Sérgio Luís de Carvalho – Entrevista a propósito de “O Destino do Capitão Blanc”

Sérgio Luís de Carvalho, autor do recentemente editado romance O Destino do Capitão Blanc (um lançamento da Planeta), deu uma entrevista ao Porta-Livros onde aborda esta sua obra cuja acção decorre na fase final da Primeira Guerra Mundial. O sidonismo é outros dos temas incluídos neste romance que, em simultâneo, traça um retrato de um homem do seu tempo (o Capitão Blanc), dividido entre a guerra que enfrenta e os seus conflitos interiores. Sérgio Luís de Carvalho aborda e explica, nesta entrevista, o conteúdo do seu livro, assim como nos fala, em termos gerais, do que entende por romance histórico.

O Destino do Capitão Blanc pode ser catalogado como um romance histórico, mas na verdade acaba por ser uma obra bastante intimista centrada na vida e nas relações pessoais de um militar português cujas preocupações vão muito para além da guerra e da política? Como optaria por classificar o seu romance?
Sempre parti do princípio que o chamado romance histórico é um género de literatura no fundo igual a qualquer outro género. Trata das mesmas realidades e questões, só que algures noutro tempo. Por isso, salvaguardando os respectivos contextos narrativos e factos históricos, claro, as questões fulcrais e basilares que Blanc enfrenta em pouco divergem das de um soldado medieval ou das de um legionário romano. Independentemente das conjunturas, da visão do mundo, da realidade de época e do quotidiano, as questões pessoais essenciais estão lá: o medo, o amor, a coragem, o poder, a guerra, o desejo de acertar contas, a vontade do regresso a casa, as saudades, a responsabilidade, a culpa… Poderíamos estar a falar de Ulisses, de Ricardo III ou do soldado Ryan, afinal.
Mas sim, classificaria este romance como “histórico” porque cumpre esse requisito básico: o de se passar no passado e ser baseado num contexto e/ou factos históricos.

Ao arrancar para este projecto, pretendia escrever sobre um indivíduo ou sobre um momento histórico? Ou seja, preocupavam-no mais as questões relacionadas com a complexa vida pessoal do Capitão Blanc ou as relacionadas com o relato da guerra e com o Sidonismo?
Na verdade o que me cativou desde logo foram os eventos das derradeiras horas da Primeira Guerra. Trata-se de algumas das mais estranhas e absurdas horas de que há registo. O armistício é assinado no dia 11 de Novembro pelas 6 horas da manhã, e o cessar-fogo é estipulado para as 11 horas: a 11ª hora, do 11º dia do 11º mês de 1918. Mas as ordens dos altos comandos aliados estipularam que os ataques programados até às 11 horas se mantivessem, desde que nenhum tiro fosse disparado depois das 11 horas. Esta decisão incompreensível conduziu à morte de milhares de soldados. O último morreu às 10.59. E note-se que as derradeiras ofensivas foram desencadeadas contra trincheiras alemãs que iriam ser abandonadas nos dias seguintes, como o armistício estipulava.
Este facto, que surge num dos últimos capítulos do romance, foi, afinal, o ponto de partida. Mas claro que eu queria que um militar português estivesse envolvido nos eventos desse dia. Assim nasceu o capitão Blanc, e começou a forjar a sua própria história, a sua memória, os seus sentimentos, angústias, esperanças. E o romance passou, gradualmente, a girar em torno dele e, claro, dos homens do CEP. Ao fim de pouco tempo, não era o Blanc que girava em função desse massacre, mas esse massacre que começou a tomar sentido em função da história do capitão Blanc. 

O que o levou a optar por este período específico da História de Portugal para servir de pano de fundo ao seu romance?
Antes de mais a evidência histórica. Durante os últimos meses da Primeira Guerra, Sidónio Pais era presidente e o sidonismo era uma força importante, se bem que aqui e ali mostrando já sinais de erosão. Esse contexto era incontornável. Mas o Blanc vai, por analepse, recontando-nos a sua história pessoal que se confunde com os derradeiros anos da monarquia, com a implantação da república e com a divisão do Partido Republicano. Blanc andou pela Sintra e pela Cascais burguesas, pelo Real Colégio Militar (actual Colégio Militar), pela Escola de Guerra (actual Academia Militar), combateu as incursões do Paiva Couceiro, tornou-se sidonista…
Bom, era inevitável que, tomando como ponto de partida (e de chegada) o massacre de 11 de Novembro, o contexto fosse o da guerra de 14-18 e o de Portugal sidonista e republicano.

Os soldados portugueses eram menosprezados pelos seus próprios aliados. Com este romance pretende, nomeadamente, fazer justiça sobre o papel das tropas portuguesas na Primeira Guerra Mundial?  
O sentimento dos restantes soldados aliados pelos nossos soldados não era uniforme. Oscilava entre uma certa e inevitável sobranceria (que a falta de ilustração e até a rusticidade dos muitos soldados do CEP “justificava”) e uma relativa admiração pela sua capacidade de resistência. Estávamos mal equipados e mal preparados, de facto. Depois de La Lys o CEP desagregou-se e passou a servir como tropa de apoio aos ingleses. Cavando trincheiras, por exemplo, o que os nossos soldados “agradeciam”, pois assim não estavam nas primeiras linhas…
Curiosamente, vários estudos estrangeiros que li sobre a Primeira Guerra referem-se à nossa participação de forma muito marginal, e amiúde em termos pouco elogiosos. E, nos seus diários, até alguns dos nossos melhores e mais competentes oficiais são críticos do comportamento de alguma oficialidade e de alguma soldadesca. E dos poderes políticos nacionais, claro.
Não tive intenção de prestar justiça, o romance não tinha esse intuito didáctico. Mas inevitavelmente acabei por deixar que a caneta (ou o teclado) escorresse para uma mal disfarçada admiração por aqueles infelizes. No contexto em que foram, com a preparação que levavam, com as condições que não tinham, era impossível alguém fazer melhor. 

Pensa que em Portugal há um desconhecimento sobre o papel de Portugal na Primeira Guerra Mundial?
Bom, esse desconhecimento recai um pouco sobre variados aspectos da história nacional. Não só sobre o papel de Portugal na Primeira Guerra. Não me cabe aqui explanar as razões dessas lacunas, mas o facto de termos uma longuíssima História, de os nossos alunos e docentes de História terem uma carga horária que torna pouco viável grandes análises dos nossos momentos mais marcantes, de serem escassos os programas/filmes/séries de TV sobre a História nacional, de a produção cinematográfica portuguesa ser escassa, enfim, tudo isso contribui para um certo desconhecimento… É certo que a produção historiográfica portuguesa está ao nível da que se faz lá fora, essa produção dirige-se mais a um público académico.  
Enfim, se desconhecimento há, aplica-se igualmente a inúmeros aspectos da nossa História.

Com os seus romances tenta de alguma forma ensinar algo aos seus leitores sobre a História de Portugal?
Sinceramente, não é esse o principal objectivo. Tento escrever romance, não um tratado/estudo histórico, ainda que dê muita atenção ao rigor histórico. Mas se contribuir para um maior conhecimento de factos e épocas, tanto melhor. Não escrevo romances didácticos, mas ficarei feliz se os meus romances tiverem, no final, um pouco dessa vertente. 

Que tipo de investigação fez para se preparar para este romance? Encontrou muito material disponível?
Nos meses que antecedem a escrita de um romance histórico reúno material que me dê informações fiáveis sobre o assunto em causa. No caso concreto deste romance reuni e li várias obras de referência, desde os estudos de Isabel Pestana Marques, Aniceto Afonso e Matos Gomes, até colectâneas do cancioneiro do CEP ou memórias de ex-combatentes. Também li estudos estrangeiros sobre os eventos dos derradeiros dias do conflito e recolhi vários sites académicos sobre o assunto. Ao longo do romance, e para esclarecer pequenas dúvidas que sempre surgem, contactei instituições credíveis como, por exemplo, museus nacionais e estrangeiros (Museu da Carris, Museu do Automóvel do Caramulo, Imperial War Museum).
Por outras palavras, há um estudo inicial que me dá o grosso da informação e, constantemente, durante a redacção, há um contínuo de estudos para certificar aspectos que me vão surgindo. Por norma reúno várias centenas de páginas de apontamentos. 

O facto de ser um romance histórico não retira liberdade de acção às personagens?
Uma pergunta pertinente. Depende. Se estiver a tratar de uma personagem com uma biografia muito conhecida, pode haver esse problema. Há, nesse caso, menos margem de manobra para efabular. Porém, e tomando como exemplo este romance, o que se verificou é que a personagem central é ficcionada, ainda que movendo-se em cenários e factos históricos. Assim sendo, tive alguma liberdade na construção da personagem, desde que respeite o seu contexto, isto é, desde que construa uma personagem credível no mundo e época em que se move.
Essa “liberdade” é menor, claro, em personagens reais e de biografia histórica conhecida, como é o caso do pintor quatrocentista Konrad Witz, que foi a principal personagem do meu anterior romance, O retábulo de Genebra

Nas partes em que não há registos históricos, ou os que há não são fidedignos, permite-se a recorrer à sua imaginação para preencher essas lacunas?
Decerto, mas com uma grande condicionante: os aspectos romanceados têm de respeitar a época em que decorrem. Por assim dizer usa-se a lógica do “se não existiu, poderia perfeitamente ter existido”. A linha entre realidade histórica e ficção é sempre ténue, mas convém que para o leitor as coisas fiquem claras. Por isso indico genericamente, em apêndice, quais os factos históricos e os efabulados ao longo do romance. 

Os seus estudos em História ditam o tipo de romance que vai escrever, ou admite vir a tentar algo fora do âmbito do romance histórico?
Não despimos a pele da nossa formação em nenhum caso, mesmo em romances “não-históricos”. A nossa formação, a nossa visão da realidade, a forma como usamos a utensilagem dessa nossa formação (académica e não só) no dia a dia e na escrita, estão lá sempre.
Escrevi já alguns romances onde a narrativa histórica coexiste com partes não-históricas (El-Rei pastor, Retrato de S. Jerónimo no seu estudo ou Os peregrinos sem fé), e neste caso essa harmonização exige, mesmo assim, claro, o rigor nas passagens e capítulos históricos. Só escrevi um romance de todo “não-histórico”: Os rios da Babilónia. Mas confesso que me sinto mais confortável a lidar com o romance histórico. 

Pode saber-se se já trabalha em algum novo projecto literário e, se sim, qual é o tema?
Estou, de momento a escrever um romance cuja acção decorre em 1556/57, na raia luso-espanhola, entre Olivença (ao tempo, portuguesa) e Barcarrota (perto de Badajoz). E envolve um estranho mistério. Histórico, de resto…

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