Juan Marsé – Entrevista a propósito de “O Feitiço de Xangai” e “Rabos de Lagartixa”

cl-marseO escritor catalão Juan Marsé passou em 2004 pelo Porto e falou-nos da sua obra. Apesar de extensa e recheada de prémios, até então só dois romances tiveram direito a edição em Portugal (pela mão da Campo das Letras), “O Feitiço de Xangai” (1995) e “Rabos de Lagartixa” (2000). Comum aos dois, assim como ao resto da obra de Marsé, a presença de Barcelona, no fundo a personagem principal deste autor que não nega a influência do cinema na sua forma de escrever.

Tem uma série de personagens muito distintas umas das outras em romances como “Rabos de Lagartixa” ou “O Feitiço de Xangai”, os dois editados em Portugal. O essencial de um romance são as personagens ou a própria acção?
Bem, não saberia desligar uma coisa da outra. Num romance conta-se o que ocorre, o enredo, mas é desenvolvido pelas personagens, que têm de estar muito ajustadas ao enredo.

Mas são personagens muito fortes, não há o risco de superarem a própria acção?
Elas são muitos importantes porque dou grande importância às emoções e aos sentimentos num romance. Assim, a sua dimensão humana é fundamental.

Constrói as personagens antes de escrever ou elas vão-se desenvolvendo com o desenrolar do romance?
É um trabalho conjunto. Não se pode contar uma história e ao mesmo tempo já ter as personagens formadas. Eu trabalho sobre imagens e não sobre ideias. Eu nunca disse: “Gostaria de escrever um romance para demonstrar que certas coisas são erradas”. Tenho umas imagens que são vivências pessoais ou coisas que me contaram e que me sugerem a possibilidade de uma história que tem que ver com essa tema. Mas não ao contrário, não parto de uma ideia, mas sim de uma imagem.

Que tipo de mensagens que pretende passar nas sua obras?
As mensagens têm de estar implícitas no enredo, porque se estão demasiado explícitas já não é um romance com personagens cheias de humanidade, mas um ensaio sobre sociologia, etc. É por isso que escrevo um romance, tenho o trabalho de inventar personagens e torná-las credíveis, senão escrevia um tratado.

Onde se inspira para criar as suas personagens?
É uma mistura de experiências pessoais e de histórias que ouvi contar com a imaginação. A literatura de ficção é isso, é uma mentira. Os romances são todos uma mentira, mas de alguma forma têm de estar ligados ao mundo real.

Coloca factos reais nos seus livros?
Há um componente real, ao qual podemos chamar crónica urbana de Barcelona através dos anos, sobretudo desde os primeiros anos da ditadura franquista até aos últimos. Tem que ver com a minha casa, a minha adolescência, a minha família, mas não estão aí de um forma explícita, estão mascaradas num contexto de pura ficção.

Viveu sempre em Barcelona?
Nasci, cresci e vivi sempre em Barcelona, portanto nos meus romances a cidade é o cenário habitual. Mas há cenas que decorrem noutras cidades, desde Paris até Xangai.

cl-xangaiSempre que escreve já tem a ideia que a acção decorrerá em Barcelona?
Não o penso, a história que estou a contar é que se situa automaticamente e inconscientemente em Barcelona, porque é a cidade que conheço. Que necessidade tenho de mudar de cidade se este é o meu elemento natural? Se o argumento o exige, naturalmente, faço viajar as personagens. Em “O Feitiço de Xangai” grande parte da acção decorre em Xangai, mas é uma cidade onde nunca estive. É uma cidade que conheci através de artigos de jornais, crónicas, histórias que me contaram e da minha fantasia.

cl-rabosMesmo em Barcelona recorre muito à fantasia para descrever o que decorre na cidade?
Há alguns acontecimentos que são históricos. Por exemplo, em “Rabos de Lagartixa” há uma referência a uma greve dos cidadãos de Barcelona aos transportes públicos, que tinham subido de preço. Foi a primeira vez desde a guerra civil espanhola que houve uma greve contra o regime, em que operários e estudantes se uniram. Foi um feito histórico que está documentado.

Nunca colocou personagens reais nos seus romances?
Personagens com o seu nome e apelido não. Aparecem alguns, desde actores de cinema, filmes, ruas. A cenografia é real, mas os bonecos são falsos.

A sua obra completa pode ser considerada uma espécie de guia de Barcelona?
Não, porque entre outras coisas o tempo decorrido modificou de tal forma a cidade que muitas coisas já não existem. A Barcelona dos meus romances é uma cidade mental, vive na minha memória.

As suas personagens têm algo de autobiográfico?
Há elementos que correspondem à minha vida pessoal, familiar, ao meu bairro, às minhas memórias, que têm que ver com o meu passado. Todos temos um passado e mantemos uma relação com ele. Eu faço-o através da literatura. Mas não na medida em que se possa dizer que os meus romances são autobiográficos.

O facto de ser um autor muito premiado é importante para si?
Os prémios literários não tem nada que ver com a literatura, têm que ver com a venda e promoção de livros, e nesse sentido parece-me bem tudo o que se faça pela promoção do livro. Os prémios ajudam a isso, mas a relação directa entre prémio e literatura não existe. O livro se é bom sobrevive ao tempo, tenha sido premiado ou não.

Quando começou a escrever?
Comecei muito jovem, contos e poemas, mas de forma consciente foi aos 17 anos, já com algumas pretensões.

Quais as suas influências?
O cinema e a literatura de quiosque influenciaram-me muito, assim como o romance do século XIX, como Tolstoi. Nunca mais ninguém escreveu nada como “Guerra e Paz”

O autor
Juan Marsé nasceu em Tarragona, na Catalunha, em 1933, e antes de se dedicar à escrita trabalhou em Paris num laboratório e como joalheiro já em Barcelona. Aos 27 anos publicou o seu primeiro romance, “Encerrados com un solo juguete”, a que se seguiram “Esta cara de la luna” (1962) e “Ultima tarde com Teresa” (1965). Tornou-se, entretanto, um autor bastante premiado, mas que só em 1995 foi dado a conhecer aos portugueses graças à editora portuense Campo das Letras. Nesse ano chegou a Portugal “O Feitiço de Xangai”, que em 1993 havia ganho o Prémio Nacional da Crítica em Espanha, e em 1994 o prémio Europa de Literatura. Em 2000 o catalão Juan Marsé lançou “Rabos de Lagartixa”, que teve edição portuguesa apenas em 2003. Esta obra ganhou em Espanha o Prémio Nacional de Narrativa. Em 2008 conquistou o Prémio Cervantes.

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