Luís Novais – Entrevista a propósito de “Quando o Sol se Põe em Machu Pichu” (Esfera do Caos)

luis-novais1Luís Novais entrou de rompante no panorama literário nacional em 2008 com “Quando o Sol se Põe em Machu Pichu”, romance que esgotou as duas primeiras edições (entre Abril e Maio desse ano) e ao qual já se seguiu em Fevereiro de 2009 “Os Parricidas” (cuja primeira edição já esgotou também), ambos editados pela Esfera do Caos. “Quando o Sol se Põe em Machu Pichu” é uma obra que, antes de mais, surpreendeu pelo seu ritmo, de enredo e de escrita, e também por não seguir a habitual via depressiva de muitos livros portugueses, tentando antes novos caminhos, misturando a pura aventura com as buscas interiores de cada personagem. Ao blog Porta-Livros, Luís Novais, um bracarense nascido em 1966 que se auto-intitula “cidadão do mundo”, fala das suas obras, do que o move e, inevitavelmente, de si próprio.

 

Deve ser difícil lidar com tantas personagens em simultâneo e, ainda por cima, provenientes de meios e culturas tão diferentes. Como se faz essa gestão sem se perder o controlo ao enredo da obra, no caso “Quando o Sol se Põe em Machu Pichu”?

Sinceramente, não sei. Para ser franco nem sei quantas personagens tem o livro, nunca as contei. Talvez se as tivesse contado não fosse capaz de o fazer. Dar-lhes-ia mensurabilidade. E a mensurabilidade destrói a personalidade. Tenho uma personagem que fala nisso mesmo: arrepende-se de um dia ter achado, enquanto professora, que “o que não se pode medir não existe”.

É verdade que os livros com muitas personagens sempre me fascinaram. Esse foi um dos aspectos que me apaixonou em obras como “Guerra e Paz” ou “A Montanha Mágica”. E também me lembro de me fazer essa pergunta: como é que este autor conseguiu lidar com tantas personagens?

Não me estou a querer comparar, obviamente. Mas talvez tenha achado que estava aí um desafio interessante. Agora fico frustrado porque não sei responder à questão.

Talvez as personagens tenham ganho vida própria. Sim, sem dúvida que ganharam. E isso facilitou-me imenso a tarefa. Poderei portanto dizer que foram as personagens que foram capazes de o fazer. Não fui eu.

 

Temos diversas personagens em procura do mesmo, mas de formas diferentes. Como se consegue imaginar tantas mentes e reacções distintas a problemas iguais?

Não acredito que haja outra forma de o fazer. Por muito diversos que pareçam, os problemas do ser humano são poucos (hoje estou até convencido que os problemas da humanidade se reduzem a um problema, mas quando escrevi este livro ainda não tinha chegado a esta conclusão). É talvez por isso que, desde os gregos, andamos séculos atrás de séculos a escrever sobre os mesmos temas, embora com aparências diferentes. Sendo assim, como julgo que é, talvez seja impossível tornarmos um livro original com base na essência do problema abordado. 

É certo que a diversidade existe, mas é nas respostas aos problemas e não nos problemas em si mesmo. E aqui sim, aqui existe diversidade nas culturas em relação às culturas e diversidade nos indivíduos em relação aos indivíduos. É neste campo que se pode escrever coisas que nunca tenham sido escritas. Pelo menos foi o que procurei fazer.

 

A mente humana parece ser algo que o cativa. Observa muito as pessoas que o rodeiam para construir as suas personagens?

Sim. Mas também observo o meu cão e o meu gato e as metáforas do meio físico que nos rodeia. Não sou e nem gostaria de ser um escritor realista. As minhas personagens pertencem mais ao mundo da mitologia do que ao mundo que é mundo. Até porque acho que esse é o papel actual da literatura. Os séculos XVIII e XIX foram mais destrutivos para a humanidade do que construtivos. Quando Deus morreu perdemos a ligação cósmica. É claro que a ciência procurou ocupar esse papel, mas no início do século XX era já claro, para muitos, que perdera essa batalha. E depois da Primeira Guerra ficou claro para todos. Há uma geração de autores (em que poderíamos incluir Kafka, Virginia Woolf, Robert Musil e, sobretudo, James Joyce) que reflecte esse desconserto. Um desconserto para o qual filósofos das gerações seguintes procuraram conserto: cito Jung, para falar de um morto, e George Steiner ou Rollo May, para falar de vivos.

Mas esse problema está longe de estar resolvido. Pessoa apontou vias que começam a ser trilhadas. O que é “A Mensagem” se não a devolução do Mito a um povo que o tinha perdido?

Será possível viver sem mitos? Não creio. Mas duzentos anos de positivismo tiraram-nos a alternativa mitológica. Tenho uma personagem em “Quando o Sol se Põe em Machu Pichu” que conclui isso mesmo: “não adianta acreditar só porque é útil acreditar”. 

Então o que nos resta? A literatura. A literatura pertence ao mundo literário e o mundo literário, porque é literário, não choca com a ciência. A literatura é, talvez, hoje, o Mito possível para uma humanidade empedernidamente positivista, mas que é composta por seres que sempre se agarraram ao Mito como forma de se ligarem a um mundo que, de outra forma, seria insuportavelmente fragmentado.

E isso leva-nos ao problema do “Eu” e da respectiva autoconsciência, ou memória autobiográfica, para recorrer ao termo de António Damásio. E esse é que é, em minha opinião, o tal único problema do ser humano: a consciência do “Eu” leva à consciência do “Outro” e à desfragmentação da unidade cósmica. Mas não me vou alargar sobre isto. Este será o tema do meu próximo livro, que já está quase acabado, e que deverá sair lá para Novembro deste ano.

 

A vertente filosófica está muito presente nesta obra, mas de uma forma bastante acessível. Pretendeu entreter e ser didáctico em simultâneo? 

Didáctico não, jamais! Se quisesse ser didáctico escreveria ensaios e dedicar-me-ia à chamada Ciência Social. A pior coisa que um romance pode fazer é querer ensinar. E eu detesto aquela atitude pequeno-burguesa de procurar ilustração no romance.

Há autores que fazem isso e depois, claro, passam a vida a justificar os erros factuais dos seus livros.

Eu procuro escrever mitos, como disse. Posso não ter engenho para o fazer, mas é o que procuro.

 

Tem uma escrita muito cinematográfica, mesmo ao nível da descrição de paisagens e de situações. Foi uma opção deliberada ou surgiu assim espontaneamente?

É interessante que diga isso. António-Pedro Vasconcelos disse-me o mesmo. E é curioso porque eu não o conhecia. Leu-me em manuscrito por intermédio de um amigo comum, quis-me conhecer e ficamos amigos. E disse-me isso mesmo.

Mas posso dizer que essa não é uma intenção a priori. Curiosamente, eu até pensava que era ao contrário (depois de ouvir tantas opiniões tive de mudar o que pensava do meu próprio estilo). E isto porque procurava, como procuro, limitar as descrições a pequenas pinceladas. Não é por acaso que o faço. É pela forma como intuo o leitor do meu tempo: um leitor que já viu quase tudo pelos meios audiovisuais e, como tal, já tem uma imagem mental de quase tudo. Se, por exemplo, falo nos Andes, não tenho de descrever as montanhas de fio a pavio como teria de fazer se estivesse a escrever no século XIX. Em 2009 quem é que nunca viu os Andes na televisão ou numa revista?

 

Já agora, acha que este livro resultaria num bom filme? E, em caso afirmativo, quem gostaria que o realizasse?

Isso seria partir do princípio de que deu um bom livro J, o que está por provar J. Não sei. De qualquer forma um filme é outra obra. E devo também dizer que vejo alguma dificuldade em transpor para o cinema um livro que vive tanto da omnipresença do narrador e do diálogo interior de quase todas as personagens. Se retirar esse diálogo interior não resta quase nada. E não vejo como é que isso pode ser conseguido em cinema.

 

Há elementos reais na história – como os conjuga com a ficção?

Já percebi que há um certo voyeurismo nos leitores. Já me fizeram todo o tipo de perguntas, desde se eu tinha encontrado em Cuzco uma guia que estava sempre a dizer “si o no”, até um mais coloquial “Foste tu que comeste a Sophie?” ou “deste mesmo uma queca em Machu Pichu?” J Não vou levantar o véu. Como disse, procuro escrever mitos e os mitos querem-se assim mesmo: encobertos.

 

machu_pichu_bigImplicou muita investigação?

Não. Algum trabalho de campo, sim. Claro que fui a Machu Pichu pelo caminho do Salkantay. Alguma investigação, sim. Claro que li Garcilaso de la Vega e esse extraordinário historiador peruano que é Waldemar Soriano. Mas jamais sacrifiquei a ficção à realidade. “Quando o Sol se Põe em Machu Pichu” não é um livro de História ou de Sociologia. “Quando o Sol se Põe em Machu Pichu” é um mito. E, como qualquer mito, parte da realidade mas de uma forma instrumental. Porque o mito serve para fazer e refazer, não serve para descrever. É para ser sentido. Não é para ser visto.

 

Como é que consegue descrever um mundo como o de Aticoc, uma personagem do passado? Com muita investigação, ou com muita imaginação?

Julgo que está respondido na questão anterior.

 

Foge um bocado ao estereótipo nacional. Ou seja, escreveu uma obra passada em locais no estrangeiro e sem personagens portuguesas. Isso foi premeditado, ou surgiu por si?

Ao estereótipo nacional no sentido de nação? Não creio. Teríamos de gastar algum latim a discutir o que é isso de ser português. Mas para mim ser português é isso mesmo: sair. Crescemos como povo encostado ao fim da terra e sem território para colonizar. Os verdadeiros portugueses não são aqueles que cá ficaram ou ficam: são os que saíram ou saem. Nisso sou muito português. Eu sou do género vá para dentro lá fora J

 

Tem conhecido bastante sucesso para um novo autor. Isso surpreendeu-o?

Parti para este renascimento sem expectativas antecipadas. Por isso surpreendi-me assim que vendi o meu primeiro livro. Na verdade não é uma questão de sucesso. Sucesso talvez não seja a palavra adequada. Prazer sim. Tenho muito prazer em sentir que sou lido.

Eu tinha dito a mim mesmo que me intitularia escritor quando vendesse o primeiro livro. Algum tempo depois de isso acontecer, o meu editor fez-me um cartão-de-visita muito bonito com a capa do livro de um lado e “Luís Novais. Escritor”, do outro lado. Não tive coragem de o usar. Pedi-lhe que o alterasse para “Luís Novais. Escrevo”. E é assim que eu respondo quando me perguntam o que faço na vida: “escrevo”. E depois, já um bocado embaraçado: “Bom… pelo menos é a única actividade profissional que tenho neste momento” J.

Mas já decidi quando irei ganhar coragem para dizer que sou escritor: quando encontrar alguém a ler um livro meu num comboio ou num avião. Como ainda não encontrei, “escrevo”, apenas. E também ando de comboio. E de avião…

 

Como lhe surgiu a ideia de escrever este livro? E como foi possível concretizá-la?

Os livros surgem-me como uma luz repentina a propósito de uma dada situação. Quando isso acontece eu intuo o livro do princípio ao fim. Depois só ficam a faltar os pormenores, do livro, e o suor, meu.

Sei qual foi o momento em que intuí “Quando o Sol se Põe em Machu Pichu”: foi quando assisti à revolta dos banlieue em França. Comentadores, sociólogos, psicólogos, políticos: todos tinham uma teoria sobre a causa daqueles acontecimentos. Numa cena na televisão tive ocasião de ver o rosto de um revoltoso em grande plano. Esse rosto, esses olhos, levaram-me a intuir: “Está aqui uma pessoa que fizeram sonhar e a quem mataram os sonhos”. Tudo o resto, incluindo Machu Pichu, veio a seguir e é meramente instrumental.

 

O que mais o influencia quando escreve? A vivência do dia-a-dia, obras que lê, ou vê, as suas próprias reflexões, ou algo mais?

A intuição. Se a via fosse outra, então seria cientista. Mas como a minha via é a da intuição, escrevo.

Dou-lhe um exemplo. Eu não ia ter qualquer personagem austríaca neste livro. Mas quando estava a escrevê-lo fui a Viena (estamos a falar de 2007). Chamaram-me a atenção dois cartazes turísticos que vi no aeroporto, mal desembarquei. Um dos cartazes era de promoção ao Siberkammer, o museu onde estão os tesouros imperiais. Tinha a foto de uma coroa imperial e a seguinte legenda: “Sorry. We don’t have emperors. Only their jewels”. O outro cartaz era sobre a escola de arte equestre, onde trabalham os famosos cavalos Lipizzaner (e eu pratico equitação) e a legenda era esta: “At least our horses are aristocratic”. Nestes dois cartazes dá para intuir um país! Não acha?

Hoje, a propósito do caso Fritzl, discute-se a existência dum “mal austríaco”. O mal-estar austríaco (que, note-se, é na sua essência muito semelhante ao português) está de caras nestes dois cartazes. Não acha?

Foi nesse momento que criei a personagem Regine e o seu avô, de quem ela se lembra amiúde ao longo do livro.

 

Não acha que se edita em demasia em Portugal? Como concorre um novo autor nacional com tantos consagrados estrangeiros, ainda para mais, no seu caso, sem se remeter a uma história com ligações directas a Portugal?

Repito o que disse atrás: para mim ser português é estar aberto ao exterior. Participar do exterior. Como referi, não creio que os verdadeiros portugueses sejam aqueles que olham para o espaço como uma concha. Ainda bem que há muitos autores estrangeiros editados em Portugal. Acha que apenas a produção literária portuguesa seria suficiente para os portugueses? Cruzes! Para mim não.

 

Quais são as suas referências ao nível da literatura?

No domínio literário vou fazer um esforço para falar de apenas três: Albert Camus, em primeiríssimo lugar. Dostoiewski, em segundo lugar. Kafka, em terceiro.

No domínio filosófico: Freud, Erich Fromm, Jung e George Steiner, nos contemporâneos. Nos clássicos, Platão (que em minha opinião foi o fundador do ocidente) e Santo Agostinho.

Também devoro António Damásio. Aliás, no meu próximo livro, cuja acção decorrerá essencialmente na Florida, aparece alguém com quem um dos personagens tem uma conversa e que identifica como sendo “um famoso neurologista português radicado nos Estados Unidos”… claro que qualquer semelhança com a realidade será pura coincidência J

Uma nota para os portugueses contemporâneos, onde não posso deixar de referir Agustina e Saramago. Sobretudo este último, que tem dado à língua portuguesa um contributo inestimável: soltou-lhe as asas: fez-nos perder essa ideia bafienta de que há apenas uma forma de escrever em português. O “português correcto” é tão asqueroso como outro “correcto” qualquer, a começar pelo “politicamente”.

 

Pode apresentar-nos “Os Parricidas”, recentemente lançado? Segue a linha de “Quando O Sol se Põe em Machu Pichu” ou trata-se de algo completamente diferente?

“Os Parricidas” é, ao contrário de “Quando o Sol se Põe em Machu Pichu”, um romance de apenas um personagem e por ele escrito. É um personagem com uma mente perturbada.

Ao longo do livro vamos percebendo que é um homem que perdeu todas as suas referências e que as foi trocando pelas suas alucinações. E vamos talvez percebendo que essas referências são as mesmíssimas que a nossa civilização ocidental perdeu, ou está a perder. E vamos talvez questionando se seremos nós próprios mentalmente imperturbados. E mais não digo. Se quiserem leiam-no J

 

 

Após o sucesso de “Quando o Sol se Põe em Machu Pichu” sentiu alguma inibição (com medo de eventualmente não voltar a atingir os mesmo índices de vendas) ao avançar para os projectos seguintes ou, pelo contrário, isso deu-lhe mais entusiasmo e confiança?

Não. Vivi tempo suficiente da minha vida preocupado com índices de vendas para, agora que reencarnei em mim mesmo, me preocupar com isso. Para isso continuava como estava que estava bem.

 

Pode revelar-nos um pouco do seu trajecto anterior a tornar-se escritor?

Em puto licenciei-me em História e Ciências Sociais na Universidade do Minho. Fui professor de História e, ainda em puto, adjunto do ministro da Educação. Daí fui trabalhar para a Universidade do Minho.

Já mais crescidinho, em 1994, tive a minha primeira reencarnação: decidi vender o meu carro e com esse dinheiro criei (juntamente com um grande amigo) uma empresa de produção de software para aquilo que era, na altura, uma excentricidade chamada Internet. E foi o que andei fazendo até 2006.

Em 2006 vieram os quarenta, acompanhados pela célebre crise dos ditos. Abandonei a gestão da empresa. Re-reencarnei. Escrevo… pelo menos até à próxima crise… ou reencarnação.

 

(Entrevista inédita realizada em 2009)

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