Carlos Almeida – Entrevista a propósito de “Os Senhores da Vida e da Morte”

carlosalmeidafotoCarlos Almeida, autor de “Os Senhores da Vida e da Morte”, obra recentemente editada pela Mill Books, deu uma entrevista ao Porta-Livros onde falou precisamente do seu livro, um romance muito intenso e doloroso onde a morte é a protagonista, exaltando, por consequência, o valor da vida. Carlos Almeida revelou para chegar a este romance se inspirou num caso vivido por si de perto e alertou que é necessário dar uma outra atenção à vida.

As experiências relatadas no romance são muito intensas, muito reais. São experiências vividas por si no seu dia-a-dia, ou seja, baseou-se em casos reais que conhecia?
Sim. Nós somos o retrato daquilo que vivemos, e penso que quando escrevo não posso escapar às sensações que um dia vivi, acompanhei, retratando-as no papel. Mas neste caso, tinha de ser assim, pois para poder descrever a morte e a vida no seu expoente máximo tive de descrever uma situação que acompanhei de perto, e está retratada na história de André. Claro que a própria é depois trabalhada de forma a estar enquadrada no desenrolar do livro. Mas também quero acrescentar que gosto de escrever sensorialmente, pois tenho de sentir o que escrevo.

Fez algum tempo de investigação, desde leituras a entrevistas?
A investigação para este livro passou pelo reunir de uma história, como atrás referi, que acompanhei, mas também de conversas que tenho tido ao longo dos anos com médicos, juristas, pessoas anónimas no seu geral, sobre o tema Vida e Morte, nos seus vários pontos de vista (eutanásia, religião e a morte, etc.) e assim criei este enredo que tem “Os Senhores da Vida e da Morte”. Quanto a livros, não escondo que “As Intermitências da Morte” de Saramago foi também um complemento de ideias para conceber esta obra. Adoro o seu início, o dia em que ninguém morreu…

O que o estimulou a escrever sobre este tema, a morte por oposição (ou complemento) à vida?
O tema vida é dos que gosto muito de debater. Não do ponto de vista esotérico, ou pela discussão sócio-religiosa, mas sim pela simplicidade da sua riqueza, afinal a vida é a maior das riquezas que temos e tantas vezes a tratamos mal. Mas a vida sem a morte não pode existir, são duas verdades que vivem ligadas, entrelaçadas na nossa existência. Algo que sempre me fez uma real confusão, foi verificar que as pessoas teimam em dar o real valor à vida quando estão perante a morte. Desperdiçam a vida em coisas fúteis, vazias, sem vida, e depois, quando estão perante a morte, lembram-se que estão vivos. Mas no meio disto, vão desenvolvendo um enorme medo da morte, o que as faz estarem cada vez mais distantes da vida. Concordo consigo, a morte é um complemento à vida e temos de aceitar isso, com o medo natural de se gostar tanto de viver que não se quer morrer cedo. Só assim teremos a capacidade de olhar a vida com o agrado que ela merece. Mas estamos sempre a tempo de aceitar a morte. E aqui entra outro ponto que me levou a escrever este livro, onde está afinal a vida, mesmo depois da morte? Ao longo da História da Humanidade, o Homem foi dando demasiada importância ao corpo, por isso se venera tanto um corpo na morte, e por isso existe a necessidade de existirem locais de “culto” como os cemitérios (para mim apenas locais para perpetuar a dor da perda). Mas seremos nós apenas corpos? Penso que somos muito mais do que isso. Somos uma essência, que vive para lá do corpo. Costumo dizer que existe uma diferença entre morrer e falecer. Morrer é estarmos sós por completo na essência dos sentimentos, mesmo que ainda exista um corpo vivo, mas falecer é estarmos bem vivos na essência dos sentimentos, mas infelizmente o corpo já não existe. E isto está retratado no belíssimo poema do Henry Scott Holland, que um dia li num editorial da Laurinda Alves, na extinta (infelizmente) revista XIS. E nesse dia foi quando começou a semente desta obra. Temos de aprender a encontrar as pessoas, depois da partida do corpo, na essência dos sentimentos, ou seja, eu hoje encontro aqueles que já não têm o seu corpo vivo perto do meu, nas mais variadas formas, no vento, no sol pela manhã, numa música que escutamos, num local onde estivemos, numa simples conversa que tivemos… e isso é a vida. E eles continuam todos vivos, tomaram foi outra forma, outro “corpo”. Uma confissão, eu praticamente evito ir a funerais… porque é que temos de fazer o dito luto numa celebração de enterro completo de alguém que amámos e ainda amamos? Temos é de guardar a sua existência viva e repleta de essência desse mesmo amor.

Tratou-se de um processo muito doloroso escrever sobre esta temática? Pergunto isto porque pode ser doloroso ler o seu livro.
Não escondo que a história de André foi difícil. Mas foi também quase uma forma que encontrei para exprimir a dor que senti, porque mesmo que a essência seja fundamental, o corpo também o é, e precisava de o fazer. Mas tinha de ser escrito assim, senão não conseguiria o meu grande objectivo, que era pôr as pessoas a pensar sobre este tema, vida e morte, e para isso por vezes é necessário ser quase cruel nas descrições e forte nas sensações. Tinha de ser esta forma crua, nua e pura de relatar a morte, mas também a vida, para conseguir o meu objectivo.

Pensa na sua própria morte e como eventualmente a vai encarar?
Claro que penso. Como a vou encarar é que não sei, porque, como diz Agostinho da Silva, como podemos falar de algo que desconhecemos? É uma certeza, por isso prefiro viver da forma mais intensa que puder e depois quando chegar a morte, chegou.

mb-srs corvosmb-senhores1O seu livro tem uma particularidade que vai para além do conteúdo – tem duas capas distintas. Como surgiu esta ideia e já agora qual a sua preferida?
Bem, começo pelo fim da questão, se não se importa. A minha preferida é a capa das mãos, mas apenas porque acompanhei mais de perto a sua concepção. Quanto à dos corvos, gosto da capa, e fiquei a gostar ainda mais depois de a ter visto ao vivo. São as duas excelentes capas. A ideia surgiu depois de uma sugestão do Luís Miguel Rocha (editor) de ter duas capas que retratassem os dois senhores, o Senhor da Vida (mãos, ligações) e o Senhor da Morte (Corvos), e deixarmos a escolha ao leitor, segundo o seu estado de espírito. Gostei desde logo da ideia e assim ficaram as duas capas.

Qual foi a sensação de ter um livro à venda? Como tem vivido estes primeiros tempos de autor com obra publicada? Está a corresponder às suas expectativas?
A sensação de ter um livro à venda não é propriamente nova, pois este já é o meu segundo livro, depois do “11-M, o 11 de Março em Madrid”. Mas agora tudo é diferente, pois a Mill Books é uma editora de carácter nacional, outra dimensão que ainda não tinha vivido, e por aí está a ser fantástico. Estes dias têm sido intensos, pois ter de gerir sensações fortes por vezes não é fácil, mas vai-se aprendendo com os anos. Está a corresponder às minhas expectativas, porque quem tem lido não fica indiferente, e estamos a levar o livro ao maior número de pessoas. No próximo dia 30 de Maio, em Gaia, vou ter uma apresentação interessante na Almedina do Arrábida Shopping, com a presença do Prof. Daniel Serrão e do jornalista Alberto Serra. Acho que isto responde da melhor maneira às minhas expectativas… em alta.

Já tem novos projectos a nível de escrita?
Sim, estou neste momento a iniciar dois novos livros. Vou dar preferência a um que penso que irá mexer consciências religiosas. Fala como as religiões vieram mais para separar os homens do que para uni-los. O segundo é o anónimo na construção das nações ibéricas, mas ficará um pouco para mais tarde.

Quais são as suas influências literárias?
Eu costumo dizer que a minha maior influência literária é um papel em branco, pois não consigo passar sem escrever nele algo. Mas claro que tenho as minhas ligações literárias, mais latinas: Gabriel García Marquez, Mario Vargas Llosa, Camilo José Cela e o filósofo espanhol Miguel de Unamuno. Portugueses, Agustina Bessa-Luís e José Cardoso Pires, sem dúvida.

É um novo autor no panorama literário português. Não quer apresentar-se brevemente aos seus leitores ou futuros leitores?
Defendo que um livro é uma semente que se deita na terra personalizada pelo papel, que se rega com frases e palavras, vai-se alimentando com histórias e quando a árvore der fruto, então o livro está pronto. Eu sou um jardineiro de letras, e quero com a minha escrita transformar os momentos de leitura das pessoas em sensações, em sentimentos fortes e duradoiros, em ligações. Uma reflexão por instantes ao ler um dos meus livros, é sinal que o fruto da árvore é gostoso e maduro. Quero dizer às pessoas que é possível vivermos a vida como uma poesia, transformando o tempo numa estrofe humanista e virtuosa pelos sonhos, porque o poeta sempre defendeu que o sonho comanda a vida. E termino apenas dizendo que se escreve muito bem em Portugal, no nosso belo e altivo português.

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