Julia Navarro – Entrevista a propósito de “A Irmandade do Santo Sudário”

Julia Navarro, jornalista espanhola, estreou-se aos 50 anos no mundo literário com um romance de aventuras, A Irmandade do Santo Sudário (edição Gótica/Círculo de Leitores em 2004 – nova edição Bertrand em 2015), onde o protagonismo é dado ao manto que terá envolvido o corpo de Cristo. Várias personalidades e sociedades secretas lutam entre si, ao longo de 2000 anos, para se apoderarem da preciosa relíquia. Julia Navarro explicou como nasceu e cresceu a obra, cuja acção até passa por Portugal.

Como lhe ocorreu escrever um romance tendo por protagonista o Santo Sudário?
Por acaso! Já escrevi livros sobre política, ensaios, história e nunca pensei em escrever um romance. Surgiu um dia, ao ler uma notícia perdida num jornal – quando estava na praia – sobre um cientista, um microanalista forense, um dos muitos que estudaram o Santo Sudário. Trazia uma pequena biografia do cientista e uma pequena nota sobre o sudário e a controvérsia que há na comunidade científica sobre a sua autenticidade.
Nunca tinha lido nada sobre o tema, nem me interessara até então, mas ao ler sobre esta controvérsia (há quem diga que o sudário é falso e com origem no século XIV e outros que dizem que é autêntico) a minha imaginação despertou. Comecei a “escrever” mentalmente o romance. Uns dias mais tarde, estava no Sul de Espanha, junto a Portugal, e levei o meu filho ao castelo de Castro Marim (uma fortaleza templária) e aí acabei de “escrever”mentalmente o meu romance. Aí decidi que os templários tinham de ter um papel importante no enredo.

SSÉ tudo ficção?
É um romance de ficção. Está escrito no presente e no passado e há dados sobre o que se diz na lenda do Santo Sudário, como o facto de ele ter aparecido no século IV na cidade de Edessa. Fica aí até ser levado pelos cruzados para Constantinopla. Com todos esses acontecimentos históricos o que faço é montar um romance.

Não temeu ter reacções negativas por parte da Igreja por usar um símbolo como este?
Não, porque este não é um romance contra nada nem ninguém. Não é um romance religioso, mas sim de aventuras. A parte religiosa, trato-a com respeito porque há milhões de pessoas no mundo que acreditam que o Santo Sudário é o manto que envolveu o corpo de Jesus. Há que ter respeito pelas crenças. Nunca seria capaz de usar um elemento religioso para fazer uma burla, uma crítica.

Após ter escrito o romance o Santo Sudário passou a ter algo de poderoso para si?
O Santo Sudário tem algo de especial, transcende algo dele. Talvez seja a fé de milhões de pessoas. Se perguntar se acredito que é na realidade o Santo Sudário respondo: “Não sei”. Mas também a Igreja não o assegura e permite que seja estudado por cientistas. O Papa, há uns anos, visitou a Catedral de Turim e disse que o Santo Sudário era um enorme desafio para a Igreja. Há algo de especial, mas pode ser que seja a fé nele depositada.

A teoria aplicada no romance – a existência de dois sudários – tem algum fundamento?
É mentira, claro. Um padre meu amigo disse-me: “Pena que o tenhas inventado, haveria de ser a verdade”.

É inevitável estabelecer um paralelo com O Código Da Vinci.
Não tem nada a ver, mas não me chateia a comparação. Há muitas diferenças, porque não questiono fundamentos da fé e das crenças dos cristãos, nem entro em discussões sobre a autenticidade do Santo Sudário. O Código da Vinci” pode ter-me beneficiado, mas quando escrevi o romance ainda não tinha sido publicado.

Porque há agora tanto interesse em romances com fundo religioso?
Vivemos numa sociedade com uma enorme crise de valores, e o Homem está a deixar de lado as crenças tradicionais. O Homem desde sempre perguntou de onde vimos, qual o sentido da vida? Essa busca é feita de forma distinta. Às vezes em páginas de livros.

É uma mistura de romance policial com a vertente religiosa. Porquê?
Não é um romance religioso, apenas há uma relíquia que está no meio de uma aventura e de uma investigação policial.

E a Julia Navaro é religiosa?
Sou filha da minha geração, ou seja tive uma educação religiosa e tenho um sentido transcendental da vida: Isso significa que sou religiosa? Não sei, não sei. Acredito em Deus.

Não lhe provocou problemas interiores fazer um romance com um símbolo religioso?
Não, não. A vida tem de ter um sentido para além de estarmos aqui, mas continuamos à procura dessa resposta desde que somos Humanidade. Há pessoas que encontram essas respostas na religião, outras não, como é o meu caso. O Ocidente tem 2000 anos de cultura cristã e independentemente de ser católica praticante ou não estamos impregnados dessa cultura.

Acredita na existência de sociedades secretas como as que há no seu livro?
Acho que sim, no mundo há seitas, pessoas que agem na sombra. Também acho que na sociedade da globalização há pessoas que tomam decisões sobre os nossos países. Apesar de ser chamada de sociedade da informação, está muito mal informada. Aparentemente toda a informação está aí, mas cada vez sabemos menos. Sociedades económicas, multinacionais, tomam decisões sobre o futuro dos nossos países, sem nos apercebermos. Acreditamos que as nossas democracias formais são as que funcionam, mas nesta época há um poder globalizador. Também acredito que há seitas religiosas, formadas por gente fanática, o que me assusta porque no fanatismo há gente que acredita em nome das suas crenças religiosas tudo lhes é permitido. A mim tudo o que seja uma seita, que seja secreto, provoca-me repulsa. Na democracia não há lugar para sombras, nem organizações secretas.

O livro
A Irmandade do Santo Sudário, editada pela Gótica na colecção Cavalo de Tróia e pelo Círculo de Leitores, é um envolvente livro de aventuras, escrito de uma forma simples que cativa o leitor desde a primeira página.
Tudo começa quando ocorre um incêndio na catedral de Turim, onde está religiosamente guardado o Santo Sudário, manto que terá envolvido o corpo de Cristo. No local aparece o cadáver de um homem sem língua e na prisão já penava outro com as mesmas características, que anos antes tentara roubar o sudário. O Departamento de Arte, dirigido pelo detective Marco Valoni e pela historiadora Sofia Galloni, enceta uma empolgante investigação, mas a autora faz-nos também recuar no tempo, passando pelo Império Bizantino, a França de Filipe, o Belo, Portugal e Espanha, sempre com os Templários bem presentes.
Na actualidade os alvos da investigação são homens de negócios cultos e refinados, figuras da Igreja, com o elemento comum de serem solteiros, ricos e poderosos.

(Entrevista realizada em 2004)

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