Pedro Almeida Vieira – Entrevista a propósito de “Nove Mil Passos”

pavieira“Nove Mil Passos”, romance de estreia de Pedro Almeida Vieira, jornalista especializado em temas ambientais, é uma agradável surpresa dentro do género histórico. A obra, editada pela Dom Quixote, parte de uma particularidade interessante: o protagonista é uma obra pública, no caso o Aqueduto das Águas Livres, em Lisboa.

Nove mil passos equivalem a nove milhas terrestres, ou seja, a extensão original do aqueduto entre Belas e Lisboa. Mas, nove mil passos poderia ser também o longo e árduo caminho percorrido desde a ideia de construção do aqueduto até à sua concretização. Pelo meio, houve que contar com as intrigas da corte, a libertinagem e o fausto do rei, o nascimento da Maçonaria e o quotidiano de uma sociedade que se dividia entre a crença e o terror à Igreja. Tudo isto é descrito por Pedro Almeida Vieira com fino humor neste romance histórico sem, contudo, perder o rigor.

O livro tem por narrador Francisco d’Ollanda, humanista do século XVI que tentou, sem sucesso, suprir a carestia da água em Lisboa. É o seu fantasma que nos guia, com humor, através dos longos tempos que levou a construção do aqueduto. Foi um caminho cheio de obstáculos, o percorrido para construir os quase 60 quilómetros do mais extenso monumento nacional, processo que decorreu durante a primeira metade do século XVIII, no reinado de D. João V.

Pedro Almeida Vieira conseguiu construir um cativante romance à volta da construção de uma obra pública, socorrendo-se das personagens ricas e verídicas envolvidas no processo e das situações por vezes caricatas que se geraram. A isto juntou doses necessárias de ficção e daí resultou uma obra didáctica e divertida.

Pedro Almeida Vieira explicou o porquê da escolha do aqueduto para protagonizar o seu primeiro romance: “Foi a primeira grande obra pública do reino. Até então os investimentos eram só para a Igreja e para a protecção militar”. Para o século XVIII foi “uma obra de enormíssima dimensão, tendo em conta a importância do que o aqueduto representava para a época do ponto de vista social”, acrescentou o autor.

Foi através da sua actividade de jornalista que Pedro Almeida Vieira se familiarizou com a conturbada história do aqueduto, aliando a isso o facto de conhecer a directora do Museu da Água. “Quis fazer uma coisa mais aprofundada porque estava aí uma história que com ficção podia ser interessante”, justificou o jornalista/escritor.

Confessou, também, que “o livro é fruto de vários casos e acasos”. Primeiro, teve uma abordagem como jornalista e achou a história interessante e depois, por ter tempo disponível, dedicou-se por inteiro ao livro. “A história é boa e permitiu-me fazer uma investigação daquela época bastante rica”, disse Pedro Almeida Vieira, que, por não ter formação em História, se teve de aplicar ainda mais neste desafio.

nove-milA ideia de colocar Francisco d’Ollanda como narrador surgiu, “de repente, numa fase intermédia da investigação”. “Ele foi o primeiro que historicamente abordou o problema da água a resolver pelo reino”, justificou. Assim, a escolha por este narrador é também uma forma de lhe prestar homenagem.

Por ser “omnipotente e omnipresente” permitiu ao autor “relatar histórias paralelas”. Dessa forma, Pedro Almeida Vieira conseguiu proporcionar “uma intervenção muito emotiva, que enriquece”. Francisco d’Ollanda, esclareceu, “é um narrador que vai levando o leitor a ter uma opinião”.

Pedro Almeida Vieira explicou ainda que recorreu ao humor “para dinamizar a narrativa”, não hesitando em ser sarcástico. Uma das maiores “vítimas” do sarcasmo é precisamente o rei D. João V, que, lembrou o autor, “só tinha duas grandes preocupações: viver bem e à francesa e garantir a vida pos-mortem”. Sem espanto, “gastou dinheiro em futilidades”, acrescentou Almeida Vieira, concluindo que, actualmente, em Portugal “somos o que historicamente fomos sendo”. Reconhece, mesmo, que na sua obra há paralelismos com a actualidade em matéria de desperdício de dinheiro. Se no século XVIII se desbaratou o ouro proveniente do Brasil em festas e na Igreja, “num passado recente o dinheiro proveniente de Bruxelas também foi desbaratado”.

 

(Entrevista realizada em 2005)

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