“Indignação” – Philip Roth

O último romance de Philip Roth, Indignação” (publicado pela Dom Quixote), parece uma história simples… mas não é! Naquelas pouco mais de 170 páginas está um retrato completo (e complexo) de uma determinada América dos anos 50.
Marcus Messner, um jovem membro de uma família de talhantes judeus de Newark, vê na entrada na universidade o modo de escapar ao pai superprotector que lhe atrofia a vida. Assim, opta por uma universidade (a de Winesburg) a centenas de quilómetros de distância, onde se liberta finalmente do pai e do seu talho, a qual tantas horas dedicou na sua infância e juventude. Sob o pretexto da distância, evita, até, as visitas à casa paterna, afastando-se por completo de um pai cada vez mais louco e irracional, obcecado em controlar tudo aquilo que o filho faz. A universidade serve também a Marcus para evitar/adiar uma ida para a Guerra da Coreia como soldado.
Mas a vivência neste mundo salvador que é a universidade, é tudo menos fácil para Marcus, que sente dificuldade em adaptar-se aos seus colegas, em iniciar a sua vida sexual, em lidar com as autoridades universitárias, etc. A questão religiosa é também outras das questões mal resolvidas em Marcus, um judeu minoritário que, nomeadamente, não entende (e questiona) a necessidade de participar nos serviços religiosos obrigatórios da universidade. Tudo isso lhe causa uma série de problemas que vão afectar seriamente o seu rendimento e o dia-a-dia, pouco preparado que está para lidar com os problemas, fruto da superprotecção paterna.
Sem surpresa (alias tal é revelado logo de início,) Marcus Messner tem um triste e irónico fim, originado pelas atitudes e comportamentos que foi tendo ao longo da sua estadia em Winesburg; entrou, progressivamente, numa espiral de descontrolo que lhe cortou por completo o desejo de uma vida estável.
Tudo isto é o pretexto ideal para Roth nos mostrar um pouco mais da América moralista dos anos 50, pois, como já se verificou, são aqui tratados temas como a religião, a guerra, a sexualidade, a família. Fá-lo de uma forma concisa, sem dúvida, mas acutilante, com uma escrita simples mas profunda, encaixando bem o leitor na mente do protagonista Marcus Messner.
Há quem diga que Indignação é um livro menor de Philip Roth. Apetece dizer: quem dera a muitos uma carreira assente em obras menores como esta.

8 pensamentos sobre ““Indignação” – Philip Roth

  1. Francisco Agarez

    Fui o tradutor deste livro. Também por isso, mas não só por isso, gostaria de ter visto o nome do tradutor referido na Vossa recensão. Espero que passem a fazê-lo.
    Cumprimentos

    1. ruiazeredo

      Caro Francisco Agarez,
      Quando criei este blog pensei se deveria ou não referir o autor da tradução. Optei por não o fazer e passo a explicar porquê: um livro é um produto de uma equipa e o trabalho dessa equipa reflecte-se no nome da editora, no caso as Publicações Dom Quixote. Para referir o nome do tradutor teria também (para ser justo) de referir o nome do revisor/editor, do compositor, do autor da capa, do autor da imagem da capa, etc. Como o nome do tradutor por norma vem referido na obra, quem quiser sabê-lo pode sempre procurá-lo lá.
      Por outro lado, opto por nem sequer tentar avaliar a qualidade da tradução. Primeiro, não conheço o original (e quantas vezes os próprios originais são mal trabalhados de origem dificultando o trabalho do tradutor), e, segundo, não sei até que ponto foi fundamental o trabalho do revisor/editor para dar qualidade à tradução. E aqui (tendo em conta a minha experiencia de revisor) sei que há vezes em que é o revisor que salva a tradução. E o revisor sim, muitas vezes não vem referido nas obras (não é o caso da Dom Quixote, note-se).
      Espero que compreenda a minha opção e agradeço-lhe a visita (ou visitas) ao Porta-Livros.
      Cumprimentos,
      Rui Azeredo

  2. Francisco Agarez

    Caro Rui Azeredo,
    Agradeço os seus esclarecimentos. É óbvio que não subscrevo o seu conceito do livro como “produto de uma equipa”, que em última análise nos levaria certamente a omitir o nome do autor. No meu conceito, o tradutor de um livro é o seu segundo autor ou, como diz Umberto Eco, um autor de segunda. Daí que me pareça natural que a identificação do tradutor figure nas recensões aos livros, sem que isso implique qualquer juízo de valor sobre o trabalho de tradução. Quanto à sua experiência de revisor, que lhe permite saber que “há vezes em que é o revisor que salva a tradução”, a única coisa que lhe posso dizer é que a minha experiência é diferente: sempre que um revisor tentou “salvar” uma tradução minha eu opus-me a que esse “salvamento” se concretizasse, mesmo que isso me obrigasse (como já me obrigou) a pôr termo a uma colaboração de muitos anos com uma editora. Mas nunca deixei de dialogar abertamente com os revisores com vista à obtenção de um consenso. São duas coisas diferentes. Até porque não quero contribuir para situações de injustiça: se o revisor “salva” a tradução, quem “salva” a revisão?
    Cumprimentos
    Francisco Agarez

  3. ruiazeredo

    Caro Francisco Agarez,
    Quando o tradutor é o segundo autor (e concordo inteiramente com esta expressão feliz), tudo fica bem – assim fosse sempre!
    Agora, não vamos generalizar. Eu disse “há vezes em que é o revisor que salva…” Vezes não é sempre nem “muitas vezes”. Agora que acontece, acontece, e não é possível (nem justo) negá-lo. Já trabalhei traduções em que o tradutor tinha duas personalidades (ou terão sido duas pessoas a traduzir sem o referir?), ou outras em que metade era traduzido de uma língua original pouco comum em Portugal e a outra metade a partir da tradução espanhola da mesma obra, ou casos de tradutores “conceituados” que acham que devem “melhorar” o trabalho do autor e inventam (é mesmo este o termo) frases e parágrafos inteiros, etc.
    Não estou naturalmente a falar do seu caso porque nunca trabalhei uma tradução sua.
    Agora que há “tradutores” que mancham a sua profissão, lá isso há, assim como “revisores”, naturalmente, e infelizmente.
    Quanto ao conceito de “produto de uma equipa”, são as nossas opiniões, e não havendo concordância, resta-nos respeitá-las e discuti-las saudavelmente, o que aqui se faz 🙂
    De qualquer forma, vou pensar (ainda mais) neste assunto (referir o nome do tradutor) e talvez chegue a outra conclusão.
    Assim, obrigado pelo alerta.
    Cumprimentos,
    Rui Azeredo

  4. Francisco Agarez

    Caro Rui Azeredo,
    Estou de acordo em que, nesta matéria como em tantas outras, generalizar é sempre perigoso e muitas vezes injusto. O que acontece é que, no meu entender, uma tradução que foi salva pela revisão não devia, em princípio, tê-lo sido. Devia ter sido devolvida ao tradutor para que a refizesse, se fosse capaz. Se não fosse… bem, aí entra o problema que julgo ser comum às traduções e às revisões: é que “tradutores” há muitos e, imagino, “revisores” também.
    Não será assim?
    Cumprimentos

    1. ruiazeredo

      Caro Francisco Agarez
      Devolver a tradução seria a solução ideal, mas, curiosamente, nunca vi o responsável por uma editora a optar por esse caminho, sempre com a justificação dos prazos do programa editorial. Também nunca vi nenhum tradutor/revisor ser penalizado monetariamente pelo seu mau desempenho, mesmo quando isso notoriamente prejudicou a empresa que contratou o seu serviço.
      Quando assim é… é porque está tudo bem, e tudo continua na mesma.
      Cumprimentos,
      Rui Azeredo

  5. José Manuel

    Pois eu conheço vários casos em que os colaboradores (externos) foram justamente penalizados pelas editoras pelo seu mau desempenho.

  6. Pingback: Philip Roth vence Man Booker International Prize 2011 | Porta-Livros

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