Guillermo Martínez – Entrevista a propósito de “Crimes Imperceptíveis”

O escritor argentino Guillermo Martínez esteve em Portugal em 2004 para apresentar o seu título Crimes Imperceptíveis, edição da Ambar. Com Oxford por cenário, trata-se de um policial clássico, com a particularidade de ser vivido no mundo da matemática. Martínez descreveu assim a sua obra: “Crimes Imperceptíveis é um policial com enredo quase clássico, onde um dos detectives é um lógico matemático que tem de estabelecer a ligação entre uma série de crimes e uma série de símbolos lógicos que aparecem em cada crime”.

Crimes Imperceptíveis, apesar de ter um autor argentino, exibe as características de uma obra britânica. Concorda?
Apesar do enredo do romance corresponder à tradição do romance inglês, o facto de uma das personagens ser argentina e o modo como vê o mundo inglês, somado a que outra das personagens é um mestre argentino, creio que lhe dá um aspecto diferente do romance policial clássico. Para além disso, o mundo inglês é observado pela perspectiva de um estudante argentino e ilumina de um modo argentino o cenário e os acontecimentos. O facto de ser argentino está também relacionado com a decisão final de retirar-se de cena sem intervir.

É uma característica dos argentinos?
Não. Mas aproveitei o facto de ser estrangeiro para que se pudesse retirar do local dos acontecimentos sem interferir.

De qualquer forma é um policial do tipo clássico, dentro do estilo dos anos 30 e 40.
Isso é, de certa forma, o que leitor pensa ao princípio. Depara-se com um romance que lhe parece clássico. Neste momento há um doutoramento em literatura, na Argentina, que fala da desconstrução do relato policial clássico neste romance. Se se observar com mais atenção percebe-se que a figura do detective, do investigador e da vítima (três figuras típicas das novelas policiais) estão modificadas. E há outros elementos em que distorce o enredo aparentemente clássico. Sobretudo, o ponto de vista de um lógico matemático sobre a criminalística, e acho que é isso que dá uma certa originalidade ao livro.

Porque resolveu envolver a matemática no enredo?
Aparece de um modo quase instrumental. É a maneira como um matemático observaria os acontecimentos. O que me interessava no romance era mostrar até que ponto o que é uma conjectura, uma hipótese, pode sobrepor-se à realidade e determinar uma segunda realidade com consequências trágicas

Tem formação matemática?
Tenho um doutoramento em matemática e um pós-doutoramento em lógica matemática.

Conseguiu incluir a matemática de um modo simples.
Sim, é um romance que não requer nenhum conhecimento prévio dos leitores e, para além disso, não é o único elemento do romance. Há partidas de ténis, histórias de amor, conversas sobre outros temas, sobre o que é um crime perfeito… Acho que os leitores não têm de se assustar por encontrar demasiada matemática no livro.

Não há o perigo de retirar alguma emoção?
Nunca pensei que a matemática estivesse divorciada do emocional. Quem ler o meu livro pode aperceber-se dos elementos do romantismo e da aventura que pode encontrar também na investigação matemática. Por exemplo, há um capítulo inteiro sobre o último Teorema de Fermat que foi um problema que os matemáticos tentaram resolver durante trezentos anos e que se chamava o Moby Dick dos matemáticos.
De certa forma, o épico é o mesmo: capturar a baleia branca ou demonstrar um teorema muito difícil. Há pessoas que dedicam a vida inteira a isto.

As equações matemáticas têm semelhanças à resolução de um crime?
Não necessariamente, mas neste caso há um vínculo. A série lógica propõe um problema de abstracto para resolver e parte do interesse do romance é que o leitor pode tentar adivinhar ao mesmo tempo que os investigadores qual é o símbolo que virá a seguir, ou seja, qual será o próximo crime.

Como é que alguém que estudou matemática se transfere para a escrita?
Foi ao contrário. A literatura esteve sempre em primeiro lugar na minha vida. O meu pai foi um escritor amador muito prolífico. Na minha família sempre houve interesse pela literatura e desde criança li muitos livros. A matemática foi um acidente muito posterior, na época de universidade, mas sempre me considerei um escritor. O meu primeiro livro foi escrito quando tinha 14 anos. O primeiro livro de contos surgiu aos 25 anos. A carreira matemática foi algo paralelo, mas posterior.

Então reformulo a questão. Estando ligado à escrita, como decidiu estudar matemática?
Dentro da matemática encontrei alguns temas que me interessavam por terem uma costela filosófica: há temas da lógica, alguns paradoxos lógicos, a discussão dos infinitos. Esse mundo está muito aproximado da literatura. Interessou-me esse aspecto e por isso comecei a estudar dentro da matemática a parte relacionada com lógica matemática.

Aproveita sempre os conhecimentos em matemática nas suas obras?
Nem sempre. Tenho um livro de contos com temas muito variados. Também sou conhecido no meu país pelos contos eróticos. Só no caso de Crimes Imperceptíveis me aproveitei dos meus conhecimentos do mundo académico e do mundo dos matemáticos.

As viagens que faz para promover os seus livros são aproveitadas para retirar ideias?
Sim, sim. Não será impossível que num futuro policial algum momento do enredo decorra no Porto. É uma cidade maravilhosa, do tipo que eu gosto, onde o passado persiste no presente. Há uma convivência entre o passado e o presente e foi por isso que escolhi Oxford como cenário de Crimes Imperceptíveis. Há muitas outras cidades na Europa que conservam o peso dos séculos.

E na Argentina?
Nem tanto. Até porque lá é difícil do ponto de vista policial separar a intriga das ligações com a corrupção e as ligações à política. Assim, é difícil pensar na figura de um investigador independente, que é uma das regras do jogo do policial clássico.

Viveu em Inglaterra durante dois anos. Aproveitou algo dessa sua experiência?^
Sim, claro. O ponto de vista sobre Oxford é o mesmo que eu tive quando estive lá.

Mesmo na construção das personagens?
Não, as personagens são todas fictícias. O investigador (Arthur Seldom) já aparecia num livro anterior. O narrador também é, de certo modo, a continuação dessa personagem de Acerca de Roderer.

 (Entrevista realizada em 2004)

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