Montserrat Rico Góngora – Entrevista a propósito de “Passageiros da Neblina”

pla-foto_Monserrat_pequenoMontserrat Rico Góngora, escritora espanhola autora de “Passageiros da Neblina” (Planeta) – obra de ficção que tem como ponto de partida o encontro entre Fernando Pessoa e o mago e satanista Aleister Crowley -, deu uma entrevista ao Porta-Livros sobre este romance onde o mistério está presente em todas as páginas. Mas falou também de si enquanto escritora, dos seus métodos de investigação e de criação e da sua relação com as personagens.  

O que a levou a inspirar-se neste episódio (o encontro entre Fernando Pessoa e Aleister Crowley) como ponto de partida para o seu romance?
Para ser sincera, devo dizer que fui a Portugal no Verão de 2005, pela primeira vez, à procura de um tema português para transportar para os meus livros. Mudar de cenários e época para não prejudicar o esforço literário trata-se apenas de um esforço pessoal. Se assim não fosse, teria a sensação de que escrevia sempre a mesma história. Foi uma coincidência ter escolhido esse encontro, do qual soube quando por acaso fui à Boca do Inferno. Uma vez que me cativava abordar de novo o século XIX e que o cenário de Sintra se prestava a isso, optei por uma história de uma saga familiar, porque o episódio em questão tinha ocorrido em 1930 e fica muito distante da época que queria abordar.  

Nota-se que fez uma profunda investigação histórica, e de ambientes e costumes das épocas retratadas na obra, assim como das próprias terras (nomeadamente Sintra). Como se processou essa investigação?
Convém salientar que esta não é a história de Crowley, nem tão pouco a de Pessoa. Uma espanhola não pode ter a pretensão de explicar nada aos portugueses sobre uma das suas mais importantes personagens. Só encadeei a um pequeno capítulo das suas vidas uma história, uma ilusão literária, com o direito lícito que todos os escritores têm de criar mundos fantásticos. Note-se, contudo, que mesmo o exercício da inspiração exige técnica e credibilidade, e isso obtém-se com anos de esforço e investigação.

Apesar de esta ser uma obra de ficção, há nela personagens reais. Como se sente ao ficcionar sobre pessoas que existiram mesmo? Não sente por vezes que se está a intrometer nas vidas delas?
É preciso que apareçam pontos de referência reais para dar credibilidade a uma obra deste género, mas sempre tive particular cuidado em referi-los. Acho que fazer alusões divulgativas a Darwin, Everets ou Fernando II não colocam em perigo a sua moral após tantos anos. É certo que quanto a Crowley e Pessoa a implicação é maior, mas no fundo quem opina são também personagens fictícias, e as suas considerações não se podem extrapolar à autora. Se o mundo fosse, no exercício da “Criação”, tão pudico, não existiria a Capela Sistina, teríamos queimado as obras de Maquiavel, Platão teria sido condenado como sendo uma espécie de Deus pagão e a Humanidade teria desaparecido na mais terrível das ignorâncias. 

Nas personagens fictícias dos seus romances coloca muito de si mesma ou evita revelar-se?
Não sei como fazem os outros, mas eu deixo lá tudo, embora de uma forma muito dispersa para não ser uma imitação, uma cópia. Quando escrevemos e damos vida aos protagonistas fazemo-lo por atracção ou repulsa, o que implica que nos revelemos um pouco, se bem que a função também exija que sejamos objectivos. 

Aceitaria de bom grado que alguém escrevesse um romance onde você fosse personagem?
Sim, se nesse capítulo isolado nada distorcesse a minha vida real. Quem sabe alguém daqui a meio século me permita conviver nesses romances com o presidente dos Estados Unidos, Obama, que não conheço e que, creio, nunca irei conhecer pessoalmente, pelo que se o objectivo dessa criação é entreter e fazer-me repensar coisas muito mais transcendentes, de certeza que o iria entender. No entanto, há que não esquecer que um romance não é um ensaio histórico, onde não há margem de manobra para a inspiração.

pla-passaA astrologia, o esoterismo, a maçonaria, eram já temas que lhe interessavam antes de se envolver neste “Passageiros da Neblina”?
Já conhecia alguma coisa desses assuntos porque ao escrever o meu anterior romance, “La Abadía profanada”, tive de os investigar, já que mo exigiu o argumento mais desastroso da história do século XX: os delírios dos superiores nazis que, ébrios de poder, ameaçaram o mundo. Confesso que também gosto de escrever romances mais ligeiros, daqueles em que no Sol e na Lua não vemos mais mistérios do que o de iluminar com certa intensidade as nossas vidas. 

Durante as suas investigações encontrou algo de surpreendente sobre Crowley e Pessoa?
Sim, algo que os portugueses se calhar também não sabem sobre o satanista. É preciso admitir que Crowley era um perturbador e que os lugares por onde passou tinham uma aura de maldade. Durante a Primeira Guerra Mundial, Crowley vivia nos Estados Unidos. Por acaso, no Edifício Dakota, o mesmo onde anos mais tarde Roman Polanski filmou “A Semente do Diablo” e onde foi assassinado John Lennon. 

Já esteve em Portugal a promover “Passageiros da Neblina”. Como acha que os portugueses encaram o facto de “pegar” num dos seus grandes vultos da literatura, Fernando Pessoa, para participar num romance?
Alguns portugueses acham bem, outros mal, calculo. De qualquer forma, nesse capítulo do encontro entre Crowley e Pessoa não escrevi nada que não seja correcto em relação à investigação policial que foi feita. A Scotland Yard foi até Portugal. Não foi Samuel Olín, mas o que aconteceu, em traços gerais, foi isso. Talvez Pessoa fosse mais indulgente comigo a julgar-me e entenderia que estranhos caminhos labirintos nos levam aqui e ali durante a criação. Humildemente, acho que não insultei a figura de Pessoa. Se um português escrevesse sobre Cervantes, sobre o nosso insigne e maltratado Lorca ou sobre qualquer das figuras em que reconhecemos a nossa essência cultural, não teríamos de ficar ofendidos. Mais do que isso, diria que teríamos de mostrar gratidão pelo interesse que a nossa história e o nosso acontecer literário pode despertar nos outros. Um escritor espanhol, Pio Baroja, na época do integrismo conservador do século XIX disse que “o carlismo curava-se viajando”. Creio que os receios e os malentendidos com os nossos vizinhos, com o que em geral está próximo, também se tratam assim: conhecendo-se uns aos outros. O que de toda a obra há-de ficar, no fundo, é uma visão do transcendental, daquilo que passa a acervo do espírito humano. Tudo o que resta são desejos de alimentar disputas desnecessárias e de não querer ver os verdadeiros problemas. Não tenho receio do público português, mas antes muito respeito, porque isso nunca deve perder-se. 

O que a atrai no romance histórico. Pensa tentar outros géneros literários?
Tenho já escrito algo inédito, que apesar de ter uma boa envolvência histórica na França e na Itália do século XIX, é mais uma divertida trama psicológica das suas personagens, quase uma espécie de vaudeville

Sei que deixou muito material de fora relativo a Aleister Crowley, uma personagem extremamente rica. Tenciona voltar a esta personagem num dos seus próximos romances?
Não, nunca passo duas vezes pelos mesmos caminhos literários. Disse o mesmo quando me envolvi no romance sobre o Santo Graal. Para mim é muito mais difícil apagar tudo e recomeçar do zero, mas é uma questão de princípio. 

Que projectos literários tem em mente?
Editar um par de romances inéditos e desencantar uns meses de sossego para regressar literariamente a Itália. É um país que me fascina. 

Quando percebeu que ia ser escritora?
Embora possa parecer estranho, quando tinha oito anos. Percebi-o quando me chegaram às mãos os poemas de Antonio Machado.  

Quais são as suas referências literárias, actualmente?
Gosto de muitos autores. Sou das que pensam que se aprende com todos. Nada é demasiado mau, porque escrever é um exercício de reflexão e quando lemos também nos faz reflectir. E é então que o mundo pode ser reinterpretado por nós. 

Também escreve poesia. Qual dos dois géneros prefere?
Os dois: cada um a seu tempo. A prosa, apanho-a eu, vou à sua procura. A poesia vem ter comigo, como um namorado desconfiado, passa de repente ao meu lado, inspira-me e parte. Tenho de admitir que a poesia me ensinou muito para a prosa, sobretudo a capacidade de concretizar as ideias. 

Li uma entrevista sua onde refere que ainda escreve à mão. Ainda mantém essa opção, ou já se deixou tentar pelos computadores?
Não, de maneira nenhuma, os computadores não me dizem nada. Continuo a escrever à mão. É como se não existisse o cordão umbilical que vai desde o sentimento até ao ecrã. Essa seiva tem de sair de um órgão vivo. De qualquer forma reconheço que o computador é um grande invento e esforço-me porque se não posso acabar transformada numa analfabeta funcional.

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