diáspora.

Qual é o papel da comunidade portuguesa no Canadá hoje em dia, e como são aceites e integrados os imigrantes portugueses e seus descendentes na sociedade canadiana?
O Canadá tem uma saudável e vibrante comunidade portuguesa. A parte sul de Ontário tem uma vasta população de 300 000 luso-canadianos. Dessa forma, há vários jornais, rádios e estações de televisão que abordam os assuntos da comunidade e a informam sobre o seu lugar no mundo.
Contudo, o grande teste social de assimilação, tanto quanto me é dado ver, foi relativamente mal sucedido. As gerações posteriores já funcionaram muito melhor, mas muitos dos primeiros imigrantes não se adaptaram por completo. Ainda tenho tias que não sabem inglês, mesmo vivendo neste país há 40 anos. É incrível como se desenrascaram, mas é também um testemunho do espírito humano e dos vários níveis de comunicação que nos permitem avançar.

Que tipo de reacções teve de portugueses, ou seus descendentes, residentes no Canadá?
Em geral, a reacção tem sido esmagadoramente positiva. As pessoas têm muito orgulho no facto de “um dos seus” ter sucesso em qualquer área que seja. Há sempre uma facção de pessoas na comunidade que tentará contrariar as palavras escritas em Terra Nova, considerando-as um estereotipo, algo de que gostariam de se distanciar. Eu compreendo isso, mas está na hora de abrirmos as portas e as janelas e de deixar as nossas casas respirarem.

E dos Açores, já recebeu alguma indicação de como terá sido recebido o livro?
Na véspera de Natal do último ano estive em casa do meu tio, onde toda a gente se junta. Estavam tremendamente orgulhosos porque o padre de Lomba da Maia se referiu à publicação do meu livro e ao quanto necessitávamos da “nossa” história. Foi algo muito belo de ouvir.
Também fui convidado para participar numa conferência, em Outubro passado, que teve lugar na Universidade dos Açores, em Ponta Delgada. Mais uma vez, fui muito bem acolhido e houve um genuíno interesse na minha obra. Acabou por originar novos convites para falar no Brazil, em Santa Catarina, e na Casa dos Açores, em Toronto, assim como no consulado. Foi complicado tentar lidar com toda esta atenção porque tenho mulher e três filhos pequenos e sou um pedagogo a tempo inteiro que estava a escrever um novo livro. O meu prato está cheio. Visto assim, nem parece trabalho e ver a reacção das pessoas a Terra Nova é tocante e avassalador.

O que tem para oferecer a seguir aos seus leitores? Em que projectos literários está envolvido, além do já conhecido Carnival of Desire?
Estou actualmente a escrever o meu novo romance Carnival of Desire. O livro revisita a família Rebelo e segue-os de perto através do tempestuoso período na história da nossa cidade e da comunidade portuguesa em que ocorreu a brutal violação e assassínio de Emanuel Jaques, em 1977. O livro já foi vendido para o Canadá e Estados Unidos, mesmo estando ainda incompleto. Há uma grande dose de entusiasmo à volta do novo livro. Espero vê-lo também em Portugal.
Estou a fazer pesquisa para outros dois livros, mas são ainda ideias muito cruas. Devem resultar em algo mais.

Não teme ser rotulado de escritor da comunidade portuguesa, dado que tem optado por escrever apenas sobre os portugueses no Canadá?
Não sou um escritor português. Sou simplesmente um escritor, sem ligações a nenhum grupo em particular. As complexidades em múltiplas escalas das personagens e das histórias interessam-me enquanto escritor e os romances que desenvolvo podem levar-me para além do limitado âmbito de ser definido pela minha etnicidade.

O que conhece da literatura portuguesa e quais são as suas preferências e referências?
Infelizmente, não sou grande especialista no trabalho dos escritores portugueses, para lá dos grandes nomes – Lobo Antunes e José Saramago. Acrescento a esta lista o mais recente fascínio, pelo menos na América do Norte, com Fernando Pessoa. Recentemente, travei conhecimento com José Luis Peixoto e tive a oportunidade de ler Blank Gaze – é lindamente poético. Tanto quanto me é dado ver, o futuro da literatura portuguesa é bastante promissor.

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