“O Capitão Tormenta” – Emilio Salgari

capatormenta1É sempre com algum receio que me dedico a (re)apreciar algo que na minha juventude me marcou. Passa-se isso com filmes e, principalmente, com séries. Ao rever “Espaço 1999” e “Galáctica”, a decepção foi enorme. “Era disto que eu gostava?” E não foi só por causa dos efeitos especiais, os argumentos parecem-me demasiado básicos mesmo se comparados com séries similares da actualidade.

Assim, foi com um misto de entusiasmo e temor que me dediquei à tarefa de regressar a Emílio Salgari, através de “O Capitão Tormenta”, volume incluído na colecção Viva Salgari! que a editora Via Óptima teve a feliz ideia e o bom senso de lançar no princípio de 2009.

Com Salgari tinha medo que sucedesse o mesmo que, por exemplo, aconteceu com as referidas séries de ficção científica, apesar de estar ciente que o meio era diferente – à partida um livro terá mais facilidade em sobreviver aos anos, e não só por estar imune ao peso dos anos, ao contrário dos efeitos especiais televisivos, por exemplo. Mas não, desta vez, tratou-se de um bom regresso ao passado, mais propriamente uma redescoberta. “O Capitão Tormenta” é uma excelente história de aventuras, onde não faltam os habituais ingredientes: lutas de espadas, combates ferozes, difíceis navegações a bordo de galeras e afins, sempre a um ritmo intenso. Um pouco um recheio a que hoje em dia recorre mais o cinema do que a própria literatura.

Este livro, um original de 1905, tem a particularidade de apresentar por protagonista uma mulher, se bem que quase sempre disfarçada de homem. O Capitão Tormenta é na realidade a Duquesa Eleonora, uma italiana que se faz passar por homem para melhor poder levar a cabo a sua tarefa: resgatar das mãos dos turcos o seu amado, o visconde Le Hussière. Enquadrada a trama no século XVI, durante o assédio dos Turcos aos últimos bastiões do Mediterrâneo, vemos o Capitão Tormenta a destacar-se enquanto corajoso cavaleiro, conquistando inclusive o respeito de adversários. Aliás, uma nota dominante nesta obra é o respeito existente entre inimigos (não, todos, claro), respeitando uma série de regras cavalheirescas que podem até parecer estranhas em plena guerra.

O livro é uma constante de acção, mas uma acção não gratuita, ou seja, nada aparece de forma forçada, nada aparece só pela necessidade de animação. Salgari introduz estes elementos com naturalidade, construindo um história bem sustentada e com algumas personagens bem interessantes. O Capitão Tormenta/Eleonora é sem duvida a mais interessante, dada a sua dupla personalidade, mas também o Leão de Damasco (seu inimigo/admirador) ou a insuportável, irascível e ambiciosa Haradja.

A geopolítica da época no Mediterrâneo é outro dos pontos de interesse, dada a profusão de povos em contenda e de alianças estratégicas que são acordadas.

Este volume da colecção Viva Salgari! vem ainda enriquecido com uma introdução interessantíssima sobra a vida e obra de Emílio Salgari, assinada por Luís Torres Fontes, editor da Via Óptima, assim como por uma completa bibliografia salgariana.

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7 responses to ““O Capitão Tormenta” – Emilio Salgari

  1. Há uns anos comprei alguns livros do Corsário Negro e também A Montanha de Luz, que nunca tinha lido. Reli (Corsário Negro) e li (A Montanha de Luz) num ápice. Achei as histórias tão absorventes como quando as li na adolescência. Espero ler o Capitão Tormenta em breve. 😉
    (Encontrei este site interessante e muito informativo acerca do Emilio Salgari: http://salgari.com.sapo.pt/index.html)

  2. Olá. Também li “A montanha de luz” de Emilio Salgari, bem como alguns de Sandokan.
    Gostaria de comprar “A montanha de luz”, mas não encontro em lado algum…. Alguém me pode ajudar? Abraço. V

    • Eu comprei “A Montanha de Luz” num alfarrabista do Porto (“Chaminé da Mota”, na Rua das Flores).
      Neste ou noutro alfarrabista, talvez consiga arranjar várias obras do Salgari

  3. Vitinha vai à Alfarrabista Avelar Machado em Lisboa

  4. Castor Amaral Filho

    Na juventude li Capitão Tormenta e a história marcou profundamente minha memória, especialmente porque tem uma continuação, O Leão de Damasco, que apesar de várias tentativas nunca consegui encontrar para comprar. Seria possível indicar onde posso comprar os dois livros, pois a história é hipnotizante e gostaria muito de chegar ao término da saga. Saga essa, aliás, que certamente merece um filme épico.

  5. Olá, estou lendo O Leão de Damasco e apesar de que no início do livro informar que não é uma continuação, fiquei um pouco confusa a respeito da história.
    Gostei muito do seu post e foi de grande ajuda para conpreender o livro.
    Essa é minha primeira experiência em ler Emílio Salgari.

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