“O Paraíso na Outra Esquina” – Mario Vargas Llosa

paraiso-esquinaA chegada ao Paraíso é o ponto comum das duas personagens principais do romance “O Paraíso na Outra Esquina”, do consagrado escritor peruano Mario Vargas Llosa, editado em Portugal pela Dom Quixote.

A partir de uma ideia bastante original e de forma perfeita transposta para o papel, Llosa conta as histórias de Flora Tristán (que em meados do século XIX tentou fomentar a construção de uma sociedade perfeita, com respeito pelos operários e pela mulheres) e do seu neto, que nunca conheceu, o pintor Paul Gauguin (que partiu à procura de um mundo ímpio no Taiti em finais do mesmo século).

Um dos pontos mais interessantes da obra é que poderíamos estar na presença de duas biografias separadas, já que nunca há cruzamentos entre as duas histórias – aliás, só na página 88 Gauguin pela primeira vez evoca a memória da avó. No entanto, nem por isso o livro se parte, já que ambos os percursos, embora distintos, são descritos em paralelo, como se pudessem ser um único. Em comum há a força e o sofrimento, e a vontade de nunca desistir.

Flora era uma revolucionária altruísta, que percorreu a França a tentar unir os operários para que formassem uma sociedade perfeita, onde todos tivessem os mesmos direitos e oportunidades, incluindo as então muito maltratadas mulheres.

Mesmo minada pela doença e por um passado traumático na pele de esposa, não desistiu da sua luta, contra ventos e marés, sempre a pensar no bem dos outros, depois de ela própria ter vivido em meios faustosos e poderosos. Insatisfeita com as injustiças do mundo, de tudo abdicou (do amor, da família,

etc) para levar a sua causa por diante e tentar criar um Paraíso para todos.

Já o pintor Gauguin, também ele no início da idade adulta membro da alta sociedade parisiense, dessa vida se fartou e partiu para o Taiti, onde, só para si, procurou um Paraíso primitivo. Deixando tudo para trás, buscou nas ilhas uma forma de vida que julgava ainda em estado puro. Não a encontrou por o Ocidente já tudo ter “corrompido”, mas não desistiu, procurando mais para o interior e depois em outras ilhas. Entretanto, ia deitando para a tela as suas visões daquele mundo novo, que mesmo assim tanto o fascinava.

Mas, na realidade, apesar de tudo pôr em quadros e esculturas, era só para si que queria o Paraíso, tentando sugar a todo custo histórias dos antepassados dos nativos, tentando encontrar as tradições que já não existiam. Também minado pela doença, muito sofreu para encontrar o que pretendia, num esforço inglório.

Avó e neto lutaram sem conseguir, mas não desistiram, sendo exemplos, cada um à sua maneira, de que vale a pena lutar pelos sonhos.

Mario Vargas Llosa resolveu homenageá-los numa obra notável e original na sua construção, que chegou às nossas mãos através das Publicações Dom Quixote.

3 pensamentos sobre ““O Paraíso na Outra Esquina” – Mario Vargas Llosa

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