“O Relatório de Brodeck” – Philippe Claudel

asa-relatorio“Almas Cinzentas” e “A Neta do Senhor Linh” já tinham revelado todo o valor do escritor francês Philippe Claudel e agora “O Relatório de Brodeck” (Edições ASA) só vem confirmar o que já se sabia: trata-se de um romancista excepcional. Claudel não só escreve de forma primorosa, com detalhe e beleza sem nunca ser redundante nem cansativo, como conta histórias simples mas poderosas, onde analisa ao pormenor a mente e os comportamentos humanos, revelando-nos pormenores que podem ser assustadores sobre a condição humana. Basicamente, demonstra que cada um de nós, quando sob pressão, acaba por revelar todo o mal que transporta dentro de si.
A acção de “O Relatório de Brodeck” decorre num tempo e num espaço nunca indicados, mas não é difícil perceber as “colagens” à Segunda Guerra Mundial, aos campos de concentração e, principalmente, ao que cada um fez para poder sobreviver à crise, nem que para isso necessitasse de passar por cima dos outros e dos seus próprios princípios.
Brodeck é um escrivão que, após sobreviver a um campo de concentração, regressa à sua aldeia (em França?), onde vive desde criança, quando lá chegou, órfão e vítima de um outro massacre e de outras perseguições.
A aldeia esteve ocupada durante a guerra por uma das forças em contenda (que pode ser associada ao imaginário nazi) e a população, subserviente, tudo fez para agradar ao invasor, pensando em salvar a própria pele. Brodeck, entretanto, perante a passividade geral, fora enviado para um campo de concentração. Depois dos ocupantes terem partido em debandada com a derrota iminente, Brodeck regressou e acabou por ser aceite, muito para que os locais pudessem expiar o seu sentimento de culpa pelo colaboracionismo.
O que vem alterar a rotina podre da aldeia é a chegada de um estrangeiro, um homem misterioso mas com bons modos e hábitos estranhos, que deixam os locais de sobreaviso, principalmente porque o próprio pouco revela sobre si. Um dia, o estrangeiro exibe os retratos que pintou dos aldeãos durante a sua estadia, quadros pouco lisonjeiros, que os deixam atormentados. Assim, decidem matá-lo, com o beneplácito das autoridades. A Brodeck, aquele que dada a sua profissão de escrivão é o que melhor escreve na aldeia, cabe elaborar um relatório que branqueie o incidente. Só que ele não resiste a escrever um relatório paralelo, com a verdade, onde ao mesmo tempo vai intercalando a sua própria história pessoal naquela aldeia que o acolheu mas que sempre o tratou como alguém diferente, e vai revelando os segredos dos seus vizinhos.
Claudel é sublime na descrição das personalidades, das almas das pessoas, mas também dos ambientes bucólicos das paisagens rurais que preenchem este romance. Enquadra bem as personagens no ambiente criado para desenvolver a história, e faz da aldeia um ser vivo, onde pessoas, casas, pedras, paredes, árvores, animais, etc, todos, compõem este que é, afinal, o grande protagonista deste “O Relatório de Brodeck”.

5 pensamentos sobre ““O Relatório de Brodeck” – Philippe Claudel

  1. Maria Adriana Galvão Garcia

    O melhor livro que li nos últimos tempos. Este ano já tenho um excelente livro para oferecer aos meus amigos. Tão profundo e tão leve!

  2. Isabel Rodrigues

    “O Relatório de Brodeck” é um livro fabuloso, mas ou outros livros de Phillipe Claudel são-no igualmente!
    Quem gosta de ler tem de ler os seus livros.
    E tenho pena que sejam tão publicidados certos livros de qualidade tão duvidosa, e estes vieram ao meu conhecimento por mero acaso!
    E o que acontece comigo acontece com muita gente!

    1. ruiazeredo

      Tem toda a razão, Isabel. Tanto o Relatório de Brodeck como A Neta do Senhor Linh como Almas Cinzentas (os que eu li) são excelentes livros que mereciam mais público.
      Obrigado por visitar o Porta-Livros.

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