“A Pesca do Salmão no Iémen” – Paul Torday

A Pesca do Salmão no Iémen, como o título deixa antever, é um divertido livro, assinado pelo britânico Paul Torday (editado pela ASA), que aqui dá um excelente exemplo de humor britânico. Tem piada, é inteligente e consegue abordar temas sérios de um modo que parece ligeiro mas que, no fundo, abre espaço à reflexão, nomeadamente no que toca às instituições politicas e às relações internacionais.
A acção decorre entre Inglaterra e o Iémen, mas muito há para observar e aprender na leitura desta obra no que respeita ao comportamento dos políticos e seus assessores, sempre ávidos de lutar pelo seu próprio bem.
Trata-se de uma obra epistolar, mas não no sentido clássico do termo, já que as cartas trocadas entre, por exemplo, dois correspondentes, aqui são substituídas pela reprodução de relatórios, mails pessoais, excertos de reportagens, cartas oficiais, etc., nunca tendo o autor necessitado de recorrer a um narrador, executando ainda assim com mestria a redacção deste romance.
Nesta sua obra de estreia, Torday dá o protagonismo a um obscuro e cinzento investigador, o Dr. Alfred Jones, cujo ponto alto da sua carreira é um ensaio intitulado “Efeitos da crescente acidez da água na larva da mosca-de-água”, que faz grande sucesso nas páginas da revista “Truta & Salmão”. Constantemente humilhado pela mulher, uma administradora de sucesso na alta finança, vê a sua oportunidade de brilhar quando é convidado a criar um rio com salmões no Iémen, de modo a concretizar o sonho do multimilionário xeque Muhammad. De início até rejeitou a ideia, por a achar inconcebível, mas depois, empurrado pelos superiores (e ele próprio mais crente), dá seguimento ao projecto, que tem um sucesso inesperado. Mas do sonho à concretização do projecto (que tem direito a um final alucinante e delirante), o leitor acompanha todas as peripécias que rodeiam a introdução do salmão no Iémen. E desde os problemas pessoais de Alfred Jones e da sua colega Harriet (por quem se apaixona), até aos problemas de recrutamento de terroristas sentidos pelos inimigos do megalómano xeque, acompanhamos todo o processo através do ponto de vista do governo britânico, cujo empenhamento no projecto avança e recua conforme os interesses pessoais dos dirigentes políticos, sempre tendo em conta a opinião da população e dos media.
Sarcástico e irónico, A Pesca do Salmão no Iémen traça um perfeito retrato do modus operandi das instituições governamentais britânicas, com a particularidade de este em tudo se assemelhar aos das portuguesas.
Um livro bem-humorado e inteligente a merecer uma leitura atenta – é preciso estar atento às entrelinhas.
O filme A Pesca do Salmão no Iémen, realizado por Lasse Hallström  e com interpetrações de Ewan McGregor, Emily Blunt, Amr Waked e Kristin Scott Thomas, estreia a 25 de Maio de 2012.
 

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