Sveva Casati Modignani – Entrevista a propósito de “6 de Abril’96”

asa-sveva2A escritora italiana Sveva Casati Modignani é um fenómeno de vendas em Portugal e no Mundo. Em Julho de 2004, por ocasião do lançamento de “6 de Abril ‘96” (Edições ASA), a autora passou por Portugal, onde se disponibilizou, como sempre faz nestas ocasiões, para contactar com os seus leitores. Na sessão de autógrafos que deu na altura na Feira do Livro do Porto os admiradores esperaram horas por uma dedicatória sempre com direito a uma palavra especial e única para cada um. Nada de mecanismos, tudo natural, de quem gosta do que faz e dos que gostam do que faz. A própria Sveva (de verdadeiro nome Bice Cairati) pode ser considerada uma personagem, mas tão bem fabricada que se torna real como qualquer escritor. E depois escreve de forma simples, mas correcta, sobre o que preocupa as mulheres, desde o amor ao trabalho, pelo que há uma perfeita identificação entre autora e leitora.

 Alguma vez pensou que iria ter o sucesso que tem actualmente?
Claro que não. Quando faço um novo romance tenho a certeza que não vai vender. Agrada-me, mas encontro muitos erros, não de escrita, mas no enredo, nas situações e digo… este livro não vai vender. Mas, de livro para livro, os leitores aumentam.

Tem medo de um fracasso?
Sim. Mas o que me espanta é como os leitores se podem identificar tanto com a história que, no fundo, escrevo para mim. Escrevo uma história que me agrada e espanta-me que depois agrade aos outros. É sempre uma surpresa.

Então não consegue explicar seu próprio sucesso?
Só posso dizer que estou abençoada, não sei.

Não pensa no público quando escreve, só pensa em si?
Sim, porque desejo, dado que não gosto de mim, tentar inventar personagens que não sou eu e à volta das quais fantasio para mim. Assim, ao fim de tantos anos, não sei se estou a viver a minha vida ou a das mulheres que conto.

Então vive o sonho dos sonhos de muitas pessoas?
Gostaria que a vida de cada um nós fosse como o conteúdo dos livros, onde é possível intervir e corrigir, cancelar as coisas, mas como isto não se pode fazer inventei o jogo de contar histórias para o poder fazer.

Fiquei surpreendido com a recepção que teve na Feira do Livro do Porto. É sempre assim?
Sinto que à minha volta há leitores que me amam. Quantas vezes acontece haver um grande escritor que é dificilmente interpretável para quem lê? O leitor sente que não compreende. A minha escrita é plana que qualquer um, rapaz ou rapariga, a pode perceber, mesmo as pessoas com menos cultura.

“6 de Abril ‘96” é um livro essencialmente vocacionado para um público feminino?
De início, quando há 23 anos comecei a publicar, tinha principalmente leitoras, mas com o passar dos anos descobri que tinha muitos leitores masculinos.

Mas a sua intenção é escrever para mulheres ou homens?
Para mim.

Então é para mulheres?!
Sim… (hesitação), mas para mim.

Pretende fazer passar alguma mensagem nos seus livros?
Não. Eu, sim, estou à espera de mensagens e de quem mas dê. Cada livro é um confronto com o mundo feminino, o que sucede à minha volta, o que acontece à volta das mulheres. Agrada-me imaginar que no sentido dos homens as mulheres são muito difíceis de interpretar e os homens nem sempre as entendem. Gosto de pensar que há leitores curiosos que se deixam fascinar por estes mistérios do universo feminino.

No livro há uma bela história, mas com muito sofrimento pelo meio.
Sim, porque a vida das mulheres não é nada fácil. Desde o início da História sempre foram consideradas seres humanos de segunda classe. Na civilização grega, os gregos descobriram tudo, inventaram a democracia. Estas pessoas tão evoluídas intelectualmente inventaram uma divisão da casa para onde relegavam as mulheres, que não podiam de forma alguma intervir na vida social. Os homens serviam-se delas unicamente para preservar a espécie. Se queriam fazer amor, não precisavam das mulheres. Na civilização romana, quando numa família nascia uma menina, esta era posta aos pés do pai. Se o pai a recolhesse, era aceite, mas se a deixasse era rejeitada. Desde sempre foram ofendidas e humilhadas e carregaram sobre os ombros o peso da família e da sociedade. Sempre fizeram duplo trabalho, em casa e fora. Sinto que teria matéria suficiente para continuar a falar desta grande injustiça do mundo das mulheres. Hoje há uma guerra terrível que afecta todo o mundo. Não é estranho que todas estas decisões sejam tomadas exclusivamente por homens? Não será que o poder do mundo poderia ser partilhado entre homem e mulher? Há 2000 anos houve um milagre e nasceu na Terra uma pessoa chamado Jesus. Pela primeira vez na História do Mundo Jesus pregou uma religião feminista. Rodeou-se de mulheres e que melhor novidade poderia trazer do que a palavra perdão, que no mundo antigo era desconhecida? Ora o perdão é uma prerrogativa exclusiva das mulheres. Tanto assim que quem acolhe o verbo e a doutrina cristã foram principalmente as mulheres. E foram elas a converter o Homem ao cristianismo. Quando é que o cristianismo se tornou numa religião machista? Quando o Homem percebeu que disso podia fazer negócio. Em nome de Cristo, levando a cruz ao Mundo, começaram a fazer as coisas mais assustadoras. Começaram com as Cruzadas, onde massacraram muita gente. Entretanto, enquanto iam combater, deixavam as cidades, as aldeias e os campos nas mãos das mulheres e viveram-se momentos de grande serenidade e paz. Os homens, levando a cruz, destruíram a população americana, inventaram a Santa Inquisição.
Parece-me que chegou o momento em que as mulheres poderiam dar-se conta de quão belas e fortes são e encontrem a coragem de dizer estamos aqui e vamos dar uma ajuda. Pode ser que as coisas corram melhor.

Acha que essas mudanças podem acontecer num curto espaço de tempo?
Oh, não! Porque as primeiras a não ter confiança são as próprias mulheres. Não se apercebem das suas potencialidades.

Porque acontece dessa forma?
Houve sempre uma grande discriminação, as mulheres têm ainda um grande caminho a percorrer porque na verdade não têm os mesmos direitos do homem. Em Itália, num emprego uma mulher ganha sempre menos do que um homem. Nas multinacionais, quando há uma promoção entre uma mulher muito cotada e um homem, é sempre este o promovido.

Um livro como o seu é um pequeno empurrão para fomentar essas alterações?
Gostaria de acreditar nisso, mas não penso que seja assim. As coisas que eu conto são as que eu gosto de pensar e raciocinar. As mulheres que as lêem, entendem-nas com tanto coração, com tanto envolvimento, com tanta paixão, mas o homem, afinal, teme as nossas qualidades, as nossas inteligência e faz de tudo para nos manter na cozinha.

Tem milhões de leitores, o que é uma grande responsabilidade. Tem medo dessa responsabilidade?
Não, porque como já disse escrevo para mim.

Tem muito sucesso junto do público. Como funcionam as coisas junto da crítica literária?
Não conheço um crítico que possa falar mal das minhas histórias. Acho que têm muito respeito por este romance, no sentido em que do ponto de vista linguístico sou absolutamente correcta e do ponto de vista do enredo narrativo não há outro autor em Itália que arrisque a escrever uma história com um mosaico tão bem urdido. Esta Sveva é uma autora outsider, absolutamente exterior à actual corrente literária, pelo que me respeitam muito.

Mas ao mesmo tempo algumas pessoas podem invejar o seu sucesso?
Se a inveja existe eu não a vejo. Isso não é importante. O que é belo e surpreendente é encontrar leitores que me dizem: obrigado por ter escrito uma história que me faz companhia, que me faz pensar, que me faz descobrir o mundo. Isto é muito gratificante.

(Entrevista realizada em 2004)

asa-6abrilSinopse de “6 de abril’96”
«Numa manhã de Verão, na igreja milanesa de San Marco, uma jovem e belíssima mulher é brutalmente atacada. Quando desperta da delicada cirurgia a que foi entretanto submetida tem perante si a difícil tarefa de recuperar a sua própria identidade, já que a violência de que foi vítima lhe provocou a perda da memória. As recordações avivam-se pouco a pouco e é penosamente que ela recompõe a sua história e a da sua família. Mas é um processo doloroso, pois Irene Cordero – é este o seu nome – carrega consigo uma pesada herança. Já a mãe e a avó haviam pago caro as tentativas de seguir os ditames do seu coração, violando a moral, as convenções e a cultura de um mundo rural que as obrigava à submissão e à obediência; um doloroso estigma que tão-pouco poupa Irene que, com apenas dezoito anos, abandona o campo e parte em busca do seu próprio caminho. Porém, não obstante o sucesso profissional e o bem-estar económico, Irene não consegue encontrar o equilíbrio emocional. Será necessária uma crise profunda para que ela encontre forças para se renovar, para fazer as pazes com o passado e para aguardar o amanhã com serenidade e confiança.»

Um pensamento sobre “Sveva Casati Modignani – Entrevista a propósito de “6 de Abril’96”

  1. Conceição pires

    Não posso dizer que gostei mais deste ou daquele livro,já os li todos menos o que saiu agora ” O Jogo da Verdade” o que digo e afirmo é que são todos maravilhosos, tu começas a ler e não te apetece parar e quando acabas ficas com uma pena imensa que não esteja logo outro para leres. Obrigado pelos momentos magníficos que nos tens dado , és uma grande escritora.

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