“Jardim Colonial” – José António Saraiva

jardim-colonialO jornalista José António Saraiva assumiu-se definitivamente como romancista com “Jardim Colonial” (Publicações Dom Quixote), que sucede à estreia com “O Último Verão na Ria Formosa”. Saraiva, em “Jardim Colonial” apresenta um retrato do Portugal contemporâneo com incidência nas questões do poder e na falta de escrúpulos e de valores de quem o detém.
Neste romance, escrito de uma forma que propicia o constante virar de páginas, ninguém olha a meios para atingir os seus fins. Cada qual à sua maneira, mas inevitavelmente sem o mínimo respeito pela personalidade e vida de quem os rodeia e… atrapalha.
“Jardim Colonial” conta a história de Filomena, conhecida apresentadora de um canal de televisão privado, que casa com um dos administradores da empresa, Aurélio. Mais do que amor, o que Filomena procurava neste homem mais velho era segurança e estabilidade, ou seja, uma família. Algo que lhe faltou, no sentido mais tradicional, na infância, já que lidou com a situação de um pai ausente. Já Aurélio, que escapou de Angola com uma boa fortuna, tinha uma obsessão por formar família e estava disposto a tudo para a manter. Primeiro, fez tudo para manter Filomena em casa e depois do nascimento do primeiro filho convenceu-a a largar a televisão. Mais tarde, para a manter ocupada, ofereceu-lhe a administração da gráfica onde ela própria havia conhecido o seu primeiro emprego. Filomena era bastante jovem na altura e viu-se obrigada a abandonar a gráfica por se sentir perseguida por um dos seus chefes, Óscar. Quando regressa à gráfica como administradora Óscar ocupava já um alto cargo na empresa e os dois tiveram de se relacionar profissionalmente. Mas daí a uma relação mais íntima foi um pequeno passo, que levou Filomena a ter de tomar decisões drásticas. Entre o coração e a razão desenvolve-se, então, este romance de José António Saraiva, que aproveita para fazer uma crítica profunda à nossa sociedade, onde pouco lugar há para os sentimentos mais nobres.
Para dar mais ritmo a esta já de si bastante cinematográfica trama, Saraiva optou por diferentes tipo de narradores. Alternadamente vai surgindo entre a terceira pessoa e a primeira, no caso das personagens principais. Para além de uma maior movimento, permite também “observar” a história a partir de diferentes perspectivas, com a particularidade de não se tornar repetitivo, mas antes complementar.
Não é o romance que vai levar Saraiva ao Nobel, mas é uma obra interessante sobre o Portugal contemporâneo, sem o “fado” habitual e distante da literatura “light” que havia conquistado este feudo anti-melancolia lusa.

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