“Lucky Luke no Quebeque”, um virar de página

asa-quebeque“Lucky Luke no Quebeque” vai, inevitavelmente, marcar a vida de um dos mais prestigiados e clássicos heróis da banda desenhada internacional: Lucky Luke.
Perto de completar cinquenta anos – e já no 72º álbum –, o cowboy que dispara mais rápido do que a própria sombra aparece renascido neste álbum depois de alguns anos de estagnação, correspondentes à última fase da vida do seu criador, Morris.
Chegou agora a Portugal (através das Edições ASA) o primeiro resultado da nova aposta da editora francesa Dargaud para dar vida ao dono de Jolly Jumper, “Lucky Luke no Quebeque”, no original “La Belle Province” – trata-se de um trocadilho, já que tanto identifica a província francófona do Canadá como a égua (Province) pela qual Jolly Jumper se apaixona.
A 25 de Outubro de 2004, quase na hora do regresso a França após uma breve passagem por Portugal, os autores do “novo” Lucky Luke, Laurent Gerra (argumento) e Achdé (desenho) conversaram comigo (via telefone e em trânsito para o aeroporto) sobre a experiência de trabalhar uma aventura de tão notável personalidade da BD.
Gerra – mais conhecido em França pela sua condição de humorista de TV e rádio – revelou que a princípio “disse não” ao convite: “O meu ‘métier’ não era esse”. Contudo, depois de pensar melhor, achou que se fosse formada uma “boa equipa” o caso poderia mudar de figura. Finalmente, aceitou o desafio “porque havia uma boa ideia”, disse, reportando-se à pretensão de situar a história no Quebeque (província francófona do Canadá), fazendo um paralelo com a história dos irredutíveis gauleses de Astérix.
“Conhecia uma pessoa na Dargaud e acabou por convencer-me. Assim, em vez de fazer o que seria habitual como passo seguinte, o cinema, fui para a banda desenhada”, explicou.
Gerra mostrou-se satisfeito também com a parceria com Achdé: “Ele faz uns desenhos dinâmicos, com cenários ricos”, reconhecendo aqui, implicitamente, que os últimos anos do herói andavam longe do seu auge.
O entendimento entre ambos foi fácil: “Fui ajudado pelo meu desenhador preferido, não foi preciso andar a golpes de pistola” (risos).
Gerra entende que Lucky Luke é um herói com um grande futuro à sua frente, que terá um sucesso não apenas sustentado nos fãs do passado mas também nas novas gerações.
Quanto a “Lucky Luke no Quebeque” ficou “contente” com o resultado final, embora reconheça que há coisas a melhorar. “Mas aí também é o público que tem de dar uma resposta”, elucidou.
Já o desenhador Achdé reconheceu a dificuldade de “suceder a um mestre da BD como Morris, que já tinha inventado tudo”. Mas explicou que não podia recusar o desafio porque “antes de ser desenhador já era um admirador”.
“Era uma grande responsabilidade”, reconheceu, mas ao mesmo tempo “um sonho de criança”. E adiantou que era “um desafio, um exercício difícil, mas acima de tudo, um prazer”.
Achdé não se sentiu limitado por ter de desenhar uma personagem já existente e tão carismática e considera mesmo que lhe abriu “novos horizontes”.
“Onde é que eu iria desenhar um cavalo?”, questionou ironicamente.
Paralelamente, deu-lhe um prazer imenso constatar “a reacção do público, como aconteceu aqui em Portugal, no Canadá, na Escandinávia, em França”.
Achdé pretende dar um cunho próprio à personagem, mas sabe que não pode mexer muito na tradição. No entanto, admite que haja “pequenas modificações, tal como fazia Morris ao longo dos anos”. As suas maiores alterações serão a nível de “enquadramento, como no cinema, com câmaras e planos mais ousados”. Uma coisa garantiu: “Tudo farei para continuar a dar prazer ao público”.
Um dos objectivos será devolver a Lucky Luke o glamour e fama que já teve nas décadas de 60 e 70 do século XX. A inclusão de novas personagens está também prevista, tais como “índios, mexicanos, personagens reais do Oeste”, mas sem a pretensão de “mudar tudo”.~
Três anos após a morte de Morris e 17 após a de Goscinny, Lucky Luke e companhia estão em excelentes mãos. “Lucky Luke no Quebeque” é apenas a primeira prova.
Trata-se de um álbum com uma boa história base e outras secundárias de grande humor – como a da paixão de Jolly Jumper pela égua Província – ilustrada com vivacidade e movimento, um nível que parecia já perdido na série. Grande aventura de Lucky Luke no Canadá (atrás de um velhaco que pensa que o dinheiro compra tudo), onde aparecem personagens baseadas em personalidades reais como Levy Strauss (inventor dos jeans) e Celine Dion (aqui retratada como uma cantora de “gritos”).

asa-achdeAchdé (Desenhador)
Achdé, o novo desenhador de Lucky Luke, nasceu em 1961 em Lyon (França), tendo por verdadeiro nome Hervé Darmenton. Com apenas três anos desenhou a sua primeira aventura, a de um valente cavaleiro que salva uma dama. Seis anos mais tarde comprou o seu primeiro livro de BD, ”Lucky Luke Contre Phil Defer”.
Aos 14 anos, publicou a sua primeira banda desenhada numa fanzine e é nessa altura que decide que vai tornar-se autor de BD. Problemas na Matemática levam-no a desistir dos estudos e vai trabalhar como manipulador de ecrãs num consultório de radiologia. Depois montou um estúdio de criação e uma agência de publicidade em Nîmes, passando ainda a desenhar para o Midi Libre e outros jornais.
Em 1988, publicou o seu primeiro Destins Croisés e assinou em 1991 o primeiro contrato na Dargaud.
Em 1993 lançou a série humorística CRS=Détresse.

asa-gerraGerra (Argumentista)
Laurent Gerra é o humorista mais popular de França e tem desde jovem uma grande paixão pela banda desenhada.
Nasceu em Bourg-en-Bresse, França, em 1967, onde na casa de família possui uma vasta colecção de BD. Conhecido pelos seus trabalhos humorísticos na rádio e na televisão, aceitou o desafio da banda desenhada e com afinco preparou o seu primeiro argumento: “Lucky Luke no Quebeque”.

 (Artigo concebido em 2004)

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